"Minhas músicas são fatias da minha vida"

"Selo de Artista" traz este mês o músico Thomas Roth, autor de belas canções e que tornou-se conhecido nas décadas de 70 e 80 pela parceria com Luiz Guedes. Na entrevista, Thomas fala de sua experiência como empresário, dos projetos e lançamentos previstos de sua gravadora Lua Discos, sediada em São Paulo, e da produção atual como compositor.

Por Evanize Sydow

    A cantora Simone Guimarães diz que os versos de Thomas Roth atravessaram seu coração como um navio ao escutar Meu coração. Thomas, mais uma vez, acertou em cheio. Palavra por palavra. Rima por rima – sim, porque aqui ele se preocupou com essa estética. Sentido por sentido. 

    Meu coração era um navio. Singrando os mares de lá pra cá. Como um porão grande e vazio. Meu coração, qual madrugada de frio, não conseguia se aquecer. Feito uma vela sem pavio. Mas veio você e encheu de luz o que antes era sombrio. Quando lançou nas águas do meu mar as águas do teu rio. Meu coração era um menino arredio. Que não queria se entregar. E se escondia no desvio. Meu coração era um terreno baldio onde acampava a solidão. Sem teto feito um cão vadio. Mas veio você e me estendeu um braço quente e macio. E pouco a pouco você me envolveu tecendo fio a fio.

    Thomas Roth tem mesmo esse poder de transcender corações mais atentos com suas poesias. Elis Regina também teve seu sentimento atravessado pelos versos de Thomas quando gravou Quero no disco "Falso Brilhante" e Nova estação.

    Luiz Guedes e Thomas Roth foram uma popular dupla nos anos 80. Gravaram os discos "Extra" e "Jornal do Planeta" e belas canções, como São Paulo (Coração do tempo), Chuva de vento, Amoramar, Viagens do coração e No galeio do trem.

    O tempo passou e levou Luiz Guedes. Thomas ficou 15 anos fora da música. Há três anos, voltou a fazer parte dela, quando montou a gravadora Lua Discos, hoje uma das mais fortes dentro do grupo de pequenos selos. Numa estrutura recém e bem montada, a Lua Discos já tem 25 discos produzidos. Estão em seu cast Claudio Nucci, Simone Guimarães – que lançou o bonito "Virada Pra Lua" recentemente –, Guilherme de Brito, Casquinha da Portela, Virgínia Rosa, entre outros.

    Nesta entrevista para a Página da Música, Thomas fala do prazer de poder oferecer ao público bons discos, das dificuldades de uma pequena gravadora, de seu processo de criação e das novidades como compositor.  

    

PM - Por quê você decidiu montar o seu próprio selo?

TR - As razões da montagem da Lua Discos são várias. Eu trabalho com publicidade há muitos e muitos anos e percebo que, nos últimos tempos, a publicidade vem, de uma certa forma, se acovardando, se intimidando, se tornando um pouco menos ousada de uma maneira geral porque mudou um pouco o comando da visão junto aos clientes e às agências. Todo o mundo se profissionalizou muito mais, passou a se utilizar muito mais de outras ferramentas, como pesquisa e as próprias ferramentas de marketing, e isso fez com que aquelas campanhas que antigamente eram mais intuitivas, criativas e ousadas sofressem um certo arrefecimento exatamente porque a coisa hoje é muito  mais objetiva e científica. A gente foi percebendo essa movimentação e começou a sentir um pouco de carência de uma cisa mais artística. Para poder arejar um pouco mais a nossa atividade de uma forma geral, pensamos no selo como uma forma de oxigenar, em primeiro lugar, o nosso dia-a-dia, de a gente poder criar mais livremente. Quando da criação em publicidade, muitas vezes aparecem idéias que você não consegue viabilizar na prática dentro da própria publicidade, mas que são idéias boas, que acabam sendo bons projetos para a música.

    O segundo motivo foi trazer para o universo da propaganda gente que não tem o vício, que não vive o dia-a-dia da propaganda e que conseqüentemente tem uma visão mais descomportada. Trazer para o meu universo publicitário gente com uma visão mais artística – cantores, arranjadores, músicos. É uma coisa que sempre foi usada, mas eu quis fazer isso com mais determinação, objetivamente.

