Uma tarde em Xer m

Por Alexandre Pavan, do Rio de Janeiro

    " pessoal do bar! Vamos liberar a cerveja que a turma est muito desanimada." Do fundo do barrac o, copo de bebida numa m o, microfone na outra, quem berrava era Zeca Pagodinho. Foi a primeira coisa que ouvi assim que cheguei a Xer m (a 1h hora de carro do Rio de Janeiro), para o churrasco-coletiva do lan amento do CD Quintal do Pagodinho (Universal, R$ 20 em m dia).

    Mas o partideiro estava mentindo. Ali n o tinha ningu m desanimado. Imprensa e convidados (umas 200 pessoas ao todo) se divertiam, e muito, com a m sica. O disco motivo da farra re ne 15 sambistas que est o sendo "apadrinhados" por Zeca. N o quer dizer que sejam novatos ou principiantes na arte s o puxadores de escolas de samba, compositores de can es que fizeram sucesso na voz de outros artistas, enfim, gente que est na lida h muito tempo mas cujos nomes nunca tiveram grande destaque.

    E cerveja vontade. No fundo do sal o, frente de uma mesa de ritmistas, Zeca n o cantava, s agitava. E, um a um, ia chamando seus "apadrinhados" para que eles cantassem Otac lio da Mangueira, Bidubi, Alamir, Jorge Macarr o, Dunga, Barberinho do Jacarezinho, Luiz Grande, Efson, Rixxah, Z Roberto, Carlos Roberto da Mangueira, Mauri o, Luizinho Toblow, Wilson das Neves e Leandro Di Menor. Todos freq entam as famosas rodas-de-samba que acontecem no Jaqueir o um terreno pr ximo m tica casa de Pagodinho em Xer m. Zeca teve a id ia de junt -los em um CD e a gravadora comprou a id ia. um trabalho de primeira.

    Deles, s Wilson das Neves (um dos grandes bateristas do Brasil) e Dunga t m discos-solo. Das Neves escolheu gravar Essa pra quem bebe, com versos de Paulo C sar Pinheiro ("Tens aumento de glicose, risco de cirrose/ Tu podes pifar/ E a mulher que est contigo/ A mo ada quer levar, a , meu caro amigo/ Que mora o perigo da testa se enfeitar"); e Dunga registrou o partido Samba elegante, feito em parceria com Roque Ferreira ("Eu bebi da fonte/ Meu samba elegante, o cavaco garante/ N o sei como foi que tu teve o desplante/ De taxar meu verso de principiante/ Culpado fui eu que te amei o bastante").

    E mais cerveja. E Zeca agitando, incans vel, batendo palma, ensinando como se marca o tempo do partido alto com as m os. Pagodinho querido. Se a festa dele, todos v o dos integrantes dos grupos de pagode da moda aos mestres consagrados de nossa m sica popular, Nana Caymmi, Luis Carlos da Vila e Herm nio Bello de Carvalho. Herm nio, em seu recente livreto-depoimento, lan ado pelo Museu da Imagem e do Som do Rio, escreveu: "Zeca Pagodinho um dos melhores seres humanos que j conheci em minha vida."

    Xer m, munic pio humilde, entrou na rota da m sica popular brasileira por sua causa. E de l ningu m o tira. Mesmo para gravar ou fazer shows um sacrif cio. Apesar do sucesso, cada vez mais Zeca se ancora na cidade. No terreno de sua casa, ele recentemente criou uma escolinha de m sica para os meninos do lugar. E ao lado montou um consult rio dent rio para atender a comunidade. O dinheiro sai de seu bolso.

    Herm nio, que o conhece h anos, sabe do que est falando quando elogia Pagodinho. Talentoso, com ele n o tem essa de "estrelismo". Generoso, empresta sua imagem para promover os amigos. Todos os 15 do disco, no churrasco, cantaram seus sambas, e Zeca s os anunciava e aplaudia. Quando a m sica ao vivo terminou, l pelas tr s da tarde, Pagodinho atendeu os jornalistas, um a um, e sumiu.

    Como a tarefa estava cumprida e os convidados se mostravam vontade na sua Xer m, ent o ele j podia tirar sua soneca. E foi o que fez. Coisa de quem n o sabe fazer sala, sabe fazer samba.

 

Alexandre Pavan, jornalista, colunista de m sica da revista "Educa o" e co-autor do livro "Populares & Eruditos" (Ed. Inven o)