A valorização da palavra
"Selo de Artista" traz neste mês uma entrevista com o compositor J.C. Costa Netto, que fala da valorização dos letristas, novos ou consagrados, entre vários outros temas, dentro da Dabliú Discos.
Por Sérgio Fogaça
Inaugurada há sete anos por quem conhece bem o valor da palavra, a gravadora Dabliú é fruto de um abnegado da canção. José Carlos Costa Netto é advogado especializado em direitos autorais, produtor cultural e letrista. De sua pena já brotaram canções como Verde e Paulista, ambas em parceria com Eduardo Gudin. A primeira revelou a cantora Leila Pinheiro e a segunda ajudou ainda mais na consagração de Vânia Bastos. O trabalho de garimpar novos talentos nunca foi novidade para Costa Netto. Esse é exatamente o seu trabalho frente a gravadora. Por lá, já passaram nomes importantes da música brasileira como Luiz Tatit, Vicente Barreto, Ná Ozzetti, Madan, Celso Viáfora, Suzana Salles e Jorge Mautner, entre uma infinidade de outros nomes, sem nunca perder a qualidade. Até agora já foram lançados 96 títulos. Segundo o próprio Costa Netto, o grande diferencial de sua gravadora são as letras de boa qualidade. Nesta entrevista que o compositor concedeu à Página da Música, ele fala sobre a história do selo, mercado, artistas e a palavra, sempre ela...
Página da Música - Como e quando começou o selo Dabliú?
Costa Netto - Na verdade, vou puxar um pouco para trás, antes efetivamente de começar o selo, porque é uma coisa que coincide também com a minha atuação em outro mercado. Desde 1978, depois de cursar pós-graduação na USP, eu exerço duas funções. Como advogado de direitos autorais e como compositor. Antes eu fazia letra e música, mas depois fui me especializando mais especificamente em fazer letra. Meu primeiro parceiro musical foi o Paulinho Nogueira. Minha primeira música gravada foi em 1979, parceria minha e dele, que ele mesmo gravou num disco. A música chamava No dia seguinte. Também teve uma segunda música, Jornada para ser ninguém. Eu fiz a letra e ele a música. Isso significou efetivamente o meu começo como compositor. Ao mesmo tempo, também em 79, fui convidado pelo ministro Eduardo Portela, ministro considerado de esquerda no governo João Figueiredo, para ser presidente do Conselho Nacional do Direito Autoral. Durante três anos e meio morei em Brasília exercendo essa função. Pelo menos cheguei a fazer algumas reformulações interessante na área. Em 1983 voltei para São Paulo exercendo minha atividade como advogado em direitos autorais e continuando minha carreira de autor. Nesse período eu já tinha uma relação de amizade recente com o (Eduardo) Gudin. No período da campanha das eleições diretas, a gente fez a música Verde. Daí, muita gente já sabe, em 85 escrevemos a música no Festival da Globo e ela acabou revelando a cantora Leila Pinheiro. Essa foi a música minha que ficou mais conhecida. Em 88 aconteceram outras gravações importantes de outras composições minhas, como Paulista, com a Vânia Bastos, e Morena, com a (Maria) Bethânia. Nesse momento eu comecei a me dedicar bastante como letrista. Paralelamente, como eu tinha ficado com um nome muito forte na área de direitos autorais, como advogado, eu acabei montando escritório em São Paulo e também no Rio de Janeiro, exercendo advocacia nessa área de direitos autorais. Através do conselho, adquiri tanto conhecimento que me permitiu ser advogado de todos os grandes artistas da MPB. Desde Milton Nascimento, Maria Bethânia, Gal Costa, Djavan, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Lobão, entre outros. Chegou uma época que eu advogava cerca de 60 grandes estrelas da MPB, mas também não fazia mais nada da vida. Isso absorvia totalmente meu tempo. Quando você chega numa linha de artistas mais conhecidos, existe muita demanda, trabalho e atenção. Por outro lado, continuava com minha função de autor. Hoje em dia eu tenho mais ou menos umas 100 músicas gravadas. O fato é que enquanto eu estava representando esses artistas que estavam por trás de grandes companhias de disco, estava começando a haver uma inversão da questão de qualidade, para um lado, vamos dizer, da potencialidade de comércio imediato do artista. Então, é claro, esses eram artistas que tinham um passado de vendas e os contratos eram mais caros. A lucratividade não era de imediato, ela demorava um pouco para chegar. Mas nada se comparava a um artista, vamos dizer, da moda, para o qual você gasta pouco no disco e planeja um aparato comercial, fazendo com que ele estoure. Em dois ou três meses se conseguia, às vezes, um milhão de cópias vendidas. Foi quando começou esses fenômenos comerciais. Nesse momento, as gravadoras que ainda não faziam a coisa de forma tão violenta começaram realmente a baixar o nível da música brasileira, para que eles tivessem maior apelo comercial e resultados imediatos com relação à grana. Eu comecei a ter dificuldades que eu não tinha antes na negociação desses grandes artistas.
