"Nosso governo não cuida nem das crianças famintas, vai cuidar da pirataria?"


Por Evanize Sydow

    João Marcello Bôscoli é o entrevistado desde mês na seção Selo de Artista da Página da Música, que há mais de um ano vem fazendo um histórico da experiência de artistas que resolveram montar o seu selo próprio. João Marcello é filho de Ronaldo Bôscoli e Elis Regina. Apaixonado pelo trabalho, o rapaz fala com orgulho – e muito entusiasmo – sobre a gravadora Trama, da qual é proprietário. E não é por menos. Em cerca de três anos de atuação, a Trama já soma mais de 500 títulos. Nesta entrevista, o artista comenta sobre os seus projetos, os próximos lançamentos, a experiência de montar a sua própria gravadora e diz que não vê problema na numeração de CDs: "Acho que tudo o que passe para os artistas e para a sociedade uma percepção de que o nosso negócio é sério é melhor." Leia a seguir.

PM - Gostaria que você contasse a história do surgimento da Trama. Por que você resolveu ter a sua gravadora?

João Marcello Bôscoli - O objetivo era criar uma independência. É a busca de ter a maior quantidade possível de poder dentro das decisões que digam respeito à minha carreira e à carreira dos artistas com quem a gente porventura trabalhe junto. Eu, pessoalmente, sei da importância da indústria independente no mundo inteiro. O rock'n roll nasceu na (indústria) independente, o eletrônico e o hip hop nasceram numa independente. Acho que esse era um papel muito importante e que no Brasil estava meio sufocado, havia uma dificuldade muito grande de se construir essa cena independente. Essa cena veio sendo construída através da década de 90. É claro que houve antes algumas iniciativas muito importantes. No começo da década de 90, encontrei o Vitor Martins, eu estava trabalhando no estúdio, e ele falou: "João, tô montando uma gravadora, a Velas, vou fazer tudo eu mesmo e tal." Aí, a coisa começou a tomar corpo no cenário brasileiro. Em 98, quando a gente abriu, eu já estava estudando esse negócio há um ano e a grande força que me movia era essa: o desejo de ter autonomia, criar uma cena de música que não tivesse que, necessariamente, passar pelo manual de procedimento das majors. E nessas coisas sempre tem que ter paixão porque são coisas que você não tem que ver pra crer. Tem que crer pra ver depois, acreditando até você ver as coisas acontecendo. É um processo lento. É prazeroso, embora doloroso em alguns momentos, mas vale muito a pena. Nada paga o preço de você ser, não totalmente, mas um pouco mais livre.

PM - Muitos artistas comentam que um dos principais motivos é ter espaço para o seu próprio trabalho...

JMB - Pra mim também é isso. Eu não fico falando muito de mim na primeira pessoa. Gosto de estabelecer o coletivo, mas eu tinha um contrato com a Sony. Nunca fui maltratado na Sony, muito pelo contrário, gravei um disco do jeito que eu quis, mas eu me percebia como um alienígena ali dentro, não pertencia àquele ambiente. Foi nessa busca de fazer um álbum melhor. Só que sou um grande de um gozador comigo mesmo. Eu fiz a Trama e não lancei nenhum disco por ela.

PM - É isso o que eu ia te perguntar.

JMB - Eu tô gravando e sai no ano que vem. Quando me meti nisso, o negócio tomou muito mais tempo do que eu imaginava e aí também continuei produzindo, compondo, fazendo remixes para os artistas. Meu dia-a-dia é: das 9h até o meio do dia na gravadora e depois, no meio da tarde, vou para o estúdio. Nunca parei de trabalhar para os outros ou com os outros, mas o meu trabalho mesmo só neste ano encontrei um espaço emocional e consegui fazer, porque é muita luta. Se bem que a cada artista que lança disco, me sinto parte disso. Me realiza muito. Não tenho nenhuma relação de competição, ciúme. Pelo contrário. É uma família.

PM - E você já pode contar como será o seu disco?