    Em terceiro, é a realização de um sonho antigo, desde os primeiros momentos em que eu comecei a compor, ter um envolvimento com uma coisa mais artística e cultural.

    Por último, pensando como um negócio a longo prazo. Porque a nossa opção foi – em função do terceiro motivo – fazer uma gravadora que fosse uma vitrine para gente nova, de talento, que tem algo a dizer, veteranos esquecidos, para resgate da nossa memória musical, para abertura de espaço para alternativos, procuramos deixar esse terreno aberto sem nenhum tipo de preconceito do que deve ou não ser gravado. Se tem verdade, se é um trabalho que tem essência, que é pautado na verdade, ele pode até ser imediatista, não importa, desde que seja verdadeiro. Nós somos radicalmente contra as armações e arranjos em cima de "jabá" com rádio e televisão. A gente está procurando realmente gemas brutas, que possam gerar diamantes verdadeiros e não falsos brilhantes.

    Como a nossa opção foi pautar o trabalho de nossa gravadora em arte, cultura, preservação de memória, isso fez com que a gente optasse por uma coisa menos comercial num primeiro momento, mas que, ao mesmo tempo, permitisse abrir esse espaço para as mais variadas tendências. Desde o Attilio Mastrogiovani, que é um pianista clássico que morou cinco anos em Moscou, um ano em Roma, um professor que sabe tudo de música, um garimpador de gente desconhecida, de obras desconhecidas de gente conhecida, que não é simplesmente um brilhante pianista. Não estou preocupado em saber quanto vai vender o disco de um pianista clássico. Interessa se ele é uma fonte de informações importante. Estamos gerando um acervo que a gente acredita que, a longo prazo, será uma boa gaveta para estudantes daqui a 40, 50 ou 100 anos.

PM - Há quanto tempo vocês estão no mercado?

TR - O sonho da Lua começou verdadeiramente há três anos. O embrião foi lançado em agosto de 98, mas eu comecei isso sozinho e de uma maneira absolutamente experimental. Fiquei afastado do universo do disco e da música durante quase 15 anos. Isso se arrastou por 99, e até março de 2000 a gente foi levando as produções – discos do Tomati, Celso Pixinga, Lupa –, fomos experimentando, mas eu não tinha nada formatado. Estava aprendendo ainda. A gente começou a montar a equipe. Apareceu o José Luiz Soares, dono do Villaggio Café, que é uma casa em São Paulo com uma tradição muito grande de música e músicos. Trouxemos também o Moisés Santana da Tambores, que se associou à gente. Os dois são extremamente fortes e respeitados, cada um na sua área – o Moisés na divulgação e o José Luiz na área da música. Começamos a desenvolver um trabalho e estamos, desde então, produzindo. Não como uma gravadora tradicional. Não temos dinheiro para isso e sequer a intenção. Temos o objetivo de fazer uma gravadora com uma cara diferente e, infelizmente, não temos financiamento de nenhum tipo. É só às custas do nosso próprio trabalho e o que gera a gente reaplica no próprio trabalho. Isso faz com que a gente tenha uma capacidade de produzir pequena, mas, ainda assim, estamos no nosso 25º disco.

    De março para cá, produzimos um lote bastante grande e significativo, que vai de Rebeca Matta – que é uma artista baiana bem alternativa, que mistura ritmos brasileiros com música eletrônica, reprocessa tudo, tem uma visão muito particular da música – até Guilherme de Brito, que é considerado um dos pilares do samba, da música de raiz brasileira, parceiro assíduo do Nelson Cavaquinho, tem obras fantásticas e antológicas, e Jards Macalé, que acabou de gravar uma homenagem a Moreira da Silva.

    O formato que a gente tem hoje começou a funcionar, efetivamente, em dezembro do ano passado. Foi quando nós fechamos o acordo com a distribuição da Azul Music. Imediatamente, começamos a receber uma crítica muito boa dos jornalistas. Isso é uma coisa muito difícil porque existe o "jabá" em rádio e TV, mas não existe "jabá" no jornalismo, pelo menos não que a gente saiba. Jornalista é, no mínimo, mais difícil, senão impossível, de corromper. E também não temos esse princípio. Recebemos uma bênção muito bacana da crítica de todos os lados, que entendeu rapidamente qual o tipo da proposta da Lua e isso nos deixou extremamente encorajados para continuar, mesmo sendo muito difícil, financeiramente falando, porque mostrou que estamos no caminho certo.

