André
Mehmari - "Canto"
André Mehmari é um verdadeiro prisma musical. Tudo que
atravessa sua alma vira som. Passou a ser mais conhecido a partir do primeiro
lugar que dividiu com o contrabaixista Célio Barros na primeira versão
instrumental do Prêmio Visa, em 1998. Mehmari, embora seja mais identificado
como pianista – foi assim que conquistou esse prêmio – vai muito além
desse instrumento. Neste CD, lançado pelo Núcleo Contemporâneo, ele toca
simplesmente 14 instrumentos, compondo, arranjando e dando vida própria, muito
própria, às 11 faixas do trabalho. O CD chama-se "Canto". O
multiinstrumentista também usa a voz no CD, mas a idéia é ainda mais
abrangente quando o músico lembra que "o canto é a expressão lírica da
alma". O disco inicia com Prelúdio (Esperança), onde já se escuta
também a voz de André, além de piano, viola, violão de aço, flauta, sinth e
percussão. Como diz o próprio artista, o disco não seria possível sem o uso
da tecnologia. Lembra ainda que é um processo moderno, de gravação
não-linear. A segunda faixa é Canto primeiro, mais um show de
tonalidades musicais e virtuosismo. O CD segue com a única composição que
não é de autoria de André no disco. Trata-se da inspiradíssima Cais,
de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. Mehmari cria bastante e livremente sobre
o tema numa faixa que dura quase dez minutos. Ele utiliza-se de 11 instrumentos,
ou recursos, já que tem um sampler também. E por falar em recursos, num
determinado momento, de piano acústico solo, ouve-se chiados, como se
estivéssemos ouvindo um disco antigo. A faixa termina quase em sinfonia,
incluindo também aí um vocalise de André. A quarta canção é Valsa
romântica, que André fez a partir do poema "Letra para uma valsa
romântica", de Manuel Bandeira. Quem interpreta os versos é o cantor
Tiago Pinheiro. Adiante com o sempre alto astral do chorinho. André compôs e
interpreta Choro da contínua amizade, tocando instrumentos como
cavaquinho, clarinete, viola caipira, acordeon e surdo, entre outros, junto com
um pandeiro sampleado, tocado por Renato Martins. Depois vem Canção sem
palavras com harmonias mais delicadas e sutis. A seguir André criou sobre a
música Mulé Rendera (ou Mulher Rendeira) um tema popular nordestino que
leva a fama de ter sido feita por Lampião. Na oportunidade em que foi incluída
no premiado filme "O Cangaceiro", de Lima Barreto, o tema foi adaptado
pelo compositor Zé do Norte, nome que consta no encarte do CD. Depois vem Miniatura,
quase uma vinheta de 50 segundos, seguida de Canto das gerais, com mais
vocalises, ou melhor, cantos de Mehmari. Ecos de voz, piano e baixo elétrico,
sinth, bateria, tamborim e guitarra. A penúltima faixa é Choro turco,
música que traz vários outros climas, além do chorinho propriamente dito. O
CD termina inspirado com Farewell. Embora no encarte indique somente 11
faixas, atento, porque tem uma espécie de bônus track, uma décima segunda
faixa bem generosa. Assim como é generosa a sonoridade e virtuosidade desse que
é mais um gênio musical brasileiro! Lançamento Núcleo Contemporâneo. Tel.
(11) 3873-1386 ou www.nucleo.art.br.
