A valoriza o da palavra

"Selo de Artista" traz neste m s uma entrevista com o compositor J.C. Costa Netto, que fala da valoriza o dos letristas, novos ou consagrados, entre v rios outros temas, dentro da Dabli Discos.

Por S rgio Foga a

    Inaugurada h sete anos por quem conhece bem o valor da palavra, a gravadora Dabli fruto de um abnegado da can o. Jos Carlos Costa Netto advogado especializado em direitos autorais, produtor cultural e letrista. De sua pena j brotaram can es como Verde e Paulista, ambas em parceria com Eduardo Gudin. A primeira revelou a cantora Leila Pinheiro e a segunda ajudou ainda mais na consagra o de V nia Bastos. O trabalho de garimpar novos talentos nunca foi novidade para Costa Netto. Esse exatamente o seu trabalho frente a gravadora. Por l , j passaram nomes importantes da m sica brasileira como Luiz Tatit, Vicente Barreto, N Ozzetti, Madan, Celso Vi fora, Suzana Salles e Jorge Mautner, entre uma infinidade de outros nomes, sem nunca perder a qualidade. At agora j foram lan ados 96 t tulos. Segundo o pr prio Costa Netto, o grande diferencial de sua gravadora s o as letras de boa qualidade. Nesta entrevista que o compositor concedeu P gina da M sica, ele fala sobre a hist ria do selo, mercado, artistas e a palavra, sempre ela...

 

P gina da M sica - Como e quando come ou o selo Dabli ?

Costa Netto - Na verdade, vou puxar um pouco para tr s, antes efetivamente de come ar o selo, porque uma coisa que coincide tamb m com a minha atua o em outro mercado. Desde 1978, depois de cursar p s-gradua o na USP, eu exer o duas fun es. Como advogado de direitos autorais e como compositor. Antes eu fazia letra e m sica, mas depois fui me especializando mais especificamente em fazer letra. Meu primeiro parceiro musical foi o Paulinho Nogueira. Minha primeira m sica gravada foi em 1979, parceria minha e dele, que ele mesmo gravou num disco. A m sica chamava No dia seguinte. Tamb m teve uma segunda m sica, Jornada para ser ningu m. Eu fiz a letra e ele a m sica. Isso significou efetivamente o meu come o como compositor. Ao mesmo tempo, tamb m em 79, fui convidado pelo ministro Eduardo Portela, ministro considerado de esquerda no governo Jo o Figueiredo, para ser presidente do Conselho Nacional do Direito Autoral. Durante tr s anos e meio morei em Bras lia exercendo essa fun o. Pelo menos cheguei a fazer algumas reformula es interessante na rea. Em 1983 voltei para S o Paulo exercendo minha atividade como advogado em direitos autorais e continuando minha carreira de autor. Nesse per odo eu j tinha uma rela o de amizade recente com o (Eduardo) Gudin. No per odo da campanha das elei es diretas, a gente fez a m sica Verde. Da , muita gente j sabe, em 85 escrevemos a m sica no Festival da Globo e ela acabou revelando a cantora Leila Pinheiro. Essa foi a m sica minha que ficou mais conhecida. Em 88 aconteceram outras grava es importantes de outras composi es minhas, como Paulista, com a V nia Bastos, e Morena, com a (Maria) Beth nia. Nesse momento eu comecei a me dedicar bastante como letrista. Paralelamente, como eu tinha ficado com um nome muito forte na rea de direitos autorais, como advogado, eu acabei montando escrit rio em S o Paulo e tamb m no Rio de Janeiro, exercendo advocacia nessa rea de direitos autorais. Atrav s do conselho, adquiri tanto conhecimento que me permitiu ser advogado de todos os grandes artistas da MPB. Desde Milton Nascimento, Maria Beth nia, Gal Costa, Djavan, Legi o Urbana, Paralamas do Sucesso e Lob o, entre outros. Chegou uma poca que eu advogava cerca de 60 grandes estrelas da MPB, mas tamb m n o fazia mais nada da vida. Isso absorvia totalmente meu tempo. Quando voc chega numa linha de artistas mais conhecidos, existe muita demanda, trabalho e aten o. Por outro lado, continuava com minha fun o de autor. Hoje em dia eu tenho mais ou menos umas 100 m sicas gravadas. O fato que enquanto eu estava representando esses artistas que estavam por tr s de grandes companhias de disco, estava come ando a haver uma invers o da quest o de qualidade, para um lado, vamos dizer, da potencialidade de com rcio imediato do artista. Ent o, claro, esses eram artistas que tinham um passado de vendas e os contratos eram mais caros. A lucratividade n o era de imediato, ela demorava um pouco para chegar. Mas nada se comparava a um artista, vamos dizer, da moda, para o qual voc gasta pouco no disco e planeja um aparato comercial, fazendo com que ele estoure. Em dois ou tr s meses se conseguia, s vezes, um milh o de c pias vendidas. Foi quando come ou esses fen menos comerciais. Nesse momento, as gravadoras que ainda n o faziam a coisa de forma t o violenta come aram realmente a baixar o n vel da m sica brasileira, para que eles tivessem maior apelo comercial e resultados imediatos com rela o grana. Eu comecei a ter dificuldades que eu n o tinha antes na negocia o desses grandes artistas.

