O vendedor de sonhos

Por Evanize Sydow, de Belo Horizonte

    Quando fazíamos contato com o compositor Fernando Brant, um dos principais nomes da música mineira, para esta entrevista, a jornalista Márcia Francisco, colaboradora nossa em Belo Horizonte, disse, num ímpeto: "Não é que o Fernando Brant escreve de forma poética. Ele é a própria poesia." Não precisou muito para que confirmássemos o comentário de nossa amiga. Fernando Brant é, ele mesmo, a melhor definição para seus raros versos. É dele cada palavra presente na telúrica Sentinela, que embalou a geração engajada política e socialmente nos anos de repressão militar no Brasil (Morte, vela, sentinela sou. Do corpo desse meu irmão que já se vai. Revejo nessa hora tudo que ocorreu. Memória não morrerá. Precisa gritar sua força, ê irmão. Sobreviver. A morte inda nâo vai chegar. Se a gente na hora de unir os caminhos num só não fugir nem se desviar)

    De sua pena também saiu uma das mais bonitas canções de amor do repertório nacional, Fruta boa (É pequeno o nosso amor tão diário. É imenso o nosso amor. Não eterno. É brinquedo o nosso amor. É mistério. Coisa séria mais feliz dessa vida)..

     Junto com Márcio Borges e Ronaldo Bastos, Fernando forma a trinca de letristas do lendário Clube da Esquina. Seu talento apareceu já na primeira composição. Nada menos que Travessia, música que deixou extasiada a platéia do 2º Festival Internacional da Canção. Quem cantava para a multidão era Milton Nascimento. E não houve quem ficasse impassível ao que estava ouvindo. Gonzaguinha confessou a Márcio Borges, nos bastidores, que aquela era a música mais bonita que ele já havia escutado.

    Desde então, Fernando Brant só contribuiu para o enriquecimento da música brasileira. Nesta entrevista, concedida em Belo Horizonte, ele conta sobre o começo da carreira de letrista, a amizade com Milton Nascimento, algumas histórias de suas letras, os seus projetos atuais e comprova que o encantamento que coloca em cada canção não é nada mais do que o retrato dele próprio.  

 

PM – Hoje em dia, quais projetos você está realizando?

FB - Eu venho fazendo um show com o Tavinho Moura. Tem mais de seis anos que a gente faz. Tem até o disco, que é a base do show, dois violões e voz. No ano passado, eu e o Tavinho Moura fizemos um musical, "Fogueira do Divino", e a gente apresentou no Palácio das Artes com orquestra sinfônica, coral de 40 vozes e mais novos cantores, todos de Minas Gerais – Marina Machado, Alda Rezende, Sérgio Santos, Toninho Marra, grupo Tambolelê, que são três, e a Marina Brant, minha sobrinha. A gente apresentou, gravou e agora estamos vendo patrocínio para lançar o disco, pagar orquestra... 

PM - É uma orquestra arregimentada?

FB - É a orquestra do Palácio das Artes, a Sinfônica de Minas Gerais, inclusive com regência do Nelson Ayres. Foi legal demais. Este disco são 22 músicas. Um musical só cantado, que conta história, só com música. Nós vamos refazer esta montagem, mas com um grupo de Barbacena chamado Ponte de Partida, um grupo genial. São atores e cantam pra danar. É mais fácil do que fazer com os cantores porque o pessoal tem sua carreira solo, é mais difícil para voltar a ensaiar. Vamos reestrear em abril no Palácio das Artes, depois vamos para o Rio, São Paulo e Brasília.

PM - E vocês só fizeram aqui?

FB - Só fizemos aqui. A estrutura era enorme, mais de cem pessoas. Agora será menos gente. Agora, o Gilvan (Oliveira) vai cuidar dessa parte dos músicos.

