O Cientista Pop

 

Por S rgio Foga a

Maur cio Pereira uma personalidade pop. Letras articulad ssimas e arranjos criativos, suas m sicas parecem ter respira o pr pria. Futurista com o p fincado na tradi o. Sua carreira come ou j trazendo a marca da inventividade. Foi com o companheiro Andr Abujamra, quando montou "a menor big band do planeta": Os Mulheres Negras, em 1985. A dupla lan ou dois discos, "M sica e Ci ncia", em 1988, e "M sica Serve Pra Isso", em 1990. Depois voou solo a partir do lan amento do CD "Na Tradi o", em 1995. Ali j tinha marca pr pria, carimbo. Texto fluente e flu ncia harm nica. Sempre bem acompanhado, vai travando empatias durante o seu percurso musical e de vida. Depois de Andr veio Daniel Szafran, com quem co-produziu seu ltimo CD, "Mergulhar na Surpresa", em 1998. Al m desses trabalhos, participou de outros. CDs infantis, por exemplo, sempre de qualidade, como o do Castelo R -Tim-Bum, em 1995. paulistano at n o poder mais. Mistura de portugu s com italiano. S n o nasceu na Mooca, mas cresceu numa Vila Ol mpia onde se via at tatu. Casado, tr s filhos, mais um valente da m sica brasileira, pela qual vive, sobrevive, produz gente nova e reproduz sons geniais. Neste bate papo radiografamos um pouco mais o perfil de Maur cio Pereira.

 

P gina da M sica - Onde voc nasceu?

Maur cio Pereira - Nasci em S o Paulo, na maternidade S o Paulo, em 8 de novembro de 1959. Sou paulistano da gema. Italiano com portugu s, uma mistura que costumava ser t pica em S o Paulo, mas acho que agora isso se diluiu um pouco. Meus av s s o de Campinas. Ou seja, tenho pai campineiro e m e de S o Paulo, mas meus av s todos s o de Campinas. Inclusive, um dos meus av s estudou em italiano, no Circulo Italiano, em Campinas. Ent o ele falava todos os dialetos. Acho que do interior de S o Paulo isso: italiano com portugu s. Na Europa n o tem essa mistura. A It lia est longe de Portugal. uma mistura tipicamente do sudeste brasileiro.

PM - Voc estudou italiano?

MP - N o, mas minha av falava. Eu sou bisneto de italianos, ent o eu entendo. O estado de esp rito do italiano muito presente na fam lia. Alguns parentes falam alguma coisa, vez ou outra um filme que assisto, se precisar ler eu leio, mas n o consigo escrever direito.

PM - Em que bairro voc cresceu em S o Paulo?

MP - Quando eu nasci morava na rua Maria Antonia, no Centro, mas cresci na Vila Ol mpia, l por 1961 ou 1962. A Vila Ol mpia que hoje s tem ag ncia de propaganda, empresa de tecnologia e boteco de mauricinho...

PM - Voc foi o primeiro mauricinho de l ent o?

MP - (risos) N o, eu era mauricinho, mas naquela poca mauricinho era um Maur cio pequeno. Mas a Vila Ol mpia no come o dos anos 60 n o tinha asfalto, n o tinha esgoto nem luz na rua. Para voc ter uma id ia, na minha casa havia uma fossa. S foi ter telefone quando eu estava com uns 10 anos de idade. nibus, s uma linha. As vezes a gente via um tatu, tinha muito sapo tamb m. Havia muito terreno vazio, ent o tinha muito garrafeiro, jardineiro, carroceiro, maloqueiro, cigano, gente vendendo leite de cabra. E eu brincava na rua. Tinha uma galera boa, tudo molecada. Era um bairro que estava sendo formado, por isso, era t pico casais de gente nova. Minha m e trabalhava no INPS, que na poca chama-se IAPI, que financiava a compra de umas casas. Eram conjuntos de casas grandes onde moravam casais novos. Gente que estava come ando na vida e tinha chance de comprar uma casa ali, j que era um bairro tipo fronteira da cidade. Como hoje, sei l ... hoje n o tem mais fronteira. Mas se fosse o Brasil, ali seria Tocantins ou Rond nia. A cidade acabava ali.

PM - Como era sua fam lia? Era grande, voc tinha mais irm os?

MP - Tenho mais dois irm os homens e eu sou o mais velho.

PM - Mas a sua inf ncia foi de brincar na rua mesmo?

MP - Bicicleta, futebol, r dio e televis o.

PM - Estudou em escola p blica?

MP - Um peda o na p blica, um peda o em particular. Ali no Itaim tinha o Costa Am ncio, uma escola p blica boa. Mas o colegial fiz no Santa Cruz, depois de ter feito o gin sio no Costa Am ncio. E eu era um dos que escrevia melhor no Santa Cruz, n o senti falta de ter feito o gin sio em escola p blica. Tirando a parte ideol gica, porque fiz o gin sio no auge da ditadura, de 1970 a 73, ent o tinha Moral e C vica, n o se dava tanta aten o s mat rias de humanas, mas era bem melhor. Mesmo assim, se voc tivesse um bom professor de hist ria, por exemplo, podia ser legal. Eu lembro que naquela poca, no Costa Am ncio, a onda era uma id ia de causas e conseq ncias, o que j melhor do que s ficar falando datas e fazendo a gente decorar. E esses dias olha o que eu achei (Maur cio mostra um libreto): meu livro de m sicas do Costa Am ncio. S o cantos orfe nicos, s hinos. por isso que quando tinha Os Mulheres Negras eu cantava hino paulista etc. Esse um livro de Jo o Batista Juli o. Aula de m sica l era s hino. Minha classe, desafortunadamente, era s de homem. Quarenta e oito machos, durante quatro anos.

