Por que canto?
Baseada no livro
"Por que escrevo", de José Domingos de Brito, no qual ilustres
autores, como Antônio Callado, Alceu Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade,
Clarice Lispector, Carlos Fuentes, Gabriel Garcia Marques, Hilda Hilst, Monteiro
Lobato, Mário de Anrade e Manuel Bandeira, respondem a pergunta-título da
obra, a seção "Por que canto?" da Página da Música traz todos os meses a
participação de um intérprete, que fala sobre sua arte. O cantor e compositor
mineiro Sérgio Santos, que lançou este ano o primoroso CD "Áfrico"
(Biscoito Fino), é quem escreve em outubro. Acompanhe.
Por
Sérgio Santos
Não é nada fácil pra
mim dizer por que canto. Como me considero muito mais um compositor que
um intérprete, poderia dizer que canto para dar vida às músicas que
componho. Sempre digo isso e sinto que é correto dizê-lo, é verdadeiro; mas agora,
olhando mais fundo, vejo que é apenas uma face da minha verdade. Existem
outras e estou aqui tentando pensar sobre elas. Acho cantar uma tarefa
muito difícil: são muitos elementos que se tem que ter sob controle durante
o ato de cantar. Pra mim é um risco, um contínuo pé na beira do
abismo, da primeira respiração até a última nota. É uma maneira de se
expor totalmente sendo o seu próprio corpo o único veículo dessa
exposição. É fascinante correr esse risco. Sobretudo, cantar é um momento
único, irrepetível. Quando a voz produz a última emissão sonora e ela se
dilui no ar, está findo aquele ato, cai o pano daquela cena. Não há
como repetí-la, mesmo se fosse possível voltar atrás. Mais ainda, e
principalmente, cantar é fazer uma coisa que só você faz da sua maneira.
E só você tem ao seu alcance a possibilidade de fazê-lo assim. Não há ser
humano que tenha a sua voz, que respire, divida, entenda a música, se
emocione com ela e transmita essa emoção da mesma forma que você, como
não há duas árvores que tenham os galhos iguais. E é assim com
todos, do maior dos tenores às lavadeiras da beira de rio. Às vezes quando
termino de cantar e respiro aliviado à beira do meu abismo, me conforto
e me delicio com a maravilhosa idéia de que, tendo cantado bem ou mal, não
haveria outra pessoa no mundo que pudesse tê-lo feito da mesma maneira
que fiz. Só eu, e naquele exato momento. Pensando bem, acho que meu
maior motivo de cantar é não deixar escapar essa chance. Ninguém deveria.
Leia
entrevista com Sérgio Santos