Associação quer reunir gravadoras e selos independentes do país

Encontro discutiu em São Paulo a atuação dessas empresas no mercado

Por Dênio Maués


   União, profissionalismo e muito trabalho. Essas palavras deram o tom das discussões do encontro de músicos e gravadoras independentes, encerrado no último dia 15 de setembro, em São Paulo. O evento lançou oficialmente a Associação Brasileira da Música Independente (ABMI), criada em janeiro deste ano.

    O encontro da ABMI aconteceu no Sesc Pompéia e ofereceu painéis com discussões sobre temas diversos como política cultural, a experiência de selos que vêm se destacando no mercado, distribuição, direitos autorais, tecnologia de gravação e comércio de músicas na Internet. "Este primeiro evento teve como finalidade trazer pensamentos e idéias, pois teremos que tomar muitas decisões no nosso futuro de independentes", disse o produtor fonográfico Pena Schmidt, presidente da ABMI.

    A associação já conta como associadas com cerca de 60 empresas brasileiras do setor fonográfico, entre essas a Tinitus, presidida por Schmidt, e a Trama, provavelmente a maior de todas as independentes. Para Schmidt, que nos anos 80 atuou como executivo da Warner Music, uma das gravadoras majors do mercado, a ABMI não vai discutir o repertório dos selos: "Nosso objetivo é reunir as pessoas que trabalham nessa área."

    Essas pessoas, no entanto, de acordo com Schmidt, só terão representatividade na ABMI se também forem pessoas jurídicas: a entidade só permite empresas como sócios. "O progresso da música independente passa pela constituição de uma empresa, dentro do sistema produtivo que temos hoje", disse Schmidt. "O artista que tiver um disco gravado e quiser fazer parte da ABMI deve abrir um selo ou associar-se a um."

Qualidade e Internet

    A busca pelo profissionalismo cada vez maior, para colocar no mercado produtos de qualidade, marcou boa parte das discussões, como no painel "A indústria independente", em que André Szajman, presidente da Trama, falou sobre a necessidade de se investir na imagem de um selo, desde sua logomarca até a definição de produtos onde a marca será afixada.

    "Independente não é um rótulo de ‘mochileiro’, mas de empresas tocadas com objetividade", disse o compositor e publicitário Thomas Roth, da Lua Discos, participante do painel "As novas gravadoras", ao lado de Sérgio Rossoni, da Zabumba. Rossoni aconselhou o futuro dono de um selo a conhecer antes o mercado e a contratar profissionais das áreas jurídica e financeira além de, evidentemente, respeitar os músicos e cantores: "Artista não é um produto, é a alma da empresa." Por sua vez, Pena Schmidt alertou: "Abrir uma gravadora é uma aventura sem volta, que pode também dar prejuízo. É importante gostar de música e buscar parcerias."

    O comércio de música via Internet, uma das atuais polêmicas do setor, foi defendida por Schmidt. Para ele, o adolescente que coleciona música no computador elegerá seu artista favorito, de quem comprará CDs e assistirá aos shows. "As gravadoras precisam começar a pensar que um computador ligado à Internet, com um programa que pode baixar músicas, é uma ferramenta poderosíssima para fazer um artista conhecido. É o trabalho que o rádio fez durante o século passado inteiro. Devemos lidar com esse assunto sem temores."

Exportação

    O encontro da ABMI contou, no primeiro dia, com a presença de André Midani, ex-dirigente das gravadoras Odeon e Phillips, que tem seu nome ligado a carreiras de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Elis Regina. Para Midani, o que falta para a música independente brasileira não é criatividade, mas planejamento e dinheiro. Ele sugeriu um manifesto do setor aos presidenciáveis. "Nossos líderes governamentais são muito antigos. Quando se fala em exportação, se fala em aço. Os Estados Unidos e Cuba têm sua música como fonte de renda e o Brasil ainda vive uma época industrial."

    Críticas também foram feitas às grandes gravadoras, no primeiro dia, por João Marcello Bôscoli, também presidente da Trama: "A grande indústria perdeu o rumo e não sabe o que está acontecendo nas ruas. O mercado quer novidade e o Brasil é um dos três lugares onde se pode ter a renovação da música mundial, ao lado de Cuba e Porto Rico", afirmou.

    Alguns exemplos do bom artigo de exportação a que se referiu André Midani pôde ser conferido durante o encontro, em dois momentos: na feira de discos, com estandes de vários selos, e shows durante a noite. Pelo palco do teatro do Sesc passaram artistas como os cantores Paulo Padilha (Dabliú), Nilson Chaves (Outros Brasis) e Virgínia Rosa (Lua Discos), o contrabaixista Célio Barros (PMC), a banda Cabruêra (Nikita) e o grupo étnico Mantrapop (MCD).

    Pena Schmidt anunciou um segundo encontro da música independente para o próximo ano. Mais informações sobre a associação podem ser encontrados no site www.abmi.com.br .