    Agora, vou fazer, inclusive estou atrasado, as letras para o disco de um cara que é considerado o jazzista mais importante da Finlândia. Chama-se Heikki Sarmanto. A história é engraçada. Um dia, um cara me ligou perguntando se o irmão dele poderia me ligar porque ele tinha sido o meu contemporâneo na faculdade. Aí, ele me mandou o disco. A história do irmão dele é a seguinte: ele queria fazer música aqui em Belo Horizonte, mas ele fez Direito e depois não gostou. Foi mexer com negócio do Itamaraty e acabou indo para a Finlândia. Ficou por lá, abanbonou o negócio de música e foi trabalhar em uma grande empresa, mas sempre ligado com essa coisa de Minas Gerais, música.... Ele ficou conhecendo esse Heikki Sarmanto e resolveu fazer ligação Minas-Finlândia. Ele já veio com o projeto meio pronto e queria que eu fizesse a letra e a Cláudia (cantora, de São Paulo), que fez o "Evita", cantasse. Então, eles vêm aqui no final de novembro para gravar, com arranjos do Juarez Moreira. Ele quer pegar a música dele e dar um molho brasileiro. Vai ser Juarez com Neném e esse pessoal daqui. Ele esteve aqui em Belo Horizonte e ficou apaixonado.

PM – Você tem facilidade para compor ou você já compôs mais facilmente?

FB - Acho que agora tenho mais facilidade. Conforme o tempo passa, fico sabendo mais coisas. Tenho muito mais facilidade porque quando comecei, há 30 anos, fui fazer música com o Milton (Nascimento), eu nunca tinha feito nenhuma. Tem épocas que você tem mais facilidade do que em outras. Mas hoje tenho muito mais facilidade, mais domínio. Não faço nada tecnicamente, mas eu sei mais do que eu sabia antes. A gente vai vendo, ouvindo, lendo coisas.

PM – O teu parceiro mais freqüente é o Milton mesmo?

FB - É. E nós não estávamos fazendo estes tempos passados porque ele estava fazendo o "Cronner" e depois com Gilberto Gil. Mas parece que no ano que vem ele está querendo fazer disco com música inédita. tenho feito muito com o Tavinho Moura, a gente mora perto, Yuri Popoff, tenho umas músicas legais com ele e ele tem músicas geniais, Toninho Horta, há puco tempo fiz com o Lô (Borges), Wagner Tiso. Estou fazendo muito com o pessoal novo, Sérgio Santos, Toninho Marra. Pessoal me procura e eu acho legal. Agora, vou fazer uma com o Flávio Venturini. Eu fui para o Rio cantar e ele estava vindo pra cá, por acaso, ele me mandou um CD com uma música e eu vou fazer agora a letra. A gente vive falando que vai fazer e nunca faz. Vai ser a primeira. Como eu fiz também, há pouco tempo, com o Túlio Mourão para o filme do Paulo César Sarraceni.

PM – O pessoal do Clube da Esquina, você compôs com todos?

FB - Todo mundo: Lô, Beto, Nelson Ângelo – com quem eu voltei a fazer agora e que é muito importante; ele fica meio afastado no Rio, apareceu menos, mas é um compositor fantástico –, Wagner, Toninho Horta.

PM – Os letristas do Clube da Esquina são você, o Márcio Borges e o Ronaldo Bastos?

FB - Isso. Eu, Márcio e o Ronaldo.

PM – Gostaria que você relembrasse esse começo da amizade com o Milton.

FB - Conheci o Milton em 1965. Eu estudava no colégio estadual aqui perto (da Savassi). Eu estudava em um outro, que era o ginásio e fui fazer clássico. Era dividido em clássico e científico – clássico era para social e científico, medicina e engenharia. Cheguei e a turma que estudava aqui era um pessoal antenado, que sabia de tudo. Além de estudar lá, tinha que estudar outras coisas, ler. Foi aí que eu descobri mais sobre poesia, cinema, teatro. Em Belo Horizonte era uma ebolição danada. Tinha esse CEC (Centro de Estudo Cinematográfico), fundado em 51. Tinha sessão de cinema, um pessoal que ia fazer cinema. E havia um ponto de encontro em Belo Horizonte, porque não tinha muito estes bares, só botequim. Ou no centro da cidade tinha o Maleta, que é um conjunto onde havia um bar e o pessoal do cinema, teatro, música ia lá. Todas as pessoas ligadas à arte, professores universitários, estudantes iam lá.

