Mais que uma senhora que ainda canta

"Quando canto... no palco... eu n o sinto o ch o debaixo dos p s"


Por S rgio Foga a


   Mais que uma senhora que ainda canta, Zez Gonzaga uma rainha da poca de ouro da r dio brasileiro que continua encantando com sua interpreta o e jeito de ser. A interpreta o pode ser conferida no seu primeiro CD solo, "Sou Apenas uma Senhora que Ainda Canta", lan ado recentemente pela gravadora Biscoito Fino, do Rio de Janeiro, que vem colhendo diamantes da m sica brasileira contempor nea e do passado. O jeito de ser foi conferido durante a data de seu anivers rio, no ltimo dia 3 de setembro, quando ela comemorou seus 76 anos no Bar Filial, em S o Paulo, irradiando simpatia e interpretando belas can es.

    Este trabalho de merecimento e, quem sabe, um portal para outros lan amentos da grande cantora. O resgate come ou pelas m os do produtor e poeta Herm nio Bello de Carvalho, em 1979, quando ele a convidou para interpretar m sicas de Valzinho, c lebre compositor que atuava como violonista dos regionais da R dio Nacional. O LP chamou-se "Doce Veneno", lan ado pelo Museu da Imagem e do Som carioca. Em seguida, Zez abrilhanta o grupo As cantoras do R dio, fazendo uma s rie de shows pelo Brasil, pelo saudoso Projeto Pixinguinha, em companhia de Radam s Gnattali e Camerata Carioca.

    Segue cantando e "feliz por natureza" como costuma dizer. Em 1999, Jane Duboc a convida para dividir os vocais num CD seu. "Ela disse que j gostava de mim e eu dela, sem uma conhecer a outra". O produtor do CD era Herm nio Bello de Carvalho, mais uma vez aglutinando grandes cantoras. Como merecimento pouco bobagem, no final de 2001 Olivia Hime convida Zez para se apresentar num ciclo realizado na Sala dos Archeiros do Pa o Imperial, dirigida por... Herm nio mais uma vez. Da para a id ia de gravar o show e transformar em CD foi um pulo. Nos shows ela se apresentou com a dupla Crist v o Bastos, ao piano, e Jo o Lyra, no viol o, base est tica desse CD, como bem lembra Herm nio Bello.

    O CD "Sou Apenas uma Senhora que Ainda Canta" tem ainda os m sicos Jorge H lder, no baixo ac stico, Hugo Pilger, no cello, e Ricardo Pontes, no sax, al m dos dois m sicos j citados. E bel ssimas can es. O trabalho foi dedicado, por Zez e Herm nio, para a divina Elizeth Cardoso. N o por acaso, como lembra Zez : "Uma voz lind ssima e uma pessoa encantadora. J que n o toca no r dio tanto quanto deveria, a gente lembra em show", comenta. O CD j abre com ela. A m sica Faxineira das can es foi um presente de Joyce quando Elizeth comemorava 50 anos de carreira. Tem mais. Esquecendo voc , de Tom e Vin cius, ainda completa a primeira faixa e uma das m sicas do LP "Can o do Amor Demais", que, em 1957, lan ou a semente da bossa nova na voz de Elizeth. Ainda outras refer ncias, mas marcante mesmo a can o Estrelas, nica composi o com letra e m sica compostas por Elizeth Cardoso. Uma j ia!

    Zez doce e espirituosa. Possui todos os discos que j gravou at hoje, em vinil e 78 rota es. E os f s torcem para que esse material chegue s m os do ouvinte. Ela concedeu esta entrevista no dia de seu anivers rio. Um presente para editores e leitores da P gina da M sica.

P gina da M sica Como surgiu a oportunidade de gravar esse CD?

Zez Gonzaga Esse foi um trabalho muito ansiado, muito esperado, j que h 23 anos eu n o fazia um disco, n o gravava um disco solo. Esse o primeiro CD solo da minha carreira.

PM Apesar daquele disco com o Valzinho, em 1979...

