A harmonia da guerreira Laura Finocchiaro
Por Evanize Sydow
A gaúcha Laura Finocchiaro nasceu no dia 7 de abril de 1962. É ariana com ascendente em capricórnio, gosta de dizer. Seu sorriso largo, a simpatia e a delicadeza com que trata as pessoas convivem com uma garra imensa, fruto de alegrias e golpes que a vida já lhe deu. Um deles, talvez o maior e mais recente, foi a perda da irmã e instrumentista Lory Finocchiaro, vitimada pela Aids. Laura, cantora, compositora e guitarrista, participou do Rock in Rio 2, abrindo o show de Prince, Santana e Alceu Valença. É pioneira na fusão da música eletrônica com a acústica no Brasil e tem mais de 300 músicas compostas em seus 22 anos de carreira. Estas já foram cantadas por vozes como Jane Duboc, Edson Cordeiro, Ney Matogrosso e Cazuza, com quem a artista dividiu a autoria de Tudo é amor. Nesta entrevista concedida à Página da Música ao final do show de lançamento da Campanha Natal Sem Fome, Laura faz um panorama sobre o seu momento atual, que enfoca um belo trabalho com mantras de cura, lançado no Sesc Pompéia em setembro passado e que emocionou a platéia presente, o começo de sua carreira, a parceria com Cazuza e o sentido da música e da vida.
Página da Música - Como você entrou para a música?
Laura Finocchiaro - Estudo música desde os nove anos de idade. Tive uma irmã, que já faleceu, chamada Lory F., que também foi roqueira e compositora. A gente conseguiu lançar um CD com músicas dela antes de sua morte e eu tive sorte porque ela foi minha guia, minha luz. Eu lembro que, pequenininhas, a gente ia para a aula de violão juntas, de mãos dadas.
PM - Ela era mais velha que você?
LF - Era mais velha que eu. E ela desistiu, virou auto-didata, e eu segui com professores. Então, a minha formação foi violão popular, depois passei a estudar Teoria Musical, Canto e Solfejo, sempre com professores particulares. Eu nunca pensei que seria uma artista. Como uma boa ariana, eu era muito ligada a esportes. A minha infância e a minha adolescência foram muito ligadas a esportes e à música, que era uma particularidade que eu levava comigo. Minha mãe me botava muito para cantar nas festas, nos almoços com amigos e quando tinha reunião de adolescentes quem cantava era eu, com o violão. Mas nunca pensei que ia seguir a carreira.
Acontece que em 78 ou 79, num desses encontros de adolescentes, a gente estava numa praia paradisíaca em Santa Catarina e lá, enquanto eu cantava, tinha um compositor profissional gaúcho na roda, Carlinhos Hartrib, e ele me ouviu cantando. Passou o evento, ele me ligou e perguntou se eu toparia fazer backing vocal para ele num show que ia ser num teatro super importante em Porto Alegre. Levei um susto. Não imaginava essa coisa. Em 79 eu tinha 17 anos. Subi no palco com ele, fiz o show, em seguida veio um outro compositor, também do Rio Grande do Sul, chamado Leo Ferlauto, que também me convidou e, de novo, fui para o palco fazer backing. A essa altura, eu já estava compondo, porque eu tive um encontro com uma grande poeta, Leca Machado. Ela tinha poesias, eu comecei a ler, aquilo me motivou e passei a compor. Esse primeiro trabalho que eu fiz com a Leca acho que chegou em 200 composições. É um trabalho muito sutil. Como eu estava em fase de muito estudo, as músicas são diferentes, não fazem parte de um padrão, são muito elaboradas e as letras também.
Com esse trabalho eu vim para São Paulo. Compreendo que no início da minha carreira era difícil para as pessoas entenderem a minha música porque era fora do padrão comercial.
PM - Como você chegou em São Paulo?
LF - Passei a fazer show em 79. Já em 82 eu montei o meu show. Tive muita mídia em Porto Alegre porque eu era a única mulher guitarrista lá. A minha imagem era essa, na guitarra. Os jornais deram muito espaço e era inusitado também uma mulher compositora, produtora, arranjadora. Eu era líder do trabalho. Fiz muito show em Porto Alegre. Nesse mesmo ano, já me inscrevi em festivais. Meu trabalho foi selecionado em um festival em São Paulo. Eles davam som, luz e divulgação. Não davam passagem, alimentação e nem hospedagem. Fiz um show em Porto Alegre para arrecadar fundos, trouxe os músicos e apresentei o trabalho aqui. Lembro que eu dividi o palco com os Titãs. Na época eles chamavam Titãs do Iê-Iê-Iê. Foram dois finais de semana lotados.
