O intr pido Carlos Careqa

Por S rgio Foga a

    Aos olhos de um estrangeiro ele t o bom quanto Caetano Veloso, Gilberto Gil, Marisa Monte, Paralamas do Sucesso ou Lenine. E . S que a m dia insiste em deixar rolar as guas da mesmice e cega diante de artistas criativos e seguros de seu papel no cen rio musical brasileiro, como Carlos Careqa. O estrangeiro citado o americano David Byrne, que ao compilar uma sele o de m sicas brasileiras para uma cole o intitulada Beleza Tropical 2 incluiu a can o Acho, de Carlos Careqa, sucesso nas r dios de S o Paulo em meados dos anos 90.

    Sua trajet ria interessante. Come ou numa banda chamada "Os Brasas", num semin rio de padres. Depois seguiu compondo para teatro, largou tudo e foi aventurar-se em Nova York. Voltou pouco americanizado. Na verdade, talvez at mais ciente do que queria, e cheio de influ ncias, claro. Um encontro com uma de suas principais refer ncias musicais, Arrigo Barnab , o ajudou a definir que depois de Nova York S o Paulo. Faz m sica, da boa, comp e letras inspirad ssimas que podem ser conferidas em dois CDs: "Os Homens S o Todos Iguais", lan ado em 1993, e "M sica Para Final de S culo", de 1999. Agora espera um cen rio musical mais bem definido para lan ar um pr ximo trabalho. Pressa para qu ? M sica boa eterna! Conhe a um pouco mais de Carlos Careqa nas pr ximas linhas.

 

Onde voc nasceu?

Nasci em Lauro M ller, interior de Santa Catarina. Mas com quatro anos fui para Curitiba e passei toda a minha inf ncia e adolesc ncia por l . Nasci em 3 de agosto de 1961.

Voc estudou em escola particular, p blica, como foi?

Sempre em escola p blica. Prim rio, gin sio e no 2 grau fui estudar em um semin rio de padres, em Ponta Grossa. Depois voltei e cursei tr s anos de faculdade de direito, em Curitiba. E nunca mais voltei para a escola.

Geralmente que faz col gio de padre tem uma liga o muito forte com a literatura, foi o caso?

, teve uma certa relev ncia. Mas no meu caso foi mais ligado s artes em geral. Lembro que um dos motivos de eu ir para o semin rio foi ter um amigo que estudava l e que tinha uma banda de m sica. Fiquei apaixonado pela banda, porque eu queria tocar viol o. Eu j tinha um viol o e n o sabia tocar. Isso quando eu tinha uns catorze anos.

Voc tem irm os?

Eu sou de uma fam lia de oito irm os, contando comigo.

Sua fam lia cat lica?

bem cat lica. Na verdade acho que eles se tornaram mais cat licos quando eu fui para o semin rio. Acho que come aram a freq entar mais a igreja.

E como voc come ou com a m sica? Voc teve influ ncia em casa?

Meu pai tocava um pouquinho de viol o, mas bem pouquinho.

E seus irm os?

Ningu m. Foi interesse meu mesmo. Quando crian a gostava de cantar e participar de programa de calouros, programa infantil. At que meu pai me deu um viol o...

Isso com 14 anos?

Treze anos. Eu nem sabia tocar, s fazia dois ou tr s acordes. S aprendi a tocar mesmo no semin rio.

Seu pai deu o viol o porque deve ter sentido um interesse seu pela m sica...

Acho que ele n o percebia dessa maneira. Era porque eu pedia muito mesmo.

Como foi no semin rio, ent o?

Havia bandas que tocavam m sicas de igreja. Mas n s faz amos umas festas todo m s e t nhamos um conjunto que se chamava "Os Brasas". Toc vamos m sicas que eram executadas na r dio. Mas s instrumental, o conjunto n o tinha cantor.

Isso foi quando?

Entre 1977 e 79, no semin rio. Depois sa e comecei a trabalhar com m sica para teatro.

Esse foi um come o, dir amos, mais profissional com a m sica?

Sim. O come o foi compondo m sica para teatro, em 1979, e da n o parei mais. Fazia muita m sica para teatro, a comecei a compor mais, a fazer shows.

Voc tamb m foi ator de teatro?

Fiz escola de teatro. At mais ou menos 1984 fiquei em Curitiba fazendo essas coisas. Depois resolvi largar tudo e ir para Nova York me aventurar. Quis experimentar morar em outro lugar e acabei tocando em bares, mas m sicas dos outros. Depois voltei para Curitiba e continuei fazendo m sica para teatro, e, em 1986, fui novamente para Nova York.