ZG Dali para c , o primeiro que fiz foi uma participa o num disco da Jane Duboc. Ou seja, um CD dela. Mas costumo dizer que esse disco com a Jane, do qual participei, foi um disco que realmente abriu o caminho que me levou a este meu CD de agora.

PM Em que ano foi o CD com a Jane Duboc?

ZG Foi em 1999. Adorei fazer essa participa o. Adoro a Jane, acho ela uma cantora excelente. uma cantora-m sica. Comp e, toca piano, toca viol o. Quer dizer, sabe das coisas. Eu gosto muito de estar perto de pessoas assim, de conhecimento musical maior que o meu. Afinal, a gente sempre aprende um pouco mais. Desde que ela come ou a cantar gostei de sua voz, da maneira de ela interpretar. Mas nunca tinha tido oportunidade de contato, at que surgiu esse disco. Foi o Herm nio (Bello de Carvalho) que produziu o CD, e ela disse que queria dividir o disco com uma cantora. Quando o Herm nio perguntou que cantora seria e a Jane disse o meu nome, acho que foi como oferecer doce a uma crian a, porque era o que ele gostaria de ouvir.

PM Ela j tinha voc como uma refer ncia?

ZG Ela disse que j gostava de mim e eu dela, sem uma conhecer a outra.

PM Isso acontece bastante na m sica brasileira, n o? Pessoas que se admiram e que acabam trabalhando juntas...

ZG Exatamente. Eu adorei fazer esse CD com ela e acho que foi ele realmente que me abriu esse espa o para eu fazer esse de agora, atrav s da Biscoito Fino. E mais contente ainda, porque estou ao lado de pessoas muito ligadas m sica, com bastante sensibilidade, bom gosto. Isso muito importante para o trabalho. E, al m de todos esses quesitos, ainda rolou um astral maravilhoso durante as grava es. Agora, teve outra coisa engra ada nesse disco. Geralmente o artista grava e depois faz o show. Nesse foi o contr rio. O Herm nio sugeriu que, j que estava dif cil a gente gravar... porque eu estava tentando h muito tempo fazer um disco solo... Ele sugeriu que n s fiz ssemos um show primeiro. Da montamos um repert rio e fomos fazer o show na Sala dos Arqueiros, no Pa o Imperial (Rio de Janeiro), espa o esse dirigido pela Ol via Hime. Ela ficou encantada com o repert rio e com a receptividade do p blico para esse repert rio. Ent o, ela sugeriu que pass ssemos esse repert rio do show para um disco. Isso aconteceu durante o m s de fevereiro. Sempre lotado o audit rio, com o pessoal vibrando muito, e ela tamb m. Ela disse que era minha f e depois eu constatei isso. Ent o, empatou. A Ol via um caso como o da Jane. Quando ouvi a Ol via pela primeira vez, disse: "Meu Deus, essa menina tem a voz t o bonita!". Nunca tinha tido oportunidade de chegar perto dela. Mas voc v como s o as coisas, cheguei agora. tudo preparado por Deus.

PM Zez , como voc s chegaram a esse repert rio? Voc e o Herm nio escolheram?

ZG O Herm nio gosta de fazer os projetos e montar blocos tem ticos, como est no CD. uma coisa bem pessoal, j que nem todo mundo gosta de fazer isso. Mas eu acho bom tamb m. Aprecio essa maneira de ele trabalhar. Acho que dessa forma aumentam as chances para colocar mais m sicas, do que da forma em que se coloca isoladamente. Ent o, ele fez primeiro um apanhado da id ia dele e depois me mostrou. Algumas eu n o quis colocar. N o por n o serem boas, mas por n o ter a ver comigo no momento, com a minha voz. Ali s, o t tulo do CD diz bem: Eu sou apenas uma senhora que ainda canta. Quando comecei, minha voz era bem mais extensa. Eu era soprano ligeiro, tinha a voz bem mais aos moldes da Jane, por exemplo. Uma voz bem livre. E medida que a idade vai chegando, ela vai abaixando. Eu via, de acordo com o meu material vocal, que de determinadas m sicas eu gostava, mas n o teria condi es de apresent -las bem. Ent o, por que fazer, n o ? Mas a gente testava, eu cantava para ele ver e fomos chegando a um acordo. O maestro Crist v o Bastos tamb m optou por algumas. Quer dizer, fomos encontrando o repert rio ideal, mas tem muito mais m sicas que poderiam ter entrado tamb m neste disco.