No final dessa temporada, eu já tinha muito convite para fazer outras apresentações e muitos amigos. O pessoal do Lira Paulistana me convidou para fazer o show que ia acontecer em maio, "Mulheres de Maio". Eu pensei: não vou ter condições de voltar para Porto Alegre porque vou ter que bancar passagem etc. Nessa ocasião eu fazia faculdade de Educação Física lá e aí, como uma boa ariana, impulsiva, liguei para a minha mãe e falei "não vou mais voltar, vou ficar". Estou em São Paulo há 22 anos.
PM - E ela?
LF - Ela teve um treco, mas, a essa altura, o meu pai já tinha falecido e quem sempre foi mais rigoroso era ele; minha mãe sempre deu muita liberdade pra gente e nos respeitava. Ela ficou chocada pelo fato de eu estar abrindo mão da faculdade.
Fiquei na cara e na coragem. Com uma mala, um saco de sonhos. Não sabia que o mercado fonográfico era tão sujo. Não sabia que a cultura do Brasil não estava interessada em arte e sim em comércio. Eu tinha a ilusão de que bastava ter talento para conseguir um espaço. E agora, 22 anos depois dessa trajetória, posso perceber que é um jogo, política. Eu tenho muita crítica aos artistas brasileiros. Acho que eles "abriram as pernas" muito facilmente para o sucesso, esse sucesso Rede Globo, Jovem Pan. Eles querem dinheiro e fama e fazem qualquer coisa pelo sucesso. Acho que o nível da música está muito baixo. O nível cultural é muito baixo porque os artistas têm que ter mais dignidade. A arte, hoje, para mim, é um símbolo de transformação. Qualquer manifestação artística. É por isso que eu me vinculo a vários movimentos sociais. Porque isso traz um sentido para a minha carreira. E paralelo a isso, para sobreviver, eu componho trilhas para desfiles de moda, curta e longa metragem, publicidade e sou professora. Dou aulas para a terceira idade, para crianças de 2 a 5 anos e adolescentes. Para esse grupo de terceira idade estou dando aula na Universidade Livre de Música. Para as crianças e os adolescentes é numa escola particular.
Quando comecei a me movimentar nesse sentido de perceber que o mercado estava muito corrompido – eu nunca consegui uma gravadora nesses anos que bancasse o meu trabalho e me lançasse de uma forma profissional e sofri muito com isso –, pensei: preciso encontrar outra saída; não é possível que seja só isso. Nesse tempo, a minha irmã Lory F. faleceu, vítima de Aids. Isso mexeu muito comigo. Com o meu lado humano. Comecei a perceber que a gente está numa época em que não tem mais tempo para mentira. Comecei a me expor. E me tornei voluntária em hospitais para pacientes de Aids. Isso foi me levando a trabalhar nesses movimentos, até que fui contratada por uma ONG (organização não-governamental) chamada Arte Despertar, e passei a cantar dentro da quimioterapia do Instituto Onco-Pediátrico e no Incor, para as crianças pacientes, durante dois anos. Isso me transformou como artista. Transformou a minha música, a minha atitude. Eu saí dessa ilusão, dessa educação americana que a gente tem aqui no Brasil, da pretensão absurda, em que o artista fica distante do público. Isso me ensinou a estar perto do público e de sentir que o trabalho só faz sentido se você tiver essa troca, como ser humano mesmo. Isso foi em 99.
PM - E você continua?
LF - Eu parei esse ano porque do início do mês de março a julho fiquei em cartaz com o grupo de teatro de bonecos XPTO, tocando guitarra ao vivo no espetáculo deles. Coincidia os horários. Mas, paralelo a isso, surgiu um convite para fazer o CD dos mantras, que também funciona como uma doação e eu pensava: posso não estar no hospital, mas vou criar um trabalho que vai ser útil.