PM - Isso j era final dos anos 80?

CN - . Isso era final dos 80 e in cio da d cada de 90. Fui sentindo que, mais at do que essa quest o comercial, que a m sica brasileira estava indo para o buraco. Porque se voc n o tem o apoio dessas estruturas que levam a m sica nacional e internacionalmente para a produ o de qualidade, a tend ncia realmente de acontecer um empobrecimento geral. Como eu era compositor e irrequieto, comecei a pensar em fazer uma a o diferenciada nesse campo. Foi nesse momento que surgiu a id ia de criar um selo de m sica. Essa oportunidade foi criada num contexto onde tinha a presen a da Warner, cujo presidente era o Andr Midani, e outros executivos tamb m bem sens veis com rela o a m sica, como o Beto Boaventura e o Rossini, da Continental. Eles deram essa abertura de se criar alguns selos em que artistas ou produtores culturais pudessem ser os titulares. Eles tamb m sentiam que precisava haver uma retomada dessa qualidade. Pelo menos no momento acreditou-se nisso. Dessa forma se criou, de uma vez s , os selos Banguela, em que os Tit s eram os titulares e eu inclusive fazia a coordena o do selo, a MZA, do Mazola, um produtor importante da MPB, a Dubas, do Ronaldo Bastos, e a Dabli Discos. Acho que basicamente esses quatro.

PM - Como eram esses selos com rela o a Warner? Eram agregados gravadora?

CN - Eram selos independentes com os quais a Warner, vamos dizer, fazia parceria. A Warner tinha alguma prioridade de contrata o, por exemplo, se a banda vingasse. Mas a id ia era realmente transferir essa parte de cria o, produ o e planejamento para os artistas.

PM - De alguma forma eles admitiam que estavam pensando num novo formato que permitisse mais liberdade na hora da cria o.

CN - Isso s poderia ter surgido de uma cabe a de um Andr Midani, por exemplo, que desde os anos 60 e 70 era o presidente da Philips e da PolyGram. Ele investiu no melhor que a m sica brasileira trouxe. Ele tinha essa vis o. A Tropic lia toda emergiu com ele frente dessa parte de gravadoras. Ele era um que tinha essa vis o naquele momento. Era um mercado que abria, mas um pouco isolado. Isso por volta de 1994. O projeto e as pessoas envolvidas eram legais, mas acabou sendo uma iniciativa um pouco isolada no contexto do que vinha acontecendo. O que eu estava falando era da massifica o comercial das r dios e nas lojas. Um processo que j era muito devorador na poca. Mesmo com uma multinacional dando suporte, era dif cil que um projeto desses pudesse quebrar o que j estava se instalando.

PM - Engra ado, isso parece at a hist ria da abertura pol tica do pa s, em 1979. Quer dizer, houve abertura, mas ainda era dif cil se manifestar de fato porque tinha um "mercado" por tr s. Mas a gente pode dizer que a Dabli come ou em 1994?