PM - Mas por que, n o era permitido misturar?

MP - N o sei, acho que o diretor achava que n o dava certo misturar. N o sei se era assim em todo o col gio do Estado?!? Ent o eram 48 malucos cantando hino bandeira, hino a rep blica, a independ ncia. A gente berrava at explodir a classe.

PM - Bem ou mal, j foi algum tipo de refer ncia musical.

MP - Canto orfe nico. Um tro o que no tempo da minha m e rolou muito. Ontem mesmo eu estava olhando esse livro para entender, ter essa no o de canto orfe nico. S o m sicas assim super caretas, entre aspas.

PM - Voc sabe o que identifica o canto orfe nico?

MP - Acho que coral, coisas c vicas. Eu n o sei direito, preciso ver melhor. uma coisa que acho que no tempo do Get lio Vargas e Ademar de Barros devia rolar muito.

PM - Mas de onde voc considera que vem suas primeiras influ ncias, primeiras lembran as de m sica?

MP - Minha m e era professora de piano quando eu era pequeno. Eu acompanhava ela dando aula. Ela at me colocou para estudar um pouco, mas n o deu certo, fui mais de jogar bola. Escutava muito r dio. Sempre fui ouvinte de r dio. Tenho radinho desde uns quatro anos de idade. Quando era pequeno, fazia as minhas li es ouvindo r dio. Ouvia todos os programas da manh da R dio Bandeirantes, j que estudava tarde. Ouvia a Eldorado, porque meu pai ouvia muito essa esta o. Ouvia o programa do Moraes Sarmento, noite, por isso conheci Noel Rosa, Lamartine Babo, Carmem Miranda. Escutava antes de dormir. "Comia" pilha quando era pequeno.

PM - Quem esse radialista que voc citou?

MP - Moraes Sarmento um radialista que j morreu e fazia a hora da saudade, na R dio Bandeirantes. Mas tamb m conheci muita m sica pela televis o. Eu sou dos anos 60. Ent o vi muito programa da Jovem Guarda, que, para mim, foi vital. Domingo eu assistia O Circo do Arrelia, Jovem Guarda e Perdidos no Espa o. S bado noite tinha o Astros do Disco, com o Randal Juliano, na Record. Ent o ia l o Jair Rodrigues, Elisete Cardoso, Francisco Jos , caras da antiga, Lindomar Castilho, v rios.

PM - A fam lia toda via ou foi uma coisa sua?

MP - A fam lia gostava muito de assistir O Fino da Bossa. Com Elis Regina, Elisete, Ca ulinha, Zimbo Trio, Jair, Wilson Simonal, Ciro Monteiro. Eram caras que lembro de ver na TV. Tudo na Record. Tinha tamb m o Essa Noite se Improvisa. Um programa apresentado pelo Blota Jr., onde falavam uma palavra e tinha que adivinhar a m sica. Quem ganhava era sempre o Erasmo Carlos e o Caetano Veloso. Assisti a todos os festivais da Record pela televis o. Lembro de ver A Banda, Disparada, Ponteio. Atrav s da televis o vi muita m sica, principalmente MPB, Jovem Guarda e O Fino da Bossa. Naquela poca n o t nhamos aparelho de som, era s a vitrolinha. Pelos compactos, ouvia historinhas naqueles disquinhos coloridos que agora relan aram. Com orquestra o do Radam s Gnattali, Guerra-Peixe. Texto, dire o e m sicas eram do Braguinha. Ent o, n o deixa de ser refer ncia. E tamb m eu ia direto em baile de Carnaval.

PM - E quando voc come ou efetivamente a mexer com a m sica, aprender, tocar?

MP - Quando estava no fim do colegial voltei a estudar piano e aprender saxofone. Mas acho que sempre fui um ouvinte atento. Prestava aten o para saber quem eram os m sicos que tocavam com determinado artista. Ouvia muita MPB e jazz nos anos 70. Tamb m rock n roll, reggae e funk, por exemplo. Enfim, eu era um ouvinte que estabelecia rela es, um ouvinte atento. E sempre escrevi muito.

PM - Isso j na adolesc ncia?

MP - Na adolesc ncia. E s vezes escrevia sobre m sica. Id ias. Mas acho que o meu primeiro contato ativo mesmo foi esse piano e saxofone que estudei perto de entrar para a faculdade. Fiz jornalismo na ECA (Escola de Comunica o e Artes da Universidade de S o Paulo). Estudei m sica um semestre s , com um professora particular. Estudei o microcosmo, de B la Bart k que... eu n o virei m sico ali, mas me deu uma no o de fraseado que foi muito bom para mim. O microcosmo isso, voc entender frase, contracanto...

PM - Explica para gente o que o microcosmo, de B la Bart k?