PM - Isso já era final dos anos 80?
CN - É. Isso era final dos 80 e início da década de 90. Fui sentindo que, mais até do que essa questão comercial, que a música brasileira estava indo para o buraco. Porque se você não tem o apoio dessas estruturas que levam a música nacional e internacionalmente para a produção de qualidade, a tendência realmente é de acontecer um empobrecimento geral. Como eu era compositor e irrequieto, comecei a pensar em fazer uma ação diferenciada nesse campo. Foi nesse momento que surgiu a idéia de criar um selo de música. Essa oportunidade foi criada num contexto onde tinha a presença da Warner, cujo presidente era o André Midani, e outros executivos também bem sensíveis com relação a música, como o Beto Boaventura e o Rossini, da Continental. Eles deram essa abertura de se criar alguns selos em que artistas ou produtores culturais pudessem ser os titulares. Eles também sentiam que precisava haver uma retomada dessa qualidade. Pelo menos no momento acreditou-se nisso. Dessa forma se criou, de uma vez só, os selos Banguela, em que os Titãs eram os titulares e eu inclusive fazia a coordenação do selo, a MZA, do Mazola, um produtor importante da MPB, a Dubas, do Ronaldo Bastos, e a Dabliú Discos. Acho que basicamente esses quatro.
PM - Como eram esses selos com relação a Warner? Eram agregados à gravadora?
CN - Eram selos independentes com os quais a Warner, vamos dizer, fazia parceria. A Warner tinha alguma prioridade de contratação, por exemplo, se a banda vingasse. Mas a idéia era realmente transferir essa parte de criação, produção e planejamento para os artistas.
PM - De alguma forma eles admitiam que estavam pensando num novo formato que permitisse mais liberdade na hora da criação.
CN - Isso só poderia ter surgido de uma cabeça de um André Midani, por exemplo, que desde os anos 60 e 70 era o presidente da Philips e da PolyGram. Ele investiu no melhor que a música brasileira trouxe. Ele tinha essa visão. A Tropicália toda emergiu com ele à frente dessa parte de gravadoras. Ele era um que tinha essa visão naquele momento. Era um mercado que abria, mas um pouco isolado. Isso por volta de 1994. O projeto e as pessoas envolvidas eram legais, mas acabou sendo uma iniciativa um pouco isolada no contexto do que vinha acontecendo. O que eu estava falando era da massificação comercial das rádios e nas lojas. Um processo que já era muito devorador na época. Mesmo com uma multinacional dando suporte, era difícil que um projeto desses pudesse quebrar o que já estava se instalando.
PM - Engraçado, isso parece até a história da abertura política do país, em 1979. Quer dizer, houve abertura, mas ainda era difícil se manifestar de fato porque tinha um "mercado" por trás. Mas a gente pode dizer que a Dabliú começou em 1994?
