A inspira o que vem do meio das montanhas de Minas

Por Evanize Sydow, de Belo Horizonte

    Caxi Raj o um m sico privilegiado. Para buscar inspira o para compor ele n o precisa mais que olhar pela janela de sua t o bem constru da e decorada casa. Caxi mora em Macacos, a 15 minutos de Belo Horizonte. O lugar extraordin rio, no mais amplo sentido da palavra. Sua casa fica cravada nas montanhas. O cheiro bom. A paisagem encanta pela sua beleza. Verde, de v rios tons. isso o que se v de qualquer ngulo em Macacos. Foi tamb m l que Caxi construiu seu est dio. O nome n o poderia ser outro: Nas Montanhas. um dos mais procurados de Belo Horizonte. Nesse lugar especial, Caxi Raj o falou para a P gina da M sica sobre o in cio de sua carreira, o CD "Viol o Amigo", seu trabalho mais recente, a trilha que est fazendo para o filme "Vinho de Rosas", de Elza Cataldo, que enfoca a mulher no movimento da Inconfid ncia Mineira, al m de seus projetos. 

PM - Voc nasceu em Concei o do Mato Dentro?

CR - quase isso. Setenta quil metros para chegar nisso. Eu nasci no Serro. Meu pai dentista. Ele trabalhava no Serro e quando eu tinha dois anos de idade ele se mudou para Concei o do Mato Dentro, terra da minha m e. Ent o, quando me perguntam "de onde voc ?", eu sempre respondo: "Sou de Concei o do Mato Dentro". "E onde nasceu?". "Nasci no Serro." Concei o minha m e adotiva e Serro minha m e biol gica. S que eu passei a minha inf ncia em Concei o e parte de minha adolesc ncia. E vou muito a Concei o porque meus pais moram l . A minha liga o afetiva com o lugar muito maior do que com o Serro, embora eu tenha um carinho muito especial pelo Serro por v rios motivos. Foi onde eu nasci. uma cidade que me encanta porque muito bonita, tem uma arquitetura colonial. O Serro fazia parte do circuito do ouro. Na poca do Imp rio, tinha Ouro Preto, antiga Vila Rica, e eles levavam o ouro de Diamantina para Ouro Preto e passavam por dois caminhos, Serro e Concei o do Mato Dentro. Da surgiram essas cidades em fun o disso. Seria para descanso das tropas. Serro tem muito casar o antigo. uma cidade pequena, de cerca de 15 mil habitantes.

PM - Voc ficou em Concei o at quando?

CR - Eu tinha 15 anos e me mudei para Belo Horizonte para fazer o cient fico.

PM - Nessa poca, voc n o fazia m sica?

CR - Liga o com m sica, sim, o tempo todo, mas n o profissionalmente. Tinha liga o porque em Concei o uma das coisas que me influenciaram, musicalmente falando, foi o n vel da cidade em rela o m sica. Era at mais do que hoje. A TV hoje abafou um pouco essa hist ria, mas um lugar de muito teatro, festival de can o todo ano tinha , gincana, serenata. E eu sou cercado de uma fam lia muito musical. O meu tio era m sico, ent o, sempre na casa dele tinha sarau. E, claro, eu tinha sempre um interesse enorme em participar daquilo. Fora as festas folcl ricas, como essa de Nossa Senhora do Ros rio. A cidade respira essa coisa musical. Acho que isso tudo me influenciou muito. Tem a coisa de tocar viol o na pracinha com os amigos... Voc aprende a tocar 55 m sicas com 3 acordes.

    Quando eu me mudei para Belo Horizonte, comecei a estudar o cient fico e a minha cabe a j rumou para outras coisas. Mas em 79 eu resolvi levar a m sica um pouco mais a s rio. Entrei para o conservat rio e estudei at 83. Foi crescendo o meu interesse para levar a coisa mais profissionalmente. Quando chegou de 86 para 87, resolvi, realmente, levar de forma profissional. Foi quando larguei a Engenharia e assumi profissionalmente a m sica. Em Belo Horizonte, comecei a tocar para um grupo de choro chamado Sert o do Brasil. Tocava noite com cantoras de Belo Horizonte.

PM - O que te influenciou?