MP - um m todo de piano solo. B la Bart k um compositor h ngaro. O m todo era muito simples, mas ele colocava em cada m o uma frase e as m os n o se copiavam. Nessa poca tamb m estudei muito num livro de instru o musical, solfejo, entoar nota, percep o, um pouquinho de harmonia. Mas a eu parei. Durante a faculdade, comecei e parei de estudar sax umas 50 vezes. Eu achava que n o ia ser m sico mesmo. Nunca toquei em banda, n o tinha banda. N o compunha, n o cantava. Nada, nada. Acabei a faculdade e fui trabalhar como jornalista. Isso foi em 1980. Trabalhei numa r dio da rede LC, dona da Musical FM. Escrevia uma programa o de FM que era vendida para o Brasil inteiro. Eram not cias que iam para a rede da r dio, no m s seguinte. Depois traduzi teletipo na UPI (United Press International), trabalhei na Bandeirantes, escrevendo chamadas para filmes. Isso na poca em que o Walter Clark entrou l . E depois ainda fui revisor no Estad o. At 1985, entrei e sa de mil empregos de jornalismo e continuei estudando saxofone, do jeito que deu. Isso gra as ao Rafael Batata, que era o clarinetista da Sinf nica Municipal, que sempre me aceitava de volta para come ar do zero. Ele teve muita paci ncia comigo.

PM - Mas voc ent o continuou a estudar m sica?

MP - Enquanto trabalhava como jornalista, fazia uns cursos. Ganhava uma grana e ia estudando. A conheci o Andr (Abujamra), acho que em 1983, num curso de percuss o africana no TBC, teatro que o pai dele (Antonio Abujamra) arrendava na poca. Curso com o Daniel Slon, que era disc pulo do Guen, um percussionista argelino que passou um tempo aqui no Brasil e deixou os instrumentos. O Daniel Slon era uma figura. O pai dele era spalla da sinf nica da USP, o irm o dele tocou com o S rgio Mendes. Ele era um judeu/argelino que dava aula de c lulas r tmicas africanas. Nessa oportunidade, teve um grupo que se formou e o curso durou dois anos. Mas eu e o Andr tivemos empatia logo na primeira aula. Ele fazia faculdade de m sica. Logo me convidou para eu tocar com os amigos dele l da faculdade, na FAAM (Faculdade de Artes Alc ntara Machado), e fui tocar. A gente tinha uma banda chamada Muscad Xalote eu, o Andr e mais um pessoal que toca no Terra Brasil, que uma banda de m sica instrumental. A "briga" na banda era porque eu e o Andr ramos pop e o resto da banda, instrumental. Metade virou Os Mulheres Negras e metade Terra Brasil.

PM - Quando come ou ent o a banda Os Mulheres Negras?

MP - Foi em 1985. Eu ainda n o sabia o que ia fazer da vida. Fazia bicos com jornalismo.

PM - Voc estava exercendo sua profiss o, mas estava sempre "beliscando" a m sica?

MP - Sempre belisquei. Nunca parei de tocar sax, nunca parei de ouvir. Para voc ver, eu entrei num curso de percuss o africana. De repente estava l tocando com caras de uma faculdade de m sica. Entrei na Orquestra da FAAM.

PM - Voc ent o resolveu ser m sico?

MP - Eu resolvi ser m sico a partir de um workshop que o Andr me convidou para fazer com o Paulo Moura, em 1985. Eu pensava: n o estudei m sica direito, n o entendo nada e n o estudo desde pequeno e, de repente, me vi ali no meio de uma p de m sico, e saquei que eu era muito musical, acima da m dia at . Eu vou fazer isso, tinha o instinto da coisa. E o curso do Paulo Moura foi muito legal. A energia que ele levou para o curso, os toques que ele deu etc. Aos 25 anos voltei a estudar m sica. Foi com o Gerson Flutuoso, um cara que ensina contrabaixo no Sesc Vila Mariana. Precisava tirar o atraso, ent o fui estudar leitura, solfejo, percep o, harmonia. Estudava de ouvido porque n o sabia tocar instrumento harm nico: nem piano, nem viol o. Ent o meti o campo harm nica na minha orelha assim, por osmose.

PM - Voc foi entrando de sola mesmo? Porque ao mesmo tempo em que voc estava estudando, voc j estava fazendo show com a dupla, certo?

MP - Sim. P , acho que at a metade dos Mulheres Negras eu estava estudando. sacrificado porque voc n o tem saco de estudar, mas, depois de velho, voc aprende mais r pido. Ao mesmo tempo, Os Mulheres Negras foi uma escola de outra forma tamb m...

PM - Desculpa, mas isso que voc falou sobre "estudar depois de velho" tem a ver com a determina o.

MP - verdade. E tamb m voc n o est estudando porque ningu m est mandando, al m da m sica ser interessante. Se eu pudesse ter uma bolsa para passar um ano estudando arranjo, composi o, pesquisando m sica brasileira, autores etc, eu queria, mas n o d tempo, a correria muito grande. Mal d para se reciclar como artista. E a o Mulheres come ou. Eu e o Andr , a gente se vestia mal, a gente achava que tinha que ter cara de alguma coisa. Anos 80, a gente era pop mas era uma banda instrumental. Pelo menos durante um ano e meio, o Mulheres foi uma banda instrumental. S que a gente tocava U2, Paralamas, Bob Marley, Lob o e depois come amos a fazer m sicas com equipamentos eletr nicos. Mas ramos uma banda instrumental. A prova o primeiro disco do Mulheres. Cerca de 60 ou 70% das m sicas s o instrumentais.

PM - Esse primeiro disco foi lan ado quando?

MP - Em 1988. Chamava-se "M sica e Ci ncia", lan ado em vinil, pela Warner, produ o do Pena Schmidt e Paulinho Calazans, que era o tecladista do S e Guarabyra e hoje est com o Caetano.

PM - Foi lan ado pela Warner?

