"O afeto continua a ser a nica raz o para a gente estar vivo"

Por Evanize Sydow

    Oswaldo Montenegro e a banda que o acompanha h muitos anos estr iam o musical "A Lista" no dia 15 de mar o, no Tom Brasil, em S o Paulo. O espet culo, cujo elenco inclui a atriz Mayara Magri, um dos 13 escritos pelo compositor de versos raros. A m sica-t tulo de "A Lista" instigante, como toda a obra de Oswaldo: "Fa a uma lista de grandes amigos. Quem voc mais via h dez anos atr s. Quantos voc ainda v todo dia. Quantos voc j n o encontra mais. Fa a uma lista dos sonhos que tinha. Quantos voc desistiu de sonhar. Quantos amores jurados pra sempre. Quantos voc conseguiu preservar." Abaixo voc l os principais trechos da entrevista que o cantor concedeu P gina da M sica sobre a estr ia de "A Lista".

P gina da M sica - Voc estr ia o musical "A Lista" no Tom Brasil esse m s. Como a hist ria do espet culo?

Oswaldo Montenegro - A hist ria, na verdade, tem seis pessoas envolvidas com a busca do sucesso. Isso implica em paix o, disputa, perda, alegria, dor e muitas aventuras porque s o de diferentes reas. Um cantor de blues, as outras s o modelos e o outro um traficante que cantor rom ntico na noite do Rio. Ent o, s o essas pessoas envolvidas pela busca do sucesso, mas em diferentes reas. Um quer ser cantor, a outra atriz, modelo e tal. E entra nessa roda-viva o mundo da droga proporcionando al vio para o viciado e a situa o financeira r pida para o cara que ganha em uma noite traficando o que ele n o ganha em seis meses.

PM - Quando voc escreveu?

OM - Escrevi de 1999 para 2000.

PM - E nunca foi apresentado?

OM - Eu considero essa como a estr ia nacional pelo seguinte: foi apresentado no Rio em 99 um festival de pe as minhas, "Aldeia dos Ventos", "A Dan a dos Signos", "L o e Bia" e teve tr s chamadas de uma montagem da "Lista", um esbo o. Mas "A Lista" foi concebida para ser montada como est aqui. um espet culo absolutamente multim dia porque tem uma banda grande, eu estou no palco como narrador, cantor e tocando. Tem um elenco de atores, tem v deo dirigido por um cineasta, o Everton de Castro o diretor dos atores, a Mayara Magri como atriz. Quer dizer, agora eu considero a estr ia nacional.

PM - Foi voc que escolheu o elenco? Tem muita gente nova.

OM - Fui eu que escolhi. A maioria dos atores nova, mas o Marcelo Palma j tinha feito v rios musicais comigo, o Rafael Greyck tamb m, e com os outros a primeira vez que eu trabalho. E tem a banda que toca comigo h muito tempo.

PM - Voc ia adaptar "A Lista" para o cinema?

OM - Como eu fiz um v deo com um cineasta, o Bernardo Belfort, que entra narrando e completando a narra o, essa id ia existe por parte de n s dois. Mas agora estou totalmente concentrado nesse espet culo.

PM - A sua carreira marcada por v rios musicais. S o 13 ao todo. Qual a rela o de "A Lista" com os outros?

OM - Tem uma coisa que os une, que a presen a sempre da narra o. A m sica nunca entra, como na pera, no meio da a o dram tica. A a o dram tica falada. A m sica entra ajudando a narrar a hist ria. Ent o, a m sica trilha e n o pera. Isso une todos os meus musicais porque dessa id ia que eu gosto, a id ia do saltimbanco, do menestrel. E o que tem de um pouco mais novo o tamanho da equipe porque imensa. H v rias linguagens acontecendo, dessa vez mais aprofundadas.

PM - Qual o balan o que voc faz dos seus 20 e tantos anos de carreira?

OM - A primeira coisa que eu vejo nesses anos a liberdade. Eu fiz o que realmente deu na minha cabe a e o lucro maior para mim trabalhar no que eu gosto. Acho um privil gio trabalhar com paix o, com vontade. Ir para o trabalho com prazer bom. Acho que a nica virtude da vida art stica que a gente bota tudo para fora, desabafa para n o ir para o hosp cio e ainda pagam a gente.

PM - Voc vive muito em lugares diferentes. Esse o elemento principal para o seu trabalho?

OM - Acho que isso me influenciou muito. Inclusive teve uma poca da minha vida em que eu fui n made mesmo, n o tinha casa. Agora eu tenho. Mas j n o tive. E bvio que isso deve ter influenciado muito no que eu escrevo e componho.

PM - Como foram esses anos como n made?

OM - Tem at a ver com "A Lista", que fala muito dessa obsess o pelo sucesso que eu acho muito nociva. Embora o sucesso seja, obviamente, agrad vel, ele oco, vazio. O afeto o que preenche. Nada al m do afeto preenche. E quando, com (a m sica) Bandolins, fiquei uma pessoa conhecida senti que tinha de provar para mim que sobrevivia sem aquele tro o todo, entendeu? Que aquilo n o era uma teoria. Que eu sabia p r aquilo em pr tica. Depois do terceiro disco, eu abandonei a minha carreira e fiquei tr s anos rodando, morando em cidades, vivendo outras culturas. Depois, eu comecei a montar espet culos com pessoas da pr pria cidade para onde eu ia, o que me deu tamb m uma viv ncia cultural de um Brasil que m ltiplo. Na verdade, eu fingia que estava ensinando para eles e estava aprendendo. Foram anos muito ricos nesse sentido. Porque o Brasil muito rico de cultura.

PM - No seu disco anterior, "Entre Uma Balada e Um Blues", me lembro de voc falando de uma certa cr tica s rela es ou a como as pessoas estavam abdicando da rela o duradoura. Qual a sua opini o sobre o momento atual nesse sentido?

OM - Acho que o nosso momento de revis o das rela es, de uma repostura em rela o a como o ser humano vai lidar com a parte amorosa, principalmente porque ele j sabe que a paix o n o eterna, mas ainda precisa de coisas eternas para viver. Acho que a decis o, por enquanto, ainda pessoal, n o h uma regra, uma maneira boa de agir, mas isso n o significa que a gente deva tratar os afetos de forma leviana. O afeto continua a ser, na minha opini o, a nica raz o para a gente estar vivo. Como n s estamos numa poca muito conturbada em qualquer sentido que voc imagine, desde polui o sonora polui o ambiental e polui o visual, d impress o a todo mundo que se a pessoa fizer sucesso e tiver poder ela vai ser feliz. E ela n o vai. Ela corre pra caramba para chegar a lugar nenhum. E "A Lista" fala muito disso.

 

Oswaldo Montenegro - "A Lista"

A partir de 15 de mar o (sexta e s bado, s 22h; domingo, s 20h)

Tom Brasil - Rua das Olimp adas, 66, Vila Ol mpia

Tel (11) 3845-2326

R$ 30,00 a R$ 50,00