CN - Exatamente. Junto com Banguela, MZA e Dubas. Quer dizer, existiam dificuldades, os selos precisavam também de algum investimento. Depois de um ano, a Warner viu que isso, naquele contexto, era inviável economicamente. Pelo menos ela entendeu assim. Os Titãs tinham lançado o Raimundos, que foi absorvido pela Warner. Na ocasião, os Titãs abriram também outro selo, chamado Excelente, e foram para a Universal, antiga PolyGram. A MZA também saiu. E a Dabliú, nessa oportunidade, também saiu para um projeto com uma distribuidora independente aqui de São Paulo, chamada JHO, dirigida pelo Yasuo Ono, um cara conhecedor da área, que criou uma distribuidora independente. E a Dubas foi a única que permaneceu na Warner, mas sem muita diversidade de lançamento. Hoje em dia não está mais.
PM - Aconteceu então uma transição de um processo e cada um pegou o seu caminho? Esse movimento, nessa época, parece pioneiro quando pelo menos comparamos o número de selos independentes hoje em dia. Isso é verdade?
CN - Não absolutamente pioneiro, porque já existiam os músicos independentes desde os final dos anos 70. Mas por outro lado existia uma inquietação pelo nível da condução das coisas pelas grandes companhias. Para fazer uma coisa assim bem equilibrada, as grandes gravadoras não deixaram de lançar produtos excelentes de artistas consagrados na MPB. E uma vez ou outra arriscaram um projeto isolado de um ou outro artista de qualidade, menos conhecido. Mas de qualquer forma foram iniciativas que acabaram sendo meio isoladas dentro de um contexto realmente comercial e imediatista, que assolou os meios de comunicação e a indústria. De qualquer forma, nessa época, a Warner começou realmente um movimento dentro das gravadoras. Embora tenham algumas iniciativas anteriores. A Kuarup, por exemplo, a Elenco, do Aloísio de Oliveira, quer dizer, cada um tem sua história de nascimento. Aos poucos as gravadoras vão adquirindo sua personalidade. Essa é a diferença das gravadoras independentes, do grande mercado de gravadoras. Elas têm uma inquietação artística a cumprir. Como acontece com a Elenco e a Kuarup, que possuem inquietações artísticas. A Banguela tem outra, a Dubas tem outra e assim por diante.
PM - Significa que aquele tipo de negócio poderia ser movido por uma força mais autêntica?
CN - O que as grandes gravadoras alegam é que autenticidade é mercado puro. O que o consumidor quer é o que eles vão dar. E não oferecer alguma coisa para ele experimentar, alguma coisa que talvez seja melhor. Isso é desenvolver os negócios através de uma lei de mercado, que é muito forte, a partir de uma linha americana de pensamento. É você dar ao povo exatamente o que ele quer. Então, o objetivo é o dinheiro, o financeiro. Os outros projetos não, são mais sutis. Inclusive projetos que têm conteúdo belíssimo, mas são difíceis de chegar ao público. De repente a coisa começa a vingar ou não. Hoje se tem cerca de 400 selos, mais ou menos.
PM - Quatrocentos? Em geral ou independentes?
CN - Independentes, no Brasil. Foi um movimento mesmo que começou como uma bola de neve mais ou menos nessa época. Não que tenha sido nossa ação que desencadeou isso, mas era um momento de inquietação, além da somatória do conhecimento que eu tive, e que as pessoas tiveram. No meu caso porque eu estava lá, nos bastidores da história, negociando os contratos de grandes artistas e via que realmente a coisa estava se fechando para a qualidade. Sempre lembrando da exceção dos grandes artistas que já tinham um passado de vendas. Nesses, os investimentos continuavam porque tinham a lucratividade projetada. Mas para renovar isso era difícil. Hoje existe um leque de selos. Com essa abertura, às vezes parece que muitos estão fazendo a mesma coisa. Mas se olhar bem, cada um tem um diferencial.
PM - Qual é o diferencial da Dabliú? Existe um conceito, uma linha de estilo?
CN - No geral as pessoas percebem que é MPB, que tem umas descobertas diferentes, e às vezes tem até tem uma linha que vai para o pop, mas um pop de qualidade. Mas é fácil perceber, como se fosse um movimento que sempre tem um artista por trás. É só perceber o que aquele autor ou artista faz. A partir das características dele você vai perceber um idéia da vertente do ser. A minha preocupação, se você olhar bem, é com a letra.
