"Minhas m sicas s o fatias da minha vida"

"Selo de Artista" traz este m s o m sico Thomas Roth, autor de belas can es e que tornou-se conhecido nas d cadas de 70 e 80 pela parceria com Luiz Guedes. Na entrevista, Thomas fala de sua experi ncia como empres rio, dos projetos e lan amentos previstos de sua gravadora Lua Discos, sediada em S o Paulo, e da produ o atual como compositor.

Por Evanize Sydow

    A cantora Simone Guimar es diz que os versos de Thomas Roth atravessaram seu cora o como um navio ao escutar Meu cora o. Thomas, mais uma vez, acertou em cheio. Palavra por palavra. Rima por rima sim, porque aqui ele se preocupou com essa est tica. Sentido por sentido. 

    Meu cora o era um navio. Singrando os mares de l pra c . Como um por o grande e vazio. Meu cora o, qual madrugada de frio, n o conseguia se aquecer. Feito uma vela sem pavio. Mas veio voc e encheu de luz o que antes era sombrio. Quando lan ou nas guas do meu mar as guas do teu rio. Meu cora o era um menino arredio. Que n o queria se entregar. E se escondia no desvio. Meu cora o era um terreno baldio onde acampava a solid o. Sem teto feito um c o vadio. Mas veio voc e me estendeu um bra o quente e macio. E pouco a pouco voc me envolveu tecendo fio a fio.

    Thomas Roth tem mesmo esse poder de transcender cora es mais atentos com suas poesias. Elis Regina tamb m teve seu sentimento atravessado pelos versos de Thomas quando gravou Quero no disco "Falso Brilhante" e Nova esta o.

    Luiz Guedes e Thomas Roth foram uma popular dupla nos anos 80. Gravaram os discos "Extra" e "Jornal do Planeta" e belas can es, como S o Paulo (Cora o do tempo), Chuva de vento, Amoramar, Viagens do cora o e No galeio do trem.

    O tempo passou e levou Luiz Guedes. Thomas ficou 15 anos fora da m sica. H tr s anos, voltou a fazer parte dela, quando montou a gravadora Lua Discos, hoje uma das mais fortes dentro do grupo de pequenos selos. Numa estrutura rec m e bem montada, a Lua Discos j tem 25 discos produzidos. Est o em seu cast Claudio Nucci, Simone Guimar es que lan ou o bonito "Virada Pra Lua" recentemente , Guilherme de Brito, Casquinha da Portela, Virg nia Rosa, entre outros.

    Nesta entrevista para a P gina da M sica, Thomas fala do prazer de poder oferecer ao p blico bons discos, das dificuldades de uma pequena gravadora, de seu processo de cria o e das novidades como compositor.  

    

PM - Por qu voc decidiu montar o seu pr prio selo?

TR - As raz es da montagem da Lua Discos s o v rias. Eu trabalho com publicidade h muitos e muitos anos e percebo que, nos ltimos tempos, a publicidade vem, de uma certa forma, se acovardando, se intimidando, se tornando um pouco menos ousada de uma maneira geral porque mudou um pouco o comando da vis o junto aos clientes e s ag ncias. Todo o mundo se profissionalizou muito mais, passou a se utilizar muito mais de outras ferramentas, como pesquisa e as pr prias ferramentas de marketing, e isso fez com que aquelas campanhas que antigamente eram mais intuitivas, criativas e ousadas sofressem um certo arrefecimento exatamente porque a coisa hoje muito  mais objetiva e cient fica. A gente foi percebendo essa movimenta o e come ou a sentir um pouco de car ncia de uma cisa mais art stica. Para poder arejar um pouco mais a nossa atividade de uma forma geral, pensamos no selo como uma forma de oxigenar, em primeiro lugar, o nosso dia-a-dia, de a gente poder criar mais livremente. Quando da cria o em publicidade, muitas vezes aparecem id ias que voc n o consegue viabilizar na pr tica dentro da pr pria publicidade, mas que s o id ias boas, que acabam sendo bons projetos para a m sica.

    O segundo motivo foi trazer para o universo da propaganda gente que n o tem o v cio, que n o vive o dia-a-dia da propaganda e que conseq entemente tem uma vis o mais descomportada. Trazer para o meu universo publicit rio gente com uma vis o mais art stica cantores, arranjadores, m sicos. uma coisa que sempre foi usada, mas eu quis fazer isso com mais determina o, objetivamente.

