|
"A música pode ser popular ou erudita. Mas tem de ser boa" Por Evanize Sydow, de Belo Horizonte Conversar com o maestro Sebastião Vianna é revisitar a história da música brasileira. Aos 85 anos, ele é a própria jovialidade. Nascido em Visconde do Rio Branco, Zona da Mata mineira, Sebastião Vianna foi assistente e revisor de Villa-Lobos e desenvolveu trabalho importante, principalmente em Belo Horizonte. Foram seus músicos, por exemplo, os então jovens Benito Juarez, regente por vários anos na cidade paulista de Campinas, e Watson Clis, um dos principais violoncelistas brasileiros – hoje primeiro violoncelo da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e integrante do Trio Brasileiro. Nesta entrevista concedida em sua casa, na capital mineira, ele faz um passeio agradável e interessante pela música no século XX.
PM - Como o sr. se tornou músico? SV - Eu nasci em Visconde do Rio Branco, uma cidade do interior de Minas Gerais, e a única coisa que havia lá era o grupo escolar e uma escola de música que fundaram por volta de 1926. Naquela época do cinema falado, muitos músicos ficaram no Rio com pouco trabalho. Então, o maestro Hostílio Soares, que tinha terminado o curso na escola de música do Rio, resolveu ir para Rio Branco para fazer uma escola. O povo é que queria. Foi muito interessante porque ele era bom músico. Ele foi o segundo violino da Sinfônica do Rio. Os músicos eram muito bons naquele tempo porque praticavam das duas horas da tarde até meia-noite... Era muito exercício. Meu irmão José foi o primeiro a estudar nessa escola. Era violinista. Meu pai tinha uma fazendinha, era aquela coisa de roça, e eu comecei a estudar solfejo com esse homem. Foi mais uma influência dele. PM - Quantos anos o sr. tinha? SV - 10 anos. Teve também um vizinho nosso que era francês. Eu e o José íamos na casa dele ouvir música. Eram aqueles discos antigos de 78 (rotações) e ele tocava para a gente sinfonias de Beethoven, concertos de Grieg... Eu não entendia nada porque uma sinfonia de Beethoven para um menino de 10 anos é um purgante. O sujeito não está preparado para isso. Esse francês ficava muito satisfeito porque a família dele adorava música. Ele tinha vindo para o Brasil durante a Primeira Guerra. Na época em que ele tinha que servir na Primeira Guerra, ele veio para Rio Branco fugindo. Depois, o maestro Hostílio Soares foi dando música para a gente. PM - Rio Branco fica perto de onde? SV - De Ubá. Entre Ubá e Viçosa. Era a antiga linha da Leopoldinha. No tempo de D. Pedro II, os ingleses fizeram essa estrada por causa do café. Essa estrada vinha do Rio de Janeiro até Ponte Nova. Foi na Proclamação da República que chegou essa estrada na minha cidade. Para a gente ir ao Rio de Janeiro era mais fácil do que ir a Belo Horizonte. Fui estudar com esse maestro, compunha umas músicas... PM - Com quantos anos o sr. começou a compor? SV - Mais ou menos 14 anos. A primeira música chamava Teu olhar (que está no disco "Tudo foi um Sonho", lançado pela gravadora Sonhos e Sons). Eu tinha um colega que era estudante de Engenharia Elétrica e ele fazia as letras comigo. A gente fez um conjunto lá, na época, uma orquestrinha. Em 1932, o maestro resolveu sair da cidade. Abandonou tudo. Nem nos deu conhecimento. Ele foi nomeado professor aqui em Belo Horizonte. Aí eu já estava enfiado na música. Não tinha jeito. Já tinha estudado uns três anos com ele a sério. Aqui, ele lembrou da gente, falou com um aluno dele que era da Banda do 1º Batalhão da Polícia Militar. Tinha acontecido a Revolução de 32 e muita gente havia morrido. Tinha vagas aí e o aluno disse "pode chamar". Viemos José, eu, um outro irmão, Walter, vários músicos e começamos aí. Nesse tempo, eu já tinha várias composições, inclusive nós fizemos uma opereta chamada É do que há. Já tínhamos orquestrado as músicas todas e ensaiado, mas o meu pai, por causa de política, falou que não íamos tocar nessa opereta. Ele disse que tinha influência política e não queria. Nós dissemos que já estávamos comprometidos e foi um jeito de sair de Rio Branco. Eu não consegui assistir à opereta que era de minha autoria. Logo em fevereiro, eu me matriculei no conservatório aqui. Estudei, terminei o curso para