"Aprendi a ler os contratos. E esse é um dos motivos que me levaram a montar a minha gravadora"
Flávio
Moutinho (Rio de Janeiro), Geraldo Dantas (Curitiba) e Valéria Neves Camargo
(São Paulo) - Como anda o projeto
do disco solo instrumental? Quando vai ser lançado? Quais os seus projetos para
a sua gravadora?
Flávio Venturini - Esse projeto, mais uma vez, eu adiei um pouquinho. Estou trabalhando nele. Acontece que não foi fácil fazer a gravadora. Esse projeto do disco instrumental, se eu pudesse escolher, seria o que eu faria primeiro. É o que eu tenho mais vontade de fazer. Mas eu achei que era muito importante fazer a gravadora. Ela, agora, é uma realidade. Chama-se Trilhos.Arte. O primeiro disco vai ser o relançamento do CD "Noites com Sol". Sai a tempo do Natal. Vamos lançar o disco da Renata Gebara, uma cantora carioca, e relançar o primeiro disco do Aggeu Marques. Nesse meio tempo, a gente já está produzindo o novo CD do Aggeu e estou gravando o meu novo disco de carreira, um CD de canções que vai se chamar "Canção Sem Fim". A gente deve ter, junto com esses três lançamentos do final do ano, um da Trilhos.Arte, mostrando as várias tendências da gravadora, como duas faixas de cada artista que vamos trabalhar. É um CD-apresentação da gravadora.
Página da Música - Qual vai ser o perfil da gravadora?
FV - Acho que o único denominador comum é que, a princípio, a gravadora só vai lançar coisas produzidas por mim, pelo menos a maioria delas. No caso da Renata, a produção não é minha, nem no do Aggeu. Mas no próximo disco dele a produção é minha. A gente está começando a gravar. No meu disco a produção é minha, mais Torquato Mariano e Ari Sperling.
Alessandra Pacheco (Rio de Janeiro) - Com a crise da indústria fonográfica agravada também pela política das grandes gravadoras em só apostar em regravações e "ao vivo", grandes artistas criaram os seus próprios selos. Qual foi a sua motivação ao criar também o seu próprio selo? Fugir mesmo dessas grandes corporações e escolher livremente os trilhos da sua carreira?
FV - A Fabiane (produtora de Flávio Venturini) é que fala que alguém perguntou a ela: "Por que o Flávio está fazendo uma gravadora?" Ela disse assim: "Porque ele aprendeu a ler os contratos" (risos). Na verdade, é um pouco isso. Com o tempo, no bom sentido, a gente vai ficando malandro e vai aprendendo as regras do jogo. A não ser que uma gravadora assuma que vai trabalhar o seu disco e divulgar o seu trabalho, não há nenhuma diferença em se estar em uma grande gravadora e ter uma própria. É claro que eu tenho muito mais trabalho, por um lado, em fazer uma gravadora; estou assumindo uma pequena empresa e fico chocado em ver como é burocrático o negócio. Por outro lado, você tem uma liberdade que não tem numa gravadora grande. A liberdade não só de produzir do seu jeito o seu trabalho, mas saber o que vai ser feito do dinheiro. Você quer divulgar aqui, lançar ali e no final das contas é dono do que é produzido. Quando grava um disco numa gravadora, você não é dono dele. Você recebe por ele o direito autoral que eles te pagam e em troca tem uma superexposição, divulgação do seu trabalho e daí pode-se conseguir uma projeção. Eu já tenho tantos anos de carreira, sucesso já fiz muito, acho que a projeção já tenho, o meu nome é conhecido. O que eu preciso agora é fazer as coisas do meu jeito. E fazer tudo o que eu gostaria de fazer, porque ficar esperando uma gravadora se interessar por um trabalho meu, como o disco instrumental... nenhuma gravadora se interessou.
Página da Música - De repente, você entraria numa gravadora e não teria um problema que muita gente que está chegando agora tem: o fato de depender do famoso jabá para conseguir criar um nome. Você já tem um público que, sabendo que você está lançando alguma coisa, vai atrás.
FV - É e as rádios me tocam. Essa barreira que existe hoje para você entrar no rádio e na televisão é muito através de dinheiro, interesses ou de conhecimento. É tudo muito armado. Eu perdi um pouco dessa ilusão. O que eu quero é fazer música tranquilamente. Quero compor, fazer minhas músicas, lançar e distribuir. Não estou preocupado em fazer muito sucesso. Se acontecer, melhor. Mas o importante pra mim, no momento, é fazer as coisas do meu jeito, os projetos que vierem à minha cabeça... ter a liberdade de falar "vou fazer um disco assim". Entro no estúdio e faço. É diferente de você entrar na fila de uma gravadora com a possibilidade de eles te colocarem na geladeira depois. Como fizeram com o meu disco "Trem Azul", um disco lindo e importante, com a obra do Clube da Esquina. Colocaram na geladeira. Não fizeram nada. Não fizeram um programa de televisão. O que fiz fui eu que consegui. Por que um artista como eu tem que passar por isso? Não preciso e não quero mais. Tenho o meu público, o meu prestígio. Vou usar isso e ser feliz e independente.
Página da Música - A gente entrevista pelo menos uma vez por mês um artista que montou o seu próprio selo e é unânime a satisfação por poder ter essa autonomia de fazer o que quer e gosta...
FV - Pois é. É muito trabalho. Tem hora que eu preciso parar de pensar em música e pensar em negócio. Mas tenho uma pessoa para me ajudar, um escritório e uma equipe que a gente está formando. Vamos ser distribuídos por uma outra gravadora – que ainda não posso revelar porque estamos negociando. Quer dizer, vou ter acesso às lojas. Vou continuar no mercado, mas com outro enfoque, de uma maneira mais criativa, com certeza.
Página da Música - A questão da distribuição para você até agora tem sido o mais difícil de resolver?
FV - É. A gente até pensou em criar uma distribuidora, um processo de distribuição. Acho que podemos até chegar a um nível de conhecimento desse mercado em que a gente mesmo organize essa distribuição, mas para começar eu preciso de credibilidade, que o meu selo seja conhecido, que as pessoas saibam que a Trilhos faz uma música de qualidade. Preciso chegar ao mercado.
Página da Música - Você tem acompanhado os selos independentes?
FV - Acompanho. Esse ano fui jurado do Prêmio Caras de Música. Então, ouvi praticamente toda a produção brasileira de independentes e de gravadoras grandes. Fiquei admirado com a quantidade e a qualidade da produção brasileira. São gravadoras que me chamaram muito a atenção. A própria Biscoito Fino entrou muito bem, é muito apoiada, financeiramente tem uma boa estrutura. Mas uma gravadora que me chamou muito a atenção é a Lua Discos. Muito legal. E é de um amigo que eu adoro, o Thomas Roth, inclusive um compositor que eu tenho cada vez mais admirado – fiquei maravilhado com pelo menos duas canções do Thomas que ouvi esse ano; o Thomas está compondo cada vez melhor e é um cara de quem eu gosto muito e admiro.
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