JMB - Não, sabe por quê? Eu vou fazendo, vou para o estúdio, gravo, vou chamando as pessoas, surge a idéia de fazer alguma coisa... É muito sem planejamento algum, do ponto de vista artístico. Eu simplesmente vou fazendo. Como passo de 6 a 8 horas por dia no estúdio, tenho como ir fazendo. Tenho muitos inícios de coisas no meu computador, muitas músicas que estão lá guardadas e, obviamente, faço muitas para aproveitar poucas. Tem safras em que você vai fazendo coisas boas, outras em que tudo o que você faz não gosta. É uma relação meio subjetiva mesmo, emocional.

PM - Mas você tem idéia de gravar algum outro compositor, por exemplo?

JMB - A única coisa que já tem pronta é uma parceria que fiz com o Otto. Fiz uma música, estava pronta e o Otto foi ao estúdio para botar uma melodia lá e aí ele fez uma letra. Mas eu gosto muito de trabalhar com gente desconhecida. É o que me dá mais tesão. Não gosto de caminhar por lugares seguros. Até para vir trabalhar todo dia pelo mesmo caminho me incomoda.

PM - Vocês estão com quantos títulos hoje?

JMB - Do total de lançados, 500 e alguma coisa, porque muda mês a mês. Nacionais são cerca de 250.

PM - Como é administrar isso tudo? Em três anos de atividade, mais de 500 títulos dão idéia de como a Trama tem uma dimensão incrível. Como um artista lida com isso?

JMB - Primeiro, obrigado de coração por tudo o que você falou sobre a gente. Eu comecei como músico, tocando com João Bosco, Jorge Ben e o pessoal todo. Logo depois, quando comecei a ter mais experiência – comecei a gravar profissionalmente com 11 anos –, com 14/15 anos comecei a produzir as minhas próprias coisas em estúdio. Antes disso, sempre fui muito fã do Quincy Jones, George Martin, o próprio Creed Taylor, um cara dos anos 60 e 70 muito importante, o Eumir Deodato, muito amigo dos meus pais e que eu conheço muito bem, um gênio. Sempre tive interesse nisso. Quando se é produtor, você é responsável por uma parte um pouco mais ampla do que chegar lá e tocar. O produtor se divide em duas partes: a parte de criação mesmo e a organizacional. Então, sempre foi uma coisa próxima do meu ofício esse tipo de função que extrapola um pouco a questão artística apenas, entre aspas. Obviamente que a gente faz tudo isso com uma equipe. A gravadora Trama é uma das empresas do  nosso grupo e essa empresa especificamente tem entre 65 e 70 pessoas. Você tem que ter um time e é muito difícil montar um time no Brasil, porque a indústria fonográfica brasileira foi incapaz, durante todos esses anos, de se estruturar academicamente, para formar jovens, como fez a publicidade. Gostaria de lembrar que nos anos 60 a publicidade não tinha o prestígio que hoje tem. Foi um trabalho do Periscinoto (Alex Periscinoto), do Petit (Francesc Petit), do Duailibi (Roberto Duailibi), do Washington (Washington Olivetto). Todo mundo construiu um negócio. As nossas majors estão mais interessadas em destruir o negócio. Quando você vai contratar um diretor de marketing no Brasil, alguém nessa área de música, não é como contratar um contador, que você pega e tem mil contadores para contratar. Não. Você tem que formar as pessoas, ir criando a linguagem de independentes, que é outro ponto de interrogação no Brasil. São incógnitas em cima de incógnitas. A gente tem que fazer um negócio que não está formatado direito no Brasil, com profissionais que não são formados para isso, dentro de uma indústria independente que é mais bagunçada do que tudo isso junto por falta de infra-estrutura. Mas com paciência você vai conseguindo.

PM - Vocês têm, em relação às outras gravadoras independentes, uma visibilidade maior. A Trama pertence ao Grupo VR?

