Por que canto?

Baseada no livro "Por que escrevo", de Jos Domingos de Brito, no qual ilustres autores, como Ant nio Callado, Alceu Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Carlos Fuentes, Gabriel Garcia Marques, Hilda Hilst, Monteiro Lobato, M rio de Anrade e Manuel Bandeira, respondem a pergunta-t tulo da obra, a se o "Por que canto?" da P gina da M sica traz todos os meses a participa o de um int rprete, que fala sobre sua arte. A cantora Ana de Hollanda a convidada deste m s. Acompanhe.

Por Ana de Hollanda


   Recebi da P gina da M sica uma pergunta simples e direta que me deixou paralisada, matutando quest es psicol gicas e existenciais: Por que canto? Chego a imaginar que a forma o de col gio de freiras me iniba um pouco no momento de responder assim, publicamente, um assunto t o ligado ao prazer.

    Provavelmente ainda n o andava quando senti, pela primeira vez, o gozo pela m sica. Pirralha, cantava em casa, fazendo solos, duetos ou vocais com as irm s, nos esfor ando para macaquear o que escut vamos nas grava es de Chico Alves e M rio Reis, Noel, Ismael e Ataulfo, discos que Sergito, o irm o mais velho, trazia dos sebos. Depois, claro, imitei Elvis Presley, Jo o Gilberto, Nara Le o, o acanhad ssimo Tom quando visitava Caymmi, Doris Day, Julie London, Jacques Brell e tantos outros. Mas n o era s imita o, n o. Miucha, que j era grande, tocava viol o e convocava as pequenas pra cantar, para n o dizer esgoelar, um repert rio de sambas, frevos, can es italianas e americanas nas noites de lua cheia. s vezes surgia em casa algum amigo de meus pais, amante de m sica, como Vin cius, Paulinho Vanzolini e sent amos todos liberados para mostrar nossos hits. Depois que a mestra foi embora pra Europa, Chico tomou seu lugar, convocando as menores pra fazerem vocais em suas primeiras composi es. Foi nossa fase "Quarteto em Cy" e, talvez, a ultima experi ncia de tentar fazer o que os outros j faziam.

    Valeu. Mas valeu principalmente pra eu descobrir, al m da boa m sica, o que cantar, interpretar e come ar a conhecer o potencial da minha voz e seus limites. Mais tarde, estudando fui percebendo o que nela eu gostava ou n o e o que, com t cnica, poderia melhorar. Foi quando assumi que gostava n o s de cantar, mas do pr prio som que eu podia emitir. Foi quando tomei coragem para me profissionalizar e enfrentar essa vida fascinante por m nada f cil. Foi quando me rendi ao sofrido prazer de ser cantora.

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