professor de música e flauta. Tinha um curso para professor de música feito antes do Villa-Lobos fazer aquele negócio no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico no Rio. Esse curso preparava professores para as escolas primária e secundária. Terminei o curso em 37. Eu era contramestre da banda aqui. Tinha sido promovido em 35. Dois anos depois eles me colocaram para ser maestro. Eu não tinha nem 20 anos. Depois, essa mesma pessoa que lembrou do meu para a banda era instrutor do 2º Batalhão da Polícia Militar em Juiz de Fora. Eles precisavam de um mestre de música e eu fui para lá. Fiquei oito anos. Eu queria sair logo. Hoje é melhor, mas a cidade não tinha desenvolvimento artístico. Eu já tinha arrumado para tocar no Rio, na Rádio Guanabara, mas tinha uma recomendação do ministro da Guerra na época, era o Dutra, dizendo que nenhuma pessoa podia ser licenciada do Exército ou Polícia Militar. Com isso, fiquei sem poder sair até 45, até terminar a guerra. Aí resolvi ir para o Rio para fazer um curso de canto orfeônico porque eu estava lecionando na Academia de Comércio e no colégio exigia o canto orfeônico. Fui muito bem aceito e fiz boas provas no curso, já que eu tinha uma boa base. Era no Conservatório Villa-Lobos. Ele não estava lá. Não me lembro se estava na Europa ou nos Estados Unidos. Saí com uma nota alta. Passou aquele tempo e eu voltei para Juiz de Fora. Depois, uma colega me escreveu dizendo que o Villa-Lobos, numa reunião com professores, falou que teve uma pessoa que fez o curso lá e que entendeu o problema dele e, quando ele pudesse, ia trazer essa pessoa para trabalhar com ele. Aproveitei e fui ao Rio de Janeiro conhecer o Villa-Lobos. Eu já o conhecia de vista, vendo-o reger. Quando cheguei no conservatório, ele me perguntou: "O senhor já foi atendido?" Eu disse: "Não. Estou fazendo uma visita ao Conservatório porque eu fiz um curso aqui de férias, e eu sei que o senhor não dá muito valor..." Ele perguntou o meu nome. "Sebastião Viana". E ele disse: "Quero falar com você. Quero que você trabalhe comigo." Foi ali que abriu o meu caminho. Eu fui numa época difícil para o Rio de Janeiro porque estavam fechados os cassinos. E os cassinos eram formidáveis para o músico. Você tocava nas orquestras dos cassinos e tinha uns shows à meia-noite e meia, uma hora, como o Cassino da Urca, que recebeu os maiores músicos do mundo. E a gente ganhava um bom dinheiro por mês com esses shows. O Dutra entrou e fechou os cassinos. Eu tive dificuldade, mas eu tinha um tio no Rio que me ajudou. No fim do ano, Villa-Lobos me nomeou. Eu sou flautista, mas tocava acordeon também e assim eu me defendia, tocando. PM - O Villa-Lobos contratou o sr. como revisor? SV - É. Ele tinha mais de 1.300 peças. Eu revisei cento e poucas só porque era muita coisa. PM - Quanto tempo, em média, o sr. demorava para revisar uma peça dele? SV - Muito tempo. São horas e horas. PM - Hoje em dia, como anda essa atividade de revisão? SV - Eu me lembro do Villa-Lobos conversando com o Camargo Guarnieri, que eu também conheci muito. PM - Queria que o sr. falasse do Camargo Guarnieri depois... SV - Camargo Guarnieri era uma pessoa difícil, sabe? PM - Já ouvi falar. SV - Muito difícil. Um caráter esquisito. Ele era muito meu amigo. Eu tenho peça que ele me ofereceu. Eu o conheci aqui. Ele deu um concerto aqui, eu tinha influência na época. Tinha fundado uma escola aqui e os meus músicos reforçaram a Orquestra Sinfônica para tocar as músicas dele. Tivemos um bom relacionamento. O revisor é importante, mas é preciso que a pessoa saiba bem música porque você tem que ver um acorde lá e saber se corresponde. Eu fiquei com mais cartaz com Villa-Lobos por causa de uma coisa boba. Vendo uma peça dele, por acaso eu vi que numa parte era para ser harpa, mas soava como três trombones. Eu disse: "Isso aqui não é harpa..." E ele tinha uma vaidade de que não errava. Cheguei perto dele e disse: "Maestro, houve um engano aqui." Ele: "Engano, porquê?" "Isso aí é trombone, não é harpa." E ele disse que eu tinha razão e tirou o nome de harpa e colocou trombone. Ele falou para a secretária dele: "Você acredita que o Sebastião conseguiu encontrar um erro na minha música?" Eu tinha um