Nessa altura voc j estava tendo contato com artistas que hoje em dia s o conhecidos?

N o, nessa altura eu estava ligado ainda s a Curitiba, com a minha gera o de cantores e compositores. N o tinha contato nenhum com esses artistas que eu j gostava. Ia assistir a shows, mas n o tinha muita coragem de conversar com os caras. S fui conhecer o Arrigo (Barnab ), por exemplo, no final de 1989. Foi quando eu abri um show dele l em Curitiba. Eu me apresentei e ele gostou daquela m sica: Eu gosto de Curitiba, que est no meu primeiro disco. A foi come ando a hist ria e eu fiquei com vontade de vir para S o Paulo.

Voc lembra quando come ou a compor coisas suas?

Em 1979 foi quando efetivamente eu comecei a fazer coisas minhas e estava ligado ao teatro. Mas foi em 1982 ou 83 que eu comecei a me perceber mesmo como um compositor

Voc se julga mais compositor, int rprete, m sico ou acha que tudo est no mesmo balaio? O que voc pensa disso?

Acho que sou mais um cantor e compositor. Mas um cantor das minhas pr prias coisas. Eu me sinto mais um compositor de m sica brasileira.

Voc possui alguma forma o acad mica de m sica ou mais uma rela o intuitiva e autodidata?

autodidatismo mesmo. Mas tive algumas no es de m sica no semin rio. Tamb m tive algumas aulas com professor particular de viol o, em Curitiba.

Voc tem parcerias?

Tenho v rias parcerias. Tenho um grande parceiro em Curitiba, que o Adriano S tiro. Aqui em S o Paulo s o poucas. Mas tenho m sicas com Arrigo, Chico C sar e Zeca Baleiro, entre outros.

E os m sicos que te acompanham, s o sempre os mesmos ou isso depende da poca ou do trabalho que voc est fazendo?

Exatamente. Depende da poca ou do tipo de formata o que eu quero dar ao trabalho. Quando eu cheguei aqui tinha um "power trio", de baixo, guitarra e bateria.

Quem eram?

O Beto Beto, na guitarra, Cl udio Tchernev, na bateria e Bosco Fonseca, no baixo.

Voc sabe onde eles est o agora?

O Bosco toca hoje com o Leonardo, o Cl udio tinha o Zappa Cover e o Beto n o t o atuante, mas um timo guitarrista. Depois fui chamando outros m sicos, conforme o que eu estava querendo fazer na poca.

Tem algum momento que voc julga mais importante ou relevante na sua carreira?

Tem dois momentos. O primeiro foi ter encontrado e conhecido o Arrigo, em Curitiba. Ter sido convidado por ele para abrir um show e ele ter gostado da minha m sica. Foi ele que me incentivou a vir para S o Paulo...

E ele era uma das pessoas em quem voc prestava muita aten o, talvez at pela proximidade ou afinidade, por ele ser paranaense?

Sim, ele era uma refer ncia muito forte, mas eu nem sabia que ele era paranaense. S depois que eu vim saber que ele era de Londrina. Para n s ele era de S o Paulo...

At porque ele veio para c h bastante tempo, meados dos anos 70 eu acho?

Ele veio pra c com uns 19 anos. Ele praticamente se formou aqui. Ele mais paulistano que paranaense. E um outro momento marcante para mim foi bem mais recente, quando o David Byrne escolheu a can o Acho para constar de uma colet nea que ele fez, chamada Beleza Tropical 2. O David Byrne tamb m sempre foi uma refer ncia forte dentro da m sica pop. Eu j tocava m sicas dele l em Curitiba, quando tocava em bar. Ent o, para mim, esse foi um outro momento bem marcante.

Essa m sica teve repercuss o mesmo...

E isso me fez lembrar tamb m de um outro momento marcante, quando a m sica Acho come ou a tocar na r dio Musical FM, por volta de 1993. Foi legal porque foi super espont neo. Eu nem estava mais acreditando que isso pudesse acontecer. Mas de repente o Maur cio, que era o programador da r dio, gostou da m sica e acabou a incluindo na programa o.

Em Nova York voc assistiu a shows de pessoas que voc gostava?

Sabe que n o. Eu sou meio ruim para correr atr s de show. Fiquei l quase um ano e desses caras que eu gosto, como Tom Waits e David Byrne, eu nunca vi shows l . Vi o David Byrne aqui no Palace. N o tinha grana tamb m para ficar correndo atr s de show. Mesmo aqui em S o Paulo volta e meia eu tenho convites ou oportunidades de ver shows grandes, mas n o vejo. Eu vejo muitos shows de quem est come ando.