PM Todas voc j cantava no seu repert rio normalmente?

ZG Poucas can es da eu j cantava. Digo que cantei durante a minha carreira, que n o pequena, n o, s o 58 anos cantando. Tem que aprender alguma coisa, n o ? (risos).

PM Vamos falar de uma que j estava antes no seu repert rio e outra que entrou s agora, para esse trabalho.

ZG Eu cantei muito Dolores (Duran), essa can o N o me culpe. Tamb m Molambo (Jayme Florence e Augusto Mesquita), Pra machucar meu cora o (Ary Barroso), Todo sentimento (Crist v o Bastos e Chico Buarque). Mas tem quatro musicas in ditas, como Vest gios, que uma can o muito bonita do Crist v o (Bastos), com poesia do Herm nio (Bello de Carvalho), Por que te escondes?, do Pixinguinha, com palavras do poeta Thiago de Mello, uma can o bem brasileira, Sou apenas uma senhora que ainda canta, que tem melodia do Radam s Gnatalli, ali s, uma melodia feita na d cada de 30, acho que no ano de 1932. Depois ele pediu ao Herm nio que colocasse letra nessa can o e o Herm nio, na poca do pedido, se esqueceu, misturou-se a outras fitas e passou o tempo. Quando surgiu a oportunidade de fazer o disco, o Herm nio se lembrou. Da ele veio e disse que havia feito uma letra para mim. Eu disse que n o merecia (risos). Ele ainda falou que seria o t tulo do trabalho que ir amos fazer. Quando ele disse o t tulo, "Sou apenas uma senhora que ainda canta", eu, na hora, disse que tinha adorado. E a can o, a letra, bem a minha vida. O que fiz mesmo foi cantar. Sei fazer outras coisas, mas n o como cantar. Gosto de fazer isso, canto com amor. E ele fez a letra para mim, muito bonita. A quarta can o in dita, que encerra o disco juntamente com Can o de amor ( Elano de Paula e De Chocolat), a m sica Estrelas, de Elizeth Cardoso. Ali s, a nica m sica composta por ela, me parece. Ent o estou cercada de gente muito boa. Tom e Vin cius, Francis Hime, Ant nio Maria, Denis Brean e Oswaldo Guilherme, tudo gente muito boa.

PM Voc citou a Elizeth. O disco dedicado a ela, n o?

ZG Dedico e come o o disco com uma can o que ela recebeu de presente da Joyce. Chama-se Faxineira das can es. Quando a Elizeth completava 50 anos de carreira, Joyce a presenteou com essa can o. Ent o, como queria dedicar o disco a ela, algumas das melodias daqui, n o todas, a Elizeth gravou. Decidimos come ar o disco com essa can o, que era para colocar a Elizeth presente desde a primeira faixa. E no nosso cora o. Porque realmente ela foi important ssima para o cen rio musical brasileiro. Uma voz lind ssima e uma pessoa encantadora. Esse disco todo cora o. Tenho certeza que de onde ela estiver, est feliz.

PM Mas por que exatamente a id ia de dedicar o disco a ela? Por conta dessa can o, ou da sua liga o com ela e do Herm nio tamb m?

