CD's Novembro 2001

Adolar Marin - "Qualquer Estação"

Um compositor de canções. Parece óbvio mas não é. Quando dizemos canções queremos lembrar músicas harmoniosas e de fácil assimilação. Adolar Marin tem habilidade e intimidade com a música e transporta o ouvinte para o universo delas. Este trabalho, "Qualquer Estação", é o resultado de uma série de shows iniciada em 1995 com o título "Música no Escuro". O CD abre com Musa das manhãs, uma balada em letra e música. A segunda é Nesse filme, de Adolar em parceria com Fernando Freitas. Aqui percebe-se claramente a grande influência que Djavan tem em sua carreira. Depois de Pra cantar, a terceira faixa, vem Meninos, outra canção que traz um belo casamento no arranjo, unindo letra e música. Paisagem, a quinta, é uma bela visão da natureza, com um acompanhamento encorpado. Gênesis 2, de Adolar e Fernando Cavallieri, vem com uma visão super positiva de reconstrução de mundo, com Adolar só, ao violão. O compositor também é exímio nas cordas. Depois segue com Cada pessoa, de Adolar, e Ladainha, dele em parceria com Naiman, com Adolar tocando vários instrumentos. Samba da massa, só de Adolar, lembram canções de Gonzaguinha, a começar pelo título. Não por acaso. Adolar já fez vários shows em homenagem ao compositor. A próxima é Oratória, que também traz um arranjo muito interessante. Tem de rockabilly a samba. O CD fecha com uma vinheta de Gênesis 2, terminando com um clima de sonho, como quem acaba de contar uma história. Além da consistente carreira solo, Adolar Marin já acompanhou nomes expressivos como Gonzaguinha, Rosa Maria, Walter Franco, Fátima Guedes, Bocato e Filó Machado, entre outros. Lançamento independente E-mail: adolarmarin@uol.com.br. Site: www.adolarmarin.showz.com.br. Adquira o CD pelos dos telefones (11) 4330-8816/9738-8159. (Por Sérgio Fogaça)

 

Anthonio - "Anthonio"

Cantor e compositor, Anthonio parece ter escolhido a época exata e a formatação adequada para o lançamento do seu primeiro disco, "Anthonio". Em apropriada direção, Totonho Villeroy e Gastão Villeroy captaram a essência fervilhantemente eclética do artista, traduzida em sua personalidade musical bem definida, nesta produção. O disco reúne impressões e conceitos musicais variados: são registros de cantigas de boi, referências urbanas, guardas de congado, tambores de Minas, suingue. Uma sonoridade atual e limpa costura todas estas informações. O Clube da Esquina é lembrado em parceria de Totonho Villeroy e Chico Amaral. São os novos tempos do movimento que transcendeu gerações. Sons de violões e acordeon desaguam em instantes do violino brilhante do austríaco Rudi Berger, em Trilhos (Túlio Mourão). Anthonio também cantou Makely Ka e Kristoff Silva, Caetano Veloso, Flávio Venturini e Murilo Antunes e Márcio Borges em faixas inusitadas. Mas surpresas especiais são as parcerias do próprio Anthonio com Fernando Brant, simpática reverência às influências musicais de Milton Nascimento, que também surge parceiro de Anthonio na faixa Do Rosário. Do Rosário é Minas, é Milton, voz de Anthonio cantando Brasil com força e expressão. É a rua do Rosário, de Divinópolis, terra natal do artista. Percorrendo o Brasil durante quase dois anos, Anthonio integrou a turnê ‘Tambores de Minas" de Milton Nascimento e estes tambores ecoam aí. O artista múltiplo trocou sua formação em psicologia pela versatilidade nos palcos. Do currículo anterior ao disco, experiências como ator, diretor, além do canto, percussão, violão, dança e consciência corporal. "Anthonio", o disco, certamente, traz a força tênue e presença tenaz deste artista que o país merece conhecer. Ana Carolina e Totonho Villeroy são os parceiros e autores da canção inédita, especial para Anthonio, Que se danem os nós. A balada pode ser um bom cartão de visitas para os caminhos possíveis na voz do mineiro. Do disco, a música é apenas a ponta de um iceberg de variações bem colocadas. Mas de Anthonio, as felizes letra e melodia (ouça a harmônica por Milton Guedes) estão impregnadas de emoção, força e delicadeza. Vitamina D caprichou no design gráfico. Rosários de Minas para Anthonio chegar. Contatos com o artista: anthonio@musician.org (Por Márcia Francisco, mfrancis@uai.com.br)  