Quem s o suas influ ncias na m sica, al m desses que a gente j citou?

O Chico Buarque foi sempre uma influ ncia, bem antes do Arrigo. Acho que ele foi a maior influ ncia. Falar dos outros acho que seria redund ncia, prefiro falar dele somente. H outros, claro, mas para mim, como me sinto mais compositor que cantor, o meu ideal sempre foi o Chico Buarque. Quer dizer, teve o Chico, depois Arrigo, depois todo o pessoal do Lira Paulistana, como o Prem , o L ngua (de Trapo), o Itamar (Assump o), a Tet (Esp ndola), todos eles me influenciaram musicalmente.

Voc est com dois CDs gravados. O primeiro que saiu em 1993, "Os Homens S o Todos Iguais", e depois o "M sica para Final de S culo", lan ado em 1999. Voc est fazendo um novo CD?

Estou preparando. Estou fazendo umas pr -produ es em casa mesmo, mas sem muita pressa. Primeiro eu tinha pensado em lan ar neste ano, mas desencanei, e vou lan ar quando der.

Evidente pela sua gravadora, a Thanx God Records?

Isso mesmo.

Voc tem algum plano para a sua carreira?

Nenhum especificamente. Tenho vontade de continuar fazendo meu trabalho, mas confesso que o mercado fonogr fico vai achatando um pouco o lado criativo da m sica. Voc acaba n o tendo espa o para mostrar o seu trabalho. Essa independ ncia e alternatividade vai cansando um pouco porque voc faz um show aqui, outro ali, batalha, etc. N o uma coisa que estimula muito. Mas tem algumas cantoras que est o gravando coisas minhas, como a V nia Abreu e a Rita Ribeiro, e isso vai estimulando o lado compositor. Mas essa coisa de carreira cansa um pouco se voc for pensar que tem de empurrar o caminh o, dirigir o caminh o, colocar as coisas em cima do caminh o, tudo sozinho. Eu me sinto assim meio cansado desse processo. N o que eu tenha vontade de parar, mas eu estou pensando mais devagar, para n o ficar estressado.

Mesmo que a gente caia num lugar-comum, o que voc acha que acontece com o mercado, que t o dif cil assim para o m sico?

O que acontece que eu n o fa o parte do mercado. Eu falo do mercado porque ele oprime quem n o faz parte tamb m. Ent o esse 1% ou esses 5% que n o fazem parte do mercado acabam tendo de lutar contra uma s rie de outras coisas. Porque a m sica um business e a gente quer fazer parte desse business, a gente n o reclama disso. Mas a gente n o quer pasteurizar. Quer fazer uma coisa especial pelo que a gente acredita. N o adianta voc ter um leite super bem produzido, com a sua vaquinha bacana e tal, enquanto o outro tem leite sendo vendido em caixinha, custa mais barato. Ou ainda voc nem vai poder colocar esse leite no mercado para vender. isso, a gente faz um tipo de m sica com mais personalidade, originalidade, com um pouco mais de cuidado para o ouvinte. A gente n o quer fazer do ouvido do consumidor um penico. Para gente que n o vai atr s de "ondas" complicado.

E tem p blico para esse tipo de m sica mais criativa. O que voc acha que acontece? A m dia n o ajuda no sentido de informar sobre essa m sica mais original, dir amos assim?

, tem um pouco de desinforma o. Ou mesmo desinteresse, s vezes, porque a gente n o est na m dia. Para o p blico tamb m importante que a gente esteja na m dia. E tem tamb m o cansa o, quer dizer, voc vem bem at o primeiro ou segundo disco. No terceiro, que meu caso agora, voc fica meio em d vida: "Ser que eu vou fazer tudo de novo? Para quem que eu vou fazer?" S que n o d pra parar. Eu j fa o isso h vinte anos, n o uma coisa que d vontade de parar, mas voc pensa bem antes de entrar numa nova empreitada.

Al m da V nia Abreu e da Rita Ribeiro, quem mais j gravou ou est em via de gravar coisas suas?

O Z Guilherme, o Rubi, a Selma Carvalho, que uma cantora de Belo Horizonte, a Adriana Maciel, que uma cantora do Rio de Janeiro. A V nia talvez grave outras coisas agora, mas n o est nada definido ainda.

Uma das m sicas que a V nia gravou foi tema de novela, certo?