    Em terceiro, a realiza o de um sonho antigo, desde os primeiros momentos em que eu comecei a compor, ter um envolvimento com uma coisa mais art stica e cultural.

    Por ltimo, pensando como um neg cio a longo prazo. Porque a nossa op o foi em fun o do terceiro motivo fazer uma gravadora que fosse uma vitrine para gente nova, de talento, que tem algo a dizer, veteranos esquecidos, para resgate da nossa mem ria musical, para abertura de espa o para alternativos, procuramos deixar esse terreno aberto sem nenhum tipo de preconceito do que deve ou n o ser gravado. Se tem verdade, se um trabalho que tem ess ncia, que pautado na verdade, ele pode at ser imediatista, n o importa, desde que seja verdadeiro. N s somos radicalmente contra as arma es e arranjos em cima de "jab " com r dio e televis o. A gente est procurando realmente gemas brutas, que possam gerar diamantes verdadeiros e n o falsos brilhantes.

    Como a nossa op o foi pautar o trabalho de nossa gravadora em arte, cultura, preserva o de mem ria, isso fez com que a gente optasse por uma coisa menos comercial num primeiro momento, mas que, ao mesmo tempo, permitisse abrir esse espa o para as mais variadas tend ncias. Desde o Attilio Mastrogiovani, que um pianista cl ssico que morou cinco anos em Moscou, um ano em Roma, um professor que sabe tudo de m sica, um garimpador de gente desconhecida, de obras desconhecidas de gente conhecida, que n o simplesmente um brilhante pianista. N o estou preocupado em saber quanto vai vender o disco de um pianista cl ssico. Interessa se ele uma fonte de informa es importante. Estamos gerando um acervo que a gente acredita que, a longo prazo, ser uma boa gaveta para estudantes daqui a 40, 50 ou 100 anos.

PM - H quanto tempo voc s est o no mercado?

TR - O sonho da Lua come ou verdadeiramente h tr s anos. O embri o foi lan ado em agosto de 98, mas eu comecei isso sozinho e de uma maneira absolutamente experimental. Fiquei afastado do universo do disco e da m sica durante quase 15 anos. Isso se arrastou por 99, e at mar o de 2000 a gente foi levando as produ es discos do Tomati, Celso Pixinga, Lupa , fomos experimentando, mas eu n o tinha nada formatado. Estava aprendendo ainda. A gente come ou a montar a equipe. Apareceu o Jos Luiz Soares, dono do Villaggio Caf , que uma casa em S o Paulo com uma tradi o muito grande de m sica e m sicos. Trouxemos tamb m o Mois s Santana da Tambores, que se associou gente. Os dois s o extremamente fortes e respeitados, cada um na sua rea o Mois s na divulga o e o Jos Luiz na rea da m sica. Come amos a desenvolver um trabalho e estamos, desde ent o, produzindo. N o como uma gravadora tradicional. N o temos dinheiro para isso e sequer a inten o. Temos o objetivo de fazer uma gravadora com uma cara diferente e, infelizmente, n o temos financiamento de nenhum tipo. s s custas do nosso pr prio trabalho e o que gera a gente reaplica no pr prio trabalho. Isso faz com que a gente tenha uma capacidade de produzir pequena, mas, ainda assim, estamos no nosso 25 disco.

    De mar o para c , produzimos um lote bastante grande e significativo, que vai de Rebeca Matta que uma artista baiana bem alternativa, que mistura ritmos brasileiros com m sica eletr nica, reprocessa tudo, tem uma vis o muito particular da m sica at Guilherme de Brito, que considerado um dos pilares do samba, da m sica de raiz brasileira, parceiro ass duo do Nelson Cavaquinho, tem obras fant sticas e antol gicas, e Jards Macal , que acabou de gravar uma homenagem a Moreira da Silva.

    O formato que a gente tem hoje come ou a funcionar, efetivamente, em dezembro do ano passado. Foi quando n s fechamos o acordo com a distribui o da Azul Music. Imediatamente, come amos a receber uma cr tica muito boa dos jornalistas. Isso uma coisa muito dif cil porque existe o "jab " em r dio e TV, mas n o existe "jab " no jornalismo, pelo menos n o que a gente saiba. Jornalista , no m nimo, mais dif cil, sen o imposs vel, de corromper. E tamb m n o temos esse princ pio. Recebemos uma b n o muito bacana da cr tica de todos os lados, que entendeu rapidamente qual o tipo da proposta da Lua e isso nos deixou extremamente encorajados para continuar, mesmo sendo muito dif cil, financeiramente falando, porque mostrou que estamos no caminho certo.

