"Milton Nascimento influiu na minha carreira até antes de me conhecer"
Aldo Bizzocchi (São Paulo) - Gostaria de saber como e quando você começou a fazer parte do Clube da Esquina. Ouvi dizer que você esteve presente na gravação do histórico álbum Clube da Esquina, mas só conheceu o Milton Nascimento tempos depois. Isso é verdade? Como foi esse episódio? E a famosa esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Santa Teresa, você freqüentava?
FV - Eu fiz parte do Clube da Esquina 2 e assisti a gravações do Clube da Esquina 1. Na verdade, o Milton (Nascimento) foi a pessoa que deu o start na minha carreira profissional. Comecei profissionalmente quando saí de Belo Horizonte e fui para São Paulo tocar com o grupo O Terço. Quem me indicou para o grupo O Terço, que, na época, estava junto com o Sá e o Guarabyra – estavam fazendo um disco – foi o Milton, sem me conhecer. Então, eu falo que o Milton já influiu na minha carreira até antes de me conhecer. O Beto (Guedes) me conhecia e falou de mim para o Milton. O Guarabyra perguntou ao Milton se ele conhecia algum tecladista em Minas Gerais. E ele disse: O Beto me falou de um tecladista legal chamado Flávio. Quando fui à gravação do Clube da Esquina 1, conhecia pouco o Milton, não tinha intimidade com ele. No Clube da Esquina 2 já era super amigo dele. Ia para o Rio e ficava na casa do Milton. A gente era super amigo.
Eu freqüentava a casa do Toninho Horta em Belo Horizonte. Essa fase do Clube da Esquina da casa do Lô é anterior ao tempo em que comecei. Quando comecei, tinha uma pelada de futebol na casa do Toninho Horta e eu sempre ia. Lá, fiquei conhecendo o Lô e todo mundo – Tavinho Moura, Túlio Mourão, Murilo Antunes... Dali, a gente começou a ensaiar na minha casa, onde tinha uma garagem. A gente fez um estúdio nessa garagem. Daí a pouco, o Lô levou o piano dele pra lá, um piano acústico que caiu na minha mão e quase fiquei sem os dedos. Lá, a gente fez o "Fio da Navalha", que foi um show. Era o nome de uma música do disco do tênis do Lô Borges e esse prmeiro Fio da Navalha tinha a participação de todas as pessoas. Só não tinha do Milton porque ele morava no Rio. Mas éramos eu, o Lô, Beto, Vermelho, Hely Rodrigues (14 Bis), Tavinho Moura, Toninho Horta, Zé Eduardo, um compositor mineiro que está em Belo Horizonte. Na verdade, foi uma continuação do Clube da Esquina que acontecia ali na minha casa. Também era um Clube da Esquina. O início do Clube da Esquina foi bem o Milton, o Lô e o Márcio (Borges).
José Roberto Schmmelpfeng (Rio de Janeiro) - Em seus dois primeiros discos o que víamos era uma interessante mistura da MPB com pitadas progressivas. A partir do disco "Noites com sol", essa química se alterou um pouco dando lugar a uma música de acento mais "pop", com muita bateria eletrônica e arranjos mais dançantes, apesar de manter o padrão de qualidade. O que aconteceu com aquelas baladas típica dos primeiros discos onde o compositor Flávio Venturini ficava mais à frente dos arranjos? Havia um guitarrista chamado Zé Eduardo que fazia parte da banda do Beto Guedes, banda essa embrionária do 14 Bis. Por onde anda o Zé Eduardo que chegou a participar de discos do 14 Bis?
FV - Eu acho que você tem razão. Os arranjos dos meus discos do "Noites com Sol" pra cá têm muito a mão dos meus produtores também, o que eu acho excelente. Acho o Torquato Mariano maravilhoso como produtor. Muitas dessas canções ficaram para trás. Tenho muita música inédita que eu gostaria de registrar. Devo fazer arranjos de muitas delas. Nesse disco agora, "Canção Sem Fim", vou produzir 4 ou 5 músicas. Algumas vão ser produzidas pelo Ari Sperling, outras pelo Torquato Mariano e algumas por mim. Então, são coisas que já vão ter a minha mão de arranjador.
O Zé Eduardo é um compositor que, infelizmente, não aconteceu ainda. Acho um excelente compositor. É da mesma safra dessa turma do Clube da Esquina. É beatleamaníaco assumido. Foi para Londres, morou uns anos lá e voltou agora. É um cara que eu gostaria também de produzir.
Maria de Nazareth Braga Leal (Rio de Janeiro) e Leonardo Bianchini (Ubá, MG) - Há alguma previsão ou possibilidade de você e o pessoal do 14 Bis voltarem a lançar algum CD e fazerem show juntos?
FV- Eu nunca fechei essa porta de voltar a fazer alguma coisa com o 14 Bis. Mas optei por essa volta com O Terço no momento, em termos de fazer um revival. Mas eu gostaria de fazer alguma coisa com o 14 Bis. Acho que deve acontecer, mas a gente não tem época marcada.
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