Cantoria bem brasileira

Um dos principais nomes da chamada m sica de raiz, o cantor baiano critica o boicote nas r dios e defende a l ngua "mais rica do mundo: a brasileira" 


Evanize Sydow, para a Revista Sem Fronteiras*


   Eug nio Avelino nasceu na regi o de Vit ria da Conquista, na Bahia. Xangai seu nome art stico, com o qual tornou-se conhecido pelo Brasil afora como um dos principais representantes da m sica agreste.
    O chap u que o acompanha pelos palcos da vida n o nega: assim como o pai, ele vaqueiro. "Eu sou da linha dos pastores, dos cuidadores de rebanhos de cabra, gado, sou vaqueiro tamb m e adestrador de cavalos", diz. O artista primo de Elomar, outro cantador e violeiro de renome, al m de ainda ter parentesco com o famoso cineasta Glauber Rocha. 
    Xangai iniciou sua carreira em 1976 e transita dos forr s aos repentes, dos rodeios aos teatros, tocando com as mais diversas forma es. Com Elomar, o paraibano Vital Farias e o pernambucano Geraldo Azevedo, gravou dois volumes do antol gico Cantoria, registro de show de mesmo nome e disco de cabeceira de todo calouro de universidade. Mas sozinho, com seu toque nico de viol o e brincando com a voz, que ele se solta melhor.
    Atualmente, est divulgando o novo trabalho, Brasileiran a, feito com o Quinteto da Para ba. Lan ado pela gravadora Kuarup, o CD contempla m sicas de Juraildes da Cruz, Jacinto Silva e Onildo Almeida, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, al m de outros importantes compositores. Entre as participa es especiais est o a de Chico C sar e Jo o Omar, filho de Elomar. 
    "Um cantor de voz agreste, com recursos intermin veis. Um quinteto de cordas apaixonado pela m sica popular, formado por virtuosos. Sert o e universidade. A m sica que desmascara os preconceitos e lhes oferece arte contra teorias banais", escreveu o cr tico e produtor Ricardo An sio no encarte de Brasileiran a.
    Mais que um disco, segundo o cantor baiano, trata-se de um projeto que consiste tamb m num programa de r dio e de televis o. Nesta entrevista para SEM FRONTEIRAS, Xangai fala sobre suas influ ncias musicais e a vida rural e faz quest o de dizer que canta a l ngua mais rica do mundo: a "brasileira".

Como come ou o projeto musical Brasileiran a?

- Tive um sopro, uma coisa assim. Essa palavra surgiu para mim e uma pessoa sugeriu Brasileiran a, com "i". Estudei e vi que o "i" - ao inv s de Brasileran a - dava uma for a po tica. Coloquei no disco esse nome. A partir do CD, achei que estava pouco explorado. A , fiz uma coisa expressiva. O Brasileiran a passou a ser um programa de r dio e de televis o, que ainda n o estreou.

Qual a proposta de fundo dessa iniciativa?

- Eu tenho viajado por todos os cantos do Brasil e tenho conhecido a arte de muitas pessoas que tem de ser veiculada. Quero mostrar esses artistas emergentes. A m sica brasileira, cada dia que passa, melhor. Agora, a que divulgada nas r dios, paradoxalmente, cada vez pior. O disco Brasileiran a uma viagem que eu fa o, um bate-papo musical. J trouxe para o show Elomar, Renato Teixeira, Belchior, Paulinho da Viola, artistas maravilhosos. O p blico fica encantado. Estou resgatando a cultura brasileira no meu disco e no programa de r dio.

Como teve in cio o seu trabalho de m sico ligado s ra zes do povo?

- Eu sou de uma fam lia rural, da regi o de Vit ria da Conquista. Tenho parentesco pr ximo com Glauber Rocha; o pr prio Elomar meu primo. Aquela regi o do sert o baiano tem uma rica hist ria de arte, cultura e poesia - h muitos poetas por l e bons cantadores. Isso na parte urbana da cidade, que de origem rural, de pecu ria, com uma proximidade com Minas Gerais.
    Minas Gerais tamb m recebe uma influ ncia imensa da Bahia. No disco tem muita coisa mineira, das cidades de Te filo Otoni e Montes Claros. Voc sabe que a l ngua a mesma: brasileira. E as fronteiras s existem em linhas imagin rias e geograficamente, porque uma pessoa pode trafegar normalmente, sem saber que passou de S o Paulo para Minas Gerais. A l ngua a mesma, o que difere o sotaque.