PM - Não por acaso, certo?
CN - Exato. É o que sempre me apaixonou. É um selo onde as pessoas estão mesmo por uma questão de paixão, por a gente querer dar espaço e se apaixonar por projetos que te digam alguma coisa naquilo que realmente te toca mais. Por exemplo, quando chega o Luiz Tatit, que nunca tinha feito um disco solo. Ele tinha discos com o Rumo mas não tinha um disco solo. Só o fato de nós realizarmos o primeiro disco solo do Luiz Tatit já justificaria o selo. E tem inclusive uma história muito interessante. Quando estávamos conversando a respeito, ele disse que teria férias na universidade e falou que iria ver se criaria coisas inéditas. Nesse momento eu fiz um pedido para ele. Engraçado que quando eu falei que tinha um pedido ele deve ter pensado: "É uma gravadora, já vai começar...". Mas era um pedido de fã mesmo, mais do que diretor de gravadora. Eu disse que gostaria que a música Felicidade, que eu vi ele cantar só acompanhado do violão, num dos shows do Rumo, fosse incluída no repertório. Acho que realmente aquilo é uma obra-prima. E ele disse que iria pensar. Depois das férias ele me ligou e disse que estava com as músicas prontas. Eu perguntei se a música Felicidade estava incluída no repertório. E aí veio a surpresa com ele me dizendo que não só estava, mas que também todas as músicas falavam de felicidade de alguma forma. É o que eu disse: o projeto de um selo é isso, é essa troca que você tem. Outro exemplo: eu estava louco para fazer uma homenagem para o Aldir Blanc e consegui achar uma cantora bárbara. O nome dela é Adriana Capparelli, que fez um disco só com letras do Aldir, com o nome de "Pequeno Circo Íntimo". Mas eu sempre lembro que, além da letra, a parte musical também tem de ser boa. A letra não existe sozinha no papel, ela existe com o som das músicas e com a melodia. É difícil dissociar a parte escrita da nota musical. Percebe-se, então, que vai se traçando uma linha de personalidade, por exemplo, da Dabliú. A própria gravadora se pergunta quem é ela. O nome já fornece uma pista e é uma forma de fazer uma paródia da letra W. Na forma brasileira escreve-se dabliú, querendo dizer que é o nosso jeito. É simplesmente uma palavra que foi citada pela primeira vez numa música de dois dos maiores autores brasileiros que é Noel Rosa e o Lamartine Babo... "a e i o u, dabliú, dabliú, na cartilha da Jujú". É isso. A logomarca da Dabliú quem fez e deu de presente para a Dabliú foi Millôr Fernandes.
PM - Como foi?
CN - Eu era advogado do Millôr e a gente acabou ficando muito amigo. Quando eu contei que estávamos começando a idéia desse projeto, ele se entusiasmou tanto, gostou tanto do nome, que fez umas 70 logomarcas. Eu tenho tudo isso guardado. Foi até difícil escolher uma. É por isso que eu digo, você tem muitas vezes a dificuldade financeira, mas temos outras conquistas que somam e é isso que vai levando o projeto adiante. Por exemplo, o Cid Campos, filho do Augusto de Campos. Os dois trouxeram um trabalho praticamente pronto e quiseram gravar por aqui. Quer dizer, por que que vieram aqui? Mesmo com todas as dificuldades que a gente tinha com a recente saída da Eldorado Distribuidora, que estava fechando? Era um momento mais delicado. Mas mesmo assim era aqui que eles queriam. É através dessas coisas que acaba havendo uma sintonia, que, às vezes, é intuitiva e, às vezes, é racional, de projetos e necessidades parecidas.
PM - Quantos títulos a Dabliú já lançou?
CN - Atualmente a Dabliú está com 96 títulos lançados. O diferencial da gravadora é letra e gente nova. Se vem um cara novo, mas com um trabalho poético interessante e musical, a Dabliú vai tentar dar um jeito de viabilizar o projeto e lançar. Se vier alguém, como já aconteceu, mais conhecido e até com uma fama de produzir letras boas, mas que aconteceu do projeto estar meio deficiente na questão da letra, a gente não faz.