    Eu tinha alguns colegas e amigos que já eram amigos do Milton e eles me apresentaram. Ficamos amigos. No começo, só nos encontrávamos para conversar, ele me mostrava as músicas dele, a gente ouvia música, via filme, até que ele foi para São Paulo para defender a música de Baden Powell e tentar a vida. Uma vez, ele me mostrou uma música. A gente já tinha um ano e meio de amizade. Ele mudou pra lá. Uma semana ele vinha pra cá, outra semana eu ia pra lá. Ele me mostrou uma música lá e ficou insistindo para eu fazer a letra. Eu fiz. Agostinho dos Santos pôs no festival e aconteceu.

PM – Era 'Travessia'. Como que essa letra aconteceu?

FB - Foi a primeira letra. Eu conhecia as coisas que ele (Milton) fazia com Márcio Borges, achava fantástico e acompanhava. De letrista, na época, tinha o Vinicius de Moraes, Rui Guerra, que tinha uma parceria muito boa com o Francis Hime e o Edu Lobo, Capinan e o Torquato já tinham aparecido também. Sei lá, eu comecei a fazer. Um dia, eu mostrei e ele falou que estava certo.

PM – Era 'O vendedor de sonho'.

FB - É. Ele tinha contado uma história. Originalmente, a idéia dele era de um cara como se fosse um caixeiro viajante que chegava em cada lugar, fica um tempo e arruma um amor, mas que está sempre indo embora. Um vendedor de sonho. Tanto que a música, antes de começar aquela introdução, ele cantava "Quem quer comprar meu sonho..." Mas quando eu fui fazer a letra, parti para outro caminho. Tanto que ele tirou essa coisa de vendedor de sonho e a gente foi fazer isso 20 anos depois. A gente tem uma música chamada Vendedor de sonho, cantada por ele e Paul Simon. Conta a história de um vendedor de sonho, que, na realidade, é o artista, que vende sonhos para as pessoas.

PM – Como foi quando ela foi para o festival? Você estava lá, não?

FB - Estava lá. Uma emoção muito grande... Maracanazinho. Tem muita coisa de destino e, por causa disso, eu virei letrista. Porque a primeira, Travessia, eu fiz para o meu amigo, a segunda, por exemplo, era outubro, a gente já ia gravar o disco, então tinha aquela responsabilidade.

PM – E o pessoal gostou muito.

FB - Foi fantástico. A música que acabou ganhando era do Guarabira, chamada Margarida, que tinha um refrão de música folclórica ("apareceu a Margarida, olê, olê, olá"), e tinha uma parte do pessoal do Rio. Na hora que anunciaram a Margarida em primeiro lugar e Travessia em segundo, o povo aplaudiu Travessia e vaiou Margarida. A aparição dele (Milton) foi fantástica. Ele tinha três músicas, cantando fantasticamente. E era um tipo de música completamente diferente do que os outros faziam. Era uma novidade total.

    A gente se enturmou de cara. Quando o pessoal fala "Clube da Esquina", é mais um rótulo que foi criado em cima do disco. Mas se for considerar só o Clube da Esquina, não tem só os mineiros, tem que ter o Novelli, que é pernambucano, Joyce, Maurício Maestro, Paulinho Jobim, essas pessoas todas que a gente convivia lá, cariocas e outras. Inclusive, o Clube da Esquina II tem músicas de todo o mundo, desse pessoal todo: Maurício Tabajós, até Chico Buarque, Mercedes Sosa. O Clube da Esquina é uma coisa aberta. O Gonzaguinha também está no Clube da Esquina II. É uma coisa aberta. Tem uma infinidade de músicos no Clube da Esquina II.

PM – Vocês não pensam em voltar a fazer uma coisa juntos?

FB - Eu acho que sim. Talvez a oportunidade será o ano que vem, quando completa 30 anos do Clube da Esquina I. Foi em 72. Esse negócio está sempre rolando, o pessoal fala em fazer show, disco... Seria uma boa idéia.

PM – Você gosta muito de ler poesias, Garcia Lorca, Drummond, Fernando Pessoa. Você acha que isso que te guiou para essa coisa de letrista?

FB - Eu sabia que eu faria alguma coisa ligada a isso, com escrever, cinema, teatro. Eu estava interessado naquilo tudo e absorvendo as coisas. O que me levou especialmente a fazer letra de música, além da minha vontade, foi o Milton ter me chamado para fazer. A gente era amigo, uma hora lá ele me deu uma música, eu fiz e deu certo.

