Irretocável Jane

Por Evanize Sydow

    Fizéssemos um balanço sobre as principais páginas da música brasileira nas últimas três décadas, certamente chegaríamos ao nome de Jane Duboc. A dona da voz que interpreta com refinamento o cool jazz e a bossa nova no novíssimo "Sweet Lady Jane" (Jam Music) agora está completando 30 anos de carreira. Melhor seria dizer 30 anos de uma corrida veloz. Jane já cantou de tudo. "Percorri caminhos diversos, pop, rock progressivo, jazz e até mesmo música erudita", lembra a artista. Sua carreira começou no Brasil com o instrumentista Egberto Gismonti. Em seguida, ela foi para os Estados Unidos, desenvolveu carreira por lá e voltou ao Brasil em plena ditadura militar. Veio para dar continuidade à sua eclética trajetória musical. Um dos pontos altos dessa caminhada foi o espetáculo que fez ao lado da Filarmônica de Israel, a lendária orquestra do maestro Zubin Mehta, mas sob a batuta de Nelson Ayres e acompanhada por Edu Lobo. O presente de aniversário de Jane este ano chegou antes. Ela, nascida no dia 16 de novembro, já está comemorando a chegada de "Sweet Lady Jane". O CD tem produção de Ivan Lins, arranjos de Rob Mounsey e a participação dos músicos Romero Lubambo (violão e guitarra), Steve Rodby (contrabaixo), Randy Brecker (flugelhorn), Lou Marini (sa-tenor) e Lew Soloff (trompete). Todos estrelas de primeira grandeza. Jane anda sorrindo de orelha a orelha pelos quatro cantos. Ela lembra que é o disco que sempre quis gravar. E para não parar por aí o lançamento acontece no dia 3 de novembro, na Sala São Paulo – luxo só! –, com Jane cantando acompanhada por 30 músicos da Orquestra Jazz Sinfônica, regida por João Maurício Galindo, com direito ao piano de Nelson Ayres – e há a possibilidade da participação de Egberto Gismonti, que assistirá ao show. Depois, ela segue para shows no Rio de Janeiro (Canecão, dia 15), Brasília (Teatro Nacional Cláudio Santoro, dia 23) e Belo Horizonte (Palácio das Artes, 13 de dezembro). Você acompanha abaixo a entrevista que a cantora concedeu a Página da Música

Página da Música - Você está comemorando 30 anos de carreira. Qual é o balanço que você faz de tudo isso? Você está feliz com o que produziu até aqui?

Jane Duboc - Estou muito contente com todo esse percurso, toda essa trajetória musical, que foi muito eclética. Percorri caminhos diversos, pop, rock progressivo, jazz e até mesmo erudito. É gostoso você vivenciar diversos estilos e conviver com pessoas da música de estilos bem diferentes. Comecei profissionalmente, no Brasil, com o grande Egberto Gismonti, que, por sinal, está nos dando a honra de prestigiar o nosso show (dia 3 de novembro, na Sala São Paulo). Ele foi o meu grande mestre, foi quem me colocou nos palcos do Teatro Opinião pela primeira vez, juntamente com Paulo Moura, e também fiz muitas trilhas de cinema com ele, peças teatrais etc. Depois, morei nos Estados Unidos muitos anos, onde tive um encontro que foi, pra mim, muito significativo e gratificante, que foi com Gerry Mulligan, precursor do cool jazz com Miles Davis. Um trabalho que me encheu de alegria porque eu era fã dele quando era criança, morava em Natal (Rio Grande do Norte), meu pai era fanático por jazz e nunca pensei em ser parceira dele. Tem momentos na vida da gente em que temos que agradecer. São premiações mesmo, de você jorrar muito amor e aquele amor volta. Eu sou uma pessoa que se sente muito realizada porque concretizei muitos sonhos e convivi com pessoas das mais diferentes na música, sem preconceito.

PM - Algumas pessoas, especialmente do meio artístico, consideram que você não tem o devido reconhecimento, apesar de ser uma das grandes cantoras brasileiras. Qual é o seu sentimento em relação a isso?

JD - Na verdade, eu me sinto reconhecida, sim. O Hermeto Pascoal sempre me chama quando tem um evento para fazer música nova, especiais de TV ou para gravar um disco. Então, se o Hermeto, que eu considero uma pessoa muito especial na música, me chama, e ao me chamar está dizendo que gosta de mim, me sinto muito recompensada e reconhecida, sim. Assim como ele, outras pessoas de outras áreas que me chamam pra mim é um prêmio.