CR - O Clube da Esquina me influenciou, sem d vida alguma, mas n o s . Para voc ter uma id ia, quando eu era adolescente o meu pai sempre gostou muito de m sica tamb m , me lembro do primeiro disco do Chico Buarque, quando ele lan ou compacto simples. Eu deveria ter 12 anos de idade. E meu pai tinha um disco de Tom Jobim orquestrado, maravilhoso. Adolescente, eu gostava de Beatles, Rolling Stones, mas os meninos da minha poca s escutavam isso e eu adorava tocar uma m sica de Tom Jobim. Adorava essas coisas.

PM - Voc se formou em qual curso?

CR - Engenharia civil.

PM - E quando come ou a compor?

CR - Eu diria que comecei a compor logo que eu me profissionalizei. At um pouco antes. Me lembro que teve uma m sica do meu primeiro disco, "Espelho", que eu fiz, se n o me engano, em 84 ou 85. Fiz em homenagem ao Toninho (Horta), que um guitarrista e compositor que sempre admirei muito e a gente sempre tem vontade de fazer composi o para o dolo. Eu tive a honra de ele tocar comigo no disco.

PM - Voc s j se conheciam?

CR - Eu conhecia v rios discos dele. Ele n o me conhecia. Quando fui gravar o meu primeiro disco, entrei em contato com ele, falei do trabalho e ele se disp s a ir e, a partir desse momento, a gente teve uma liga o musical muito forte.

 PM - O Toninho Horta tem esse paralelo com o Clube da Esquina e o Tom Jobim, uma coisa parecida com o que voc est falando.

CR - Sim, sem d vida. O Toninho um grande compositor e se ele ficasse s no Clube da Esquina, n o estaria explorando todo o potencial que tem. O Toninho um cara do mundo.

PM - Al m do Toninho Horta, quem mais te influenciou?

CR - Hoje em dia, eu diria que tenho a minha pr pria personalidade musical, mesmo que tenha escutado v rios artistas. Mas eu escutei muito Toninho Horta, admirava demais Baden Powell, tive minha poca de admirar George Benson, Pat Metheny e por a vai. Na realidade, hoje, ao mesmo tempo em que a minha m sica regional, mineira demais, ela tamb m universal. Nesse meu segundo disco, "Viol o Amigo", com uma grava o dos Marujos eu fiz uma m sica completamente jazz stica. um samba, uma coisa enraizada, mas, ao mesmo tempo, ela tem uma caracter stica de jazz, de improviso, de harmonia, que uma coisa universal, mais ampla. E essas influ ncias, eu diria, s o de todos esses trabalhos que eu escutava ao longo dos meus anos de vida. E n o s Toninho e Baden. Villa-Lobos, Bach, Garoto. Teve uma poca em que eu tocava 12 composi es de Garoto, saia quase todas as m sicas dele.

PM - Quantos CDs voc gravou?

CR - Dois. "Espelho", de 96, e o "Viol o Amigo", de 2000. E tem uma colet nea que eu fiz pelo selo Karmin, de parte dos violonistas de Minas Gerais, j que a gente tem v rios e timos violonistas aqui. Tive o prazer de fazer parte dessa colet nea. Tamb m estavam Gilvan de Oliveira, Juarez Moreira, Beto Lopes, Weber Lopes e Geraldo Viana. S gente boa.

PM - Qual o teu objetivo com a m sica?

CR - M sica para mim vida. Qualidade de vida. Acho que eu n o saberia viver sem ela. Eu sempre estive ligado m sica. Eu nasci m sico. Eu n o me fiz m sico. Eu at agrade o a Deus por ter essa chance. Espero que, se eu tiver que voltar em outra encarna o, eu volte m sico. mesmo com todos os espinhos da profiss o.

PM - Voc exerceu a engenharia?

CR - Exerci. Me formei em 79 e exerci at 83. Foram quatro anos como engenheiro.

PM - E hoje em dia.

CR - Eu uso ainda essa coisa. Porque o m sico, s vezes, se perde em algumas coisas. Quando ele est tocando, est tudo maravilhoso. Na hora em que ele tem que botar o p no ch o para fazer outras coisas, para poder cercar aquilo que ele precisa, s vezes ele se perde. Gra as a Deus, esse problema eu n o tenho. Acho que a coisa da engenharia, da matem tica, da ci ncia exata, do planejamento. Vamos fazer um est dio? Quero fazer direito. enxergar na frente, trabalhar e fazer acontecer.