    Isso muito positivo tamb m quando a gente percebe que os discos s o procurados no exterior. J estamos conseguindo exportar. Existe interesse de v rios pa ses.

PM - Qual a dificuldade maior?

TR - Distribui o, sem d vida. Divulga o mais ainda porque h um contra-senso gigantesco. As emissoras passaram a ser exclusivamente reas de entretenimento e quase nenhum conte do. Isso um desservi o P tria impressionante. uma concess o p blica. N o sei como que o governo n o tem uma atua o mais efetiva. Lutamos contra a ditadura e hoje que temos uma democracia percebemos que, s vezes, temos, n o uma saudade desse tempo terr vel, mas saudade de determinados instrumentos de uma interven o um pouco mais forte do Estado quando se trata de defender o patrim nio nacional. Sem xenofobia, sem nacionalista idiota. Todos sabemos o que a TV nos empurra hoje, o que as r dios tocam e tocam porque a gravadora paga; n o uma coisa que brota naturalmente da arte e da cultura do povo. N o que as r dios reproduzem de fato o que o povo gosta. Isso balela. Empurra-se lixo descart vel, que f cil e barato para produzir e para a gravadora se livrar desse ou daquele artista amanh . prefer vel tratar com artista que n o pensa do que com quem tem o que dizer e o que pensar. Porque ele vai discutir com a gravadora, vai argumentar e dar muito mais trabalho. Ent o, as gravadoras grandes passaram a adotar uma determinada f rmula simplista. Acho que tem espa o para todo mundo, mas tem que ter espa o para aquilo que traduz a realidade cultural do Pa s.

PM - Quais os pr ximos lan amentos da Lua?

TR - Lan amos agora o da Virg nia Rosa, num show muito bonito no Sesc Pomp ia, e Simone Guimar es. Teremos agora Fil Machado, Moacyr Luz, Edson Montenegro, Jarbas Taurino, Juliana Amaral, Mois s Santana e Keko Brand o. Se Deus quiser, todos ainda este ano. Estamos preparando uma surpresa que eu n o posso dizer ainda. Estamos gravando um disco em Londres que bem interessante. Vai surpreender muita gente.

PM - De um brasileiro?

TR - Um brasileiro.

PM - Que vive l ou aqui?

TR - Vive aqui. uma personalidade conhecida e que talvez v ser recebido at com uma certa descren a.

PM - Ele ou ela m sico?

TR - N o. N o m sico. Mas uma figura p blica interessante. E a gente est trabalhando com um produtor ingl s que apaixonado por m sica brasileira.

PM - Tem algu m que voc gostaria que gravasse pela Lua?

TR - Outro dia eu estava comentando: tem algumas pessoas que eu gostaria de ver como se comportariam. Tem algumas coisas em particular. Voc vai dar risada. N o sei se verdade, mas eu soube que a Adriane Galisteu canta muito bem e eu tinha o sonho de produzir um disco com ela. Nada do que tenho certeza que as gravadoras fariam. Um repert rio s rio para gente grande, n o para crian as.

    Eu aprendi a gostar dela. Passei a admir -la no decorrer do tempo porque acho que ela uma batalhadora, uma pessoa que seguramente tem uma bagagem de vida j bastante s lida, apesar de ser jovem, para cantar determinadas coisas que eu acharia legais. Daria para fazer um disco muito maduro. Eu a vi cantarolando outro dia e adorei o timbre dela. A me vieram algumas id ias. Gostaria muito se tivesse essa oportunidade para surpreender. N o me interessa se a Adriane da televis o. trazer um trabalho em que as pessoas falem: "P xa, que coisa interessante. Nunca imaginei..." Esse tipo de coisa me fascina. Surpreender, mas sempre com conte do s rio.

    Tenho sonhos como compositor. Por exemplo, a Nana Caymmi. Eu sou completamente apaixonado por ela. A minha vida inteira quis ter uma m sica gravada por ela. E nunca lhe mandei m sica.

