"Penso em voltar a morar em Minas Gerais"
Herialdo Sema (Macapá) - Recentemente, você fez um show em Macapá. Foi ótimo! Sempre em seus lançamentos você apresenta um compositor novo, acredito que como forma de promovê-lo por seus talentos. No norte, seu trabalho é muito bem reconhecido. Você já gravou com Nilson Chaves (Pará) e alguns outros. Qual o sentimento que existe da sua musicalidade com a musicalidade amazônica? Já pensou em fazer um trabalho com músicos como Valter Freitas (PA), Paulo Perdigão (PA), Tommil (AP), Enrico de Micelli (AP) e Fernando Canto (AP)?
FV - Eu conheci alguns compositores. Gosto muito dessa região do Brasil. Fui para o Pará levado pelo Nilson Chaves, excelente compositor. O Nilson é ídolo no Pará e uma pessoa importante na cultura amazônica. O Nilson me levou não só para o Pará como para toda a região amazônica. Fizemos shows juntos, compusemos duas músicas, eu tenho participado dos projetos dele, no ano passado teve o show dos 50 anos do Nilson e foi um grande espetáculo com 40 artistas num estádio em Belém. O Nilson me abriu as portas da Amazõnia. Belém é uma cidade muito rica musicalmente e os bares, talvez por aquele calor amazônico, abrem a semana inteira com música ao vivo, ritmos amazônicos... A única pessoa com quem eu meio que me comprometi a compor foi o Joaozinho Gomes, um letrista de Macapá. É um poeta maravilhoso. Mas tem outros compositores que eu admiro, como o Marco André, também de Belém.
Mariko Aimoto (Japão) - Adoro MPB, especialmente músicas de Minas Gerais, incluindo você. Parece que tem alguns estilos de vida para músicos de cada lugar. Por exemplo, o estilo que mora em Belo Horizonte e faz músicas no eixo Minas Gerais, o estilo de quem mora no Rio de Janeiro e faz isso no todo Brasil e no mundo,, como você, e o estilo daquele que sai do Brasil e mora no exterior. Agora você mora no Rio. Como isso influenciou e ajudou seu trabalho e sua carreira?
FV - O Rio de Janeiro me apresentou mais a bossa nova, esse lado da maneira suave de ver o samba que tem aqui também. Morando no Rio, acho que me tornei mais cosmopolita, embora Belo Horizonte seja uma cidade grande. Acho que as raízes mineiras eu não perdi; a gente não perde nunca. Comecei lá, as minhas influências vieram de lá. Eu sinto muita saudade, não só de Belo Horizonte, mas de Minas Gerais. Adoro e penso em voltar a morar em Minas Gerais. Penso em algum momento voltar. Estive lá recentemente, tenho muitos amigos lá, muitos músicos que adoro também, como Murilo Antunes, Márcio Borges, Fernando Brant e a nova geração também. Belo Horizonte é um celeiro de músicos. Tem muita gente boa sempre e tem uma coisa diferente em Minas porque é fora do eixo Rio-São Paulo, digamos assim. Um caldeirão cultural que é de lá mesmo.
Andrea (Belo Horizonte) - Sou fã de Flávio Venturini desde o começo de sua carreira no 14 Bis. Fui a quase todos os seus shows aqui em Belo Horizonte, mas não o vejo aqui, nem falando daqui. Sei que o pólo é Rio-São Paulo, mas acho que você poderia dar mais ênfase à sua mineiridade.
FV - Eu também acho. A vida que a gente leva acaba nos afastando, de repente, de lugares onde gostaríamos de estar mais. Eu gostaria de não só estar mais ligado aos músicos mineiros, como de me apresentar mais em Belo Horizonte, que é um dos lugares onde eu menos me apresento. Vou a Belo Horizonte uma vez por ano e olhe lá. Por dois anos toquei em Salvador seis vezes. Fiz grandes shows lá, numa época em que a gente estava indo muito para a Bahia. Esse ano nem fui praticamente. Mas eu não sei por que acontece isso. É aquela coisa: santo de casa não faz milagre. Sou muito querido em Belo Horizonte, sempre muito bem recebido. Não estou reclamando, não. Mas eu gostaria de estar mais lá. E esse é um dos projetos: em algum momento, voltar. Apesar de eu ser uma pessoa muito dada, como se diz. Vou para um lugar e logo me apaixono. Em todo o lugar onde vou, eu digo: não é que eu poderia morar aqui? Eu ia a Belém e tinha um terreno lá. Brasília eu sempre pensei: pô, deve ser bom morar em Brasília. Em São Paulo eu já morei e adoro. Rio de Janeiro eu amo. Belo Horizonte é minha terra. Salvador é minha segunda terra, estou construindo uma casa em Morro de São Paulo e vou pra Bahia dez vezes por ano. O nordeste eu adoro, Recife, Fortaleza. Tem uma amiga de Fortaleza que fica "vem morar aqui". E eu penso: deve ser demais morar em Fortaleza; eu acho que vou fazer música o dia inteiro aqui (risos). Belém vou muito também. Ou seja, o Brasil é que é muito legal. Quando eu vou para fora, não sinto tanta vontade de morar, como Nova York... É bom ir lá, mas morar mesmo, é o Brasil. O sul também é legal, só que é muito frio.
Página da Música - Você não falou ainda de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul... (risos)
FV - Eu não conheço o Pantanal ainda, mas conheço Mato Grosso. Quando for ao Pantanal, com certeza vou querer ter uma casinha lá (risos).
Página da Música - Mas o Brasil tem mesmo isso de você ser bem recebido em qualquer lugar que vá.
FV - É, isso é que é uma coisa boa, não é? E isso eu quero fazer com a gravadora agora. Aliás, nessa história de investir em compositores, eu tenho vontade de fazer um disco assim, mostrando tendências das várias culturas das microrregiões que a gente tem no Brasil. Muita gente tem feito isso de várias maneiras, mas, claro, cada um tem um enfoque e eu teria o meu.
Página da Música - E depois a riqueza é tão grande que as coisas não se repetem.
FV - É e eu acho que eu produzindo poderia realmente mostrar a minha visão disso. Eu ouvi música do Brasil inteiro, feitas nos próprios lugares. Hoje em dia todo mundo grava CD, mas, às vezes, você vê que necessita de uma produção, um enfoque, talvez, de alguém de fora para poder atingir um público maior.
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