ZG Da nossa liga o, digamos assim. Elizeth e Herm nio eram unha e carne. Eu n o tive assim tanta liga o com ela, mas nos conhec amos bem. J o Herm nio se dedicou muito mais a ela. Produziu-a v rias vezes, em discos e shows. Acho que quando a gente reconhece o trabalho de uma pessoa, n o devemos deixar essa pessoa desaparecer do cen rio. Porque, na verdade, penso assim: n o morre uma pessoa se voc lembra dela todo dia; se voc se esquece dela, a , sim, ela morre. Para n o deixar isso acontecer com pessoas como a Elizeth, a gente tem que falar, prestigiar, homenagear o mais que a gente puder. Porque o acervo musical gravado da Elizeth muito grande, mas, infelizmente, as r dios quase n o tocam. Ent o, para dar um certo equil brio ao que acabei de dizer, preciso que a gente se lembre. J que n o toca no r dio tanto quanto deveria, a gente lembra em show. As pessoas v o ouvindo e se forma novamente um grupo que tem saudade do trabalho dela. A gente n o deixa morrer, n o morre. S n o est presente aqui, mas morrer a gente n o pode deixar.

PM Voc comentou que com esse CD aconteceu o contr rio do habitual, ou seja, voc s primeiro fizeram o show e depois saiu o disco. Agora com o CD pronto e j lan ado voc s pretendem fazer shows para mostrar o trabalho?

ZG Esse o nosso desejo. Temos um em S o Paulo no dia 19 de setembro, no Sesc Vila Mariana. tarde, um projeto para a terceira idade.

PM Tem shows agendados em outros lugares tamb m?

ZG Por enquanto a gente est vendo, e aceitando sugest es.

PM Mas existe a id ia de mostrar esse show com o repert rio do disco?

ZG Ah, sim. Seria maravilhoso tamb m se pud ssemos contar com os pr prios m sicos que participaram do disco. meio dif cil porque todos eles t m seus compromissos.

PM Num eventual show voc mostraria basicamente o repert rio do CD ou tamb m outras coisas?

ZG N o, acho que quase todo. Eu n o posso dizer que seria na ntegra, pelo som que o CD tem. Por exemplo, conseguimos fazer um show com menos instrumentos que a m sica tinha no CD, mas n o a mesma coisa, n o a mesma sonoridade que est na minha cabe a, de quando gravei aquela m sica. Mas podemos fazer. Mesmo assim n o daria para fazer todas as can es com um instrumento s . Apesar de que a base desse CD piano e viol o.

PM O piano de Crist v o Bastos e o viol o de Jo o Lyra?

ZG Acrescidos de um cello, de Hugo Pilger, o baixo ac stico de Jorge H lder e o sax de Ricardo Pontes. E o Crist v o, al m do piano, tamb m participa, acho que em duas faixas, com um acordeon. Os arranjos s o simples e lindos. Est de acordo com a minha inten o vocal, que acho que mais intimista.

PM Voc gosta de estar no palco, Zez ?

ZG Eu gosto. Sinto-me bem. Agora, acontece comigo uma coisa que n o entendo. Geralmente sou muito segura do que vou fazer. Claro, para voc encarar um p blico que voc nem sabe o que se passa na cabe a dele, se voc n o tiver seguran a e acreditar no seu trabalho, voc n o faz. Eu nunca fiquei nervosa...

PM Um pouco diferente da m dia comum, quando todo mundo diz que fica nervoso, mesmo depois de muita experi ncia?

ZG Acho que n o tem que ficar nervoso. Tem que se controlar para n o ficar. Se deixar o nervoso tomar conta, ningu m canta. Mas o que acontece comigo o seguinte: Eu, quando piso num palco, mesmo que tenha tido algum problema na v spera ou no dia, ali no palco cessa tudo. Eu sou outra pessoa. Eu n o sinto o ch o debaixo dos meus p s. E outra coisa: Eu n o ou o os aplausos. Sei que estou sendo aplaudida, mas o ru do dos aplausos eu n o ou o. N o consigo entender porque ou o os aplausos dos outros e o meu n o ou o. Eu n o estou brincando. Sei que est o aplaudindo pelo movimento das m os. Agora, as palavras que dizem, ainda ou o. Mas os aplausos em si n o.

PM Sempre foi assim?