PM - E como veio essa id ia de montar o est dio Nas Montanhas?

CR - Eu estava com inten o de morar aqui, mas ainda n o tinha condi es financeiras de montar um est dio porque sempre soube que era caro. Quando estava pensando em construir a casa, eu pensei em j planejar um espa o f sico dentro da casa. A princ pio, n o pensei em est dio. lembrei de fazer um espa o embaixo dessa casa porque a arquiteta tinha deixado uma rea. Era uma rea nica para vestu rio, sala de jogos. Depois, pensei: por qu n o para ensaiar? Peguei um arquiteto que especializado em trabalhos com est dio e coloquei esse projeto na m o dele. Pensei: se eu estou fazendo um projeto para um lugar de ensaio, por que n o um projeto para um est dio profissional? mesmo que eu n o tenha condi es de comprar o equipamento hoje, mas no dia em que eu tiver, o espa o j existe. Da surgiu a vontade. Voc acaba mergulhando de cabe a. Investi todas as minhas fichas nessa hist ria de est dio. Quando estava terminando a casa, j comecei a construir isso aqui e j comecei a pensar em vender telefone, apartamento, pedir dinheiro emprestado para o meu pai, financiamento no banco. De repente, j estava rolando tudo.

    O est dio foi inaugurado em 97. Demorei seis meses para construir o est dio, para equipar e tudo.

PM - E quantos CDs voc s j t m?

CR - Quarenta e poucos CDs.

PM - um dos mais procurados est dios de Belo Horizonte, n o?

CR - Sem d vida. um dos mais procurados. Belo Horizonte tem bons est dios, mas tem poucos bons est dios. Tem muitos est dios que s o mais direcionados para o mercado publicit rio, aqueles est dios menores, sala menor, mesa pequena.

PM - Qual a parte mais dif cil numa empreitada como essa?

CR - A m o-de-obra especializada. Foi onde eu mais sofri. Para voc ter uma id ia, para eu comprar equipamento de est dio, fiz uma pesquisa de seis meses. Porque tudo o que eu fa o muito bem planejado. Essa pesquisa de saber o que comprar, rela o custo-benef cio e mesmo depois do est dio montado. Contar com a m o-de-obra especializada para voc ver funcionando e bem o mais complicado.

PM - E onde voc foi buscar essa m o-de-obra?

CR - Em tudo o que foi lugar. S o Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. Li muito, busquei informa o de todo o lado.

PM - Quem trabalha com voc ?

CR - Hemir de Fran a, que, inclusive, t cnico do 14 Bis. Um excelente profissional e est comigo at hoje. N s dois operamos o est dio. De vez em quando, tem dois t cnicos de confian a que trazem clientes para c .

PM - Al m dos CDs, voc s fazem outros trabalhos no est dio?

CR - Fa o, ambora muito menos, n o porque n o queira, mas porque n o procuro muito. Me faz muito mais a cabe a trabalhar com mercado fonogr fico do que publicit rio porque no mercado fonogr fico as pessoas interferem muito pouco na sua obra. No mercado publicit rio, n o. Voc n o tem uma individualidade.

PM - E qual CD voc est produzindo agora?

CR - Estou fazendo a produ o do CD da Festa de Nossa Senhora do Ros rio, do Serro. uma coisa que est me dando muito prazer e est em fase de finaliza o. Entrei, no ano passado, na lei de incentivo e esse projeto foi aprovado. Fiz a grava o e estou na finaliza o da capa. De grava o, estamos, no momento, fazendo a produ o de quatro discos. O Hemir est fazendo do Telo Borges e do Luiz Henrique, guitarrista de Belo Horizonte.

PM - O Viol o Amigo seu CD mais recente. Como foi a escolha do repert rio?