 

Filó Machado - "Porto Seguro"

O multiinstrumentista, cantor, compositor e arranjador Filó Machado lança seu quarto CD no mercado brasileiro, "Porto Seguro". Fora daqui ele já tem três trabalhos, incluindo o CD "Cantando um Samba", do ano passado, lançado apenas para o mercado norte-americano e que vem colecionando elogios de publicações como Down Beat e Jazziz. E é por isso que Filó Machado vem se apresentando durante este semestre em países como Japão, Dinamarca, Estados Unidos e Espanha. "Porto Seguro" possui 13 faixas. O CD abre com um balanço bossa nova dele e Luciana de Grammont, O sonho. Depois segue com outra parceria sua, desta vez com Nei Lopes. Novo testamento traz na percussão Robertinho Silva. Na terceira faixa aparece a primeira parceria de Filó Machado com Aldir Blanc neste CD. Trata-se de A índia e o atirador de facas, música com um arranjo surpreendente. Diamante negro, de Filó e Sérgio Natureza, é uma suave canção que conta ainda com a flauta de Léa Freire. Em Maracangalha, de Dorival Caymmi, Filó Machado foi bem corajoso. Definitivamente ele deslocou o clima baiano da música. Esta versão tem mais balanço e na introdução Filó ataca com um vocalise rapper. Depois vem Quatro elementos, a segunda parceria do CD de Filó com Aldir Blanc, além do arranjo de cordas de Keco Brandão. A próxima canção, a faixa título, vem com uma super introdução de sax alto de Naylor Proveta. Porto seguro é de Filó em parceria com Judith de Souza. O CD segue com Carmens e Consuelos, mais uma canção de Filó com Aldir Blanc. Uma bela canção com alusão à cultura espanhola. Apesar de grande sonoridade, a próxima música, No tempo que chove, de Filó e Sérgio Ricardo, só tem dois instrumentos: violão e baixo. Certo que o violão é do próprio Filó e o baixo é do grande Arismar do Espírito Santo. Não deu outra. Junto com o canto de Filó, é música, música e mais música. Depois de Maracangalha, a décima canção é outra que não traz o nome de Filó na composição. Maria três filhos é de Milton Nascimento e Fernando Brant. Na percussão, mais Robertinho Silva. O disco segue com mais bossa em Olhos parados, de Filó e Judith de Souza. A seguir vem Sangue, de Filó e Francisco Blanco, com a especialíssima participação ao piano de Laércio de Freitas. O resultado é superdelicado e bom. Amar a Maria, a última canção do CD, traz uma surpresa na parceria com Filó, o grande Carlito Maia. Belo desfecho! Lançamento Lua Discos. Distribuição Azul Music. Tel. (11) 5561-0815 ou www.azulmusic.com.br . (Por Sérgio Fogaça)

 

Francis Hime - "Meus Caros Pianistas"

Um agradável passeio pela essência musical do compositor Francis Hime. O CD "Meus Caros Pianistas" é um álbum duplo com 15 grandes pianistas tocando duas músicas cada um. Um verdadeiro concerto da melhor qualidade. O projeto nasceu quando o compositor percebeu que não havia arranjos de músicas populares para o piano, de um modo geral. Começou, então, a escrever especialmente para o instrumento 30 canções pinçadas de seus 40 anos de carreira. Quanto a adequação das músicas para o piano, o próprio Francis explica no encarte/caixa (que, aliás, mereceria um capítulo a parte; é belíssimo e acompanha o bom gosto de todo o projeto) que, embora ache que as canções se prestam mais a esse instrumento, ele não poderia deixar de fora os sambas, uma paixão sua. Por isso, encontramos, por exemplo, Amor barato, dele e Chico Buarque, interpretado por Cristóvão Bastos, Anoiteceu, de Francis e Vinícius de Moraes, interpretado por Sonia Vieira, Coração do Brasil, dele com Olivia Hime, interpretado por Leandro Braga, entre outros. Aliás, foi de Olivia a idéia de chamar os ilustres pianistas presentes no CD. Entre as canções podemos citar Atrás da porta, feita em parceria com Chico Buarque e interpretada por Wagner Tiso, Trocando em miúdos, também com Chico Buarque, tocada por Miguel Proença, Mariposa, de Francis com Olivia, interpretada por Maria Teresa Madeira, Cartão postal, também com Olivia, por Linda Bustani e muitas outras. Mas Francis Hime foi além. Também no encarte, ele diz que escreveu as peças pensando não somente nas possibilidades do piano, mas também de maneira que esses arranjos contivessem todos os elementos e informações que outros arranjadores precisariam para orquestrar essas músicas. Entre os intérpretes presentes no CD, além dos nomes já citados, temos João Carlos Assis Brasil, Rosana Diniz, Clara Sverner, Gilda Oswaldo Cruz, Antonio Adolfo, Gilson Peranzzetta, Helvius Vilella e Fernanda Chaves Canaud. Um timaço! Acaba que a obra apresenta diferentes interpretações para músicas já conhecidas do público. Francis Hime gostou tanto que promete continuar compondo para piano. Lançamento Biscoito Fino. Distribuição Kuarup. Para adquirir, clique na capa do CD e entre diretamente no site Kuarup. (Sérgio Fogaça)