PM - Quando você começou a pensar neste CD "Sweet Lady Jane"?

JD - Eu fiquei me dedicando nesses últimos três anos à gravadora Jam Music, que eu e o Paulo (Paulo Amorim, empresário e marido de Jane) montamos para abrir espaço para gente nova, pessoas criativas. A gente, realmente, viabilizou algumas carreiras que estão começando e resgatamos o trabalho de algumas pessoas que estavam paradas há mais de oito anos, como Angela Ro Ro e Tunai. A gente se dedicou à pré-produção, produção, mixagem, masterização, escolha de repertório, direção de estúdio, que era no Rio. Nós temos 26 CDs já, em três anos. Eu sempre, de alguma forma, estou envolvida no processo. E as pessoas me escrevendo e dizendo: "Você abandonou a gente, isso não se faz". Eu falei: é verdade. Então, a gente estava aqui no Tom Brasil vendo um show do João Gilberto – quando ele faz show aqui, assistimos todas as noites. Na última noite, comecei a improvisar, fazendo um sketch, uma dinâmica mais jazzística. O Paulo falou "você tem que gravar um disco assim". É o movimento que antecedeu a bossa, o cool jazz, fonte onde bebi muito em função dos meus pais, que ouviam o dia inteirinho música da década de 50 – Count Basie, Benny Goodman... Tenho certeza que João Gilberto, Newton Mendonça, Tom Jobim, (Roberto) Menescal ouviram muito todo esse povo dos Estados Unidos, que começou com esse movimento jazzístico, onde a harmonia era mais complicada, nuances delicadas e sutis, mudanças de melodia e ritmo. Aí a gente falou: podíamos dar um toque na bateria, aquela coisa de supervalorizar os pratos, a escovinha na caixa, mas com repertório brasileiro. Ao mesmo tempo, você trás o Lady Jane, o If it's magic para uma coisa mais bossa novística, misturando essas duas tendências. O Ivan Lins é um produtor do maior gabarito. Ele rearranjou algumas músicas, trazendo para uma coisa mais moderna, que tem a ver com o jazz, mas também com o pop, a MPB. O Ivan imprimiu aquele lado dele de criador de harmonias. Ele é uma pessoa de muita harmonia interna. Só para você ver, foram 12 dias de gravação apenas para um disco cheio de cordas, sopros, participações... Porque ele é uma pessoa tão calma, tão inteira, tão simples que as coisas vão rolando. E ele é muito respeitado lá fora. Foi quem indicou o arranjador, que arregimentou e rearranjou em cima das harmonias dele. Então, eu devo muito a ele, que indicou essas pessoas todas, e ao Paulo, que queria fazer bossa nova, meio cool jazz. Esses dois me levaram e, quando eu vi, já estava no estúdio, gravando, não entendi nada (risos).

PM - Como você chegou ao Ivan Lins para produtor do disco? 

PM - Nós estávamos no Leme, no Rio de Janeiro, num bar, o Sindicato do Chopp, que é em frente à praia, aquela coisa linda, brisa do mar, alegria pura e o Ivan falou do disco que eu fiz com o Sebastião Tapajós chamado "Da Minha Terra". É um CD só com composições dos paraenses, meus amigos lá do norte. Ele disse "esse CD é muito bonito" e elogiou, disse que teve umas idéias e queria conversar com a gente umas coisas... O Paulo disse "já sei, você quer produzir um disco dela?" E o Ivan: "É isso aí, eu quero produzir". Quando eu vi, pensei "eles beberam um pouquinho e estão entusiasmados com a idéia..." (risos). Mas estavam mesmo com muita verdade no coração e se entusiasmaram de verdade e a coisa foi pra frente porque são dois empreendedores, realizadores. Eu só tenho a agradecer.

PM - Como foi o seu trabalho com o arranjador, Rob Mounsey?

JD - A gente teve uma afinidade absurda. Como eu, ele adora jazz e adora pop, tanto que gravou Phil Collins, James Taylor, Madonna, Sinead O'Connor, Sting. É uma pessoa eclética e que curte música acima de tudo, sem essa frescura "isso aqui não". Não, "vamos fazer música que seja verdadeira". Ele me recebeu de braços abertos, curtiu muito o trabalho, virou amigo, a coisa fluía facilmente. Eu adorei ter trabalhado com ele, fomos amigos um do outro. Agradeci ao Ivan por ter conhecido uma pessoa tão bacana, porque eu sabia algumas coisas dele, mas quando cheguei lá e vi um bando de Grammy pelas paredes... (risos).