PM - Trabalho instrumental você tem algum?
CN - Não. Mas tem vários selos com trabalho instrumental muito interessante. Por exemplo, o Núcleo Contemporâneo, selo do Benjamin Taubkin. É super legal. Fica uma coisa verdadeira. É o que eu digo: se você quer saber a linha do selo, é perceber que alguma coisa vai ter a ver com o dono do selo, com o que ele gosta de fazer.
PM - Ser um artista ajuda ou atrapalha na hora de gerir um selo? Embora no seu caso você também tenha uma outra formação.
CN - Se você pensar no aspecto comercial puro, pelo menos imediato, você vai ver que atrapalha. Mas olhando um aspecto mais de longo prazo, de você estar construindo um repertório, um repertório para sempre, isso gera uma sensação de riqueza natural. Até comercialmente você pode perceber que funciona. Mas é um projeto de longo prazo.
PM - Como você acha que está o mercado agora? Dizem que mais ou menos 50% da compra de CDs são piratas. As grandes gravadoras estão tendo que sambar.
CN - Os CDs que acabam na indústria pirata são justamente aqueles nos quais as gravadoras fazem os grandes investimentos.
PM - Então isso pouco afeta as gravadoras independentes, de alguma forma?
CN - Pouco afeta. Mas de alguma forma acho que as gravadoras independentes têm que lutar contra, porque se fica uma coisa institucionalizada daqui a pouco esse mercado também vai se especializando em tudo. É ilegal, não paga direitos autorais, tem que ser reprimido, eu acho. O camelô pode muito bem vender outra coisa. Inclusive acho que a grande indústria tem muita culpa nisso. Quando surgiu a primeira forma de pirataria, digo primeira no sentido de massificação, que foi a fita cassete, de certa forma as gravadoras diziam que tudo bem. A justificativa era que depois eles iam fazer um CD e aquilo ia virar um produto, de repente até, de segunda linha. Aconteceu o seguinte: eles acabaram financiando a indústria pirata de hoje. Eles capitalizaram. Por isso eu acho que se você abre uma coisa que é ilegal e simplesmente deixa pra lá, você vai ter o resultado depois. A coisa hoje cresceu tanto que está afetando inclusive a viabilização da grande indústria. Mesmo que ainda não afete a maioria dos selos independentes, porque não são esses discos que estão lá na venda pirata, eu não acho que temos que ter uma visão limitada das coisas. Acho que isso é errado, é ilegal, você está prejudicando um monte de autores, artistas, iniciativas e ações legais e regulares.
PM - Voltando ao mercado independente, a gente sente que é um mercado que tem público. O que falta para esse público tomar mais contato com esses artistas? A culpa é também da grande imprensa, que assim como as grandes gravadoras só "investem" em artistas estabelecidos ou de moda passageira? O que você pensa disso?
CN - Tudo é como você falou. A linha de raciocínio é a seguinte: O grande mercado vai auto-regular tudo. Isso é um grande erro. Porque o grande mercado implica em acordos comerciais entre os meios de comunicação e as grandes gravadoras. No fundo, o que eles estão fazendo é uma prática do que está se defendendo em outras áreas. Isso precisa ser muito bem pensado porque a cultura é a primeira que sofre. A indústria cultural, o mercado cultural, é o primeiro que sofre numa linha de pensamento assim. Porque se você massificar, vai ter resultados muito maiores. Não adianta você falar que tem que combater o "jabá". Isso na verdade é uma conseqüência de um mal maior, que é uma linha de orientação cultural errada. Não só orientação cultural, mas também econômica. Hoje em dia está começando a se discutir com mais profundidade a questão do capitalismo selvagem, que o mercado, às vezes, pode regular tudo. Hoje as próprias gravadoras estão vendo que a forma como agiram de massificar acabou gerando um desinteresse das pessoas de irem às lojas. Não tem mais a curiosidade de antes de as pessoas irem descobrir as coisas.
PM - E agora também o cara que compra na rua acostumou e só quer pagar cinco reais num CD?
