Beth Carvalho (en) canta Nelson Cavaquinho
Por Sérgio Fogaça
"O Nelson Cavaquinho não tem nada mais ou menos. Todas as músicas são muito boas. É o que eu digo: se ele tivesse a chance do Tom Jobim de ir para o exterior, tenho certeza de que seria gravado por todos os músicos do mundo"
Nelson Cavaquinho, se estivesse vivo, teria aniversariado no último dia 28 de outubro. E ganhou um presentão de Beth Carvalho, que, em dezembro, lança o CD "Nome Sagrado", inteiramente dedicado a suas obras. A consagração é mútua, como sempre foi. Mesmo que a admiração de Beth por Nelson venha de antes, só em 1972 ela tomou coragem e se aproximou do compositor. Daí em diante, se tornaram grandes amigos e parceiros em famosas rodas de samba. A intérprete consagrou músicas importantíssimas de Nelson para o cancioneiro nacional, como Folhas secas e Quando eu me chamar saudade, que estão no disco.
Como numa verdadeira roda de samba, as participações especiais são muitas. Dividindo os vocais com Beth num samba inédito do CD, Zeca Pagodinho participa em Nem todos são amigos, de Nelson em parceria com Guilherme de Brito. Ainda nos vocais, o CD conta com a participação de Wilson das Neves e Guilherme de Brito, o parceiro mais constante de Nelson. Como sempre em sua carreira, Beth também reúne no trabalho várias gerações do samba. Do violonista Vítor, de 19 anos, do Quinteto em Branco e Preto a Dino Sete Cordas, de 83 anos, do Época de Ouro.
Essa é uma das características mais marcantes da generosidade de Beth Carvalho. Durante toda sua carreira ela sempre resgatou e revelou sambistas expressivos. Foi assim quando, em 1972, gravou Folhas secas, de Nelson e Guilherme de Brito, depois em 1975 com Cartola, gravando As rosas não falam. Freqüentando assiduamente os pagodes na década de 70, entre eles o do Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro, Beth ajudou a revelar outros nomes, como o próprio Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto e o grupo Fundo de Quintal, entre outros. Provando que nunca se acomoda, recentemente tornou-se madrinha de grupos como o Quinteto em Branco e Preto, de São Paulo, e o Roda de Saia, do Rio de Janeiro.
Beth Carvalho começou na música como a maioria dos grandes na década de 60: por meio da bossa nova. Participou de quase todos os famosos festivais no fim dos anos 60 e se projetou nacionalmente quando defendeu Andança, de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, no Festival Internacional da Canção, em 1968. Em 1966 já estava envolvida com o samba participando do show "A Hora e a Vez do Samba", com Nelson Sargento e Noca da Portela. Seus sucessos desde então são inúmeros. Para citar alguns podemos lembrar de Vou festejar, de Jorge Aragão, Dida e Neoci, Saco de Feijão, de Francisco Santana, Força da imaginação, de Dona Ivone Lara e Caetano Veloso, e Virada, de Noca da Portela e Gilpert.
Ainda para lembrar os clássicos da cantora, ganharam novos registros para este CD músicas de Nelson Cavaquinho, como Luz negra e Juízo final, além das já citadas. Entre as músicas mais raras do compositor estão a própria Nome sagrado, Caridade, Visita triste e Cheira à vela. O CD, com 16 faixas, também traz uma - quase - novidade na distribuição. Será vendido em bancas de jornal encartado em uma revista. Veja este e outros assuntos na entrevista que Beth Carvalho concedeu, por telefone, à Página da Música.
Página da Música - Vamos falar do último trabalho. Você já havia gravado músicas de Nelson Cavaquinho. Quantas foram?
Beth Carvalho - Eu já havia gravado 19 músicas do Nelson anteriormente.
PM - Mas um trabalho só de músicas dele é a primeira vez?
BC - É a primeira vez em minha carreira que eu faço só um autor.
PM - Como é que surgiu essa oportunidade, sempre foi um desejo seu?
BC - Já de muito tempo, só que nunca tinha conseguido realizá-lo porque havia uma cobrança de todo o ano fazer um disco inédito. Se bem que essas músicas que estou gravando agora são inéditas também. Mas neste ano surgiu essa oportunidade com a Jam Music, gravadora de Paulo Amorim e Jane Duboc. Eles toparam esse projeto e a gente está fazendo um trabalho muito bonito. São gravações novas, não é regravação. Tem músicas que eu consagrei e outras que nunca havia gravado, apesar de serem consagradas. E tem as músicas inéditas também.
PM - Isso deve te dar muito prazer, não?
BC - Muito prazer. E o disco está muito musical, com participações legais. Tem o Zeca Pagodinho, Wilson das Neves e Guilherme de Brito, que foi o parceiro mais constante dele (Nelson Cavaquinho). O disco tem também a participação de grandes músicos, como Hamilton de Holanda, que é um gênio do bandolim, Silvério Pontes e Zé da Velha, Altamiro Carrilho e o conjunto Época de Ouro. Outra característica bacana do disco é o encontro de gerações do samba. Tem músico de 19 anos, do pessoal do Quinteto em Branco e Preto, até 83 anos, a idade do Dino Sete Cordas. Então é um disco em que todas as gerações estão tocando.