PM - O repertório é para voz e orquestra...

JD - A gente foi escolhendo na intuição, eu, o Ivan e o Paulo. Eu disse para o Paulo que adoraria gravar Verão, amo essa música, adoro a Rosinha (Rosa Passos). Ele também. Eu disse que gostaria de gravar Pr'um samba, porque é uma música do meu querido Egberto Gismonti que há 30 anos a gente cantava. O Paulo conhecia, cantou a música inteirinha. Muita gente não conhece essa música. O Paulo queria que eu cantasse Por causa de você e Fotografia porque ele diz que a bossa nova eu divido de um jeito todo especial, mais para o jazz. O Ivan me deu duas músicas inéditas e indicou o If it's magic, do Stevie Wonder, Lady Jane, do Mick Jagger. Eu queria cantar uma música do Stevie Wonder porque acho que ele é um dos maiores cantores que eu já vi na vida. Essa letra do If it's magic diz que existe o suficiente na terra para cada um de nós; a letra meio que nos conscientiza, dá uma chacoalhada, "se vocês não cuidarem um do outro, sem essa bobagem de religiões diferentes, raças diferentes, o mundo acaba; o planeta é só aqui". De uma forma sutil e carinhosa, o If it's magic fala da magia que é estar vivo no planeta, mas que a gente tem, sim, que cuidar da criança, deixar que cada um respire o seu ar. É muito legal essa mensagem que o Stevie Wonder passa de uma forma tão suave, mas é muito sério, porque a cada vez que você abre o jornal e vê uma criança na Palestina ferida nos destroços... se a gente não se comover mais com isso, é melhor morrer.

PM - A gente estava falando do repertório para voz e orquestra e você, ao longo de sua carreira, cantou acompanhada por várias orquestras. Pode lembrar um momento que tenha sido mais importante para você?

JD - Fiz uma vez em que o Nelsinho Ayres me convidou para ir até Israel, juntamente com o Edu Lobo. É muito interessante porque o Adeus (Pra dizer adeus) do Edu Lobo, e com letra do Torquato Neto, eu gravei em português e inglês. Lá pra fora vai sair em inglês e aqui em português. Eu cantava essa música nos Estados Unidos nos bares, nas boates. Aí me vi cantando essa música – o Edu Lobo cantava em português e eu em inglês –, regida pelo maestro Nelson Ayres e a orquestra que estava lá era a do Zubin Mehta.

PM - A Filarmônica de Israel.

JD - Exatamente. E o auditório de Tel Aviv lotado de gente que curte música brasileira, com aquelas cordas que te fazem ter a sensação do que é morrer e ir para o céu. O próprio Edu disse que nunca sentiu tamanha emoção e que ficou com um bolo na garganta, a voz nem conseguia sair direito porque é uma coisa tão linda... as cordas choram, sabe? Estão há 30 anos nas mãos do Zubin Mehta. O mais novinho está na orquestra há dez anos. É lindo demais.

PM - O Tom Jobim fez uma música para você?

JD - Fez. Eu gravei com arranjo do Luizinho Eça, ele ao piano, e produção do Rildo Hora. Gravei há 30 anos. O diretor, na época, disse que estava muito rebuscado, com arranjos elaborados demais e resolveu não lançar porque disse que queria que eu gravasse canções para o mundo inteiro, músicas mais simples. Aí me chatiei, fui embora para os Estados Unidos de novo. Tenho essa gravação até hoje. O Rildo Hora tem também.

PM - Como foi a sua ligação com o Tom Jobim?

JD - Ele foi a primeira pessoa que viu meu filho mexer na barriga. Eu devia estar com uns quatro meses. Eu ia à casa dele, gostava demais dele. A coisa mais esquisita foi que no dia em que ele morreu, meu filho pegou os três songbooks do Tom Jobim (do Almir Chediak) e tocou das 8 da noite às 8 da manhã todas as músicas do Jobim.

PM - Você também esteve muito próximo do Raul Seixas, não?

JD - Demais. O meu primeiro compacto foi produzido por ele, Luiz Eça fez os arranjos, Wilson das Neves tocou bateria. O mais engraçado foi que as minhas letras foram vetadas e aí foram dois caras do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) lá na CBS, hoje Sony Music, e disseram "tudo o que você escreveu aí está vetado". Estava tudo em vermelho riscado. Eles falaram: "O que você quis dizer com isso?" Eu, com aquela impetuosidade da juventude, disse: "Se você não entendeu, como é que veta?" Um deles pegou no meu cotovelo e disse "você está muito nova para ir para a cadeia; vai mudar toda essa letra...". Eu pensei "nossa, o negócio é serio". Fiquei tão revoltada que, num gesto de maluquice e rebeldia, disse "vou cantar sem letra". E cantei sem letra. E o Raul, que era meu amigo e doido também, deixou (risos).