    Estou muito feliz com o cast que a gente tem. Um elenco de artistas que me deixa extremamente honrado e preocupado porque uma rela o de confian a. uma comunh o de id ias, de pensamentos, de opini es. Mas isso n o impede que eles tenham a ansiedade natural do artista e o sonho natural de ser reconhecido, de ter suas m sicas divulgadas. Para as pessoas trabalharem com a id ia de estar com uma gravadora que n o vai dar "jab " para r dio, que n o tem e n o concorda com isso torna o caminho muito mais dif cil.

    Mas me sinto muito feliz porque temos artistas de renome, como Claudio Nucci, Tomati, Guilherme de Brito, Casquinha da Portela, Jards Macal , Simone Guimar es, Virg nia Rosa. Gente que j tem um espa o conquistado e um nome colocado no mercado.

PM - Voc s recebem muita fita?

TR - Muita coisa. Dezenas e dezenas e dezenas. O Brasil um Pa s riqu ssimo, um caldeir o cultural, nunca se viu tanta coisa nova e diferente. Claro que muita coisa repeti o do que j foi feito. Mas tamb m n o somos simplesmente uma gravadora que busca o que novo. Mostramos o que genu no.

PM - E o seu trabalho de compositor? Voc s tamb m v o lan ar um CD seu.

TR - Estou preparando o meu disco muito lentamente. Tenho muita m sica nova. Durante quase 15 anos eu passei a produzir muita coisa e agora est come ando, pouco a pouco, que um ouve, outro ouve, "posso gravar essa m sica?"...

PM - Voc faz melodia e letra?

TR - Agora estou fazendo melodia e letra. Voltei a trabalhar como trabalhava originalmente. A Simone Guimar es me deu a honra de gravar uma m sica. Eu brigo para n o gravarem porque tenho um pudor muito grande. Nem mostro as m sicas. Prefiro que a pessoa v buscar o que quer. Quando me perguntam "Voc n o tem uma m sica?", eu digo "tem algumas a , se voc quiser, escuta".

PM - Mas seria uma pena se aquela m sica n o entrasse no CD da Simone.

TR - Muito obrigado (risos). Quando eu compunha com o Luiz Guedes, era um outro processo de trabalho. Era um misto de inspira o e transpira o mais complicado. Quando voc trabalha em parceria, obviamente filho dos dois e tem caracter sticas de um e de outro. N o necessariamente a parte do outro como voc imagina e n o necessariamente a parte que voc acha bonita o seu parceiro acha. uma coisa de concess o. Mas eu tenho uma safra grande de m sicas onde eu mergulhei at o pesco o e s o muito peda os da minha vida, da minha hist ria.

    Eu aprendi um neg cio com a Isolda. N s tivemos o privil gio de ter uma parceria com ela, que sempre fez muita m sica para o Roberto Carlos e outros consagrados nomes da m sica brasileira. Eu perguntei: "A que voc credita o seu sucesso?" Ela disse: " nica e exclusivamente verdade porque eu n o escrevo fic o. Escrevo fatias da minha vida. E a minha vida exatamente igual a de qualquer pessoa. As minhas dores e as minhas fantasias s o as mesmas de todo o mundo." Eu tinha uma coisa de idealizar um pouco as mensagens, que tamb m s o parte dos meus sonhos e das minhas fantasias, mas eu n o compunha na primeira pessoa, sempre na terceira pessoa Acho que a nica m sica que fiz na primeira pessoa Quero. Mas n o tinha esse tom das dores de amores. Era uma coisa mais universal, o sonho do final dos anos 60, de a gente criar um outro mundo. Hoje a gente vive outros tempos e, provavelmente, o meu amadurecimento pessoal como ser humano, como homem, fez com que eu tomasse coragem e mudasse um pouco o estilo de letra e aprofundasse principalmente.

    O Edson Montenegro acabou de gravar uma, a Virg nia Rosa tamb m, a Simone (Guimar es). Para mim um motivo de grande honra.

    A EMI-Odeon teve um gesto muito bonito e liberou para que n s lan ssemos os dois discos do Luiz Guedes e Thomas Roth que fizemos l . Vamos poder relan -los em breve e, de certa forma, quase uma d vida que eu tenho com o Luiz Guedes porque ele faleceu e, infelizmente, n o foi poss vel fazer esse trabalho antes. Eu j vinha pedindo na EMI, eles estavam na imin ncia de liberar para que a gente pudesse levantar fundos para que o Luiz pudesse fazer a opera o dele de transplante de f gado, que na poca se fazia absolutamente urgente. Mas, de qualquer forma, os direitos de vendagem ser o revertidos em ajuda fam lia. Foi um gesto muito bonito da EMI e hoje, j que eu tenho essa condi o de ter uma gravadora, , no m nimo, obrigat rio fazer isso.