JMB - Não. O Grupo VR é uma holding, a Trama é outra holding e essas duas holdings fazem parte da Szajman Company, que é do Abram Szajman, Cláudio Szajman e André Szajman. A Szajman Company é uma sociedade, um grupo de capital fechado, onde os acionistas são, basicamente, os meus dois sócios. Eles não têm sócio em nenhum lugar. O único lugar onde há um sócio – que sou eu – é dentro da holding Trama, que tem a gravadora, a editora etc. Então, a Trama é uma sociedade entre uma pessoa física, que sou eu, e uma pessoa jurídica, que é a Szajman Company. A Szajman Company é dona da VR. Isso foi determinante para a gente porque não adianta eu ter um know-how empresarial e de infra-estrutura. Queria lembrar que o presidente da Szajman Company é o sr. Abram Szajman, que preside há quase 20 anos a Federação do Comércio do Estado de São Paulo, que tem embaixo de si o Sesc e o Senac. Ora, se tem alguma coisa séria nesse país na área de cultura são o Sesc e o Senac. Então, é importante você entender que eu tive muita sorte porque, embora sejam empresários, pessoas extremamente metódicas, tradicionais – a VR fatura R$ 3,1 bi; a indústria fonográfica inteira fatura R$ 600 milhões; apenas o Grupo VR é cinco vezes maior que toda a indústria fonográfica brasileira. E daí? E daí que a gente tem uma saúde financeira grande, um know-how administrativo grande e, acima de tudo, a mentalidade de um homem que construiu o Sesc e o Senac nos últimos 20 anos e sabe muito bem que quem gosta de merda são as elites. O povo quer coisa boa, é só ter uma oportunidade. Isso me deu muito crédito para ter paciência e tempo para desenvolver um projeto. A imprensa, a internet sempre nos apoiaram desde o começo, mas os resultados econômicos só apareceriam daqui a cinco anos, como a gente combinou. Graças a Deus, esse ano a gente já está tingindo os patamares que deveríamos atingir em 2003. Então, está tudo super bem. Mas isso foi uma conjunção de fatores: é um artista que tem um poder decisório grande com um empresário jovem, que tem muito amor por essa área de entretenimento e tem a mentalidade formada. Se fosse um banqueiro com cabeça de banqueiro, nunca ia dar certo a Trama. A pessoa precisa ter a real compreensão de que os vetores que regem o nosso negócio são artísticos e que a parte de negócio tem que vir em função do artístico; não o contrário. Eu tive uma sorte muito grande. Conheci o André em 1981. Tem 21 anos que a gente é amigo. Nos conhecemos no primário e sempre houve um entendimento muito pela questão musical. O André sempre gostou muito de MPB, desde molequinho. A música sempre foi muito importante dentro do nosso relacionamento. Foi sorte que eu tive. Se você não tem o poder financeiro lá fora, ainda você vai levando, vai crescendo. Aqui no Brasil é muito difícil evoluir se não tiver o poder econômico, porque você precisa bancar o jogo muito tempo até a coisa começar a aparecer.

PM - Você, com certeza, acompanha os selos independentes...

JMB - Sim, acompanho e eles me inspiram. A ABMI (Associação Brasileira de Música Independente), o Costa Netto procuraram a Trama e perguntaram se a gente não queria distribuir os selos independentes. Então, conforme foi anunciado na Folha de S. Paulo, a gente está distribuindo para as independentes agora. Eu não acredito que a cena independente brasileira vai acontecer se só a Trama acontecer. É impossível. O que nós temos interesse é que tenha um bloco de gravadoras independentes acontecendo. Aí, sim, a revolução acontecerá. A revolução só com a Trama não existirá. Ela pode até liderar esse processo, e eu confesso que a gente lidera, mas as outras majors passaram anos distribuindo as independentes e nunca conseguiram chegar lá – e as independentes nunca conseguiram ter uma distribuição decente porque não é prioridade para as majors. A gente, hoje, se especializou em distribuir música independente. O Antônio Nóbrega tem quatro títulos com a gente, a YB, que tem Nação Zumbi, Clube do Balanço, Trio Mocotó, a gente distribui, a Candeeiro Music, que é do pupilo do Nação Zumbi e do DJ Dolores, a gente distribui... Então, o nosso grande lance é: montamos a distribuidora para a gente ter a garantia de que esse mercado independente vai pra frente.

PM - Vocês procuram os artistas ou o caminho é o inverso?