    Isso é muito positivo também quando a gente percebe que os discos são procurados no exterior. Já estamos conseguindo exportar. Existe interesse de vários países.

PM - Qual é a dificuldade maior?

TR - Distribuição, sem dúvida. Divulgação mais ainda porque há um contra-senso gigantesco. As emissoras passaram a ser exclusivamente áreas de entretenimento e quase nenhum conteúdo. Isso é um desserviço à Pátria impressionante. É uma concessão pública. Não sei como é que o governo não tem uma atuação mais efetiva. Lutamos contra a ditadura e hoje que temos uma democracia percebemos que, às vezes, temos, não uma saudade desse tempo terrível, mas saudade de determinados instrumentos de uma intervenção um pouco mais forte do Estado quando se trata de defender o patrimônio nacional. Sem xenofobia, sem nacionalista idiota. Todos sabemos o que a TV nos empurra hoje, o que as rádios tocam – e tocam porque a gravadora paga; não é uma coisa que brota naturalmente da arte e da cultura do povo. Não é que as rádios reproduzem de fato o que o povo gosta. Isso é balela. Empurra-se lixo descartável, que é fácil e barato para produzir e para a gravadora se livrar desse ou daquele artista amanhã. É preferível tratar com artista que não pensa do que com quem tem o que dizer e o que pensar. Porque ele vai discutir com a gravadora, vai argumentar e dar muito mais trabalho. Então, as gravadoras grandes passaram a adotar uma determinada fórmula simplista. Acho que tem espaço para todo mundo, mas tem que ter espaço para aquilo que traduz a realidade cultural do País.

PM - Quais os próximos lançamentos da Lua?

TR - Lançamos agora o da Virgínia Rosa, num show muito bonito no Sesc Pompéia, e Simone Guimarães. Teremos agora Filó Machado, Moacyr Luz, Edson Montenegro, Jarbas Taurino, Juliana Amaral, Moisés Santana e Keko Brandão. Se Deus quiser, todos ainda este ano. Estamos preparando uma surpresa que eu não posso dizer ainda. Estamos gravando um disco em Londres que é bem interessante. Vai surpreender muita gente.

PM - De um brasileiro?

TR - Um brasileiro.

PM - Que vive lá ou aqui?

TR - Vive aqui. É uma personalidade conhecida e que talvez vá ser recebido até com uma certa descrença.

PM - Ele ou ela é músico?

TR - Não. Não é músico. Mas é uma figura pública interessante. E a gente está trabalhando com um produtor inglês que é apaixonado por música brasileira.

PM - Tem alguém que você gostaria que gravasse pela Lua?

TR - Outro dia eu estava comentando: tem algumas pessoas que eu gostaria de ver como se comportariam. Tem algumas coisas em particular. Você vai dar risada. Não sei se é verdade, mas eu soube que a Adriane Galisteu canta muito bem e eu tinha o sonho de produzir um disco com ela. Nada do que tenho certeza que as gravadoras fariam. Um repertório sério para gente grande, não para crianças.

    Eu aprendi a gostar dela. Passei a admirá-la no decorrer do tempo porque acho que ela é uma batalhadora, uma pessoa que seguramente tem uma bagagem de vida já bastante sólida, apesar de ser jovem, para cantar determinadas coisas que eu acharia legais. Daria para fazer um disco muito maduro. Eu a vi cantarolando outro dia e adorei o timbre dela. Aí me vieram algumas idéias. Gostaria muito se tivesse essa oportunidade para surpreender. Não me interessa se é a Adriane da televisão. É trazer um trabalho em que as pessoas falem: "Pôxa, que coisa interessante. Nunca imaginei..." Esse tipo de coisa me fascina. Surpreender, mas sempre com conteúdo sério.

    Tenho sonhos como compositor. Por exemplo, a Nana Caymmi. Eu sou completamente apaixonado por ela. A minha vida inteira quis ter uma música gravada por ela. E nunca lhe mandei música.