CN - É isso. O Bernardo Vilhena tem uma frase ótima. "A grande indústria do disco está produzindo para a indústria pirata". Eles produzem e o pirata vende massificado.
PM - Mas vamos voltar a essa questão de como o público pode tomar contato se a mídia também não permite isso direito.
CN - Não chega às pessoas. O que acontece? Por exemplo, por que as rádios estão nas mãos de quem estão, por que estão prestando a serviços meramente comerciais? Que tenha então rádios que prestam só esses serviços comerciais, mas que tenha meios de comunicação com outra preocupação. Eu acho preciso pensar em política cultural um pouco melhor. Até porque essa política cultural pode gerar resultados expressivos para as divisas do Brasil. Não é só futebol. A música brasileira gera divisas. Precisa de mais vontade desse governo atual, que foi apoiado pelo pessoal de cultura. De alguma forma, foi feito um sistema de incentivo fiscal, mas eu acho que tem que ter uma presença mais consistente, repensando mesmo essa parte de meios de comunicação, no sentido de ajudar a atingir melhor essas pessoas mais interessadas. Hoje o meio universitário está crescendo cada vez mais. Então, você falar que não existe possibilidade de receptividade é uma besteira.
PM - Pois é, antes os ambientes universitários eram exatamente os pólos de formadores de opinião e público. Hoje parece que são menos, não?
CN - Isso foi distorcido para estruturas comerciais de mídia. Existem as rádios universitárias que não têm muito apoio mesmo de desenvolvimento. Mas existe uma comunidade que acaba ouvindo. Voltando para a Dabliú: depois que a Eldorado, em julho, fechou a distribuição, a Dabliú começou a sondar várias possibilidades de terceirização da distribuição. E acabou optando por um desafio muito maior que é a distribuição direta. É diferente porque quem está levando o produto para o lojista conhece aquele trabalho. Pelo menos não vai acontecer de dar o produto para uma distribuidora X e o vendedor quando recebe o artista já lamenta que é um trabalho difícil porque é desconhecido. Agora, quem vai levar para o vendedor é alguém que conhece o trabalho do artista e vai fazer isso melhor, com mais persuasão. Se você não vai até o final do processo, a coisa pode morrer no nascedouro.
PM - Distribuir ajuda inclusive em como agir e onde emplacar melhor o produto.
CN - Saber onde, como conversar, explicar etc. Porque uma distribuidora realmente tem muitos selos, muitos projetos para atender e, às vezes, fica uma coisa mais impessoal. Agora, então, estamos tendo essa experiência de interagir diretamente com o lojista. A divulgação faz também com que o público tenha algum conhecimento. Estamos trabalhando firme nisso. A gente sozinho parece pouco, mas se fazemos e os outros também fazem... São 400 selos. Vamos dizer que uns 100 selos que trabalham com música brasileira de qualidade. De repente, pode ser que aconteça mesmo algo que represente uma mudança da história. Não é uma ilusão. Até porque o projeto comercialóide imediatista do grande mercado está chegando a um funil.
PM - Quer dizer que a gravadora agora faz quase todo o trabalho?
CN - Todo. Seleção de projetos, concepção, encampa projetos ou co-produz. A gente percebe em quais pontos a pessoa precisa de apoio, faz, divulga e distribui. Só não faz a prensagem do CD.
PM - Já que era a Eldorado que distribuía os CDs de muita gente, você acha que agora pode haver uma tendência onde as próprias gravadoras independentes distribuam?
CN - Eu acho que projetos mais diferenciados, como é o da Dabliú e como é o do Núcleo Contemporâneo, onde a gente lida com a dificuldade das pessoas em não conhecerem o artista, é difícil não ser esse o caminho. Nos projetos diferenciados você tem que saber quais vão ser os seus parceiros e quais não vão ser. Não tem jeito de ser diferente. De repente negócios também pela internet podem ser fantásticos, porque, de alguma forma, você coloca ali na rede e está presente no mundo. Eu acho que a música, dentro desse negócio da rede, é uma das coisas que podem ser melhor beneficiadas. A cada milímetro que a internet consiga se organizar e difundir, e as pessoas confiarem mais, é um passo importante para a música.