MP - Nos anos 80 a Warner lan ou todo o rock paulista, gra as ao Andr Midani e ao Pena Schmidt. Foi o Peninha que levou os paulistas do rock para l . Levou tamb m uma outra leva de grupos como o Luni, Inocentes, Gueto e Nouvelli Cousine. O Andr Midani era um chef o de gravadora que gostava de m sica. Hoje eu n o vejo isso. Gostava, entendia e bancava a maluquice. Hoje os caras s pensam em grana. O Midani pensava em grana, negociante timo, perfeito, capitalismo isso a , mas voc podia discutir est tica com o cara. Deu guarida para um trabalho como o do Mulheres...

PM - Agora esse tipo de sensibilidade s existe nas pequenas?

MP - Agora s nas pequenas, n o tem jeito...

PM - Pequenas por enquanto?

MP - Eu acho que vai mudar, mas n o vale a pena crescer. Porque o mercado das pequenas pulverizado. melhor fazer uma cooperativa e descobrir o seu nicho e oficializar esse mercado. Mas crescer acho bobagem, se n o passa a ter jab , a distribui o passa a ser cara. Por exemplo, como o site de voc s. uma equipe enxuta, que sabe cuidar bem do que est fazendo. Como o n mero de acessos?

PM - Sempre mais de 35 mil acessos por m s...

MP - P , acesso pra caramba! E isso, se tem uma hora que voc come a a crescer, voc tem que ter uma estrutura igual do Uol. A particularidade de voc s funciona at enquanto voc s s o os donos do texto. Quando cresce demais e tem que terceirizar, a coisa come a a perder a pessoalidade. Isso o legal do mercado independente: pessoalidade. uma maneira de voc fazer neg cio, de voc fazer cultura. Uma maneira forte, inquebr vel. Fui descobrir isso depois que sa do Mulheres. Embora, no Mulheres, a gente j praticasse isso, mesmo dentro de uma gravadora grande. O Mulheres foi uma escola.

PM - Do que exatamente?

MP - Eu e o Andr tivemos uma no o de n o s querer fazer um show, mas um espet culo. O que um espet culo? N o s colocar dez m sicas ali, como muita gente faz. N o. Tem figurino, roteiro, iluminador, t cnico de som para timbrar, acertar as coisas, tem produtor, empres rio. Ent o, O Mulheres era uma banda que, em 85, com seis meses de vida, j tinha equipe. Os t cnicos que a gente formou, entre aspas, ali no Mulheres, eram caras que foram para Tit s, Fernandinha Abreu e Lulu Santos depois. E n s ramos uma banda de "bolso", a gente ensaiava no quarto do Andr . Mas que tinha tanta no o de show business que a gente gerou m o-de-obra para os artistas que tinham grana para estar no Olympia e no Palace (casas de espet culo grandes em S o Paulo).

PM - Voc s dois tinham essa no o de espet culo?

MP - Partia da gente. Acho que vem de v rias coisas. Primeiro a gente tem um som maluco. Segundo, tanto eu como o Andr somos muitos c nicos e muito gozados. Ent o a gente misturava as coisas, o show era meio circense. E o Andr vem de uma fam lia de teatro. imposs vel ele n o pensar em termos de espet culo, na dire o e roteiro. E o Mulheres foi ficando meio mitol gico. A gente era organizado, tinha uma microempresa, tinha produtor.

PM - O Mulheres foi de 1985 at que ano?

MP - At 1991. No final de 90 n s lan amos nosso segundo disco: "M sica Serve Pra Isso". J foi produ o nossa, minha e do Andr .

PM - Foi uma produ o independente?

MP - O primeiro a Warner colocou a gente no Vice-Versa, que era um est dio grande, com o Peninha. Ficamos l dois ou tr s meses, fizemos uma demo e tudo mais l . Esse segundo a gente produziu tudo, e depois a gente apresentou a nota para a Warner e ela pagou. O Peninha Schmidt sempre dava essa cobertura para gente e o Midani dava esse apoio tamb m. Gravamos no Mosh, que um est dio de gravadora grande de S o Paulo. Mas a concep o sonora foi da gente. E acho legal isso porque nos anos 80 os artistas n o pensavam em produ o de disco. Sempre tinha o Liminha, o Peninha, o Mazola ou n o sei quem. Ent o, o Mulheres foi uma das primeiras bandas a ter iluminador... Tipo o Guilherme Bonfante, que trabalhou comigo, depois tamb m com o Andr no Karnak. Foi trabalhar com uma p de artista. Com a Marina Lima etc. Pessoas que foram trabalhar com a m sica. E no segundo disco a gente foi buscar sonoridade, n s que mixamos. N o tinha muita gente que fazia isso n o. Nos anos 90, sim. Mas antes de nego ter computador em casa a gente j fazia isso. Ent o, o Mulheres foi uma boa escola para n s e, indiretamente, muita gente boa bebeu no Mulheres. Embora ningu m fale disso. Mas bebeu. Tamb m muito cara assistiu, teve id ia e usou depois. Eu vejo isso. Alguns falam e outros n o. O Mulheres foi uma escola de fazer espet culo. E mais: fazer espet culo e ter a microempresa. Fazer dentro do mercado. Editar as m sicas, vender o show, ter uma agenda. Foi "profissa" para xuxu. Lidar com o mercado da nossa maneira. A gente enviava um jornal semestral, tinha 5 mil pessoas na mala direta. Era super organizado, guerrilha total. Aprendemos muita coisa. A se comunicar com o p blico. Aprendi a improvisar no palco, porque antes eu era mudo no palco. Depois que aprendi a falar com o p blico e o Andr cuidava mais dos instrumentos. Ent o, para mim foi uma escola tamb m de lidar com a plat ia. Eu n o sabia dar entrevista. Era t o t mido que n o conseguia olhar para a c mera. A em 1991 acabou.

