Edson dos Santos Junior (Varginha, MG) - Você fez turnê junto com Guilherme Arantes e saiu na mídia que vocês comporiam duas músicas juntos. Elas já estão prontas? Como se chamam? Vão ser gravadas em que disco?

FV - Na verdade, a gente combinou de fazer duas músicas. Eu falei "vamos fazer uma música" e o Guilherme disse "vamos fazer duas: uma para o seu disco e outra para o meu". Mas não aconteceu. Acabou que a gente não se cruzou durante o verão. O Guilherme viajou e eu fiquei na Bahia parte do verão, mas ia muito para Morro de São Paulo. A gente, inclusive, reativou o projeto, fizemos mais alguns shows, mas não aconteceu a parceria (das músicas). Adoro fazer esse trabalho com o Guilherme. É um encontro que, no fundo, acho que sempre quis que acontecesse. Foi muito prazeroso. Admiro muito o trabalho dele. É um compositor maravilhoso e acho que nossa música tem a ver mesmo, aquela coisa da canção.

Dery Nascimento (São Paulo) - Você tem algum projeto relacionado a crianças carentes, já que a sua obra é grandiosa e poderia ser desvendada por elas? Como pesquisador de sua obra, trabalho suas composições com um coral infanto-juvenil.

FV - Eu tenho um projeto de fazer um disco infantil. Com certeza, poderia ser encaixado em algum tipo de projeto de apoio. Tenho muita vontade de fazer coisas nesse sentido. E essa vontade de fazer um disco infantil é antiga, desde que fui convidado para fazer a trilha para uma peça infantil. Comecei a compor, acabou que não deu certo e eu fiquei com as músicas. Tenho algumas músicas, inclusive uma que já tem letra, chamada Maria fumaça.

Flávio Bueno e Ana Paula Corradini (São Paulo) - Quando vem a São Paulo fazer show?

FV - Pois é... São Paulo é uma cidade que está difícil para fazer show. As pessoas falam: você não vem aqui e tal. Não depende tanto de mim. Às vezes, você recebe propostas de todos os lugares. Mas muitas vezes as pessoas não têm o padrão que eu gostaria de ter de qualidade, para ir e fazer um bom show, num espaço legal e com uma remuneração de acordo com a produção que eu gosto de levar. Eu não gosto muito de fazer show solo. Quando tenho feito show menor, sou eu e o Rogério Meanda, um guitarrista. Prefiro que me convidem para que eu leve a minha banda. Acho que é um show mais rico. Por isso, às vezes fica difícil e muitas das coisas que a gente poderia fazer em São Paulo agora estamos segurando para fazer quando o disco for lançado. No circuito Sesc algumas coisas eu fiz e outras acho que poderia ter feito, mas não conseguimos as datas. É um circuito super importante atualmente em São Paulo. É muito acessível ao público e para a gente também é legal fazer, os teatros são maravilhosos. Gosto muito quando sou convidado para fazer um projeto do Sesc. Tenho tocado mais no interior de São Paulo do que na capital. Esse ano fiz várias cidades do interior. Gostaria de estar tocando sempre em São Paulo porque eu adoro, tem público, é uma cidade onde eu gosto de estar sempre e é a cidade para onde eu mais vou no Brasil. São Paulo e Salvador são cidades que, mesmo quando não tem show, estou indo, pela minha relação com a cidade e com os amigos.

Página da Música - Com o trabalho do selo, você acha que o número de shows vai diminuir ou você vai manter uma agenda normal?

FV - Eu até tenho falado sobre isso. Vivo de shows. O artista no Brasil, em geral, não pode ficar sentado só esperando o direito autoral, que não é ainda aquela maravilha, e dizer "só vou fazer os shows que eu quero". Não dá. Você tem que correr atrás. Mas, realmente, com o selo, acho que eu vou poder ter um pouco mais de opção, porque vou ter também o meu trabalho de produtor e tudo. Não que eu queira parar de fazer show. Mas eu acho que quero mais fazer os shows da minha maneira, bem produzidos, com a minha banda. Eu prefiro, de repente, fazer uma turnê de lançamento do disco, parar um pouco para produzir e compor. Gostaria de ter mais esse tempo.

Leonardo Bianchini (Ubá, MG) - Gostaria de saber se a trilha sonora da peça teatral "Hilda Furacão" foi composta por você.. Se foi, como faço para adquirir esse CD?

FV - Da peça de teatro foi. Fiz uma parte e o Marcus Viana fez outra. Acho que eles não lançaram CD.

Flávio Bueno (São Paulo) - Você é uma pessoa que, na minha opinião, possui uma sensibilidade fantástica, nunca vi ou ouvi ninguém falar tão doce e maravilhosamente sobre a solidão. Você se considera uma pessoa só? Não vale dizer que é cercado de amigos. Falo de solidão interior.

FV - Eu não me considero uma pessoa só. Mas eu realmente convivo bem com a solidão. É claro que tem momentos em que você quer sair para um shopping ou uma festa. Mas eu, por exemplo, morei várias vezes em sítio e muitas delas sozinho, numa boa. Tinha vontade de ir para a cidade e ia. Na verdade, eu cresci muito nesses momentos da minha vida. Acho que por isso eu tenho uma boa relação com a solidão. Não foi uma coisa ruim os momentos que tinha na minha vida de solidão. É claro que a solidão de um relacionamento é complicada. Às vezes você está com uma pessoa e está se sentindo só. Aí é ruim. Ou então você não está com ninguém e está se sentindo só afetivamente. É um tipo de solidão. Agora, sempre soube conviver bem com a solidão por uma opção, como eu já estive várias vezes, ou por contingência mesmo. Nessa minha fase do Terço, por exemplo, no ano de 75, fiquei inteiramente só num sítio. Morava sozinho e O Terço só ia lá para ensaiar. Eu considero um dos melhores anos da minha vida. Cresci muito  naquele ano, comigo mesmo. Tenho um sítio aqui perto do Rio e, na verdade, quase sempre vou com amigos pra lá, mas quando vou sozinho eu adoro. Então, há casos e casos, mas acho que dá pra você administrar essa solidão a seu favor, aproveitar para fazer certas coisas que a gente só faz quando está sozinho.

Página da Música - Qual a sua opinião sobre a numeração de CDs e livros?

FV - Eu sempre fui a favor disso, quando não se falava nisso eu já falava. Até citava os Estados Unidos, achando que lá eram numerados e depois fiquei sabendo que não são. Mas eu sabia que alguma coisa acontecia de bom lá porque o direito autoral nos Estados Unidos é muito respeitado em todos os sentidos. Sei que lá não é numerado, mas tem aquele código de barra que, quando você passa, está registrado o seu direito autoral. Bastou um cara na mercearia da esquina te vender um disco, passou o código de barra ali, entrou no computador, já registrou. Você vai receber aquele dinheiro. Ou seja, não é numerado, mas é como se fosse e de uma maneira até mais sofisticada. Sou super a favor de ou numerar ou arrumar uma maneira de se remunerar com justiça o compositor. Qualquer autoria tem que ser reconhecida. Quero que seja solucionado o problema dos autores brasileiros, seja de música, de livros...

Página da Música - Obrigada pela entrevista.

 

Flávio Venturini e Beto Guedes

19 de outubro, às 22h

Fundição Progresso - Rua dos Arcos, 24, Lapa, Rio de Janeiro

Tel (21) 2220-5070

R$ 13,00 (antecipados na Fundição Progresso e lojas PXC), R$ 15,00 (com 
filipeta até 24h) e 17,00