    Estou muito feliz com o cast que a gente tem. Um elenco de artistas que me deixa extremamente honrado e preocupado porque é uma relação de confiança. É uma comunhão de idéias, de pensamentos, de opiniões. Mas isso não impede que eles tenham a ansiedade natural do artista e o sonho natural de ser reconhecido, de ter suas músicas divulgadas. Para as pessoas trabalharem com a idéia de estar com uma gravadora que não vai dar "jabá" para rádio, que não tem e não concorda com isso torna o caminho muito mais difícil.

    Mas me sinto muito feliz porque temos artistas de renome, como Claudio Nucci, Tomati, Guilherme de Brito, Casquinha da Portela, Jards Macalé, Simone Guimarães, Virgínia Rosa. Gente que já tem um espaço conquistado e um nome colocado no mercado.

PM - Vocês recebem muita fita?

TR - Muita coisa. Dezenas e dezenas e dezenas. O Brasil é um País riquíssimo, um caldeirão cultural, nunca se viu tanta coisa nova e diferente. Claro que muita coisa é repetição do que já foi feito. Mas também não somos simplesmente uma gravadora que busca o que é novo. Mostramos o que é genuíno.

PM - E o seu trabalho de compositor? Vocês também vão lançar um CD seu.

TR - Estou preparando o meu disco muito lentamente. Tenho muita música nova. Durante quase 15 anos eu passei a produzir muita coisa e agora está começando, pouco a pouco, que um ouve, outro ouve, "posso gravar essa música?"...

PM - Você faz melodia e letra?

TR - Agora estou fazendo melodia e letra. Voltei a trabalhar como trabalhava originalmente. A Simone Guimarães me deu a honra de gravar uma música. Eu brigo para não gravarem porque tenho um pudor muito grande. Nem mostro as músicas. Prefiro que a pessoa vá buscar o que quer. Quando me perguntam "Você não tem uma música?", eu digo "tem algumas aí, se você quiser, escuta".

PM - Mas seria uma pena se aquela música não entrasse no CD da Simone.

TR - Muito obrigado (risos). Quando eu compunha com o Luiz Guedes, era um outro processo de trabalho. Era um misto de inspiração e transpiração mais complicado. Quando você trabalha em parceria, obviamente é filho dos dois e tem características de um e de outro. Não necessariamente a parte do outro é como você imagina e não necessariamente a parte que você acha bonita o seu parceiro acha. É uma coisa de concessão. Mas eu tenho uma safra grande de músicas onde eu mergulhei até o pescoço e são muito pedaços da minha vida, da minha história.

    Eu aprendi um negócio com a Isolda. Nós tivemos o privilégio de ter uma parceria com ela, que sempre fez muita música para o Roberto Carlos e outros consagrados nomes da música brasileira. Eu perguntei: "A que você credita o seu sucesso?" Ela disse: "Única e exclusivamente à verdade porque eu não escrevo ficção. Escrevo fatias da minha vida. E a minha vida é exatamente igual a de qualquer pessoa. As minhas dores e as minhas fantasias são as mesmas de todo o mundo." Eu tinha uma coisa de idealizar um pouco as mensagens, que também são parte dos meus sonhos e das minhas fantasias, mas eu não compunha na primeira pessoa, sempre na terceira pessoa Acho que a única música que fiz na primeira pessoa é Quero. Mas não tinha esse tom das dores de amores. Era uma coisa mais universal, o sonho do final dos anos 60, de a gente criar um outro mundo. Hoje a gente vive outros tempos e, provavelmente, o meu amadurecimento pessoal como ser humano, como homem, fez com que eu tomasse coragem e mudasse um pouco o estilo de letra e aprofundasse principalmente.

    O Edson Montenegro acabou de gravar uma, a Virgínia Rosa também, a Simone (Guimarães). Para mim é um motivo de grande honra.

    A EMI-Odeon teve um gesto muito bonito e liberou para que nós lançássemos os dois discos do Luiz Guedes e Thomas Roth que fizemos lá. Vamos poder relançá-los em breve e, de certa forma, é quase uma dívida que eu tenho com o Luiz Guedes porque ele faleceu e, infelizmente, não foi possível fazer esse trabalho antes. Eu já vinha pedindo na EMI, eles estavam na iminência de liberar para que a gente pudesse levantar fundos para que o Luiz pudesse fazer a operação dele de transplante de fígado, que na época se fazia absolutamente urgente. Mas, de qualquer forma, os direitos de vendagem serão revertidos em ajuda à família. Foi um gesto muito bonito da EMI e hoje, já que eu tenho essa condição de ter uma gravadora, é, no mínimo, obrigatório fazer isso.