CN - Exatamente. Junto com Banguela, MZA e Dubas. Quer dizer, existiam dificuldades, os selos precisavam tamb m de algum investimento. Depois de um ano, a Warner viu que isso, naquele contexto, era invi vel economicamente. Pelo menos ela entendeu assim. Os Tit s tinham lan ado o Raimundos, que foi absorvido pela Warner. Na ocasi o, os Tit s abriram tamb m outro selo, chamado Excelente, e foram para a Universal, antiga PolyGram. A MZA tamb m saiu. E a Dabli , nessa oportunidade, tamb m saiu para um projeto com uma distribuidora independente aqui de S o Paulo, chamada JHO, dirigida pelo Yasuo Ono, um cara conhecedor da rea, que criou uma distribuidora independente. E a Dubas foi a nica que permaneceu na Warner, mas sem muita diversidade de lan amento. Hoje em dia n o est mais.

PM - Aconteceu ent o uma transi o de um processo e cada um pegou o seu caminho? Esse movimento, nessa poca, parece pioneiro quando pelo menos comparamos o n mero de selos independentes hoje em dia. Isso verdade?

CN - N o absolutamente pioneiro, porque j existiam os m sicos independentes desde os final dos anos 70. Mas por outro lado existia uma inquieta o pelo n vel da condu o das coisas pelas grandes companhias. Para fazer uma coisa assim bem equilibrada, as grandes gravadoras n o deixaram de lan ar produtos excelentes de artistas consagrados na MPB. E uma vez ou outra arriscaram um projeto isolado de um ou outro artista de qualidade, menos conhecido. Mas de qualquer forma foram iniciativas que acabaram sendo meio isoladas dentro de um contexto realmente comercial e imediatista, que assolou os meios de comunica o e a ind stria. De qualquer forma, nessa poca, a Warner come ou realmente um movimento dentro das gravadoras. Embora tenham algumas iniciativas anteriores. A Kuarup, por exemplo, a Elenco, do Alo sio de Oliveira, quer dizer, cada um tem sua hist ria de nascimento. Aos poucos as gravadoras v o adquirindo sua personalidade. Essa a diferen a das gravadoras independentes, do grande mercado de gravadoras. Elas t m uma inquieta o art stica a cumprir. Como acontece com a Elenco e a Kuarup, que possuem inquieta es art sticas. A Banguela tem outra, a Dubas tem outra e assim por diante.

PM - Significa que aquele tipo de neg cio poderia ser movido por uma for a mais aut ntica?

CN - O que as grandes gravadoras alegam que autenticidade mercado puro. O que o consumidor quer o que eles v o dar. E n o oferecer alguma coisa para ele experimentar, alguma coisa que talvez seja melhor. Isso desenvolver os neg cios atrav s de uma lei de mercado, que muito forte, a partir de uma linha americana de pensamento. voc dar ao povo exatamente o que ele quer. Ent o, o objetivo o dinheiro, o financeiro. Os outros projetos n o, s o mais sutis. Inclusive projetos que t m conte do bel ssimo, mas s o dif ceis de chegar ao p blico. De repente a coisa come a a vingar ou n o. Hoje se tem cerca de 400 selos, mais ou menos.

PM - Quatrocentos? Em geral ou independentes?

CN - Independentes, no Brasil. Foi um movimento mesmo que come ou como uma bola de neve mais ou menos nessa poca. N o que tenha sido nossa a o que desencadeou isso, mas era um momento de inquieta o, al m da somat ria do conhecimento que eu tive, e que as pessoas tiveram. No meu caso porque eu estava l , nos bastidores da hist ria, negociando os contratos de grandes artistas e via que realmente a coisa estava se fechando para a qualidade. Sempre lembrando da exce o dos grandes artistas que j tinham um passado de vendas. Nesses, os investimentos continuavam porque tinham a lucratividade projetada. Mas para renovar isso era dif cil. Hoje existe um leque de selos. Com essa abertura, s vezes parece que muitos est o fazendo a mesma coisa. Mas se olhar bem, cada um tem um diferencial.

PM - Qual o diferencial da Dabli ? Existe um conceito, uma linha de estilo?

CN - No geral as pessoas percebem que MPB, que tem umas descobertas diferentes, e s vezes tem at tem uma linha que vai para o pop, mas um pop de qualidade. Mas f cil perceber, como se fosse um movimento que sempre tem um artista por tr s. s perceber o que aquele autor ou artista faz. A partir das caracter sticas dele voc vai perceber um id ia da vertente do ser. A minha preocupa o, se voc olhar bem, com a letra.