Qual a sua fonte de inspira o?

- O que eu canto a presen a de minha pr pria realidade. Eu n o me sinto muito confort vel em cantar m sicas de outros povos longe daqui, principalmente dos pa ses ricos, t o em moda, t o apregoados, cantados e decantados por muitos brasileiros, inclusive. Eu acho muito melhor cantar m sicas de Cartola, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Jo o do Valle, Jackson do Pandeiro do que dos Estados Unidos ou da Inglaterra. muito bom para eles. Acho que eles tamb m n o ficam cantando Paulinho da Viola.
    Para mim, muito mais bacana cantar a minha pr pria l ngua, at porque dentro do Brasileiran a eu tenho certeza "bussoluta", de b ssola, que a l ngua mais rica a portuguesa. S n o mais rica que a l ngua brasileira, porque a brasileira portuguesa e uma mistura da l ngua do ndio, que maravilhosa. Essa mistura deu a brasileiran a, ling isticamente falando. E eu sou um cantador da brasileiran a.

Como est o mercado para a m sica de raiz?

- Eu n o sou de me queixar. N o paro de trabalhar. Tenho cantado em todos os cantos. Algumas pessoas t m um certo entrave. Se essa quest o mercadol gica n o favorece muito essas pessoas por conta de uma nica coisa: a divulga o, porque se massifica muito. Uma m sica que n o tem uma "sust ncia", n o tem conte do po tico, nem uma coisa que ficar . uma arma o, modelo descart vel.

E sobre o que andam veiculando nas r dios?

- D pena na gente, que quer bem o Brasil, ver nossos irm os sendo fadados a ouvir esse lixo, que n o representa nada. Mas eu, particularmente, tenho trabalhado noutra dire o. T m muitos brasileiros acordados, muitos buscadores do belo. D o um jeito de encontrar o trabalho de Almir Sater, Juraildes da Cruz, que maravilhoso. Quando a gente vai cantar nos lugares, sempre tem um p blico bacana para nos ver, p blico que nos proporciona viver da m sica.

Voc sempre grava pela Kuarup ou tem trabalhado com outras gravadoras tamb m?

- Eu n o estou preso a nenhuma gravadora. que a Kuarup tem o melhor cat logo do Brasil de m sica "brasileiran a". A Kuarup tem sido muito honesta comigo.

Como seria a sua liberdade como artista se voc estivesse numa grande gravadora?

- O primeiro disco que eu gravei foi numa multinacional e me trataram como um trapo, sabendo que eu tenho qualidade. Tomei uma decis o: n o fa o mais trabalho para esse povo, a n o ser que me queiram muito e que n o me tirem o direito de fazer o que eu acho que tenho que fazer.

De onde vem o seu nome?

- Eug nio Avelino, nome do meu bisav e av .

E o Xangai?

- Ah, voc quer saber o meu apelido? (risos) Numa ocasi o, meu pai comprou uma sorveteria em Minas Gerais e eu fui para l ajudar a criar meus irm os mais novos. A sorveteria chamava-se Xangai. Trabalhei nela e, por causa disso, passei a ser chamado assim. como se algu m lhe chamasse "Oi, Sem Fronteiras" e a pegasse o apelido. A hist ria essa.

Quantos anos voc tinha nessa poca?

- Uns 17 ou 18 anos.

Foi antes de voc come ar a carreira?

- N o, eu sempre fui um artista. Canto desde garoto.

Voc acha que o artista tem que ter algum tipo de milit ncia para mudar o pa s?

- N o. O artista necessariamente tem que ter talento. Por uma quest o de consci ncia social, muito proveitoso ele utilizar a sua arte para auxiliar, atrav s do texto, da poesia, da m sica, a evolu o do seu semelhante. E como que se processa isso? Da maneira que puder. Clareando, apontando o caminho. A maneira que eu penso ser a mais adequada de se ser social contar a realidade do ser humano. Existem outros que s o alienados. Essa aliena o altamente perniciosa.

* Entrevista publicada na Revista Sem Fronteiras (www.semfronteirasweb.com.br), setembro, 2002