PM - Tem muita gente que vai gostar.

TR - Tomara. Eu vou ficar muito feliz.

PM - Voc falou da Nana Caymmi. Voc tem uma int rprete preferida para suas m sicas?

TR - Nana Caymmi (risos). Sou apaixonado pela Nana. E tenho uma frustra o enorme porque ela quase gravou uma m sica nossa quando estava gravando o disco com o C sar Mariano. Luiz Guedes e eu est vamos no est dio ao lado gravando. Ela ouviu uma m sica nossa, aprendeu a cantar, mas acho que n o compunha o disco que ela estava fazendo. J tive a felicidade de gravar com o irm o dela, o Dori Caymmi, que esteve aqui no est dio, mas lamentavelmente n o tive ainda a felicidade de ver a Nana cantando uma m sica minha. Tenho muita coisa em que eu penso nela. Quando estou compondo a m sica, n o consigo enxergar outra pessoa sen o a Nana cantando. Mas tem tanta int rprete maravilhosa, de tamanho talento.

PM - O Luiz Guedes foi o seu parceiro mais freq ente?

TR - Foi. Eu sou muito chato no trabalho. Eu j tinha feito umas letras e m sicas. Comecei a trabalhar com Luiz Guedes e aprendi com ele que o bom inimigo do timo. E n s ramos verdadeiramente obsessivos. S o Paulo (Cora o do Tempo) foi uma m sica que n s gravamos no primeiro disco e depois foi regravada pelo Beto Guedes.

    N s est vamos no ver o do Rio de Janeiro, pleno janeiro, calor de 40 graus, praia. A gente gravava tarde e, muitas vezes, noite. N s ficamos 42 dias dentro do quarto trabalhando, fazendo a letra, porque era um garimpo de palavra a palavra. N o tinha muito essa coisa do lapidar. Se a palavra n o era 100% aquela que a gente achava que era, ele sempre dizia: "Essa palavra boa, mas acho que vem uma melhor. N s estamos falando o que a gente est querendo falar, mas acho que n o isso ainda, acho que tem uma palavra melhor." Tinhamos esse cuidado, essa obsess o e eu aprendi isso e carrego at hoje. dif cil delegar a algu m que fale por voc . muito complicado. Existem algumas experi ncias de receber uma letra pronta e botar a m sica, mas  o grosso do trabalho estou fazendo sozinho. uma sensa o mesmo de parto, porque voc , de uma certa forma, exorciza um pouco das suas dores, frustra es, tristezas, m goas, ansiedades, medos. Na verdade, um problema porque tem gente que gosta e tem gente que odeia minha mulher odeia minhas m sicas porque s o muito tristes e ela tem vontade de chorar. engra ado porque elas s o tristes, mas cada uma delas que sai, que fica pronta, me d um al vio. Acho que tem um aspecto terap utico que interessante. Acho que eu sinto uma necessidade at org nica, n o a coisa ego sta do trabalhar sozinho, eu adoro trabalhar em grupo, sou muito de trabalhar em grupo, em equipe, mas eu acho que tem esse aspecto terap utico que uma sensa o um pouco mais leve.

PM - Voc estava falando que suas letras t m muito a ver com sua realidade. Na hora de compor, o seu principal elemento esse mesmo, o que voc vive?

TR - Dif cil. Todos n s somos m ltiplos demais. Eu sou uma pessoa extremamente m ltipla e de certa forma as m sicas n o t m este car ter t o multifacetado. Mas de alguma forma, por algum motivo, eu sempre senti, desde menino, uma coisa muito melanc lica. Sentia uma coisa muito alegre, sempre fui muito brincalh o, uma sede, uma alegria de viver gigantesca. Ent o, as pessoas que me olhavam, me conheciam ou me conheceram n o imaginavam essa coisa melanc lica, triste, mas eu sempre tive isso, sempre gostei de m sica triste. Adoro dor de cotovelo. As pessoas morrem de medo disso. N o sei fazer m sica dan ante. N o sei  porque eu gosto de m sica triste. Faz parte da minha alma, da minha ess ncia. Como eu estou preocupado mais do que nunca em ser absolutamente verdadeiro, fico preocupado o tempo todo em botar meu interior para fora. Quer dizer,  n o que fico preocupado. Ele brota. As palavras brotam. Isso engra ado, inclusive, porque apesar de eu ter m sicas que est o paradas h 8, 12, 13, 15 anos, porque eu n o terminei completamente a letra, tem muita letra e m sica que saem quase de enxurrada. Sai quase numa puxada s . Porque acho que estou literalmente falando do que est acontecendo dentro de mim. Por esse motivo acaba saindo mais facilmente, mas tem esse car ter mais melanc lico, mais triste que acho fazer parte da minha alma.