PM - N o por acaso, certo?

CN - Exato. o que sempre me apaixonou. um selo onde as pessoas est o mesmo por uma quest o de paix o, por a gente querer dar espa o e se apaixonar por projetos que te digam alguma coisa naquilo que realmente te toca mais. Por exemplo, quando chega o Luiz Tatit, que nunca tinha feito um disco solo. Ele tinha discos com o Rumo mas n o tinha um disco solo. S o fato de n s realizarmos o primeiro disco solo do Luiz Tatit j justificaria o selo. E tem inclusive uma hist ria muito interessante. Quando est vamos conversando a respeito, ele disse que teria f rias na universidade e falou que iria ver se criaria coisas in ditas. Nesse momento eu fiz um pedido para ele. Engra ado que quando eu falei que tinha um pedido ele deve ter pensado: " uma gravadora, j vai come ar...". Mas era um pedido de f mesmo, mais do que diretor de gravadora. Eu disse que gostaria que a m sica Felicidade, que eu vi ele cantar s acompanhado do viol o, num dos shows do Rumo, fosse inclu da no repert rio. Acho que realmente aquilo uma obra-prima. E ele disse que iria pensar. Depois das f rias ele me ligou e disse que estava com as m sicas prontas. Eu perguntei se a m sica Felicidade estava inclu da no repert rio. E a veio a surpresa com ele me dizendo que n o s estava, mas que tamb m todas as m sicas falavam de felicidade de alguma forma. o que eu disse: o projeto de um selo isso, essa troca que voc tem. Outro exemplo: eu estava louco para fazer uma homenagem para o Aldir Blanc e consegui achar uma cantora b rbara. O nome dela Adriana Capparelli, que fez um disco s com letras do Aldir, com o nome de "Pequeno Circo ntimo". Mas eu sempre lembro que, al m da letra, a parte musical tamb m tem de ser boa. A letra n o existe sozinha no papel, ela existe com o som das m sicas e com a melodia. dif cil dissociar a parte escrita da nota musical. Percebe-se, ent o, que vai se tra ando uma linha de personalidade, por exemplo, da Dabli . A pr pria gravadora se pergunta quem ela. O nome j fornece uma pista e uma forma de fazer uma par dia da letra W. Na forma brasileira escreve-se dabli , querendo dizer que o nosso jeito. simplesmente uma palavra que foi citada pela primeira vez numa m sica de dois dos maiores autores brasileiros que Noel Rosa e o Lamartine Babo... "a e i o u, dabli , dabli , na cartilha da Juj ". isso. A logomarca da Dabli quem fez e deu de presente para a Dabli foi Mill r Fernandes.

PM - Como foi?

CN - Eu era advogado do Mill r e a gente acabou ficando muito amigo. Quando eu contei que est vamos come ando a id ia desse projeto, ele se entusiasmou tanto, gostou tanto do nome, que fez umas 70 logomarcas. Eu tenho tudo isso guardado. Foi at dif cil escolher uma. por isso que eu digo, voc tem muitas vezes a dificuldade financeira, mas temos outras conquistas que somam e isso que vai levando o projeto adiante. Por exemplo, o Cid Campos, filho do Augusto de Campos. Os dois trouxeram um trabalho praticamente pronto e quiseram gravar por aqui. Quer dizer, por que que vieram aqui? Mesmo com todas as dificuldades que a gente tinha com a recente sa da da Eldorado Distribuidora, que estava fechando? Era um momento mais delicado. Mas mesmo assim era aqui que eles queriam. atrav s dessas coisas que acaba havendo uma sintonia, que, s vezes, intuitiva e, s vezes, racional, de projetos e necessidades parecidas.

PM - Quantos t tulos a Dabli j lan ou?

CN - Atualmente a Dabli est com 96 t tulos lan ados. O diferencial da gravadora letra e gente nova. Se vem um cara novo, mas com um trabalho po tico interessante e musical, a Dabli vai tentar dar um jeito de viabilizar o projeto e lan ar. Se vier algu m, como j aconteceu, mais conhecido e at com uma fama de produzir letras boas, mas que aconteceu do projeto estar meio deficiente na quest o da letra, a gente n o faz.