JMB - Não, a gente nunca foi atrás de ninguém. Não é nossa postura. Quando um artista quer vir para a Trama, ele liga e diz que quer vir. Por quê? Porque o cara tem um contrato e, ao contrário do que fazem no Brasil, eu acho antiético ficar assediando artistas de outras gravadoras. O Ed Motta, por exemplo: já saiu na imprensa que estamos em negociação. Por quê? Porque ele declarou amor pela Trama publicamente em mais de 50 jornais e eu sou fã dele. Ligamos um para o outro: "Você gosta da gente, a gente gosta de você. Vamos conversar?" No mais, no Brasil, qualquer pessoa que abre uma gravadora não precisa nem se mexer porque as demos chegam; eu recebo mais de 50 demos por mês.

PM - E como você administra isso? Você ouve tudo?

PM - A gente ouve duas vezes por ano: em julho e dezembro. Fechamos o escritório e ficamos três dias ouvindo. É um fato: eu não tenho como gravar todo mundo, mas posso ouvir e não perder um gênio se estiver ali. Gravo muito menos do que eu gostaria. O Brasil tem um monte de poços de petróleo jorrando. É que os caras são muito cegos...

Lançamentos da gravadora Trama

 

PM - Você estão lançando o CD do Jair Rodrigues.

JMB - Jairzão, que está desde o começo da Trama com a gente. É um disco de intérprete dele, Jairzinho produziu, tem o Lobão, é bacana o trabalho. O Jair é um artista popular, na melhor acepção do termo, um artista que nos dá muito orgulho e que tem muita energia. Parece que ele tem 16 anos de idade.

PM - Fora esse, quais são os lançamentos?

JMB - Até o final do ano a gente lança o primeiro álbum da Fernanda Porto, o inédito do César Camargo Mariano de piano solo, gravado no Tony Benett Studios, em New Jersey, Estados Unidos, perto da casa do César, e o Nação Zumbi. Estamos lançando neste momento o Silvera, que é um artista black, nunca houve nada melhor do que ele, na minha opinião. É o gênero que eu mais tenho disco em casa. Ele vem de Diadema, na periferia, trabalhava com os Racionais, é um talento, toca todos os instrumentos, canta. Tem também o Tecnozóide, que é o projeto do Mad Zoo, o produtor do (DJ) Patife, do (DJ) Marky. O Max (de Castro) e o Pedro (Mariano) estão em lançamento. O Simoninha também está saindo. Melhor que isso, só pão com ovo.

PM - Qual é a sua opinião sobre a numeração de CDs e livros?

JMB - A gente já numerou vários CDs. Numeramos o do Otto, o do SP Fashion Week, todos os discos do Sinatra que a gente fez, os vinis da Trama vamos assinar um por um. Eu acho que tudo o que passe para os artistas e para a sociedade uma percepção de que o nosso negócio é sério é melhor. Então, pra mim não há nenhum problema. A decisão que for tomada pra gente está OK. Eu apóio a causa com o maior prazer. Não é um problema pra gente.

PM - A numeração encareceu esses CDs que vocês numeraram?

JMB - Não, não encareceu. Claro, se for estabelecido que todo mundo vai fazer, vai ficar mais barato ainda. Eu não vejo problema.

PM - A pirataria é um problema para vocês? Os artistas que têm selos independentes costumam dizer que a pirataria não os atinge.

JMB - A gente atinge um pouco, sim. Tem pirata do Claudio Zoli pra caramba, tem pirata do (DJ) Marky, do Pedro Mariano e a gente tem um sistema nosso de combate à pirataria. Agora, somos todos vítimas, mas não somos só nós. Tem pirataria de remédio, cigarro, tudo. A gente trabalha com eletrônico, que cresceu muito. A parte de rap... O disco do Rapin' Hood vendeu 30 mil, se não tivesse a pirataria seria disco de ouro com certeza. O Zoli está em 75 mil. Já teria disco de ouro se não tivesse a pirataria. Mas o que eu vou fazer? A gente luta como pode. Nosso governo não cuida nem das crianças famintas, vai cuidar da pirataria?

 

Site - Gravadora Trama: www.trama.com.br