O CD chama-se "Tashi Delê - Mantras de Roda". Em 98, em função dessa história da minha busca por um novo caminho na música, eu tive um convite da Bel Cesar, que é quem administra o centro budista onde eu fui parar por causa da morte da minha irmã – aquela morte foi muito dolorida e eu não conseguia aceitar. Aprendi com o Lama Gangchen Rimpoche, que é o meu guru – ele mora na Itália, nasceu no Tibet e revelou uma sabedoria milenar chamada auto-cura –, passei a encarar a morte de uma outra forma. Isso me deu força. Quando você passa a encarar a morte de uma outra forma, começa a viver de outra forma. Em 98, eu já freqüentava esse centro. Não sou uma pessoa disciplinada, não posso dizer que sou budista, mas venho freqüentando e lendo sobre a filosofia desde 94. Então, já tenho intimidade com esse assunto.
Em 98, a Bel Cesar me convidou para cantar no lançamento de um livro do Lama Gangchen Rimpoche sobre auto-cura. Falei: "Mas vou cantar o quê?" A minha música popular não tinha muito a ver com esse assunto. Aí tive a idéia, porque são muito musicais as práticas. Perguntei se eu poderia musicar alguns mantras. São mantras milenares. A gente conversou com o Lama Gangchen, que deu as bênçãos e eu pude criar melodias e arranjos para esses mantras milenares.
PM - Quanto tempo você levou fazendo?
LF - Cerca de um mês. E os arranjos foram todos compostos no cavaquinho. Depois eu fui descobrir que a afinação do cavaquinho é a mesma da cítara, só que a cítara tem uma nota a mais, o lá. No final, vi que o cavaquinho é totalmente mântrico. Escrevi para flauta, percussão e violoncelo. O primeiro show foi numa formação pequena, flauta, violoncelo, cavaquinho e percussão. Apresentamos em 98 e foi uma comoção. Ao mesmo tempo, eu estava lançando o meu CD "Ecoglitter", que também foi uma produção independente que eu licenciei para o selo Dabliú. "Ecoglitter" já era uma palavra inventada, quando eu já estava na viagem do budismo e se baseia nos cinco elementos: espaço, água, terra, fogo e ar. "Ecoglitter", na minha cabeça, significava a possibilidade de a gente viver num mundo urbano, "glitter", e "eco" de ecologia, natureza. Esse CD foi todo dedicado à minha irmã porque ela já tinha falecido.
No final de 2000, a Bel me ligou de novo falando que o Lama Gangchen ia lançar outro livro e para a gente fazer de novo o show. Foi na Fnac. Nessa altura, a Bel também já tinha escrito um livro, "Viagem interior ao Tibet". Aumentei a formação para essa apresentação, coloquei teclado, percussão brasileira, feita pelo Teo Ponciano, e percussão oriental e cítara, feitas pelo Marcus Santurys.
PM - Que é o máximo.
LF - Que é o máximo. Mais cavaquinho, os sopros tocados pelo Mario Afonso, que é um grande cara, e os teclados feitos pelo José Luiz Zambianchi, irmão do Kiko Zambianchi, co-produtor do CD comigo. A gente fez a apresentação e foi mais comoção ainda. A Fnac teve o recorde de vendas. Eles venderam 600 livros naquela noite.
Quando terminou, a Bel falou "tu vai ter que gravar". Fiquei tentando, durante seis meses, uma gravadora e ninguém se interessava. Falavam que era muito louco porque não era nem new age, nem MPB.
PM - Sempre precisa de um rótulo...
LF - É. Falei para a Bel: acho que não vai dar. E ela disse que eles bancariam. O Centro de Dharma bancou esse CD. Fiz toda a direção, arranjos, uma produção elerônica. Os músicos tocaram sobre essa base eletrônica. Tive a co-produção do José Luiz Zambiamchi e do Teo Ponciano, e o Mario Afonso e o Marcus Santurys que colaboraram.
Estou tendo uma resposta muito boa com esse trabalho. Ele realmente atinge e tem essa bênção de cura. É muito forte. Fizemos o lançamento em setembro, no Sesc Pompéia. Foi uma coisa... O show se propõe a integrar o público com o artista. A minha idéia era: quero que as pessoas experimentem na prática o que faz um mantra. Tive a honra de estar com esses músicos no palco, Roberto Angerosa, que é um grande percussionista, tocou também, e o Taketededrum, grupo de percussão. Foi catarse.
Eu acredito que o mundo mudou, que a nossa atitude tem de olhar horizontalmente. Todos somos irmãos e a gente só pode transformar a nossa vida se tiver bom para todo mundo porque é interdependência. Tudo depende de tudo.
Outra coisa paralela, que venho desenvolvendo desde 94, é esse movimento gay. Já fui, inclusive, taxada de "Musa GLS".