(Por Sérgio
Fogaça)
Chico
Lobo - "Viola Caipira"
Mais que um CD, esse trabalho é fruto da obstinação do
violeiro Chico Lobo. Como ele mesmo diz no encarte, "ser violeiro não é
só tocar viola, mas conhecer, entender, respeitar e viver as tradições, os
causos e as crenças". E é isso o que ele faz, como um músico dedicado
integralmente à cultura da viola. Este já é seu quinto disco de carreira. Aí
estão composições próprias, em sua maioria, incluindo parcerias, canções
de domínio público e participações especiais de quem ele considera seus
verdadeiros mestres, como seu pai, Aldo Lobo, seresteiro de São João Del Rei,
sua cidade natal. O CD começa como que anunciando o que está por vir. Boa
nova, de Chico Lobo, é regada de tradições da viola, tanto na letra, como
nos instrumentos usados. Entre eles estão a viola, claro, além de rabecas e
percussão. Depois vem Pescador, também só de Chico, música que
descreve a vida desse trabalhador. Agora é a vez de Coração de brasileiro,
de Chico Lobo e Cláudio Araújo, que também participa da faixa tocando viola e
dividindo os vocais com Chico. Depois vem Meu lugar, só de Chico, onde
ele descreve uma casa de caboclo, um ambiente bucólico e de boa amizade. A
quinta faixa é uma vinheta de domínio público, com Dr. Zé Maria e Tião
Medonho, violeiros de uma família de 26 catireiros já na quarta geração: o
Grupo de Catira Pedro Pedrinho. E por falar em catira, a sexta canção começa
com seus passos e acordes na viola, além das palmas mais para frente. A música
é Sonho de violeiro, de Chico Lobo e Jorge Fernando dos Santos. A
participação especial fica justamente por conta do Grupo de Catira Pedro
Pedrinho. Chico Lobo não deixa de lado sua abrangência musical e lembra a
origem lusitana da viola em Ibérica, tema instrumental de sua própria
autoria. Com ele na viola e Rogério Delayon na guitarra portuguesa. Agora segue
com mais uma música de domínio público. Lundus foi adaptada por Chico
e recolhida por Carlinhos Ferreira, da Folia de Reis do mestre Wilson, em Sete
Lagoas. Adiante com a participação de um dos mestres da viola que
influenciaram Chico Lobo. A música é Folia de São Gonçalo, o santo
protetor dos violeiros. Nada mais oportuno, não?! A décima foi composta por
Chico. Nas voltas do mundo tem o autor como intérprete, só, acompanhado
de sua viola. Depois vem Chico Lobo apresentando gente nova. Trata-se de Rodrigo
Delage, que fez Na ponta da zagaia e interpreta aqui com sua viola
caipira. Segue com mais um grande momento do CD. Talvez o mais emocionante
quando Chico Lobo divide os vocais com seu pai, Aldo Lobo, em Saudade
Matadeira, de Chico Lobo também. Adiante com Cheiro de viola, de
José Maria de Souza, com mais uma participação especial, desta vez da
Orquestra Mineira de Violas. Agora, uma vinheta chamada Vinheta fim de capina,
com Sô Nelson Jacó e Folia RGR. A bonita canção Nossa senhora dos
pescadores, de Chico Lobo, encerra o CD. Um verdadeiro tratado sobre a viola
caipira. Viva São Gonçalo, o santo padroeiro da viola, abençoe esse filho
pródigo! Lançamento Kuarup. Adquira o CD pela parceria Página da Música
- Gravadora Kuarup: clique na capa do disco e entre diretamente no site da
gravadora. (Por Sérgio
Fogaça)
Germano
Mathias -
"Talento de Bamba"
Demorou. Finalmente sai o primeiro registro em CD do grande
sambista paulista Germano Mathias. Se é que samba tem nacionalidade. Enfim,
"Talento de Bamba" é obra-prima do intérprete do samba sincopado
sobre músicas de um só compositor, o também paulista Elzo Augusto. Germano
vem de longe em sua carreira. São 47 anos desde que ganhou um concurso de
talentos da rádio Tupi, em 1955. O Catedrático do Samba, como ficou conhecido,
começa o CD justamente respondendo já sobre a "nacionalidade" do
samba que mencionei. O refrão de Produto brasileiro diz: "o samba
não é paulista/carioca, baiano ou mineiro/ele é filho de sambista/é produto
brasileiro.../ele só tem moradia/na filosofia do compositor". E tenha
dito! Sem deixar a cadência cair, o trabalho segue com Samba de periferia.