 

"Jackson do Pandeiro - O Rei do Ritmo" - Fernando Moura e Antônio Vicente

Um dos maiores ritmistas da história da música brasileira acaba de ganhar uma obra a sua altura. Ler a biografia de Jackson do Pandeiro por meio do texto dos jornalistas Fernando Moura e Antônio Vicente é também acompanhar a trajetória do forró pelo País. Taí uma boa oportunidade para despertar a leitura entre um público jovem que, no geral, pouco lê. Foram oito anos de pesquisa que traz, ainda, a discografia completa de Jackson. A disposição cronológica deixa a leitura mais agradável sem fazer com que o leitor se perca no tempo e no espaço. Um dos mais versáteis músicos de sua geração, Jackson imprimiu sua marca no toque ligeiro de seu pandeiro. Entre as músicas de maior sucesso podemos lembrar O canto da Ema, Forró em Limoeiro e Sabastiana, só para citar algumas. São 415 canções suas gravadas em diversos selos e formatos. Jakson nasceu em Alagoa Grande, na Paraíba, em 1919. Sua mãe era presença muito requisitada nas rodas de coco, mesclando canto, dança e percussão, da região, mas com a morte do pai todos se mudaram para Campina Grande. Foi ajudante de pedreiro e freqüentava a zona dos cabarés, onde foi despertado o grande instrumentista. Em 1945 foi para João Pessoa e construiu sua carreira passando por duas rádios: Tabajara e Rádio Jornal do Commercio, no Recife. No final dos anos 50, Jackson já começa sua conquista nas rádios do Rio de Janeiro e depois o Brasil. O livro também aborda suas relações amorosas. Parece que não foram poucas, mas as principais, sem dúvida, foram com a radioatriz e rumbeira Almira Castilho e com Neuza Flores, a fã que se tronou sua companheira dos anos de decadência da sua carreira. Jackson influenciou músicos brasileiros de diversas gerações e deveinfluenciar músicos de outras partes do mundo também. Entre os brasileiros estão Alceu Valença, Elba Ramalho, João Bosco, Fernanda Abreu, Mestre Ambrósio, Gilberto Gil e Lenine. O livro faz parte da coleção Todos os Cantos, uma reformulação mais abrangente da antiga Ouvido Musical, que mapeia os movimentos musicais em diversas abordagens. A direção da coleção é de Tárik de Souza e os próximos lançamentos previstos são "Caymmi: O mar e o tempo", de Stella Caymmi, e "A Era dos Festivais", de Zuza Homem de Mello. 412 páginas. R$ 32,00. Lançamento Editora 34 - Telefax (11) 3816-6777 ou www.34divulgacao@uol.com.br . (Por Sérgio Fogaça)

 

Quarteto Amazônia - "Adiós Nonino - Quarteto Amazônia toca Astor Piazzolla"