PM - Como acontece o movimento dos artista fazerem projetos com vocês? Vocês procuram os artistas, eles que procuram, ou as duas formas?
CN - Tem até três formas. A primeira é a minha própria convivência, o que quero fazer, as minhas inquietações. Os selos independentes têm essas coisas pessoais mesmo. A segunda é através dos próprios discos da Dabliú, que, com a circulação, vão gerando uma certa empatia de certas pessoas que depois nos procuram. A gente recebe muito material. Percebem a nossa existência e sintonizam. E a terceira coisa é o fato da Dabliú ter 96 títulos, o que significa, pelo menos, uns 50 artistas, que são como se fossem olheiros naturais. Na verdade, é uma rede de pessoas que conhecem a gravadora e vão nos trazendo coisas. Por isso, são coisas de interação muito forte, que dão continuidade a Dabliú, de uma maneira que nos interessa manter: com qualidade.
PM - Vale a pena ter um selo independente?
CN - Vale, e como vale. Mas não é uma coisa que vai te realizar economicamente, financeiramente. Nisso as pessoas precisam pensar. Enquanto a pessoa não tem realização financeira, pode ser que ela se iluda achando que a realização financeira é o máximo, mas, no fundo, esse tipo de pensamento vai distanciando e levando justamente para a desigualdade material. Eu acho que o ser humano é muito mais forte que isso, muito mais completo. É claro que você quer que todo mundo esteja bem e não passe dificuldades. Mas, como eu disse, se as pessoas querem uma justificativa econômica, até para não parecer um delírio poético, não é um projeto a curto prazo. Eu achei até que era a médio, mas estou vendo que médio também não é. Mas por certo será um projeto a longo prazo.
PM - Até porque projetos de qualidade são perenes. Tem algum projeto recente sobre o qual você gostaria de falar?
CN - Um em que a gente está trabalhando e que está muito interessante é um resgate de um maestro paulistano chamado Léo Peracchi. Nós gravamos um show com músicas dele interpretadas por grandes cantoras. É interessante porque como maestro, em 1958, ele fez um disco só de canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que era uma parceria nova na época. Só que os arranjos que ele fez tinham uma concepção moderníssima. Depois desse disco, o Tom Jobim, que na época tinha arranjos mais convencionais, com os sambas-canções e tal, mudou totalmente seus arranjos. Quando o Tom apareceu com Chega de Saudade, já percebia-se uma concepção de arranjos mais moderna, que, na verdade, tinha sido influência do Léo Peracchi. Quer dizer, esse maestro influenciou o Tom Jobim na fase moderna dele. Foi um salto. Tanto é que o Léo Peracchi era o único maestro a quem o Tom Jobim chamava de mestre. Neste nosso projeto chamamos o Gudin e o Luis Roberto de Oliveira - os dois foram alunos do Léo Peracchi. Eles resolveram convidar a Orquestra Jazz Sinfônica para refazer os arranjos do Léo Peracchi com aquele disco de 1958. Usaram as partituras originais que a filha do Léo Peracchi conseguiu. Com essas partituras eles simplesmente executaram os instrumentos. Depois, o Gudin chamou algumas das maiores vozes paulistanas na ativa, como Ná Ozzetti, Mônica Salmaso, Jane Duboc, Tetê Espíndola, Vânia Bastos, Celine Imbert e a filha do Léo Peracchi, que cantou Eu sei que vou te amar e foi emocionante. Foram dois dias de apresentação e nós gravamos. A gente quer ver se lança agora até o final de novembro. O outro projeto, que também é muito importante, chama-se "Um do Um do Um", com o Madan, Luis Gayotto, Kléber Albuquerque e Élio Camalle. Vamos lançar agora porque foi gravado na virada do Milênio. O novo disco da Adiel, que está lindo, com uma produção muito bem cuidada do Renato Luiz Consorte. Outra coisa também é o Thiago Juarez, irmão da Carmina, ambos filhos do maestro Benito Juarez. Mas tem ainda bastante coisa engatilhada.