Bela homenagem onde comenta sobre o samba vir da periferia, mas... que também
tem rico que escuta, de uísque na mão e tudo. Samba sincopado também ama,
então, a terceira faixa é Paixão bumerangue. Depois vem Só por
causa da viola seguida de São Paulo mãe-madrinha. Este, quase um
samba exaltação à capital. Cita vários bairros e personalidades da cidade. A
sexta canção é Validade vencida com um belo violão de sete cordas
tocado por Israel Almeida. Aliás, junto com Germano no CD, como não poderia
deixar de ser, estão craques do samba. Além de Israel, também seu irmão
Isaias, no bandolim, Arnaldo Galdino, no violão, cavaquinho e arranjos, Rodrigo
y Castro, na flauta, Emerson Tomás e Urso, no banjo, Bocato (Cacique
Cantareira), no trombone, Mário Machado, no clarinete, Gringo, no baixo,
Oswaldinho e Julio Cezar, nos ritmos, além de Orfea, Daniele e Dedê, nas
palmas e coro. Adiante com Filho de pai-de-santo onde Germano, como
sempre, se diverte cantando. Termina num gostoso samba-de-roda. A oitava é Ela,
seguida de Costela predileta, onde o compositor homenageia o poeta,
lembrando que os versos existem principalmente quando há amor por alguém. E
por falar... a décima faixa é Amor perfeito. Além de homenagear Elzo
Augusto, cantando 14 de seus sambas neste CD, ambos ainda homenageiam Jamelão
através da canção De saruê a Jamelão. Segundo o próprio Germano,
são mais de 40 anos de amizade entre os três. Aí a música pediu e a
estrutura lembra um belo samba-enredo. A décima segunda é Pega leve.
Aqui, Germano empunha no início da música sua latinha de graxa como
instrumento de percussão, outra de suas marcas registradas. Ela é símbolo do
samba que o intérprete aprendeu com os engraxates na Praça da Sé. A
penúltima canção é O melhor desta vida, lembrando que "o meu
samba vem dizer/que o melhor desta vida/é cantar". E é cantando que
Germano encerra com a não menos paulista Bandeira do timão. Samba São
Paulo! Lançamento Atração Fonográfica. Tel. (11) 3872-3553, www.atracao.com.br
ou atracao@atracao.com.br. (Por Sérgio
Fogaça)
Hânia
Ribeiro
- "Por Todos os Sentidos"
A delicadeza da poesia de Hânia Ribeiro ganhou, pela primeira
vez, um contorno musical. "Por todos os sentidos" é a primeira
experiência de registrar seus poemas musicalmente sob a batuta e arranjos de
Gabriel Levy. O repertório vem do segundo livro da poetisa, que leva o mesmo
nome do CD. São 14 faixas, sendo cinco feitas em parceria com outros autores,
além de convidados especiais. A experiência musical de Hânia não começou
aqui. Ela já participou de festivais estudantis no Rio de Janeiro, compôs
trilhas sonoras para peças teatrais em São Paulo e foi integrante do grupo
vocal feminino Sophisticated Ladies, que interpreta temas de jazz dos anos 30 e
40. O CD abre com Dimensão, de Hânia em parceria com Regina Machado.
Harmonia e integração total entre música e letra. Os versos navegam na
estrutura musical. Já para Intuitivo, só de Hânia, foi escolhido um
reggae maneiro para "seguir o canto do intuitivo", como diz a própria
letra. O CD tem sonoridade eclética mesmo. A terceira faixa é Tocado,
também só de Hânia, e o som que acompanha é pop. Em seguida, temos as
participações especiais de Mário Beltrame, no bandolim, e Arnaldinho do
Cavaco, no violão de 7 cordas. A música, ou melhor, o belo choro, como já
indicam as participações, chama-se Por falar, de Hânia Ribeiro e
Mário Beltrame. Depois vem Tato e Tapete mágico, ambas só de
Hânia. Músicas de sonoridade mais suave, como pedem os versos. A sétima
canção é Por todos os sentidos, também só de Hânia e faixa título
do CD e livro da autora. O diretor musical e arranjador do disco, Gabriel Levy,
aparece aqui também dividindo a autoria da canção Narcisista com
Hânia. Harmonias e interpretações sensíveis. O trabalho segue com Volta
pra ser e a deliciosa Sobremesa. Esta última, um xote que combina
bem com o bom astral da "hora do almoço...", como está na letra. Intuição,
a próxima canção, é de Hânia Ribeiro e Marcos Coin. Bela flauta de João
Poleto. A décima segunda é Assassinato em si, de Kitty Pereira e Hânia,
com a participação de Kitty no koto. O arranjo remete às canções orientais.
Super legal. Quero mais, de Hânia, é a penúltima canção seguida de Nova
estação, também só de Hânia, que fecha o trabalho. Delicadeza poética
e integração musical. Lançamento Independente. Tel. (11) 3758-9180 ou haniaribeiro@bol.com.br.