PM – Você estudou Direito?

FB - Estudei Direito, mas mais para participar de faculdade, inclusive aquela agitação de 66 a 70. Esses cursos de Jornalismo, Filosofia ainda estavam muito incipientes. Na realidade, quem não queria fazer Medicina e Engenharia, fazia Direito. Eu convivia lá com o pessoal jornalista, escritor, de teatro, música. Ao invés de estar na aula, estávamos embaixo conversando sobre tudo, cultura, política, o País.

PM - Você também foi repórter?

FB - Começou tudo por causa da música. Em 69 resolvi me mudar para o Rio. Chegando lá, tinha que arrumar um emprego para viver. Um pai de dois amigos nossos, Cláudio e Paulo Guimarães, arrumou um emprego na editora da revista O Cruzeiro. O Bituca tinha acabado de casar. Fui morar em Copacabana (eu, Naná Vasconcelos e Novelli). Ia trabalhar às 6 horas da manhã, pegar o ônibus, andar, andar, andar, descia em frente a estação da Central, atravessava um túnel por quatro dias, depois fiquei sabendo que lá era um perigo, tanto que tinha uma delegacia na entrada do túnel, trabalhei. Era outro esquema. Não tinha nada com Belo Horizonte. Acabava o expediente, pegava o ônibus, andava, andava, andava, chegava pelas 8 e meia da noite em casa, morto. E o Naná e o Novelli estavam começando a se aprontar para sair para encontrar a turma. Eu dizia: não vou, não tô aguentando. Tomava banho e ia dormir. Foram um, dois, três dias. No quarto dia, eu falei: isso é brincadeira. Porque eu ainda ia ter que transferir a faculdade para a noite. No quarto dia eu fui almoçar na casa do pai desses meus amigos e falei com ele sobre a sucursal de Belo Horizonte e ele falou: "Fala para eles que você não conseguiu transferência da faculdade..." Na realidade, tanto a Manchete como O Cruzeiro deviam um favor muito grande a ele, que tinha resolvido um negócio para eles no Ministério da Fazenda de importação de papel. Muito tempo depois eu fui saber que, na realidade, O Cruzeiro estava era mandando gente embora. Chego eu, com quatro dias de serviço, dizendo para o cara que eu estava querendo transferência para a sucursal. Depois também eu fui descobrir que nesse fim-de-semana, o cara do Rio queria demitir metade da sucursal porque estava dando prejuízo. Mas eu vim pra cá e foi uma época boa porque era uma revista semanal e numa sucursal. Você não tem tanto trabalho. Às vezes, eu ia fazer uma matéria longe, podia fazer com calma, observar as coisas, escrever com calma.

    A música Ponta de areia vem de uma matéria que eu fui fazer sobre o fim da estrada de ferro Bahia-Minas, que ligava Araçuaí, Minas Gerais, até Caravelas, Bahia, e a dois quilômetros de Caravelas tem essa cidade, Ponta de Areia, que é rodoviária, só tinha casas. É uma enorme praça, o trem parava lá, tinha oficina e, em volta, a casa dos ferroviários. Eu acabei fazendo esta matéria, um tempo depois o Milton me deu uma música e eu falei: essa aí está com a cara daquilo lá. Então, tem muita coisa que vinha da minha reportagem.

PM – Quanto tempo você ficou como repórter?

FB - Fiquei de 69 até 73/74.

PM – O seu pai é juiz. Como foi com sua família quando você entrou nessa história de fazer música?

FB - Na realidade, no segundo ano de Direito, Travessia aconteceu. Eles já estavam vendo. Você imagina as pessoas que visitavam e iam dormir na casa do meu pai. Eles foram acostumando, viam que as pessoas eram boas. Chegava em casa para almoçar o Ronaldo Bastos, Bituca, não sei mais quem, dormia lá... Lá era uma casa igual a do Marcinho (Borges) porque é casa de muita gente. São 10 filhos. Está sempre uma movimentação danada.

    Eu nasci em Caldas e com quatro anos e meio fui para Diamantina. Meu pai é de Diamantina e minha mâe é de Pitangui. Diamantina é uma coisa fantástica.