PM - Trabalho instrumental voc tem algum?

CN - N o. Mas tem v rios selos com trabalho instrumental muito interessante. Por exemplo, o N cleo Contempor neo, selo do Benjamin Taubkin. super legal. Fica uma coisa verdadeira. o que eu digo: se voc quer saber a linha do selo, perceber que alguma coisa vai ter a ver com o dono do selo, com o que ele gosta de fazer.

PM - Ser um artista ajuda ou atrapalha na hora de gerir um selo? Embora no seu caso voc tamb m tenha uma outra forma o.

CN - Se voc pensar no aspecto comercial puro, pelo menos imediato, voc vai ver que atrapalha. Mas olhando um aspecto mais de longo prazo, de voc estar construindo um repert rio, um repert rio para sempre, isso gera uma sensa o de riqueza natural. At comercialmente voc pode perceber que funciona. Mas um projeto de longo prazo.

PM - Como voc acha que est o mercado agora? Dizem que mais ou menos 50% da compra de CDs s o piratas. As grandes gravadoras est o tendo que sambar.

CN - Os CDs que acabam na ind stria pirata s o justamente aqueles nos quais as gravadoras fazem os grandes investimentos.

PM - Ent o isso pouco afeta as gravadoras independentes, de alguma forma?

CN - Pouco afeta. Mas de alguma forma acho que as gravadoras independentes t m que lutar contra, porque se fica uma coisa institucionalizada daqui a pouco esse mercado tamb m vai se especializando em tudo. ilegal, n o paga direitos autorais, tem que ser reprimido, eu acho. O camel pode muito bem vender outra coisa. Inclusive acho que a grande ind stria tem muita culpa nisso. Quando surgiu a primeira forma de pirataria, digo primeira no sentido de massifica o, que foi a fita cassete, de certa forma as gravadoras diziam que tudo bem. A justificativa era que depois eles iam fazer um CD e aquilo ia virar um produto, de repente at , de segunda linha. Aconteceu o seguinte: eles acabaram financiando a ind stria pirata de hoje. Eles capitalizaram. Por isso eu acho que se voc abre uma coisa que ilegal e simplesmente deixa pra l , voc vai ter o resultado depois. A coisa hoje cresceu tanto que est afetando inclusive a viabiliza o da grande ind stria. Mesmo que ainda n o afete a maioria dos selos independentes, porque n o s o esses discos que est o l na venda pirata, eu n o acho que temos que ter uma vis o limitada das coisas. Acho que isso errado, ilegal, voc est prejudicando um monte de autores, artistas, iniciativas e a es legais e regulares.

PM - Voltando ao mercado independente, a gente sente que um mercado que tem p blico. O que falta para esse p blico tomar mais contato com esses artistas? A culpa tamb m da grande imprensa, que assim como as grandes gravadoras s "investem" em artistas estabelecidos ou de moda passageira? O que voc pensa disso?

CN - Tudo como voc falou. A linha de racioc nio a seguinte: O grande mercado vai auto-regular tudo. Isso um grande erro. Porque o grande mercado implica em acordos comerciais entre os meios de comunica o e as grandes gravadoras. No fundo, o que eles est o fazendo uma pr tica do que est se defendendo em outras reas. Isso precisa ser muito bem pensado porque a cultura a primeira que sofre. A ind stria cultural, o mercado cultural, o primeiro que sofre numa linha de pensamento assim. Porque se voc massificar, vai ter resultados muito maiores. N o adianta voc falar que tem que combater o "jab ". Isso na verdade uma conseq ncia de um mal maior, que uma linha de orienta o cultural errada. N o s orienta o cultural, mas tamb m econ mica. Hoje em dia est come ando a se discutir com mais profundidade a quest o do capitalismo selvagem, que o mercado, s vezes, pode regular tudo. Hoje as pr prias gravadoras est o vendo que a forma como agiram de massificar acabou gerando um desinteresse das pessoas de irem s lojas. N o tem mais a curiosidade de antes de as pessoas irem descobrir as coisas.

PM - E agora tamb m o cara que compra na rua acostumou e s quer pagar cinco reais num CD?