PM - Tem muita gente que vai gostar.

TR - Tomara. Eu vou ficar muito feliz.

PM - Você falou da Nana Caymmi. Você tem uma intérprete preferida para suas músicas?

TR - Nana Caymmi (risos). Sou apaixonado pela Nana. E tenho uma frustração enorme porque ela quase gravou uma música nossa quando estava gravando o disco com o César Mariano. Luiz Guedes e eu estávamos no estúdio ao lado gravando. Ela ouviu uma música nossa, aprendeu a cantar, mas acho que não compunha o disco que ela estava fazendo. Já tive a felicidade de gravar com o irmão dela, o Dori Caymmi, que esteve aqui no estúdio, mas lamentavelmente não tive ainda a felicidade de ver a Nana cantando uma música minha. Tenho muita coisa em que eu penso nela. Quando estou compondo a música, não consigo enxergar outra pessoa senão a Nana cantando. Mas tem tanta intérprete maravilhosa, de tamanho talento.

PM - O Luiz Guedes foi o seu parceiro mais freqüente?

TR - Foi. Eu sou muito chato no trabalho. Eu já tinha feito umas letras e músicas. Comecei a trabalhar com Luiz Guedes e aprendi com ele que o bom é inimigo do ótimo. E nós éramos verdadeiramente obsessivos. São Paulo (Coração do Tempo) foi uma música que nós gravamos no primeiro disco e depois foi regravada pelo Beto Guedes.

    Nós estávamos no verão do Rio de Janeiro, pleno janeiro, calor de 40 graus, praia. A gente gravava à tarde e, muitas vezes, à noite. Nós ficamos 42 dias dentro do quarto trabalhando, fazendo a letra, porque era um garimpo de palavra a palavra. Não tinha muito essa coisa do lapidar. Se a palavra não era 100% aquela que a gente achava que era, ele sempre dizia: "Essa palavra é boa, mas acho que vem uma melhor. Nós estamos falando o que a gente está querendo falar, mas acho que não é isso ainda, acho que tem uma palavra melhor." Tinhamos esse cuidado, essa obsessão e eu aprendi isso e carrego até hoje. É difícil delegar a alguém que fale por você. É muito complicado. Existem algumas experiências de receber uma letra pronta e botar a música, mas  o grosso do trabalho estou fazendo sozinho. É uma sensação mesmo de parto, porque você, de uma certa forma, exorciza um pouco das suas dores, frustrações, tristezas, mágoas, ansiedades, medos. Na verdade, é um problema porque tem gente que gosta e tem gente que odeia – minha mulher odeia minhas músicas porque são muito tristes e ela tem vontade de chorar. É engraçado porque elas são tristes, mas cada uma delas que sai, que fica pronta, me dá um alívio. Acho que tem um aspecto terapêutico que é interessante. Acho que eu sinto uma necessidade até orgânica, não é a coisa egoísta do trabalhar sozinho, eu adoro trabalhar em grupo, sou muito de trabalhar em grupo, em equipe, mas eu acho que tem esse aspecto terapêutico que é uma sensação um pouco mais leve.

PM - Você estava falando que suas letras têm muito a ver com sua realidade. Na hora de compor, o seu principal elemento é esse mesmo, o que você vive?

TR - Difícil. Todos nós somos múltiplos demais. Eu sou uma pessoa extremamente múltipla e de certa forma as músicas não têm este caráter tão multifacetado. Mas de alguma forma, por algum motivo, eu sempre senti, desde menino, uma coisa muito melancólica. Sentia uma coisa muito alegre, sempre fui muito brincalhão, uma sede, uma alegria de viver gigantesca. Então, as pessoas que me olhavam, me conheciam ou me conheceram não imaginavam essa coisa melancólica, triste, mas eu sempre tive isso, sempre gostei de música triste. Adoro dor de cotovelo. As pessoas morrem de medo disso. Não sei fazer música dançante. Não sei  porque eu gosto de música triste. Faz parte da minha alma, da minha essência. Como eu estou preocupado mais do que nunca em ser absolutamente verdadeiro, fico preocupado o tempo todo em botar meu interior para fora. Quer dizer,  não é que fico preocupado. Ele brota. As palavras brotam. Isso é engraçado, inclusive, porque apesar de eu ter músicas que estão paradas há 8, 12, 13, 15 anos, porque eu não terminei completamente a letra, tem muita letra e música que saem quase de enxurrada. Sai quase numa puxada só. Porque acho que estou literalmente falando do que está acontecendo dentro de mim. Por esse motivo acaba saindo mais facilmente, mas tem esse caráter mais melancólico, mais triste que acho fazer parte da minha alma.