(Por Sérgio Fogaça)
Renato
Anesi - "Rosa dos Tempos"
Renato Anesi conhece as cordas como ninguém. Além de
multinstrumentista virtuoso, possuiu oficina de luteria, onde aprendeu e ensinou
sobre corpo e alma dos violões. Nasceu no Rio de Janeiro e cresceu ouvindo Noel
Rosa, Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Foi do Corda Coral, excelente trio de
cordas em que a maioria das músicas interpretadas em CD homônimo já era de
Anesi. Foi duas vezes à Europa e na segunda gravou um CD com o guitarrista
espanhol José L. Montóm, reforçando sua influência pela música flamenca.
Junte tudo isso ao instrumentista ser da geração do bom rock, que também
escutou jazz e blues. Ou seja, o cara é um verdadeiro "babel" das
cordas. Agora Anesi lança "Rosa dos Tempos". Como ele mesmo diz no
encarte, o CD "mostra o movimento de uma música que caminha no planeta
pelo tempo...". E não encaixar a música de Anesi num só balaio rítmico
é um grande favor que o ouvinte pode fazer a si mesmo. O negócio é escutar. A
viagem pelos ritmos do CD começa com a suingada (ou chorada) Bloco de
laboratório. Junto com ele na faixa estão Zeli, no baixo elétrico, e
Marcos Ribeiro, no violão de nylon. Anesi toca aqui violão tenor, cavaco e
bandolim. Seguindo viagem, o CD desembarca em Pernambuco. Com os mesmos
instrumentistas e acréscimo de Beto Sodré na percussão. O nome da música
até dá uma pista do que se pode escutar, mas não só, claro. Que tem um
triângulo, tem. A terceira é Quem tem dó?, seguida de Trilegal,
continuando um certo passeio pelo Brasil, já que essa é uma expressão
sulista. Belo arranjo de cordas. Aliás, vale lembrar que além de todas as
músicas compostas no CD serem de Anesi, também os arranjos foram feitos por
ele. Depois vem Pra ninar, com Renato tocando requinto, além de
bandolim. Outra coisa legal do encarte são as fotos de violões, viola, cavaco
e bandolim com seus respectivos nomes. Lá pode-se acompanhar, por exemplo, como
é o requinto. A sexta canção chama-se Abraço, onde Anesi mostra bem
sua virtuosidade. Adiante tem Verdes ondas, interpretada com uma viola de
dez cordas, além de cavaco, baixo e violão de aço. A oitava música é Antigas
cidades que transmite até uma certa tranqüilidade que o tema pede. Segue
com Juan de la frontera que leva mesmo um toque de flamenco. Forró da
madrugada antecede a última canção do disco chamada Pantaneira.
Mais um lugar visitado em música por Anesi encerrando esta viagem sonora do
compositor. Um show de cordas e musicalidade! Lançamento Pôr do Som. www.pordosom.com.br,
contato@pordosom.com.br ou tel.
(11) 3031-7546. (Por Sérgio
Fogaça)
Revista
do Samba - "Revista do Samba"
O trio Revista do Samba existe desde 1999, formado em São Paulo. Desde então, vem apresentando seu consistente repertório baseado em sambas clássicos feitos, principalmente, entre as décadas de 30 e 60. A única exceção fica por conta do pai de todos os sambas, justamente a canção Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida (até segunda ordem), registrado em 1917. Quando digo que o trio traz clássicos do samba não estou brincando. Eles interpretam desde Lata d’água, passando por A voz do morro e Leva meu samba, até Três apitos, entre outros todos que estão já no nosso inconsciente. Sem brincadeira, o trio arrasa nas interpretações. Letícia Coura canta e toca cavaquinho, Beto Bianchi vai de violão e voz, enquanto Vitor da Trindade passeia – sambando mesmo – nos instrumentos de percussão. O CD começa justamente com cada um chegando e se apresentando à sua maneira. Primeiro o pandeiro preciso de Vitor, seguido da voz de Letícia e os acordes de violão de Beto, na – aqui – vinheta de Coisas nossas, de Noel Rosa. Os três, então, entram pra valer juntos na segunda faixa: Lata d’água, de Luís Antonio e J. Júnior. Depois as vozes se juntam, a capela no início, para apresentar Atire a primeira pedra, da saudosa dupla Ataulfo Alves e Mário Lago. Segue com o trio investindo numa certa manemolência que eles descobriram em Me deixa em