CN - isso. O Bernardo Vilhena tem uma frase tima. "A grande ind stria do disco est produzindo para a ind stria pirata". Eles produzem e o pirata vende massificado.

PM - Mas vamos voltar a essa quest o de como o p blico pode tomar contato se a m dia tamb m n o permite isso direito.

CN - N o chega s pessoas. O que acontece? Por exemplo, por que as r dios est o nas m os de quem est o, por que est o prestando a servi os meramente comerciais? Que tenha ent o r dios que prestam s esses servi os comerciais, mas que tenha meios de comunica o com outra preocupa o. Eu acho preciso pensar em pol tica cultural um pouco melhor. At porque essa pol tica cultural pode gerar resultados expressivos para as divisas do Brasil. N o s futebol. A m sica brasileira gera divisas. Precisa de mais vontade desse governo atual, que foi apoiado pelo pessoal de cultura. De alguma forma, foi feito um sistema de incentivo fiscal, mas eu acho que tem que ter uma presen a mais consistente, repensando mesmo essa parte de meios de comunica o, no sentido de ajudar a atingir melhor essas pessoas mais interessadas. Hoje o meio universit rio est crescendo cada vez mais. Ent o, voc falar que n o existe possibilidade de receptividade uma besteira.

PM - Pois , antes os ambientes universit rios eram exatamente os p los de formadores de opini o e p blico. Hoje parece que s o menos, n o?

CN - Isso foi distorcido para estruturas comerciais de m dia. Existem as r dios universit rias que n o t m muito apoio mesmo de desenvolvimento. Mas existe uma comunidade que acaba ouvindo. Voltando para a Dabli : depois que a Eldorado, em julho, fechou a distribui o, a Dabli come ou a sondar v rias possibilidades de terceiriza o da distribui o. E acabou optando por um desafio muito maior que a distribui o direta. diferente porque quem est levando o produto para o lojista conhece aquele trabalho. Pelo menos n o vai acontecer de dar o produto para uma distribuidora X e o vendedor quando recebe o artista j lamenta que um trabalho dif cil porque desconhecido. Agora, quem vai levar para o vendedor algu m que conhece o trabalho do artista e vai fazer isso melhor, com mais persuas o. Se voc n o vai at o final do processo, a coisa pode morrer no nascedouro.

PM - Distribuir ajuda inclusive em como agir e onde emplacar melhor o produto.

CN - Saber onde, como conversar, explicar etc. Porque uma distribuidora realmente tem muitos selos, muitos projetos para atender e, s vezes, fica uma coisa mais impessoal. Agora, ent o, estamos tendo essa experi ncia de interagir diretamente com o lojista. A divulga o faz tamb m com que o p blico tenha algum conhecimento. Estamos trabalhando firme nisso. A gente sozinho parece pouco, mas se fazemos e os outros tamb m fazem... S o 400 selos. Vamos dizer que uns 100 selos que trabalham com m sica brasileira de qualidade. De repente, pode ser que aconte a mesmo algo que represente uma mudan a da hist ria. N o uma ilus o. At porque o projeto comercial ide imediatista do grande mercado est chegando a um funil.

PM - Quer dizer que a gravadora agora faz quase todo o trabalho?

CN - Todo. Sele o de projetos, concep o, encampa projetos ou co-produz. A gente percebe em quais pontos a pessoa precisa de apoio, faz, divulga e distribui. S n o faz a prensagem do CD.

PM - J que era a Eldorado que distribu a os CDs de muita gente, voc acha que agora pode haver uma tend ncia onde as pr prias gravadoras independentes distribuam?

CN - Eu acho que projetos mais diferenciados, como o da Dabli e como o do N cleo Contempor neo, onde a gente lida com a dificuldade das pessoas em n o conhecerem o artista, dif cil n o ser esse o caminho. Nos projetos diferenciados voc tem que saber quais v o ser os seus parceiros e quais n o v o ser. N o tem jeito de ser diferente. De repente neg cios tamb m pela internet podem ser fant sticos, porque, de alguma forma, voc coloca ali na rede e est presente no mundo. Eu acho que a m sica, dentro desse neg cio da rede, uma das coisas que podem ser melhor beneficiadas. A cada mil metro que a internet consiga se organizar e difundir, e as pessoas confiarem mais, um passo importante para a m sica.