PM - E o que você acha disso?
LF - Acho uma pena que taxem. Quando fui lançar o Ecoglitter, teve uma gravadora que me procurou porque queria me lançar como "a cantora lésbica", sabe? Acabou não rolando. Acho uma pena os rótulos porque me perguntam "você é lésbica?" A minha posição é aquela de quem tem a capacidade de amar. Posso amar uma mulher ou um homem. Estou aberta para isso. Só que as pessoas não acreditam, querem rotular. Acham: "fala que é bissexual porque está com medo de assumir". No meu caso, não. Estou aberta para o amor. Estou numa relação muito profunda com uma mulher há muitos anos, mas isso não quer dizer que eu não ame homens, que eu não tenha essa capacidade ou intenção. É uma pena porque a sociedade rotula. Bota tudo em armários, em prateleiras. É isso o que faz o fanatismo, a guerra, a violência.
Me lembro que, na primeira Parada Gay, éramos 500. A gente cantando, embaixo de chuva. De 500 foi para 7 mil, 30mil, 120 mil e a última com 270 mil pessoas. No ano passado, cantei Pavão misterioso. Foi a música que marcou a Parada de 2000. E nesse ano eu compus com o Glauco Mattoso e Roberto Firmino o Hino à diversidade. Lançamos o CD com ele e tive a oportunidade de ter, nessa gravação, a participação do Edson Cordeiro, a filha do Itamar Assumpção, Chico César, botei drag queen, uma travesti, além de cantores novos. Essa música está rodando o mundo.
Acredito que nossa atitude tem que mudar. O mundo mudou. O artista tem que se comunicar. Do contrário, não faz sentido. Acho que a luz no fim do túnel é a internet porque aí dá espaço para todo o mundo. É uma coisa mais democrática.
PM - Você tem uma parceria com o Cazuza, não?
LF - Tenho. Chama Tudo é amor. Essa música é dos anos 80, quando eu fiz muito show em São Paulo e tive a oportunidade de conhecer a Patrícia Casé, divulgadora, irmã da Regina, e ela era muito amiga do Cazuza. O Cazuza veio para São Paulo numa ocasião e me viu tocando no Madame Satã, que era um porão – aliás, nessa época, o rótulo que me deram era "Rainha do umderground paulistano" porque em todo underground estava eu lá fazendo show e sempre irreverente, com a guitarra, falando o que eu pensava. O Cazuza viu e ficou impressionado com o meu trabalho. Falou para a Patrícia que tinha adorado. Ela me falou para fazer uma música para ele. Eu fiz e a Patrícia levou. Não deu uma semana, ele ligou: "Nossa, que música maravilhosa. Estou escrevendo a letra, aliás, já está pronta". Eu mandei duas músicas. A outra era lenta, romântica, e ele falou: "Para a outra música estou fazendo uma letra super romântica que fala das putas de Copacabana". Infelizmente, essa letra eu nunca vi. Ele não teve oportunidade de me passar. Mas Tudo é amor veio. É o único artista para quem eu tiro o meu chapéu porque ele tinha irreverência suficiente para olhar para um artista ao lado – na classe artística não tem companheirismo, amizade, é muito ego. O Cazuza não. Ele me viu, me enxergou, me botou no disco dele. Vendeu 750 mil cópias esse disco. O Ney Matogrosso, que nessa ocasião dirigiu o Cazuza, também gravou.
Quando minha irmã adoeceu, era muito caro o medicamento, AZT. Quem me ajudou a segurar a onda foi a mãe do Cazuza, a Lucinha Araújo.
PM - Você comentou que era a única guitarrista em Porto Alegre, uma cidade que tem fama de machista. Como foi para você?
LF - Era uma loucura. Acho que por isso eu não voltei. Eles não aceitavam. Aliás, a minha irmã mais velha tocava baixo. Eu e ela detonávamos aquela cidade. Ela faleceu e minha irmã mais nova agora é atriz, detona lá também, e está passando a tocar. Quer dizer, Porto Alegre não tem sossego da família Finocchiaro. Mas eu sentia isso até em São Paulo. Canso de chegar e os técnicos nem te olham. Eles acham que tu não entende. Só que eu fiz curso de áudio, estudo música até hoje. Fui aluna do Instituto de Áudio e Vídeo. Até hoje tem machistas. Só que estou menos briguenta.
CD "Tashi Delê - Mantras de Roda" - Laura Finocchiaro

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