PM - Como foi depois que acabou o Mulheres?

MP - Bom, eu cai no mercado a seco. O Andr nesse meio tempo montou um est dio e foi fazer publicidade. No fim do Mulheres eu acabei compondo um disco inteiro, que foi o Na Tradi o. Estava composto ali por volta de 91 ou 92. Mas fui com muita calma. Estava de ressaca, em 91 quase n o toquei. Arranjei um trampo que me segurou, al m de dar canja em alguns lugares. Trabalhei na novela Ana Raio e Z Trov o. Fazia o papel de um palha o saxofonista, que aparecia no fundo. Comecei no fim desse ano a fazer testes para formar uma nova banda. Pensei que n o queria pegar nenhum dos caras que eu j conhecia. At porque metade j tinha ido para o Karnak. Eu fiquei m sico depois de velho, entre aspas, ou seja, eu n o tinha minha turma de m sicos adolescentes. N o tinha 15 anos de estrada, eu tinha uns cinco anos e s com o Andr . Ent o pensei: para ter uma sonoridade diferente do que estava rolando, vou fazer teste. Fazia uma demo das minhas m sicas no computador. Fiz um monte de c pia e me tranquei num est dio l na Pomp ia, chamado Quorum. Fiquei um m s l . Entrava um baterista atr s do outro, um pianista atr s do outro. E montei o time. Que era o Eli Roisman, na bateria, que tinha vindo de uma banda de country. Ele tinha uma pegada muito legal, de lenhador assim e era inteligente. E era um cara que quando tinha que tocar em 7 por 4, ele tocava, 5 por 4. Um cara que voc poderia falar de est tica com ele.

PM - Caracter sticas que te interessavam na poca?

MP - Eu queria uma banda de branco. Em S o Paulo, no in cio dos anos 90, todo mundo tocava igual preto, embora todos brancos. Eu queria uma banda europ ia.

PM - Quais foram os escolhidos?

MP - Eli Roisman, na bateria. Baixista eu experimentei v rios, mas acabei trabalhando com o Fon Jimenez, que agora sonoplasta da MTV. Na poca ele era roadie dos Mulheres Negras. Eu estava cismado que n o queria guitarra na banda. Queria uma banda diferente. Estava procurando um pianista, que fosse de levada. E n o de melodia ou de muita nota. Pouca nota e groove, s isso eu queria no piano. S isso, a coisa mais dif cil. Experimentei um monte de pianistas, cheguei no Gerson Surya, que tocava em bandas de reggae por aqui. Tamb m tocava com o Z K ti, teve na Bahia e tocou com o Edson Gomes. Neg o, pouca nota e muito suingue. E trombone... Nessa poca eu estava dando umas canjas no Gr mio Recreativo Amigos do Samba Rock Funk Soul, do Skowa, Azael, Tuba.

PM - Quando foi isso, mais ou menos?

MP - De 91 para 92. E l eu j tocava com o Cl udio Bone, que era um trombonista que tamb m tovaca guitarra, cantava, um m sico maravilhoso. Morreu num assalto h uns quatro anos . Ent o a banda era essa. O Eli que era um baterista assim rock n roll, Led Zeppellin. O Fon que era um baixista meio Police. O Gerson que era manhoso, pouca nota, quase uma mistura de Jo o Donato com Herbie Hancock da fase funk. E o Cl udio Bone que era um trombonista maluco, meio jazz, meio gafieira, meio rock n roll, cantava muito. Ouvido absoluto, uma cara de frente de palco, que improvisava comigo. E aquelas m sicas esquisitas que eu fiz. Eu estava muito sem dinheiro e sem infra. E assim, eu sou um tipo t mido, ent o nos meus tempos de Mulheres Negras eu n o conheci produtores, donos de est dio. Ficava l , trancado no meu peda o fazendo m sica. Sempre fui meio quieto. Eu n o conhecia essa mec nica de gravar disco. No Mulheres tinha a produ o da gente, a grana da Warner. Ent o fui descobrir como fazia disco. O Dino Vicente co-produziu o disco comigo. Dino que trabalha com Rita Lee, Arrigo Barnab , Dulce Quental, Guilherme Arantes, uma p de gente. Era meu amigo. Trabalhava escrevendo arranjos no Vozes do Brasil, que era o est dio do Z Rodrix e Tico T rpins, est dio de jingle. E o Dino me arranjou hor rios l . Gravei o disco de um jeito cl ssico. Gravado como se gravava na RCA, nos anos 70. N o tive grana para mixar. A mixagem do Na Tradi o uma c pia de monitor muito bem feita. Tanto que as pessoas gostam do disco e ele n o tem nenhum inven o em termos de mixagem. Ele arroz e feij o total. O disco vale pela can o e por ser um disco cl ssico. Com pouco dinheiro e pouco conhecimento de produzir um disco, foi o que eu consegui fazer. um disco bem denso e bem esquisito. Inclusive esquisito no sentido que a palavra tem em espanhol, que raro, dif cil de encontrar. um disco que n o parece com nada. Jamais algu m conseguiu comparar o Na Tradi o com alguma coisa. N o parece com nada. Que bom. Do jeito que o mercado hoje p ssimo, as pessoas querem que voc se pare a com alguma coisa. Mas como eu sou, basicamente, um inventor sem p tria assim...