PM - Como acontece o movimento dos artista fazerem projetos com voc s? Voc s procuram os artistas, eles que procuram, ou as duas formas?

CN - Tem at tr s formas. A primeira a minha pr pria conviv ncia, o que quero fazer, as minhas inquieta es. Os selos independentes t m essas coisas pessoais mesmo. A segunda atrav s dos pr prios discos da Dabli , que, com a circula o, v o gerando uma certa empatia de certas pessoas que depois nos procuram. A gente recebe muito material. Percebem a nossa exist ncia e sintonizam. E a terceira coisa o fato da Dabli ter 96 t tulos, o que significa, pelo menos, uns 50 artistas, que s o como se fossem olheiros naturais. Na verdade, uma rede de pessoas que conhecem a gravadora e v o nos trazendo coisas. Por isso, s o coisas de intera o muito forte, que d o continuidade a Dabli , de uma maneira que nos interessa manter: com qualidade.

PM - Vale a pena ter um selo independente?

CN - Vale, e como vale. Mas n o uma coisa que vai te realizar economicamente, financeiramente. Nisso as pessoas precisam pensar. Enquanto a pessoa n o tem realiza o financeira, pode ser que ela se iluda achando que a realiza o financeira o m ximo, mas, no fundo, esse tipo de pensamento vai distanciando e levando justamente para a desigualdade material. Eu acho que o ser humano muito mais forte que isso, muito mais completo. claro que voc quer que todo mundo esteja bem e n o passe dificuldades. Mas, como eu disse, se as pessoas querem uma justificativa econ mica, at para n o parecer um del rio po tico, n o um projeto a curto prazo. Eu achei at que era a m dio, mas estou vendo que m dio tamb m n o . Mas por certo ser um projeto a longo prazo.

PM - At porque projetos de qualidade s o perenes. Tem algum projeto recente sobre o qual voc gostaria de falar?

CN - Um em que a gente est trabalhando e que est muito interessante um resgate de um maestro paulistano chamado L o Peracchi. N s gravamos um show com m sicas dele interpretadas por grandes cantoras. interessante porque como maestro, em 1958, ele fez um disco s de can es de Tom Jobim e Vin cius de Moraes, que era uma parceria nova na poca. S que os arranjos que ele fez tinham uma concep o modern ssima. Depois desse disco, o Tom Jobim, que na poca tinha arranjos mais convencionais, com os sambas-can es e tal, mudou totalmente seus arranjos. Quando o Tom apareceu com Chega de Saudade, j percebia-se uma concep o de arranjos mais moderna, que, na verdade, tinha sido influ ncia do L o Peracchi. Quer dizer, esse maestro influenciou o Tom Jobim na fase moderna dele. Foi um salto. Tanto que o L o Peracchi era o nico maestro a quem o Tom Jobim chamava de mestre. Neste nosso projeto chamamos o Gudin e o Luis Roberto de Oliveira - os dois foram alunos do L o Peracchi. Eles resolveram convidar a Orquestra Jazz Sinf nica para refazer os arranjos do L o Peracchi com aquele disco de 1958. Usaram as partituras originais que a filha do L o Peracchi conseguiu. Com essas partituras eles simplesmente executaram os instrumentos. Depois, o Gudin chamou algumas das maiores vozes paulistanas na ativa, como N Ozzetti, M nica Salmaso, Jane Duboc, Tet Esp ndola, V nia Bastos, Celine Imbert e a filha do L o Peracchi, que cantou Eu sei que vou te amar e foi emocionante. Foram dois dias de apresenta o e n s gravamos. A gente quer ver se lan a agora at o final de novembro. O outro projeto, que tamb m muito importante, chama-se "Um do Um do Um", com o Madan, Luis Gayotto, Kl ber Albuquerque e lio Camalle. Vamos lan ar agora porque foi gravado na virada do Mil nio. O novo disco da Adiel, que est lindo, com uma produ o muito bem cuidada do Renato Luiz Consorte. Outra coisa tamb m o Thiago Juarez, irm o da Carmina, ambos filhos do maestro Benito Juarez. Mas tem ainda bastante coisa engatilhada.