paz, de Monsueto Menezes e Ayrton Amorim. Na mosca! Sobe o cavaco e o andamento. Agora é a vez da música De conversa em conversa, de Lúcio Alves e Haroldo Barbosa. Além do cavaquinho, violão e voz, a faixa ainda vai de cuíca tocada por Vitor. A sexta faixa traz Zé Kéti na lendária A voz do morro. O arranjo é absolutamente criativo e festivo. Com a voz, o violão e o pandeiro bem marcadinhos do trio juntam-se tamborins, caixa, surdo e repinique. O curioso são os nomes dos integrantes dessa bateria: Dietrich Kolöfell, Cristoph Renner, Susanne Klein e Volker Conrath. A tempo. O CD foi gravado no estúdio do selo Traumton, em Berlim. Desfeita a charada. Adiante e... Leva meu samba, de Ataulfo Alves vai seguindo na "avenida" do CD, seguido dele, o pai de todos. Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida, na verdade, é tido como primeiro samba, mas ainda ninguém conseguiu provar. Historiadores já conseguiram registrar gravações anteriores que foram reconhecidas como samba. Para não ficar só no falatório há registros de um samba chamado Viola está magoada, de Catulo da Paixão Cearense, entre vários outros. Mas, voltando ao belo CD, este sim, de veracidade sambística absoluta, a nona faixa é Por causa de você, yoyô, de Assis Valente. Letícia canta super bem e tem um tempero fundamental para interpretar certos sambas: bom humor. O final é hilário. Agora um mar de palmas anuncia a maravilha de O sol nascerá, de Cartola e Elton Medeiros. É navegar e cantar em águas calmas e resplandecentes com eles. Simbora com O samba e o tango, composição de Amado Régis, de 1937, que tasca um tanguinho mesmo no meio da composição. A décima segunda canção é Tic tac do meu coração, de Alcyr Pires Vermelho e Walfredo Silva, seguida de Não vou pra casa, de Antonio Almeida e Roberto Roberti. Nada como um Adoniran Barbosa. O trio escolheu Apaga o fogo Mané, composição de 1960. O CD despede-se com a doce Três apitos, de Noel Rosa. Inicia com a voz de Letícia apoiada da marimba de Harald Kündgen, para depois entrar a percussão de Vitor e o violão de Beto. O samba agradece! Lançamento Traumton Records: www.traumton.de. (Por Sérgio Fogaça)
Rodrigo
Sater - "Rodrigo Sater"
Este é o primeiro CD de Rodrigo Sater. Isso mesmo, ele é irmão do há muito consagrado Almir Sater. Mesmo que tenha personalidade própria, Rodrigo também traz nos arranjos e músicas uma sonoridade autêntica de sua terra natal, Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, ou seja, uma espécie de folk brasileiro. A proximidade com o Pantanal pode explicar muita coisa. Já na primeira faixa pode-se sentir essa sonoridade. Uma pra estrada, de Geraldo Roca, revela ainda o consistente violão de Rodrigo, que também compôs metade das canções do CD. Ou em parceria, no caso das músicas com letra, ou temas instrumentais que compôs sozinho. A seguir, vem uma parceria de Rodrigo com o irmão Almir, além de Paulo Simões. A música é Te amo em sonhos. Vale aqui também destacar o arranjo que traz a suavidade do piano de Luiz Lopes. Nos demais instrumentos estão, para se ter uma idéia, Sizão Machado, no baixo, Edu Ribeiro, na bateria, Proveta, no clarinete, além de Rodrigo no violão e voz. Segue com o tema romântico, Noites deverão nos verão, que Rodrigo fez em companhia de Jean Garfunkel, que também participou dos vocais na primeira música. A quarta é Sortilégios, de Rodrigo e Paulo Simões. Bonita canção que passeia por lendas e mundos imaginários. Depois vem Ordem natural das coisas, também de Paulo Simões, desta vez em parceria com Guilherme Rondon. Outra de sonoridade entre o folk e o sertanejo. Agora vem o primeiro tema instrumental composto só por Rodrigo. A música é Envido. E ele sempre bem acompanhado de excelentes instrumentistas. Nesta e também em outras faixas, está presente Dinho Nascimento, na percussão. Destaque também para o sax de Felipela Moglia. Depois vem Em verdade, de Rodrigo e Paulo Simões, seguida de outro tema instrumental feito só por Rodrigo. A música é Passagem e traz