Foi a Ser igual legal, que participou da trilha sonora da novela Anjo Mau, da TV Globo.

O que voc achou, foi legal, d retorno?

Foi legal. Conquista uma outra fac o de p blico que a gente, por ser alternativo, n o consegue. Mas tamb m n o foi assim t o executada, n o ficou t o conhecida na voz dela. Mas, na poca, lembro que fui fazer um comercial em Mossor , no interior no Rio Grande do Norte. Tinha um cara l vendendo fita pirata da novela, e ele tocava essa m sica na pra a, para dizer que ele tinha a fita da novela. O pessoal se liga muito em novela, no interior principalmente. E isso eu tamb m achei legal, perceber que a m sica tamb m caminha por lugares que voc n o imagina que ela caminhe.

Por falar nisso, quais os outros trabalhos que voc faz?

Eu fa o trabalhos como ator, em publicidade, tem bastante coisa nesse sentido. Tamb m j fiz participa es especiais em tr s ou quatro longas (de cinema), um deles o "Bicho de Sete Cabe as", que est sendo bastante elogiado. Embora, s vezes pequenos, esses s o projetos que me deixam bastante feliz na hora em que estou fazendo. Mas eu n o me concentro muito nessa atividade de ator. Apesar de que neste ano eu tamb m fiz uma pe a de teatro com o M rio Bortoloto. A pe a chamava-se "Get Semani", teve temporada de tr s meses, de abril a julho, no Audit rio Augusta.

Foi a primeira experi ncia em palco?

N o, n o, eu j tinha feito teatro em Curitiba. Foi bem legal. Eu sou admirador do M rio. Ele de Londrina, mas o conheci em Curitiba, e sempre gostei bastante do trabalho dele, que est tendo at um certo reconhecimento da cr tica, e eu fico feliz por isso.

Voc fez um show cantando Tom Waits recentemente, como foi?

Foi um prazer. Escolhi as m sicas que queria, ensaiei em casa e depois chamei timos m sicos, como o M rio Manga, o Guello e o Gabriel Levy para me acompanhar. Foi muito boa a experi ncia. Para mim foi uma d diva porque eu gosto muito do trabalho do Tom Waits. N o uma coisa que me encomendaram para eu ganhar uma grana. Eu que escolhi cantar m sicas do Tom Waits, porque j canto m sica dele normalmente, como uma vers o da m sica Time. Estou tentando buscar outros lugares para fazer esse show, porque muita gente n o p de ver e gostaria.

E shows com m sicas suas?

Por enquanto eu prefiro finalizar o novo disco para fazer um show com m sicas in ditas. As can es j est o compostas. Est faltando a quest o de produ o de est dio mesmo. Porque tamb m n o adianta ir para o est dio e fazer uma coisa pasteurizada de mim mesmo. Repetir a f rmula do disco anterior, que eu acho que foi legal para mim e as pessoas gostam. Mas eu n o quero ir l e fazer a mesmo coisa.

E o selo, como est ?

O selo deu uma parada porque a Eldorado parou de distribuir. E tamb m estou repensando a quest o do selo, porque em princ pio estava querendo fazer uma coisa mais aberta, mas percebi que n o tenho essa capacidade. Ent o o selo vai continuar s para lan ar as minhas coisas mesmo. Ele est meio parado porque o mercado, que a gente falou anteriormente, deu uma fechada. A quest o dos discos piratas, a quest o da internet, quer dizer, o pr prio mercado do disco est tentando recolocar-se na linha de produ o. Porque as gravadoras tamb m est o em d vida quanto ao que fazer com o produto disco. Eles tamb m est o esperando agora a inven o de um CD que n o se deixe copiar, andei lendo umas coisas assim. Afinal, hoje em dia a coisa mais simples ter um disco. Pode-se comprar um gravador de CD e fazer disco em casa, quantos voc quiser.

Voc acha que isso deixa ainda mais complicado a id ia de comercializa o, de trabalho, etc.?

O que est sendo repensado nessa id ia de m sica se importante ter o disco. O que mais importante, voc fazer m sica ou voc fazer show, ou ter um disco? As coisas est o tomando um outro rumo e ainda n o se sabe exatamente para onde vai. Ent o n o tenho nenhum poder nessa hist ria de disco e tamb m n o meu barato ser um industrial que fabrica e vende disco. Meu neg cio m sica mesmo. Eu prefiro fazer show, fazer m sica em casa e futuramente eu gravo, na m dia que for melhor, CD, DVD ou o que for.