PM - Mas quando voc montou essa banda, parece que voc sabia bem o que queria, tipo de instrumenta o etc. Mas a voc s come aram a gravar e ensaiar, e depois partiram para gravar o disco?

MP - Era uma poca que tinha uma casa velha da minha m e e eu tinha um quarto l , antes de eles venderem. Eu tinha um equipamentozinho de som e a gente ensaiou muito l . Ent o a banda, depois de quatro meses, antes de estreiar, j se conhecia muito bem. E teve uma qu mica maluca. Eram caras que jamais iam se cruzar na vida, e se cruzaram. Teve uma qu mica. E qual era essa qu mica? Muita din mica, garra, muito sangue quente. Banda de muita emo o. Uma vez eu dirigi um show do Hermeto Pascoal e isso me influenciou. Nem sei se foi na poca dessa banda... N o, foi depois. Mas eu j fazia uma coisa intuitiva que o Hermeto tamb m fazia. Eu colocava a banda sempre muito perto e pedia para os m sicos se olharem. E ainda falava: "voc s ficam na cola de como eu estou cantando, eu quero a banda ativa o tempo todo". N o porque a gente ensaiou e a banda tem um arranjo que ela precisa ser sempre igual. Eu posso chamar no meio, aumentar um solo. Se o m sico brincou e vai continuar, continua. Se eu chamei para cantar mais alto, vamos comigo. Ent o era um banda muito viva, muito pulsante.

PM - Improviso mesmo?!

MP - Improvisava o tempo todo. Era uma banda que estava o tempo todo acordada. N o tocava nada escrito. Cada m sica ia ser diferente, num diferente show. E fomos muito para a estrada. Fizemos show em periferia.

PM - Qual era o nome da banda?

MP - Natra Toca Tudo. Depois virou s Natra. Que veio mesmo de Na Tradi o.

PM - Fizeram bastante shows?

MP - Fizemos muita coisa. Os Sescs, em S o Paulo e interior. Casas de cultura, muitas. Projetos da Secretaria da Cultura. Nessa poca comecei a dar oficina tamb m. Eu quebrei tanto a cara para produzir disco. E mesmo aquela hist ria que eu falei, que fazia na faculdade, que era juntar peda os de pensamentos sobre m sica, produ o, cultura. Comecei a fazer oficinas de produ o de shows e tamb m palestras sobre: vamos pensar esse pop vagabundo no contexto da cultura. Porque eu tenho um certo bode do nego que fala: "p , sertanejo uma merda." N o uma merda, isso tem uma raz o de ser. Enraizada mesmo. Isso surge de baixo para cima. No ano passado teve o neg cio do funk do tigr o. Todo mundo ficou puto. N o era o fim da picada como a maioria falava. um som que se faz h trinta anos na periferia do Rio. Tem raz o de ser aquela batida Miami que eles usam, parece ciranda...

PM - A mesma coisa do Tchan, que samba de roda, como disse o Gilberto Gil, ou foi o Paulinho da Viola?

MP - Exato. Quando vi saquei que era samba de roda e nego me gozou. Um dia Paulinho da Viola veio no jornal e disse que era samba de roda. P , ent o , vamos ver o valor. Se n o fosse o Tchan, talvez n o se falasse em samba de roda.

PM - O problema que depois vem a hist ria da f rmula, que o cara pega e...

MP - Meu, n o tem essa. M sica pop redund ncia. superficialidade. Se voc n o gosta disso, ent o n o vai ouvir r dio. Vai nesses shows que v o tr s pessoas atr s de papo cabe a. Eu sou um inventor do pop. Ent o eu escuto... se voc quiser eu te mostro meus discos do Daniel, do Leandro e Leonardo, do Funk do Tigr o, que eu comprei. De Tchan, de pagode. Mas tamb m n o deixo de ouvir t cno, m sica erudita, ou coisas de folclore brasileiro. O que vier eu tra o. Mas, quando a gente est falando de pop, a gente est falando de redund ncia. No caso da can o pop: a, b, refr o, a, b, refr o, tchau! Solo de quatro compassos, cheio de frases feitas e clich . O que bonito do pop voc inventar sobre press o. Para quem est no mercad o mesmo, vendendo, Pato Fu, Skank, Tit s, at mais malabarismo eles conseguirem colocar inven o. Porque eles tem a press o da grana. Eu sou o marginal do pop, eu posso por mais inven o. Ent o eu tenho mais liberdade. At porque n o tenho a press o de ter que vender cem mil discos. Mas n o sou melhor do que o Skank, que n o melhor que o Xit ozinho e Xoror , que n o melhor que o Tchan, que n o melhor que o Stokenhouse, nem que o Beethoven, nem que o Villa-Lobos. Para mim, m sica m sica, n o tem subdivis o. M sica ruim coisa que a gente precisa procurar, ouvir, porque tem a picaretagem. Ent o tipo, o Tchan descobriu uma onda, porque h dez anos atr s n o existia o samba-reggae, samba de roda. Ou mesmo Daniela Mercury. Daniela Mercury, nego fala que ax , que isso enche o saco. T , vai ver se a quinze anos atr s existia samba-reggae, esse tipo de m sica, que uma mistura de m sica do Olodum com m sica pop, com MPB. Ent o, s o pessoas que criaram sim. E a gente n o percebe a cria o do pop comercial porque ela vem em gotas, mas isso e normal. O perfume assim, a alquimia assim. O que a alquimia? Um perfume que a ess ncia, voc coloca uma gota e segura o dia inteiro, e a gua de col nia voc enche aquele frasco de gua, mais fraco, mas pode servir a mais pessoas. Pop isso, dilui o, no bom sentido, no sentido alquimista da palavra. Dilui o para ser democr tico. Socializar e democratizar a inven o, a festa, a dor, a cultura. Bach, Beethovenn, Mozart, Caetano Veloso, Amado Batista, o mesmo barco. Ent o para mim muito claro, esse preconceito de dizer que tal g nero e ruim, n o. O que me enche o saco n o o g nero, o jab . A gente fica com raiva as vezes de um musica, ou de um estilo, mas o que faz aquele tro o ficar tocando em todos os lugares e, as vezes incomodando mesmo, o jab , que o suborno que as gravadoras, geralmente as multinacionais, d o para as grandes r dios para s tocar a mesma musica. Ent o o que a gente tem dio sem saber, o suborno, a corrup o, n o um g nero musical. Porque se fosse democr tica a programa o das r dios, se n o tivesse o jab , esse abuso de poder econ mico, um som como o meu, ou da Alzira Esp ndola, ou do Elomar, tocaria tanto quanto o do Roberto Carlos, sem jab . Ou talvez, claro, os mais populares. Mas de qualquer modo, essa corrup o do jab , tornou a radio invi vel nos anos 90. O Mulheres Negras tocava muito no radio, hoje n o tocaria, n o tem mais as radios, tudo virou rede. O jab virou institucional. Ent o voltando...