PM - Fora esse episódio, você teve outros problemas com a censura nessa época?

JD - Teve essa e depois mais algumas que eles vetaram, mas eu estava mesmo indo embora. O meu ex-marido (Jay Anthony Vaquer) era pacifista e veja que contradição: a gente veio dos Estados Unidos, a terra da democracia, da oportunidade e tal fugindo, porque ele foi convocado para lutar no Vietnã e como nós todos sabemos que aquilo era um genocídio, todo mundo que era jovem e era obrigado a ficar no batalhão de frente morria. Os meus amigos da universidade lá morreram. Ele não tinha condições de matar uma mosca, era contra aquela guerra, uma pessoa politicamente muito informada, e disse "não vou aceitar". A gente veio para o Brasil, veja você, e se refugiou na ditadura. Ficamos aqui, mas tinha aquela paranóia total.

PM - Eu li que você era a fonte de inspiração do Raul Seixas.

JD - É que eu lia muito sobre parapsicologia, discos voadores, na época eu escrevia de uma forma surrealista e ele gostava muito das minhas coisas, sabe? Eu tinha posters do Frank Zappa, aquelas camisas cáqui do Che Guevara e ele começou a absorver muita coisa assim, que era minha e do meu ex-marido. Nós chegamos aqui e éramos dois extraterrestres. Na verdade, hoje tudo vem rápido; com a globalização, no mesmo segundo você vê o que está passando no Japão... Mas nessa fase da minha vida para você falar com os Estados Unidos tinha que pedir e marcar uma semana antes. Mandava um presente para o meu pai por correio e ficava um mês... as coisas demoravam a chegar. Hoje, você usa a mesma calça comprida que nos Estados Unidos estão usando. Quando a gente chegou de jeans, tênis e aquelas roupas coloridas aqui, o meu ex-marido de cabelo comprido, era tudo um choque. Até nos EUA a gente foi enxotado. Fizemos um show no Alabama, com aquela roupa de hippie e os caipiras foram com espingarda "saiam da nossa cidade" e a gente saindo voando... E eu lá no meio, uma pessoa vinda da Amazônia. Era muito louco porque eu cantava num lugar chamado O Cogumelo Elétrico e o povo usava ácido, fumava maconha pra caramba, a gente cantava heavy metal do Led Zeppelin... Sabe que a madrinha do meu filho hoje, minha amiga paraense, foi passar um tempo lá e foi a esse lugar. Eu estava vestida de cobra e cantando, gritando... Ela começou a chorar sentada no chão e falava "você ficou louca". E eu "não, eu não bebo nada, só estou ganhando o meu dinheiro honestamente" (risos). Loucura! Outro dia, o meu baterista dessa época esteve aqui, sabe? A gente lembrando dessas coisas e ria... (muitos risos).

PM - Imaginar que você depois cantaria com a Filarmônica de Israel (risos)...

JD - (risos) A gente tem que absorver o melhor de cada situação. Essas coisas a gente aprende, eu acho, quando você é pequeno e observa o exemplo de pai e mãe. Eu tive uma sorte danada de ter caído naquele lar. A minha mãe, até hoje, é a pessoa mais moderna que eu já vi na vida. Ela não julga ninguém, aceita as pessoas como são, não tem essa história de analisar ninguém. Você tem a obrigação de tentar ser pelo menos parecida. Cada um tem a sua razão. Não invadindo o nosso espaço e nem prejudicando está tudo certo.

PM - Obrigada pela entrevista.

 

Jane Duboc e Orquestra - "Sweet Lady Jane"

 

3 de novembro, às 19h

Sala São Paulo - Praça Júlio Prestes, s/n, Centro, São Paulo

Tel (11) 3337-5414

R$ 12,00 a R$ 24,00

 

15 de novembro

Canecão - Av. Venceslau Brás, 215, Botafogo, Rio de Janeiro

Tel (21) 2543-1241

 

23 de novembro

Teatro Nacional Cláudio Santoro - Setor Cultural Norte, Via N2, Brasília

Tel (61) 325-6240

 

13 de dezembro

Palácio das Artes - Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, Belo Horizonte

Tel (31) 3237-7399

 

Para adquirir "Sweet Lady Jane": Tel 0800-234425