ZG Sempre. N o sei o que isso que acontece comigo. N o sei se me desligo realmente. N o sei. Agora, a minha carga emocional, engra ado, vai toda para a ponta dos p s. Para os dedos. Quando saio do palco, a , sim, fico nervosa. Meus p s est o contra dos. Sinto que est o meio adormecidos. Tenho que esperar um tempo para tirar os sapatos. Tem uma hist ria engra ada. Uma vez estava cantando o Prel dio de Villa-Lobos, que canto a capela, com aquela luz toda em cima de mim. Vejo duas mosquinhas voando. Eu cantando e pensando: "Se aquilo vem parar dentro da minha boca?". Foi s pensar que as duas vieram e colaram dentro da boca. S que n o engoli. Na mesma hora, parei de cantar e cuspi para o lado as duas mosquinhas. E depois continuei.

PM Onde foi isso?

ZG Foi no teatro da G vea, j h uns oito anos. Eu estava fazendo aquele show com as cantoras do r dio. Mas ningu m notou, acho, porque foi tudo muito r pido. Quando terminou, eu disse: "Voc s vejam ao que o artista est sujeito: eu cantando, duas moscas safadinhas acharam de entrar na minha boca; n o sei se voc s perceberam que cuspi?". Mas ningu m tinha percebido. Agora, que elas quiseram me atrapalhar, ah! isso quiseram (risos). Mas Zez n o come mosca.

PM Grandes violonistas j te acompanharam, n o? Garoto, Baden Powell, Tur bio Santos, Rafael Rabello, Maur cio Carrilho etc. De alguma forma, voc acha que o cora o da m sica brasileira voz e viol o?

ZG Engra ado. Eu acho voz e viol o um casamento perfeito. Gosto de outros instrumentos tamb m. Por exemplo, para o show que fiz para o lan amento deste disco, a gente acrescentou mais uma can o que foi Serenata do adeus, que fiz s com cello. Ficou lindo. Gosto dessas coisas inusitadas. Voc quer ver? Uma vez, fazendo um show com as cantoras do r dio, eu queria mudar o repert rio. Foi um espet culo de premia o de teatro. Achei que devia fazer alguma coisa que tivesse a ver com o tema. Pensei em homenagear autores que fizeram m sicas para teatro, que trabalharam com teatro. Ou seja, cantei m sicas de Vicente Paiva, M rio Lago e cantei Joracy Camargo, a m sica era Mam e baiana. Fiz acompanhada de um atabaque, e s . Menino, mas deu um p . Ficou um trem t o bonito. E a empres ria dizia assim: "Mas n o vai ter instrumento de corda?" Eu respondi: "N o, minha filha, eu n o canto o Prel dio do Villa-Lobos a capela? Essa ser uma capela, apenas com interse es de um atabaque". E o cara tocava um atabaque delicioso. A gente nem ensaiou. Eu disse para ele como seria, perguntei se ele sabia bater ponto de macumba. Como era uma can o que lembrava a Bahia, falei para ele que, onde ele sentisse que dava para colocar som, entre uma frase e outra... falei para ele dar uma cor local sonoridade da can o. Ficou muito lindo. O p blico vibrou.

PM A m sica permite todas as possibilidades.

ZG Desde que voc consiga um casamento perfeito. N o importa a quantidade de m sicos, importa que no momento daquela m sica senti que daria certo aquilo e me atirei. E gra as a Deus tenho me dado bem assim.

PM Como sua liga o com a melodia? intuitiva, voc tem conhecimento t cnico?

ZG Eu tenho pouco conhecimento, mas tenho. Estudei m sica com minha m e. Ela era flautista e o pai dela era maestro. Ent o a m sica estava sempre em casa. Meu pai fabricava instrumentos de corda, era um lutier. Sempre convivi com a m sica. Acho que tamb m tem um pouquinho de heran a gen tica. Gostei de ter sido criada naquele ambiente, nada melhor que a m sica. A m sica uma coisa que suaviza, ameniza muitas situa es. s vezes voc est muito triste, coloca um disco meia luz, de repente chora, desabafa, bom. Eu acredito que este meu disco, "Sou apenas uma senhora que ainda canta", seja um desses remedinhos caseiros (risos). Mas a m sica entrou em mim, assim, suave e deliciosamente. Eu deixei uma vez de cantar, me afastei, mas me fez falta, eu gosto de cantar.