PM EM 95 voc gravou com essa forma o o CD?

MP Em 95 com essa forma o, praticamente ao vivo dentro do Vice e Versa, eu gravei o Na Tradi o.

PM Como praticamente ao vivo?

MP Eu n o cliquei. Clicar e colocar o metr metro. Ensaiei muito a banda, marcava o andamento inicial. O Eli era muito bom em andamente. Ent o eu dizia qual era o tempo...

PM Bom, isso tudo muito coerente com o que voc me disse sobre como funcionava a banda. Com improviso, etc

MP Certamente. No disco est assim, se teve coisa que nego errou, ou inventou, ou a banda viajou, foi, porque eu achava importante. um disco super naturalista, sem agrot xico. Inclusive n o comprimi nada. Coisas que hoje se faz. Comprimir, gravar. Hoje eu n o faria mais disco assim. Bom, nesse meio tempo fui tocar no Fanzine (programa voltado ao p blico jovem, apresentado por Marcelo Paiva, na TV Cultura de S o Paulo), cantar no Fanzine, dois anos. Foi de 92 a 94. No duro, eu comecei com a minha banda em 92, mas s consegui gravar o disco em 95. Colocar ele na rua. Gravei ele em 93.

PM No Fanzine tinha uma forma o com gente do grupo Luni...

MP O Carneiro, que era do Karnak e do Z Geraldo, O Reinaldo Chulapa que era da banda Vexame, tamb m tocava pagode com a Eliana de Lima e fazia m sica instrumental, Daniel Szafran que tocava com a Laura Finochiaro e com o Luis Air o, Jean Arnoult, o saxononista que tocava com o Cl nica e com a Vexame, Fernando Sal m, tamb m da Vexame e o Luiz Waack, que tocava com o Itamar Assun o e com a Marisa Monte no come o, al m da Nat lia Barros que cantava junto comigo. Eu entrei no lugar do Tel Wernek, que foi Dj do Positivo, na Bandeirantes. Isso mudou um monte de coisa. Primeiro meu jeito de cantar. Eu cantei mais de 600 m sicas no programa.

PM A cada dia mudava o tema e voc s ensaiavam. Era bem puxado, como voc s faziam?

MP No fim da semana anterior, cada um recebia uma fita com as m sicas da semana seguinte. Na segunda n o tinha grava o. Ent o a gente fazia arranjo no final de semana e ensaiava todas, rapidamente em duas ou tr s horas ensaiava trinta musicas. Todos m sicos muito experientes. E o mapa dos programas eram muito bem feitos pelo Sal m. O Sal m foi um mestre, maravilhoso o trabalho dele ali. Apesar de que l , t nhamos a letra na frente. M sicos experientes, improviso, adrenalina e um ensaio bem feito para dar as diretrizes. Gravava um ou dois por dia, de ter a a sexta. A gente tinha na real, tr s dias para montar aquele repert rio.

PM E foi nessa poca que voc conheceu o Szafran?

MP Nesse meio tempo, ou seja, entrei no Fanzine e estava no processo de gravar o Na Tradi o, conheci o Szafran. Foi um amor a primeira vista. Com ele assim, num segundo j esta rolando m sica.

PM Foi bem f rtil esse per odo dos anos 90, voc estava com uma banda pr pria, estava no Fanzine, conheceu um parceir o que esta ai ate hoje...

MP Mas um baita estresse tamb m. As vezes ensaiava de manh at o come o da tarde com a Natra, corria para o Fanzine que come ava gravar s 14h e ia at s 22h. Era todo dia isso, eu estava assim em fiapos, mas o jeito. Mas o Fanzine tamb m me segurou de grana para eu poder at bancar um pouco os m sicos, para meter na estrada a banda, rodar, rodar, me fazer um pouco conhecido. Acabei bancando eu mesmo o Na Tradi o.

PM Esse foi independente?