o autor só, ao violão de 12 cordas. A nona música é Espelho d’água, de Almir Sater e Renato Teixeira. Os contemporâneos que representam a boa música rural brasileira. Almir também participa da faixa cantando e tocando violão de 12 cordas e charango. A décima é Mal melhor, de Rodrigo Teixeira, com uma levada mais pop onde os arranjos de cordas de Toninho Porto conjuga cello e violino com baixo e violão. Pulsante. A penúltima é um trabalho de comunhão entre amigos e parentes. Irmãos da lua, de Renato Teixeira, traz Giselle Sater dividindo os vocais com Rodrigo, além de Almir Sater, no violão de 12 cordas e viola. Trabalho inspirado. O CD encerra com Vilarejo. Bonito tema instrumental de Rodrigo, que escolheu o som puro e solo de seu violão para fechar o trabalho. Autêntico som do sul do Mato Grosso. Lançamento Velas/Caravelas. Distribuição Sony Music - Tel. 0800-234425. (Por Sérgio Fogaça)
Siba
- "Fuloresta do Samba"
Nunca tanto, como nos últimos tempos, o Brasil vem se redescobrindo musicalmente como agora. Isso não é uma novidade, exatamente, mas oportuno para falar deste trabalho de Siba. "Fuloresta do Samba" é seu primeiro CD solo. Fruto mais que saboroso de um intenso trabalho que o músico desenvolve há anos na cidade de Nazaré da Mata, Zona da Mata de Pernambuco, distante 60 quilômetros da capital. Importante lembrar que Siba é integrante da excelente banda Mestre Ambrósio, que esta comemorando dez anos de carreira. Mesmo assim, tempos atrás, o músico mudou-se de São Paulo para Nazaré da Mata. Lá ele vem explorando novas possibilidades estéticas para a ciranda e para o maracatu. Ou como ele mesmo diz no encarte do disco: "Fuloresta do Samba é nossa tentativa de interferir no presente, reverenciando o passado e projetando o futuro". Das 14 canções do CD, 11 são de sua autoria, uma de domínio público e duas com outros compositores. E são esses compositores que estão em companhia de Siba, trocando experiências e produzindo juntos. Um estúdio de gravação foi montado no engenho de Lagoa Dantas, em Nazaré, onde o CD foi parcialmente gravado. Isso garantiu grande autenticidade na captação das músicas, que também inclui sons ambientes. O título do disco é a música que abre esse trabalho. Só para se ter uma idéia, a estrutura musical dessa e quase todas as faixas é composta de percussão, trombone, trompetes e vozes. Como já foi dito, ciranda e maracatu, dois ritmos irresistíveis para corpo ou alma dançarem. A segunda faixa é Bringa, também de Siba, seguida de Caluanda. Na verdade, às vezes, uma música é quase que emendada na outra. Nesta última, além da voz, Siba também toca sua rabeca. Depois, lembrando a ambientação a que tinha me referido, a música Trincheira da fuloresta tem rojões e vozes na introdução. Uma festa mesmo. Segue com a hipnótica Suinã, com uma bela instrumentação. Depois vem Soldado de aldeia/Barra do dia, de Siba e Biu Roque, que também canta na faixa. Além dele, outros mestres e músicos tem presença fundamental no CD. Estão aí Mané Roque, no mineiro e coro, Maurício Muniz, no bombo, Manoel Martins, na póica, Galego, no trombone, Dyogenes Santos, no trombone e Roberto Manoel, também trombone. A sétima faixa é Bonina, com as participações de Dona Dulce e Dona Biu, da Ciranda de Baracho. Agora, mais uma parceria de Siba, desta vez com Barachinha, que também canta aqui. A música é Meu rio de samba. A seguir, vem uma canção de domínio público. Maria, minha Maria, traz Biu Roque no vocal. Sete-estrelo é a décima canção seguida de Vale do Jucá, com destaque para o violão de Beto Villares e a participação de Maciel Salu no vocal. Ele é rabequeiro, compositor, mestre de maracatu e filho de Mestre Salustiano. Depois vem Poeta sambador. Bela homenagem de Siba à inspiração poética. A penúltima é Tempo, seguida de Terra de reis, que Siba fez sobre melodia tradicional. Trabalho fundamental e histórico. Pernambuco na veia! Lançamento Terreiro Discos. Tel.: (11) 3862-8781. E-mail: terreirodiscos@uol.com.br. (Por Sérgio Fogaça)