PM- Voc escuta bastante m sica, ouve r dio, compra discos?

ZG Sou um pouco exigente com rela o a disco. Acho at que em todos eles, digo os artistas que chegam a gravar, algum talento tem que ter, porque se n o n o gravariam. Cada pessoa tem um tipo de m sica que chega a seu cora o. Eu gosto de m sica bem feita e, de prefer ncia, bonita. Eu n o tenho prefer ncias espec ficas. Acho que qualquer m sica pode me trazer coisas muito boas, que me fazem bem, e ou o quando posso. s vezes, alguns me interessam ter para ouvir sempre. Esses eu compro. Mas n o tenho especificamente algu m assim de prefer ncia.

PM Das cantoras contempor neas, tem algu m que te chama mais aten o?

ZG Tem muita gente, mas tenho ouvido pouco essas pessoas. Tem muita gente nova. Por exemplo, uma cantora que acaba de ser contratada pela Biscoito Fino, a Simone Guimar es. Ela canta bem, gosto dela. Tamb m a Rita Ribeiro, gostei bastante de ouv -la na entrega de um pr mio. Uma menina que foi da noite muitos anos e continua cantando bonito a urea Martins. Eu sou f da voz dela. Se fosse dado a mim, por exemplo, o direito de escolher um timbre, escolheria o da urea. Gosto de voz grave para mulher. E a minha n o grave, a minha m dio. Bom, para quem come ou cantando cl ssico, ela at que est mais ou menos para o grave agora. Mas sempre foi uma voz muito livre nos agudos. Enfim, adoro m sica, seja ela ritmada, can o, cl ssica, qualquer uma. A qualidade para mim o que importa.

PM A partir deste CD, como voc est pensando sua carreira? Ou voc est concentrada s neste trabalho, sem pensar no futuro?

ZG Estou concentrada neste trabalho, mas claro que penso no futuro. Mas s gostaria que, se for fazer outro, n o demore 23 anos (risos). Esse foi o tempo que demorou este.

PM Quando voc traz essa refer ncia de 23 anos, voc refere-se ao disco com o Valzinho, em 1979?

ZG Isso mesmo.

PM Quantos discos voc j lan ou?

ZG Eu tenho seis discos. N o s o muitos. Para 58 anos de carreira, at acho pouco. Tem gente que grava um por ano. Tenho tr s discos de 10 polegadas ou 33 rota es e tr s de 12 polegadas. E tenho muitos discos, aqueles primeiros, antes do vinil, de 78 rota es. Tem muitos. Ali s, eu tenho todos os meus discos. Alguns f s, s vezes, me mandam CDs que eles gravam. Mas tudo misturado, sem poca espec fica.

PM Gravam em fita?

ZG N o, gravam em CD mesmo. S que fazem misturado.

PM Quantos 78 rota es voc possui?

ZG N o sei, s o muitos. Tem l tr s lbuns. E vou te dizer uma coisa: s vezes, prefiro o som do vinil no lugar do CD. O disco do Valzinho, que o Herm nio fez comigo, atrav s do Museu da Imagem e do Som, saiu pela Copacabana. Todo mundo me cobra para transforma-lo em CD. Como eu vou fazer isso? N o tenho dinheiro para prensar. Tem outro disco feito na d cada de 60 muito bom. De um lado o mastro L rio Panicali, com arranjos lindos, se tocados hoje, modern ssimos. Nem sei que em m s ele nasceu, mas devia ser aquariano, porque aquariano que sempre est 2 mil anos frente, como ele. Ele era maravilhoso. E do outro lado, mais um craque, o maestro (Lindolfo) Gaya. Era um lado mais dan ante e outro rom ntico. A qualidade desse disco, tenho impress o, daria para entrar num CD e fazer uma "ondazinha", porque tem m sicas boas. Chamava-se "Can o do amor distante", saiu, na poca, pela Philips. Ali s, foi na ocasi o desse disco que me entristeci um pouco, porque n o queria gravar mais, j estava aborrecida. Fui chamada para faz -lo, falaram que amos fazer e acontecer e tal. Nada foi feito, o disco n o saiu. A capa que j estava pronta, desapareceu na empresa. A contracapa quem fez para mim foi o Stanislaw Ponte Preta, o S rgio Porto. Eu dei a ele todas as m sicas numa fitinha para ouvir. Ele gostou realmente e fez uma contracapa primorosa. Sumiu tudo. A fiquei triste. At que um colega meu, rec m formado em advocacia, disse que ia brigar por mim. Eu disse a ele que n o tinha dinheiro e n o podia pagar advogado. Mas ele disse que n o queria e foi brigar. E conseguiu, o disco saiu. T nhamos assinado um contrato. S que o disco ficou na pra a s tr s meses, com uma capa branca, sem nenhuma informa o na contracapa, s o nome das m sicas. Nem autor eles colocaram. o fim da picada. N o d para ficar triste? Uma pena, porque era um disco muito bonito.