PM – Qual sua relação com Diamantina?

FB - Primeiro tem essa coisa de famíla. Segundo, passei uma parte muito boa da infância em Diamantina. Tem esta vantagem porque você volta lá e o miolo é igualzinho, a região é maravilhosa, o povo é alegre pra danar. É um lugar maravilhoso. Eu estive lá agora.

PM - O que estava tendo lá?

FB - É o começo da comemoração do centenário do Juscelino (JK). Em agosto ele faria 99 e, no ano que vem, 100. Eles vão fazer o ano inteiro. 

PM – Você ficou em Caldas até quando?

FB - Antes de cinco anos, porque eu fiz 5 anos em Diamantina. Fiquei até quase 10 anos e vim para Belo Horizonte.

PM - Aqui, você foi secretário de Cultura?

FB - Fui secretário de Cultura, mas por um acidente. Na verdade, eles me chamaram para ser adjunto e não aceitei. Mas fizeram pressão porque era centenário de Belo Horizonte e o pessoal falou para eu ficar pelo menos no centenário. E eu estava mexendo muito com o negócio de direito autoral e de fazer música. E eu falava: "Não tenho tempo pra isso, não". Insistiram, até que respeitaram muito meu espaço e eu fui adjunto. Aí, o que era secretário teve que sair para fazer campanha do PT e pediu para ficar enquanto não voltava. Fiquei um ano e meio. Mas sem cair na burocracia porque eu odeio burocracia.

PM – Qual é o elemento principal para você compor? O que você coloca nas suas músicas?

FB - Tudo. É o que eu vivo. Eu recebo a música, mais de 90% das vezes eu faço a letra depois da música pronta. É assim: o que essa música quer dizer e o que eu posso dizer nessa música? É variado. Uma coisa que eu vivi, vi, li, que está pensando. Raramente, o cara te dá o tema. Se desse, seria muito mais fácil. Ás vezes, o parceiro dá uma dica e é bom, facilita. Por exemplo: Eu trabalhei no juizado de menores aqui e aí tem uma música chamada Roupa Nova, que o Beto Guedes gravou. É minha e do Milton. É a história do "seu" Francisco que fazia café lá. Ele me contou que morava em Ouro Fino e era carregador de mala da estação. Todo dia, às 5 horas da manhã, passava um expresso na estação, mas não parava. Só passava. Ele achava que o dia em que o trem parasse, alguém iria precisar que ele carregasse a mala. Então, todo dia ele acordava cedo e ia lá. O trem passava e ele voltava. E aí eu fiz essa música – Todos os dias, toda a manhã, sorriso aberto...

PM - Bacana essa sensibilidade de observar figuras como essa e colocar numa música, não?

FB -  É. Por exemplo, Ponta de areia é uma coisa que eu vivi, vi aquele negócio. Quer dizer, quando acabaram com a estrada, o que virou, o deserto, aquela coisa Na música, o espaço é pequeno. Você tem que dizer muito e sinteticamente, mas depois que acostuma, é bom, tem que colocar as emoções todas.

PM – Em relação à ditadura, vocês fizeram músicas, por exemplo, 'Sentinela', que é uma música forte que, inclusive, foi usada de fundo numa homenagem ao Frei Tito de Alencar Lima, na ocasião dos 25 anos de sua morte (dominicano que foi vítima de tortura e morreu em 1974).

FB - Tem uma história engraçada dessa música. Ela foi apresentada em São Paulo no fastival de 68. A gente queria que os freis dominicanos cantassem no palco. Eu saí daqui com o telefone do Frei Betto, que era amigo dos amigos do meu irmão, para procurá-lo e acabei não conseguindo porque ele estava preso. Ele ainda não estava preso, mas já estava clandestino. Engraçado que a gente estava justamente atrás deles para cantarem a música.

PM - Vocês iam ferrar ainda mais a vida deles.

FB - Risos. Mas ia ser muito bonito eles cantando.

PM - O Frei Betto escreveu, na época dessa homenagem ao Frei Tito, um texto onde ele conta que o Frei Tito, na França, ouvia muito essas músicas.

FB - Você fazendo a coisa sinceramente e o que está acontecendo com você, está também contando o que está acontecendo com todo o mundo que é seu contemporâneo. Falando de você, está falando do outro também.