PM - Voc come ou a compor quando?

TR - N o era t o garoto. Tinha mais ou menos 17, 18 anos. Ganhei um viol o aos 13.

PM - Qual foi a primeira composi o?

TR - Eu n o me lembro exatamente. Eu lembro das primeiras, mas eram m sicas ing nuas. engra ado porque Quero realmente foi uma m sica feita por a , eu tinha 18 para 19 anos, mas foi a primeira m sica que caiu inteira. Eu a fiz no banheiro. engra ado porque eu s compunha no banheiro na minha casa. Ali s, muita gente compunha no banheiro. Tem aquele eco, parece que se est na c mera de eco. Banheiro um lugar maravilhoso para compor e tocar. Eu s tocava e compunha no banheiro e ela saiu inteira, tinha aquela imagem meio psicod lica. Foi a primeira m sica que expressava tudo, expressava o que de fato eu estava falando.

    Acho que antes de Quero eram mais exerc cios de colocar frases com rima, musicar frases, exerc cios liter rios. Mas eu acho que foi a primeira m sica que, de fato, eu vi: " isto um peda o de mim, a minha verdade". A , mostra para outras pessoas e elas gostavam. Diziam "p xa, eu tamb m quero isso, tamb m sou isso". A m sica essa ferramenta de comunica o, de juntar pessoas em torno de uma mesma id ia. Foi a primeira m sica minha gravada por algu m. Que marco isso representou na minha vida! Primeira m sica a ser gravada pela Elis Regina no "Falso Brilhante", que foi marco brilhante na carreira dela. Por todos estes motivos, Quero est naquela redoma de vidro.

PM - H quanto tempo voc comp s a m sica "Meu cora o", que a Simone gravou?

TR - uma das rar ssimas m sicas onde, apesar de dizer tudo o que eu quis dizer e quero dizer, que est dentro de mim ou o que estava dentro de mim naquele momento (eu compus h 8 anos), era um exerc cio tamb m liter rio, porque todas as rimas terminam em "io" e n o era f cil para mim. Eu n o tenho esse dom, essa facilidade e eu nunca me preocupei com essa cara. Essa lapida o da est tica, da poesia. Eu tinha essa preocupa o. Que tivesse, al m do conte do, essa coisa da rima. Geralmente, eu n o tenho preocupa o em ver se est rimando ou n o. Isso acaba acontecendo espontaneamente. Mas nessa m sica eu tive.

PM - Qual a maior alegria dessa empreitada de um selo pr prio?

TR - A maior eu tive quando fui para Cannes, no festival de publicidade em julho. Depois, fui para It lia e, em G nova, entrei numa loja de disco porque eu precisava comprar umas coisas de m sicas italiana e francesa. Ao lado vejo o disco da Lua Discos. Isso foi maravilhoso. E tamb m quando algu m falou: "Olha o Jap o est comprando tantos discos do Guilherme de Brito e do Casquinha da Portela." N o a quest o do Jap o estar comprando. bvio que a gente trabalha e precisa ganhar dinheiro, mas o nosso objetivo, em primeiro lugar, fazer disco para que as pessoas gostem e que tenham acesso ao outro lado da moeda que a televis o e o r dio n o d o. S o poucos os que d o. maravilhoso quando as pessoas gostam e a gente est fazendo a nossa turma. Cada disco que algu m compra, elogia, gosta e tudo mais, para n s uma imensa alegria. E se continuar do jeito que est indo, eu s espero poder ter f lego para continuar produzindo. N o quero mais nada, n o precisa melhorar nada. s a gente poder continuar porque est muito dif cil. O mercado est muito dif cil, mas a m sica ima coisa eterna e a gente est procurando fazer obras eternas.

 

Site Lua Discos: www.luadiscos.com.br