outro amigo chamado Ademar Nóbrega, um jornalista muito inteligente que sabia bem francês e português, e ele fazia tudo para o Villa. Nós trocávamos muitas idéias com Villa-Lobos. Aí, o povo de Minas queria que eu voltasse para o conservatório. Fui convidado duas vezes para ser professor de canto coral. Mas o ordenado aqui era pequeno comparado ao que eu ganhava no Rio. Era solteiro, sabe como é... Não havia dinheiro que desse no bolso do sujeito. De vez em quando, eu tocava fora para ganhar um dinheiro a mais, porque no conservatório era folgado, das 13 às 18h. Apareceu uma vaga para flautista na Rádio Nacional, que era importante no Brasil. Era do governo. A orquestra era muito boa. Radamés Gnatalli era o chefe. Tocava o popular e o clássico. Eu tinha uma amigo lá, o Luiz Gonzaga, que foi meu aluno no Rio. Eu fracassei com ele porque não consegui ensinar música a ele. PM - Por quê? SV - Você não consegue pôr música na cabeça desse povo. A primeira coisa que a gente aprende é a escala dó-ré-mi-fá... Depois tem os exercícios. E eu comecei a ensinar para ele. Ele falou "eu quero que você me ensine música como se deve mesmo". Ele começou e, quando pegava um exercício, ele ligava à uma outra música que ele conhecia. Fazia confusão. Ficou uns dois meses estudando comigo. Eu falei "Luiz, continua no seu serviço mesmo e quando você precisar a gente escreve a música para você porque para você aprender a escrever a música que você toca vai ser muito difícil." PM - Nessa época ele já era bem conhecido? SV - Já. Ele tocava na Rádio Nacional. PM - E depois o sr. continuou tendo contato com ele? SV - Como eu tocava acordeon também, o Luiz cismou que queria que eu fizesse uma dupla com ele. A minha vida inteira estudando música clássica – eu tive a minha fase de fazer música popular... Eu me divirto com um dicionário de música que, no original, são 12 volumes. Não lembro o nome agora... PM - O Grove? SV - Isso, Grove. Me divirto lendo. Eu conheco bem banda de música e orquestra. Mas no Rio o Gonzaga querendo que eu fosse... Eu falava: "A minha vida é diferente. Eu sei se você está bem com a sua música..." Nós estávamos na Rádio Nacional, teve uma vaga e ele logo falou para o Radamés e um flautista chamado Evaristo, que tinha tocado comigo numa temporada lírica aqui: "Não pode ser o Viana?" Ele pensou que fosse um irmão do Pixinguinha, que era também Viana e era flautista. E o Luiz Gonzaga estranhou: "Mas o Viana não é bom flautista? É formado em Minas Gerais..." E o Evaristo perguntou qual Viana era. Aí ele falou que era o que trabalhava com Villa-Lobos e esse Evaristo foi à minha casa, dizendo que a vaga estava para mim. Eu fui até o Villa-Lobos e expliquei. Era um ordenado bom. Eu acho que ganhava uns 1.200 cruzeiros no Conservatório e eles pagavam na Rádio 4.500. Falei: "Tô feito." Falei para o Villa-Lobos que eu queria trabalhar na parte da manhã por causa do convite. Ele disse: "Eu quero que você trabalhe junto comigo. Se pudesse, eu mudaria o meu horário para trabalhar com você..." Ele não concordou. Eu pensei: "Vou embora. Já que eu não posso aproveitar essa oportunidade, não quero ficar só no Conservatório." A Polícia Militar me convidou para organizar um serviço de música aqui porque o maestro tinha se aposentado. Eu vim para organizar a orquestra. Tanto que a orquestra deu certo, que o Benito Juarez foi meu músico aqui. Aprendeu desde o princípio. E a maioria daqueles músicos de Campinas era daqui, da Orquestra Sinfônica da Polícia Militar. Quando eles estavam muito bem na orquestra, iam embora. Foram para São Paulo, alguns para o Rio. Um dos melhores violoncelistas brasileiros, Watson Clis, foi meu músico. Ele é muito bom. Isso foi em 1950. PM - E o sr. não voltou mais para o Rio? SV - Não. Eu ia só para passear. PM - Como era trabalhar com o Villa-Lobos? SV - Villa-Lobos era uma pessoa muito boa. Ele, como todos os artistas, era muito egoísta. Eu vivi nesse meio todo... Mas a parte humana do Villa-Lobos era fora de série. Ele era um sujeito que ajudava as pessoas. Mas o calcanhar de Aquiles é a música. O sujeito acha que é o maior. PM - Nesse sentido, era difícil trabalhar com ele? SV - Não. Eu não tive problema nenhum com ele. PM - O