Por que toco?
Baseada no livro
"Por que escrevo", de José Domingos de Brito, no qual ilustres
autores, como Antônio Callado, Alceu Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade,
Clarice Lispector, Carlos Fuentes, Gabriel Garcia Marques, Hilda Hilst, Monteiro
Lobato, Mário de Anrade e Manuel Bandeira, respondem a pergunta-título da
obra, a seção "Por que toco?" da Página da Música traz todos os meses a
participação de um instrumentista, que fala sobre sua arte. Carlos Ernest
Dias, o Kalota, destacado músico que vem trabalhando com nomes como Marcus
Viana, Juarez Moreira e Gilvan de Oliveira e que é professor da Universidade
Federal de Minas Gerais, é o convidado deste mês. Acompanhe.
Por
Carlos Ernest Dias -
Kalota
Essa é, na verdade, uma boa pergunta... Não me lembro exatamente o dia
em que a fiz pela primeira vez. Só sei que foi bem tarde, já era um adulto. O
fato é que, sendo o caçula de uma família de músicos, a correnteza era muito
forte e por algum tempo não houve muita necessidade em me perguntar o porquê
de tocar um instrumento. Comecei pela flauta doce e pelo piano, aos 8 anos de
idade. Tinha 12 anos quando meu irmão Jaime apareceu em casa com um oboé. Eu
nem sabia direito o que era aquilo, mas pedi para soprar e, ops!, saiu um som
bacana, logo de cara. Minha mãe ouviu e, pronto, estava selado o meu destino de
me tornar oboísta, é claro que com uma boa dose de "livre e espontânea
pressão" por parte de D. Odette Ernest Dias, que talvez visse no projeto
de filho oboísta um pouco das raízes francesas perdidas na imigração para o
Brasil, em 1952. Assim, mandou vir um oboé da França, arrumou professor e em
pouco tempo eu já tocava alguma coisa.
Antes disso, tive boas experiências no Clube do Choro de Brasília, onde tocava flauta-doce com um time de bambas do chorinho na capital federal.
Comecei cedo a me defender profissionalmente. Com 18 anos tocava na Sinfônica de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Aos 25 mais ou menos, decidi que queria tocar também saxofone, e comprei primeiro um alto, depois um tenor, até concluir que, para um oboísta, o melhor mesmo era se contentar com um soprano, o qual vem me dando muitas alegrias, assim como a flauta, incorporada ao meu set alguns anos depois.
Mas o grande barato pintou mesmo quando descobri que podia também tocar, mesmo que fosse razoavelmente, o violão. Depois, no piano, vi que não tinha perdido tudo que havia aprendido na infância. Aí deixei de ser apenas um melodista, e descobri a importância do conhecimento de harmonia, uma lacuna séria em minha formação musical. Destrinchando lentamente os primeiros songbooks da série do Chediak, que eram os do Caetano, comecei a cantar em casa, despretensiosamente. Nessa época, fiz um curso de harmonia aplicada à música popular. Isso despertou intensamente o meu lado criativo, e passei a arriscar algumas canções próprias.
Venho trabalhando em shows e gravações em BH, tocando oboé, corne inglês, sax soprano e flauta. Lancei em 1999 um disco chamado Imagem, instrumental, no qual interpreto canções de Milton, Lô, Marcus Viana e Godofredo Guedes, com arranjos originais, e também duas minhas.
Mas fui mesmo mordido pela mosca da voz, e venho gostando cada vez mais de cantar.
Tenho escrito várias canções, e é impressionante como as pessoas resistem ao fato de você querer cantar, uma vez que já te conhecem como instrumentista. Mas lembro muito do Tom Jobim e as declarações dele a esse respeito, quando organizaram um show para ele e o Vinícius numa boate do Rio, onde eles apresentariam suas composições. Aí surgiu a pergunta: Mas quem vai cantar? E assim passamos a ter o Tom cantor, além do violonista e pianista.
Bem, para concluir, eu acho que é uma espécie de necessidade que faz a gente tocar ou cantar. Quem toca ou canta satisfaz, está atendendo a um desejo interior, imperativo, e, trabalhando a sua arte e comunicando-a aos outros, torna-se elo de uma corrente mágica, universal e espiritual, que trabalha para o bem da humanidade.