PM Voc tem esse disco?

ZG Tenho. Tenho at mais de um.

PM O que voc gravou nele, por exemplo?

ZG Eu gravei Chuva, do Durval Ferreira, que uma m sica que tem v rias grava es. (Zez canta) "Vem/amor que meu/olha a chuva a nos chamar/olha a chuva a nos dizer, que existe um bem". Ele fez uns arranjos primorosos. Gravei tamb m uma can o de Baden e Vin cius, Al m do amor, que linda. "Se tu queres que eu n o chore mais/diz ao tempo que n o passe mais". Tem outras m sicas muito bonitas. Tem outra do Jo o Donato, que ele agora j fez outras grava es com outra letra. Chama-se Depois do Natal. "Eu pensava que a vida era s /a saudade do amor de n s dois/numa estrada de luz ele vai/sem haver amanha nem depois/era o dia depois do Natal/e a saudade chegou devagar/fez morada no meu cora o/pra ficar/pra ficar". Ele j gravou isso com uma nova letra. Acho que nem se lembra mais da outra letra que ele fez primeiro.

PM Voc tem uma boa mem ria musical, n o?

ZG Mais ou menos. J tive mais mem ria. Eu tinha assim umas mil can es na cabe a. Eu ouvia a primeira vez e "pimba". Porque eu cantava em baile tamb m, tinha que ter um repert rio variado. Gosto muito de cantar e lamento n o ter podido fazer mais grava es com m sicas nossas, brasileiras.

PM Como assim?

ZG - Porque eu fui taxada e estigmatizada pelas gravadoras. S me davam vers es para gravar, coisas horrorosas, um horror, mas tinha que gravar, se n o, n o gravava. Se n o gravasse uma vers o, n o gravava uma brasileira. Puxa, isso era chantagem, n o era? Mas era assim, o que posso fazer?

PM Para terminar, gostaria de voltar para os dias de hoje. Queria saber como voc est se sentido com esse CD, com a sua carreira?

ZG Estou me sentindo maravilhosamente bem e feliz. A minha "ficha ainda n o caiu" com tudo de bom que tem acontecido comigo, por causa exatamente desse trabalho, feito pela Biscoito Fino, com tamanho carinho, com qualidade e bom gosto. Estou, realmente, sendo presenteada por Deus e pelos colegas. O Herm nio como produtor, que me "persegue" h 50 anos. Me persegue n o, me atura (risos). E essas pessoas maravilhosas que estou conhecendo hoje, atrav s desse disco. A Kati Almeida Braga, a Ol via Hime. Gente da melhor qualidade. Eu sei que s o pessoas sens veis, que est o fazendo um trabalho maravilhoso para a m sica popular brasileira. Eu quero agradecer de p blico a toda a imprensa que tem me acolhido com o maior carinho. As pessoas que atuaram comigo no disco, ou que de qualquer maneira, colaboraram para que esse disco sa sse. E agradecer a voc s pelo carinho de estar sempre se lembrando dessa senhora que ainda canta.

 

Zez Gonzaga

17/9, hor rio a confirmar

Sesc Vila Mariana - Rua Pelotas, 141

Tel (11) 5080-3000