sr. revisava as obras dele. Encontrava muito erro? SV - Não. A música vinha impressa. O revisor tem que ver com o original. É uma coisa trabalhosa. Uma partitura de música não é brincadeira. Tinha que ver instrumento por instrumento se estava correto. Havia muita coisa errada nas edições. Às vezes, edições nos Estados Unidos mesmo. Vinham com erro. É um trabalho muito chato. Precisa ter conhecimento, saber bem os instrumentos. Mas ele era danado. Não errava. PM - E qual era o jeito dele trabalhar? SV - Ele compunha pela manhã. Levantava lá pelas 7h, compunha até 12h, depois almoçava, ia para o Conservatório, ficava até as 18h, ia para casa e continuava escrevendo até... Você ia à casa dele, ele estava compondo, o rádio tocando, outros conversando e ele lá. Era engraçado. Eu dizia: "Maestro, até para revisar eu não posso ter barulho nenhum." Ele era formidável nisso. Tinha uma prática de mexer com música desde os 12 anos. Era mais de 50 anos de luta. Eu fiz bem em vir para cá. Logo em 56 fui nomeado para o Conservatório também e fiquei nos dois lugares. Fui diretor da Sociedade Mineira de Concertos Sinfônicos durante dez anos. O Brasil tem dificuldade em relação à arte. O nosso problema ainda é a fome. Nós temos cerca de 30 milhões de miseráveis. Gastar dinheiro enquanto gente está passando fome é uma coisa muito difícil. O Villa-Lobos é que fez um trabalho bom nos anos de 1932 com música nas escolas, de canto orfeônico. Tinha uns dois conservatórios de canto orfeônico em São Paulo no tempo de Villa-Lobos. Quando eu vim para cá, ele gostou porque eu também pude fazer um trabalho aqui para ele. Ele falava: "Nós vamos preparar os ouvintes para a música." E era isso o que fazia. A nossa música popular, hoje, tem influência americana danada. É boa, mas a influência americana é forte. Desde o tempo do Jobim. Isso não aconteceu com Villa-Lobos. O (Francisco) Mignone falou: "O Villa-Lobos é um homem que não nos deixa ter influência americana." Outra coisa: acham que a nossa música popular é influência da África. Villa-Lobos também não achava. Ele achava que nós temos mais influência espanhola do que africana. Nossa música é uma música européia. Para mim, só aquela obra que teve inspiração tem valor. Villa-Lobos dizia isso pra mim: "A música pode ser popular ou erudita. Mas tem que ser boa." PM - O Villa-Lobos sofreu preconceito por estar ligado à música popular? SV - Sofreu, sim. Teve uma campanha fora de série contra o Villa-Lobos porque ele não foi diplomado pela Escola Nacional de Música. E resolveu abrir um caminho porque ele tinha uma influência popular grande, tocando violão no meio dos outros, e teve contato com a música erudita também, porque tocava violoncelo. O único que foi mais ou menos no caminho dele foi o Alberto Nepomuceno e o Lorenzo Fernandez. Assim mesmo, quando o Alberto já estava velho, o Villa-Lobos ainda era jovem. Os outros ficaram na música erudita. O Leopoldo Miguez, por exemplo, ficou na base do Wagner. O Gilberto Freire, que eu conheci
pessoalmente porque ele era muito admirador de Villa-Lobos, falava: "Villa-Lobos,
você é o maior brasileiro que eu conheci até hoje." A vantagem da
música é que ela é internacional. A música não tem tradução. Toca aqui,
na Alemanha, na Rússia... é a mesma coisa. As notas são as mesmas. Ele via o
trabalho que o Villa-Lobos fazia no mundo. Eu tenho guardado um artigo
transcrito no Jornal do Brasil ou O Globo. Um crítico musical da
Rússia falando de Villa-Lobos. Dizia que ele estava entre os grandes
compositores do mundo. Tinha um professor de Filosofia, Teobaldo Miranda Santos,
do Instituto de Educação do Rio. Ele foi a Buenos Aires para um congresso de
professores de Filosofia. Lá, ele ouviu um sujeito falar: "Vocês têm
aqui na América do Sul um gênio que está à altura de Mozart, Beethoven,
Wagner. Chama-se Villa-Lobos." Esse professor chegou no Conservatório e
contou o caso. No outro dia eu falei com Villa-Lobos, que disse "Pois é, a
pessoa tem que ir no vizinho para reconhecer o valor da gente" "Tudo foi um sonho", primeiro CD do maestro Sebastião Vianna (gravadora Sonhos e Sons), que traz uma exposição da música brasileira dos anos 30 e 40 Site Sonhos e Sons: www.sonhosesons.com.br |