Astor Piazzolla completaria 80 anos em 2001. Ano que vem completam-se dez anos de sua morte. Lembrando estas datas, o Quarteto Amazônia lançou um CD inédito com músicas do bandoneonista e compositor argentino. O disco começa com a emocionante Adiós nonino, que Piazzolla compôs em 1959 quando soube da morte de seu pai. Emocionante também é a interpretação do Quarteto Amazônia nesta e em todas as músicas deste trabalho. De verdadeira alma porteña, mesmo que a música seja universal. O quarteto é formado por Alceu Reis, no violoncelo, Cláudio Cruz, 1º violino, Igor Sarudiansky, 2º violino, e Horácio Shaeffer, viola. O disco segue com Fuga y misterio, tocada pela primeira vez ao vivo pelo Quarteto no Teatro Leblon, no Rio de Janeiro, em 1997. A terceira faixa é Tres minutos com la realidad, composta pelo argentino em 1957, depois de escutar o disco Concerto nº 2 para violino de Bartok, na casa de José Bragato. Bragato manteve uma relação privilegiada com Piazzolla. Era seu violoncelista predileto, além de grande amigo e arquivista de sua obra. A confiança era tanta que em 1986 Piazzolla deu uma autorização vitalícia para que ele pudesse arranjar e publicar qualquer de suas obras, tudo por escrito e registrado em cartório. É de Bragato todos os arranjos deste CD. A quarta faixa é Inverno Porteño. Uma das Quatro Estações escritas por Piazzolla no final dos anos 60. Milonga del Ángel e La muerte del Ángel, faixas cinco e seis, são da série que homenageiam Vergara Leuman, que comandava uma boate e um programa de variedades na TV argentina, ambos chamados La Casona del Ángel. Uma das raridades de Piazzolla, Tango ballet, é a próxima canção, escrita em 1959 para o corpo de baile de Silvia Osuna. Já mais conhecida, a oitava é Calambre, de 1961. O bailado Silfo y Ondina encerra o CD englobando as três últimas faixas. São os movimentos Fugata, Soledad e Tangata, que estão entre as peças mais conhecidas de Piazzolla, já que foram, isoladamente, gravadas e tocadas pelo compositor durante muitos anos. A produção do CD é de Mario de Aratanha, peça fundamental para a realização deste extraordinário trabalho. Aratanha conheceu pessoalmente Piazzolla e é amigo de José Bragato. Lançamento Kuarup. Para adquirir, clique na capa do CD e entre diretamente no site Kuarup. (Por Sérgio Fogaça)

 

Toninho Horta - "From Ton to Tom"

Como já disse Gal Costa numa canção, "é luxo só". Este inspiradíssimo CD de Toninho Horta em homenagem ao maestro Tom Jobim é obra-prima. Concepção, repertório, sons e emoção. A própria Gal Costa participa em três faixas. Mas também outras belas vozes femininas aparecem. "As Sobrinhas", no caso do próprio Toninho, imprimem suavidade, graça e bom gosto em várias canções do disco. Aliás, como fazia questão o próprio maestro em grande parte de sua obra marcada por acompanhamentos de afinados vocais femininos. O CD abre com Meditação, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. "Quem acreditou no amor, no sorriso, na flor". E Toninho não só acreditou como também diz que a bossa nova foi sua maior referência musical desde a adolescência. O trabalho segue com Infinite love, só de Toninho. Mais um declaração explícita na batida, no arranjo das flautas etc. From Ton to Tom, de Toninho e Mariana Popoff, a faixa título, ficou mesmo sendo a música clássica do CD, sem desmerecer as outras. Harmonia pura, entre vozes femininas e alusões jobinianas. Gal Costa dá o ar de sua Graça (em maiúsculo mesmo já que também é seu sobrenome). Tudo lindo. Cristiana, também de Toninho, é um tema instrumental com Paulo Horta, irmão do artista, no baixo. Aliás, Toninho super agradece a ele e credita ter aprendido o ritmo da bossa nova com Paulo. Depois vem mais bossa com "As Sobrinhas" em Promessas que eu fiz, de Paulo Horta e Donato Donatti. Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça, e Retrato em branco e preto, de Tom e Chico Buarque, abre uma sucessão de clássicos da bossa nova. Da oitava faixa em diante, os clássicos continuam com as músicas de uma das duplas mais felizes e consagradas da música brasileira: Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Começa com Modinha, com um quase definitivo registro de Gal Costa. Passa por Água de beber, Sem você, Chega de saudade, também com Gal, Se todos fossem iguais a você e termina com Manuel Horta, filho de Toninho, mostrando seus primeiros passos no violão e, claro, com bossa nova, na música Garota de Ipanema. Interessante que essa última faixa, treze, continua como se fosse um bonus track, com quase cinco minutos de mais boa música. Um CD para bem-estar! Lançamento Minas Records. Tels (31) 3463- 6374 ou minasr@net.em.com.br  (Por Sérgio Fogaça)