PM - O nome também é bem legal, "Nome Sagrado". Quem foi que escolheu?
BC - Foi eu mesma. É o nome de uma música, um samba lindo do Nelson. Por sinal acho que a gente vai partir pra esse negócio de música de trabalho – acho horrível esse nome, mas é uma música que eu acho que vai ser bastante cantada. A gente percebe muita força dela nos shows.
PM - O lançamento deve ser em dezembro mesmo?
BC - É em dezembro e a gente vai lançar em banca de jornal. Vai ter uma revista e o disco dentro.
PM - O que você pensa disso? Você acha que desse jeito pode funcionar melhor, fica mais acessível para o público?
BC - A distribuição é mais rápida. E também populariza mais depressa.
(Nesse momento, chega um amigo de muito anos e Beth fica sabendo que estão mixando o samba-enredo da Mangueira no estúdio onde ela está. Ela logo exclama para ele: "Eu quero ir lá ver, pode?")
BC - (Animada) Sabe, estamos num estúdio aqui e estão mixando o samba da Mangueira! Mas o que eu estava falando mesmo?
PM - Sobre a venda do CD em banca. Que a distribuição é mais rápida, que populariza mais...
BC - Depois a gente vai fazer nas lojas, mas primeiro será nas bancas.
PM - Você sabe qual é a tiragem?
BC - Vai sair com 100 mil cópias.
PM - E o show de lançamento, ou de pré-lançamento?
BC - Primeiro vai ser no Tom Brasil, em São Paulo, dias 16 e 17 de novembro, e depois no Rival, no Rio de Janeiro, de 21 de novembro a 1º de dezembro.
PM - No show você inclui músicas que não são de Nelson Cavaquinho?
BC - Provavelmente vou incluir porque fica difícil não cantar um sucesso como As rosas não falam. Vai ter alguma coisa de outros discos. Mas basicamente será em cima do disco do Nelson porque é um disco já com músicas muito populares. Eu tenho certeza de que o público vai cantar todas as músicas. Até as inéditas são muito populares. Eu poderia fazer, inclusive, só com músicas do Nelson. Mas isso não vai acontecer porque sempre o pessoal pede uma coisa ou outra.
PM - Tem alguma música do Nelson Cavaquinho que é mais marcante para você, por algum motivo?
BC - Há, Folhas secas. Foi a primeira que eu gravei dele. Inclusive é a que abre o disco e também tem mais um motivo: depois que gravei essa música, ele me deu um cavaquinho dele de presente. Até então essa música era inédita.
PM - E você tem esse cavaquinho ainda, é claro?
BC - É claro. E está no disco.
PM - O Nelson foi um dos muitos compositores que demoraram um pouco para ser reconhecido mais merecidamente.
BC - É, como todo gênio.
PM - Você acha que hoje ele tem o reconhecimento que merece ou pode melhorar?
BC - Eu acho que ele tem, mas ainda pode ter mais. Acredito que esse disco vai ajudar muito nesse sentido.
PM - Ele é bastante gravado também por outros artistas.
BC - É. Mas eu acho que agora vai ser mais, vamos ver. Eu percebi que todo mundo ficou muito impressionado com a melodia e a harmonia do Nelson. Os músicos todos ficaram muito encantados. Porque quando você se volta para um determinado autor, é aí que a gente vê mesmo a qualidade dele. E ele tem uma qualidade absurda. Ele não tem nada mais ou menos. Todas as músicas do Nelson são muito boas. É o que eu digo, se ele tivesse a chance do Tom Jobim de ir lá pra fora, eu tenho certeza de que seria gravado por todos os músicos do mundo.
PM - No último dia 28 de outubro, ele faria aniversário.
BC - Inclusive a gente queria lançar o disco nessa data, mas não deu.
PM - Você gostaria de falar alguma coisa sobre ele, aproveitando essa data?
BC - Bom eu acho que estou dando o maior presente pra ele, que é esse disco.
PM - Para ele e para todos nós. Quando deve sair o disco?
BC - Entre 5 e 10 de dezembro, se imagina que seja por aí.
PM - Obrigado Beth.
BC - Obrigada a vocês também.
Nome Sagrado - Beth Carvalho cantando Nelson Cavaquinho
16 e 17/11, às 22h
Tom Brasil - Rua das Olimpíadas, 66, Vila Olímpia
Tel (11) 3845-2326
R$ 25,00 a R$ 50,00
De 21/11 a 1/12 - quartas e quintas, às 19h30; sextas e sábados, às 20h30
Teatro Rival BR - Rua Álvaro Alvim, 33 - Centro
Tel.(21) 2240-4469
R$ 24,00 (descontos especiais BR na bilheteria do Teatro)