PM - Você começou a compor quando?

TR - Não era tão garoto. Tinha mais ou menos 17, 18 anos. Ganhei um violão aos 13.

PM - Qual foi a primeira composição?

TR - Eu não me lembro exatamente. Eu lembro das primeiras, mas eram músicas ingênuas. É engraçado porque Quero realmente foi uma música feita por aí, eu tinha 18 para 19 anos, mas foi a primeira música que caiu inteira. Eu a fiz no banheiro. É engraçado porque eu só compunha no banheiro na minha casa. Aliás, muita gente compunha no banheiro. Tem aquele eco, parece que se está na câmera de eco. Banheiro é um lugar maravilhoso para compor e tocar. Eu só tocava e compunha no banheiro e ela saiu inteira, tinha aquela imagem meio psicodélica. Foi a primeira música que expressava tudo, expressava o que de fato eu estava falando.

    Acho que antes de Quero eram mais exercícios de colocar frases com rima, musicar frases, exercícios literários. Mas eu acho que foi a primeira música que, de fato, eu vi: " isto é um pedaço de mim, é a minha verdade". Aí, mostra para outras pessoas e elas gostavam. Diziam "pôxa, eu também quero isso, também sou isso". A música é essa ferramenta de comunicação, de juntar pessoas em torno de uma mesma idéia. Foi a primeira música minha gravada por alguém. Que marco isso representou na minha vida! Primeira música a ser gravada pela Elis Regina no "Falso Brilhante", que foi marco brilhante na carreira dela. Por todos estes motivos, Quero está naquela redoma de vidro.

PM - Há quanto tempo você compôs a música "Meu coração", que a Simone gravou?

TR - É uma das raríssimas músicas onde, apesar de dizer tudo o que eu quis dizer e quero dizer, que está dentro de mim ou o que estava dentro de mim naquele momento (eu compus há 8 anos), era um exercício também literário, porque todas as rimas terminam em "io" e não era fácil para mim. Eu não tenho esse dom, essa facilidade e eu nunca me preocupei com essa cara. Essa lapidação da estética, da poesia. Eu tinha essa preocupação. Que tivesse, além do conteúdo, essa coisa da rima. Geralmente, eu não tenho preocupação em ver se está rimando ou não. Isso acaba acontecendo espontaneamente. Mas nessa música eu tive.

PM - Qual é a maior alegria dessa empreitada de um selo próprio?

TR - A maior eu tive quando fui para Cannes, no festival de publicidade em julho. Depois, fui para Itália e, em Gênova, entrei numa loja de disco porque eu precisava comprar umas coisas de músicas italiana e francesa. Ao lado vejo o disco da Lua Discos. Isso foi maravilhoso. E também quando alguém falou: "Olha o Japão está comprando tantos discos do Guilherme de Brito e do Casquinha da Portela." Não é a questão do Japão estar comprando. É óbvio que a gente trabalha e precisa ganhar dinheiro, mas o nosso objetivo, em primeiro lugar, é fazer disco para que as pessoas gostem e que tenham acesso ao outro lado da moeda que a televisão e o rádio não dão. São poucos os que dão. É maravilhoso quando as pessoas gostam e a gente está fazendo a nossa turma. Cada disco que alguém compra, elogia, gosta e tudo mais, para nós é uma imensa alegria. E se continuar do jeito que está indo, eu só espero poder ter fôlego para continuar produzindo. Não quero mais nada, não precisa melhorar nada. É só a gente poder continuar porque está muito difícil. O mercado está muito difícil, mas a música é ima coisa eterna e a gente está procurando fazer obras eternas.

 

Site Lua Discos: www.luadiscos.com.br