"Vamos nos juntar para fazer um disco de inéditas a partir do ano que vem"

Guilherme de Andrade Lopes (Piraju, SP) - Foi divulgado em meados de agosto de 2001 que você, Luiz Moreno, Sérgio Hinds e Sérgio Magrão, formação de O Terço, 1975, entrariam em estúdio para a gravação de um CD que sairia pela gravadora Trama, além de produzirem um grande show para lançamento do disco. Fiquei sabendo, com muita tristeza, da morte do Moreno, o que deve ter atrapalhado os planos de todas as formas. Gostaria de perguntar se o disco sairá mesmo assim e caso a resposta seja positiva, quem seria convidado para a bateria?

FV - O projeto de O Terço parou já por causa da doença do Moreno no final do ano passado. A gente deu uma parada técnica para conseguir o patrocínio que estava pintando para fazer divulgação, uma turnê nacional e um CD ou DVD. A coisa estava bem encaminhada. Nesse meio tempo, o Moreno ficou doente, com câncer na laringe. Foi muito triste, a gente ficou muito chateado, mas na esperança de que ele se recuperasse. Não esperávamos um desfecho desse. Em um ano ele morreu. Foi difícil para a gente. Ontem mesmo (quinta-feira, 3 de outubro) eu estava escutando um disco do Terço e, vira e mexe, dá uma saudade... Estava muito legal, a gente estava ensaiando no meu estúdio, tínhamos preparado quatro músicas novas, uma das quais, inclusive, vou gravar no meu disco, Alma de balada, e será em homenagem a ele (Moreno).

Página da Música - Ele estava ensaiando com vocês?

FV - Ele estava ensaiando. Era O Terço completo: eu, o Moreno, o Sérgio Hinds e o Sérgio Magrão. Agora, a gente resolveu levar o projeto adiante. A esposa do Moreno, que é compositora – e o Moreno também tem uma filha, Luanda, que é cantora –, falou que dava a maior força para que a gente continuasse com o projeto, convidando um baterista. Então, resolvemos que vamos levar adiante. Não marcamos nenhuma data porque agora eu tenho essas prioridades de lançar o meu disco e a gravadora, mas combinamos para o ano que vem. A gente vai fazer um site do Terço agora e combinamos de reativar esse projeto e gravar um disco. A idéia agora mudou: resolvemos fazer um disco de inéditas, com poucas regravações. A idéia inicial era regravar todo aquele repertório que foi gravado há mais de 20 anos. Chegamos à conclusão de que era uma bobagem, ainda mais sem o Moreno agora. Vamos nos juntar para fazer um disco de inéditas a partir do ano que vem. 

João do Prado Ferraz de Carvalho (São Paulo) - Quando tentam contar a história do rock brasileiro, geralmente dão grande valor à década de 80. Esquecem de bandas como O Terço, da qual você participou. Na sua opinião, há um erro ou eles estão certos? Será que esse pessoal nunca ouviu o disco Criaturas da Noite, de meados dos anos 70?

FV - Eu gostaria de falar sobre isso. Acho um absurdo que se façam várias antologias de rock brasileiro sem citar O Terço e nem o 14 Bis. Aliás, tem coletâneas dos anos 80 em que não se cita o 14 Bis, quando era a banda que mandava no rock brasileiro. A banda que mais fazia sucesso no Brasil no começo dos 80 era o 14 Bis, mais Roupa Nova, Boca Livre e A Cor do Som. Essas quatro bandas foram as que seguraram a barra do rock quando a música brasileira foi invadida pela discoteca no final dos 70. E aí eles acham que o rock brasileiro começou na Blitz. A gente viu a Blitz começar lá na Odeon. Éramos da mesma gravadora. O 14 Bis já estava no quinto ou sexto disco quando a Blitz começou. Então, acho uma injustiça. E com O Terço mais ainda, porque foi a melhor banda de rock de 74 e 75, presente em todos os jornais. É uma banda que foi importante.

Página da Música - Por que você acha que isso acontece? É falta de memória mesmo?

FV - Eu acho que é falta de memória. Na verdade, muitas dessas coisas se não forem faladas como é que as pessoas vão saber? Agora, eu acho absurdo um jornalista que se dispõe a fazer uma antologia e... Eu, como músico, tenho a obrigação de saber quem foi Wagner, Liszt, Stravinsky, Pixinguinha e o que eles fizeram. Acho que tenho a obrigação de saber. Pode ser que eu não goste e não queira ter na minha discoteca, mas tenho a obrigação de saber qual a importância que esses artistas tiveram. Acho absurdo que um jornalista se disponha a fazer uma antologia de rock sem saber que existiu uma banda chamada O Terço, que foi a mais importante durante três ou quatro anos na música brasileira mais Os Mutantes. Nem ao grupo Os Mutantes às vezes é dado o devido valor; esta que foi a banda mais importante do rock brasileiro até hoje. Eu acho. Não tem ninguém que chegue aos pés. Eu vi Os Mutantes tocarem ao vivo. Não tem nenhuma banda brasileira que chegue aos pés do que foi Os Mutantes nos anos 70. Aí vêm certos jornalistas que só lêem aquelas colunas sobre rock inglês e escrevem uma antologia do rock brasileiro a partir dessa ótica. O nome já diz: rock brasileiro. Então, vamos ver quem fez rock aqui no Brasil. Celi Campelo é rock na veia. Quem ouviu na época sabe disso. Jovem Guarda foi super importante e foi rock no começo. O Erasmo Carlos é um grande roqueiro. Então, tem que ter uma certa noção para pôr as coisas nos devidos lugares. Sabe, eu vou acabar escrevendo um livro (risos).

Página da Música - O que você acha dos grupos de rock de Minas atualmente?

FV - Quando me perguntam sobre essas bandas, eu falo que sempre houve esse cerne do rock em Minas Gerais. Quando a gente começou fazendo MPB, Clube da Esquina e tudo, já tinha bandas de rock. Tinha um movimento de rock – e rock pesado, inclusive – nos 70 em Minas. O que estou querendo dizer é que não foi surpresa para mim quando aconteceu um Sepultura. As pessoas vêm falar: "Nossa, uma banda de rock pesado de Minas e que faz sucesso no mundo inteiro". Mas sempre houve esse lado lá. Então, acho que continuou esse movimento depois, com o aparecimento do Skank e agora com outras bandas, Jota Quest, Tianastácia, Pato Fu, que é uma banda que eu gosto. E em vários lugares do Brasil. Eu me lembro que nos 70 tinha uma banda do sul, famosa, chamada Bicho da Seda. Maravilhosa. O Terço chegou a tocar em festivais com essa banda. 

 

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