CR - O Viol o Amigo foi meio que um parto. Eu tinha um projeto aprovado pela lei, mas, at ent o, n o tinha um patrocinador. Por eu n o ter um patrocinador, tamb m n o tinha as m sicas compostas. Eu tinha a concep o do projeto. De repente, surgiu patrocinador e a pessoa que arrumou o patrocinador falou que ele queria que o disco fosse lan ado no final do ano. Eu n o tinha uma m sica composta ainda. Me lembro que tinha acabado de chegar da praia. Era final de julho. Quando foi in cio de agosto, a pessoa me liga e fala isso. Foram 2 ou 3 meses para criar as m sicas, fiz arranjos, gravei toda essa produ o. Tem uma trilha que eu fiz para o filme "Vinho de Rosas", de Elza Cataldo, que vai ser rodado no ano que vem e est em fase de pr -produ o. Em 2002 j v o come ar as filmagens. Vou continuar a fazer o resto da trilha original e, como eu estava envolvido com essa coisa de congado e tudo, eu tamb m peguei uma das m sicas e fiz uma composi o em cima estava, na realidade, buscando temas para poder fazer as m sicas. Fiz uma m sica para Macacos, chama Arraial dos Macacos, uma para minha v Zelita, Choro de v , o Tema para Joaquina, que vai estar no filme. Joaquina, filha de Tiradentes.

    Esse filme "Vinho de Rosas" retrata o movimento da Inconfid ncia Mineira, mas numa tica feminina. N o fala de Tiradentes, dos inconfidentes. Fala das mulheres que participaram de uma maneira direta ou indireta da Inconfid ncia. B rbara Heliodora, Mar lia de Dirceu, que foi a grande inspiradora do Tomaz Antonio Gongaza, a pr pria Joaquina, filha do Tiradentes, que foi mandada para a casa de recolhimento com tr s anos de idade Tiradentes ficou com medo de repres lias dos portugueses e mandou para que ela ficasse mais escondida , Ant nia, mulher do Tiradentes, a Maria de Angola, que era escrava do Tiradentes e a filha da Xica da Silva, que era a Quit ria Rita, amante do Padre Rolim. O Padre Rolim e a Quit ria Rita que levaram a Joaquina para essa casa de recolhimento, que fica perto de Santa Luzia e chama-se Mosteiro de Maca . um lugar maravilhoso. Isso tudo foi feito em cima de pesquisa. Fiquei super orgulhoso por ter sido convidado para fazer a trilha. uma m sica do s culo 18, de 200 anos atr s e isso d uma certa apreens o na gente.

PM - E como voc faz isso?

CR - Em cima de pesquisa, de escutar muito. Por exemplo, esse Tema para Joaquina, eu fiz viol o com quarteto de cordas. Tem elementos um pouco misturados, com um pouco do barroco. Porque eu n o vou ficar compondo m sica barroca, n o sou um compositor barroco. Mas, ao mesmo tempo, d para interagir com isso. N o que o filme tenha que ter o tempo todo m sicas de minha autoria. Eu posso pegar trabalhos de pesquisa do s culo 18 e jogar no filme.

PM - Quais s o seus projetos futuros?

CR - A turn do meu show "Viol o Amigo". Eu fiz o disco, mas n o fiz o show. Tenho vontade de fazer algumas cidades, inclusive S o Paulo. Esse projeto j est na comiss o de an lise da Secretaria Estadual de Cultura. Vou ficar torcendo para que seja aprovado e, consequentemente, que tenha patrocinador.

    Eu n o sou dessas pessoas que t m ambi o de ficar gravando um disco por ano. Prefiro fazer de 3 em 3 anos e fazer com vontade e poder mostrar para as pessoas. O "Espelho" eu mostrei bastante. Quero fazer a mesma coisa com esse trabalho.

PM - Voc comp e com facilidade?

CR - Com press o, componho com facilidade. Se eu tiver profissionalmente pressionado a compor, eu componho com facilidade. Componho em cima de trabalhos, projetos que eu tenho que fazer e fa o com prazer.

PM - Ent o, com voc n o funciona essa coisa de inspira o?

CR - Claro que a inspira o vem, aliada a essa necessidade de ter que fazer. Sem inspira o n o sairia absolutamente nada. Mas aquela coisa: "Ah, hoje estou sem fazer nada, deixa eu fazer um choro...", n o. A gente se envolve tanto com v rios trabalhos e acaba que sobra pouco tempo. Eu acho que esse um lado meio rom ntico na minha vida profissional. J tive a minha fase. Mas j fico feliz de conseguir compor para determinado tipo de coisa.

 

Site do Est dio Nas Montanhas: www.nasmontanhas.com.br