PM – Conta um pouco de como você a letra de 'Sentinela'?

FB - Uma das influências foi o "seu" Francisco. Ele era vivo. Eu ficava pensando: se esse cara morre, como é que vai ser? Até o Bituca falou na época: "Você não falou que ia fazer uma música para o "seu" Francisco?" Não era assim. Eu me baseei lá. É como se fosse uma pessoa sábia, que te diz muito e, de repente, morre, diz lá: "Não chora, não. Você precisa amar sua amiga..." Dando um apoio para continuar porque é um velório, mas que na segunda parte diz que você tem que continuar fazendo as coisas. É muito o clima.  Tem uma música que o pessoal vê muito essa coisa de ditadura, foi até a música que transformou a casa do Milton em Embaixada da América Latina, que foi São Vicente. Quer dizer, era um clima da época e não só do Brasil, mas na América inteira. A gente fez muita coisa que não era diretamente, mas que estava refletindo aquilo ali, sem falar em ditadura. Mas está dizendo.

PM – Você teve música censurada?

FB - Eu tive um parceiro, Sirlan, que ficou anos sem fazer disco porque toda letra mandada era censurada. Aí, eu fiz várias com ele e todas passaram. Com o Milton, eu tive no Clube da Esquina I uma chamada Ao Que Vai Nascer, fala que o Brasil é o país do futuro, "meus filhos, meus netos, o futuro está aqui". Como o lema do Médici na época era "Brasil, país do futuro", censuram esta parte. Então, eu mudei dizendo a mesma coisa: Queria falar de uma terra com praias no norte e vinhos no sul. A praia era suja e o vinho vermelho. Vermelho, secou. Acabo a festa, guardo a voz e o violão.
Ou saio por aí, raspando as cores que o mofo aparecer." E passou. Muito mais forte do que estava.

PM - Não tinha lógica.

FB - Não tinha.

PM - Mas quando você fazia as letras, tinha esse cuidado com as palavras para não serem censuradas?

FB - Até que não. Quando eu fazia as letras, eu queria agradar a mim e a meu parceiro. Se você fazer esse negócio de auto-censura, não dava.

PM – Como músico, você teve problema com a ditadura?

FB - O clima do país era muito ruim. Era como se tivesse uma mão enorme em cima da gente, vigiando. Você falava uma coisa, as pessoas diziam "fala baixo..." Foi uma experiência horrível que a gente tem sempre que contá-la para que não se repita. Liberdade, democracia é básico.

PM – Quais os seus poetas preferidos?

FB - Drummond, João Cabral, Fernando Pessoa, Garcia Lorca, Manuel Bandeira, Cecília Meirelles.

PM - E letristas?

FB - Um monte. Primeiro esses da época: Vinícius, Rui Guerra, Torquato, Capinan. Da minha geração, Ronaldo Bastos, Márcio Borges, Murilo Antunes, Paulo César Pinheiro.

PM – Uma música que você gostaria de ter feito?

FB - Tem um monte. Águas de março.

PM – E a história de 'Manoel, o Audaz'?.

FB - Era um jipe Land Rover que eu tinha. Foi o primeiro empréstimo bancário que eu fiz, 500 cruzeiros na Caixa Econômica Estadual. Era um jipe legal, mas bem velho. Tinha uma folga no volante danada.

PM - Só você entendia o carro.

FB - É. Mas aquela história que o Toninho Horta conta no show é tudo mentira (risos). Mas tudo bem. Ele gosta de contar lá aquela história. Vale (risos). Eu andava mais no centro aqui porque o jipe era muito velho. Ele tinha tração nas 4 rodas, era feito para guerra. Eu pegava essas ladeiras, punha em quarta e subia. Só faltava subir em poste. Aí, quando ele me deu a música, eu resolvi fazer. Eu chamei de Manoel, o Audaz por causa de uma brincadeira. Não tem o Dom Manuel, o Venturoso, rei de Portugal? Então, esse aqui é Manoel, o Audaz. Era o nome do jipe. Veio a música e eu falei "isso aqui está com a cara do meu jipe..." Aí contei esse negócio de viajar, sair ao ar livre.