MP Independentasso. Eu lancei duas edi es independentes e depois licenciei para a Tinitus. Nesse meio tempo eu queria estar na estrada. Eu fiz muita coisa de rua. Falei para o Daniel que gostaria de fazer um pocket show do meu trabalho. Primeiro eram algumas m sicas dos Mulheres, as musicas do Na Tradi o, comecei a escrever coisas novas que a banda Natra j foi tocando, mas o Daniel traduziu tudo para o piano. Ent o n s fizemos muito estrada de piano e voz. Onde n o dava para ir com banda, ou porque o cach era baixo ou n o tinha equipamento.

PM E essa parceria vai durando at hoje?

MP Sim, n s temos feito muitas coisas juntos. Eu tenho quase dez anos de estrada com o Daniel. Trouxe ele para fazer oficinas comigo. Enquanto vou conversando e inventando texto, e as vezes uma melodia, ele j vai ligando os peda os e fazendo m sica. Dou workshop sobre palavra cantada, can o, m sica. Tem tamb m um outro workshop sobre produ o de disco. Como a gente, com o m nimo de dinheiro, consegue produzir o melhor disco poss vel.

PM Bom, esse foi um know how que voc adquiriu na ra a.

MP E d pra fazer coisas legais. A tecnologia e a intelig ncia permite que a gente fa a isso. E tenho levado o Daniel comigo. Porque o Daniel, fora ser um grande pianista, n o do jazz e nem do erudito, do pop, ele tamb m muito bom para trabalhar com computador. Ent o a gente tamb m tem essa parceria. Nessa minha oficina de produ o de disco, vou conceituando a coisa e o operacional ele faz para mim. Mixa, grava, o cara muito talentoso. Ent o uma parceria grande, fizemos m sica junto, no segundo disco ele foi um co-produtor.

PM S para n o perder o fio da meada, voc lan ou o Na tradi o em 95, a voc estava com essa banda que durou...

MP Essa banda durou at 97. A eu j estava com o Daniel e preparando o material do pr ximo disco que foi o Mergulhar na Surpresa, lan ado em 98 pela Atra o. um disco de piano e voz e alguns convidados. Eu s gravei esse disco de piano e v s porque eu conheci um m sico fabuloso e original como o Daniel. Tamb m gravei o Mergulhar, no mesmo esp rito do Na Tradi o. N o tem clique, n o tem metr metro. Fomos para o est dio Zabumba, que tem um piano de calda. Tamb m quem co-produziu o CD ali foi o Andr Magalh es, maravilhoso. Na mesma sala eu e o Daniel e o Andr falava valendo. Cantava, saiu, saiu. Em tr s dias fizemos sessenta takes. Foi um clima bem diferente do primeiro disco. Menos estresse e tens o. Chamei muito amigo para gravar. O primeiro disco foi meio clausura. A gente ficava l trancado do est dio Vozes do Brasil, parecia que a gente estava incomodando, pegava sobra de hor rio. Ningu m tinha certeza de nada. E no fim da banda Natra, o Daniel acabou entrando tamb m. Saiu o Cl udio Bone e saiu o Gerson Surie. Entrou o Daniel no teclado e o Eduardo Cabello, na guitarra. O Cabello toca no Karnak e tem o Sindicato do Groove. Ent o as coisa foram todas ao mesmo tempo, porque no mundo independente n o d . Eu componho um material para um disco hoje, que deveria gravar daqui a tr s meses, para lan ar daqui a cinco meses. Leva tr s anos para fazer, n o tem jeito. Eu n o sou pol tico e nem negociante para fazer meus discos sa rem depressa, infelizmente. Em 98 saiu o Mergulhar, consegui fazer alguma estrada, mas 98 foi um ano ruim, os Sescs estavam muito fechados, o mercado estava fechado, n o tinham muitos projetos do governo, ent o n o consegui rodar tudo com esse disco. Fiz bastante S o Paulo, mas n o consegui sair muito da capital, por isso fiquei animado de relan ar ele quando acabou o licenciamento que eu fiz com a Atra o. Relancei ele pela Lua Discos.

PM Foi no ano passado esses relan amentos?

MP No final de 2000. O Na Tradi o eu arrematei um resto de estoque que estava na Velas, que tenho para vender comigo. Est o todos em cartaz.

PM Foram relan ados os dois do Mulheres...

MP Isso, os dois do Mulheres foram relan ados, na s rie Arquivos Warner, pela m o do Charles Gavin, baterista do Tit s. Eu e o Andr remasterizamos e, um detalhe, em cima de matriz digital, a maior sorte. Eu tinha matriz digital do segundo disco. Guardei assim do nada.

PM Voc tem ent o quatro discos pr prios, dois do Mulheres e dois sozinho?

MP Isso.

PM Teve outros projetos?

MP Em 2000, fiz um show de um ano no supremo, que ia virar um disco pela Lua. Mas por problemas de edi o e produ o, o projeto foi abortado. Um disco que chegou a ser gravado, mas nem eu e nem a Lua tem condi es de lan ar.

PM Voc canta coisas suas?

MP N o canto nada meu. Estou de crooner. E a banda que tocou no Fanzine comigo, com a diferen a que era o Cl udio Faria no trompete, no lugar do Jean Arnould, mas a banda do Fanzine. Eu cantava Daf , Cassiano, Don Beto, Erasmo Carlos, Dalto, Roling Stones, Donna Sammer. O direito autoral ficou impratic vel. Nessas a Lua estava relan ando o Mergulhar e eles me falaram que esse disco dan ou e perguntaram se eu tinha material para um disco novo, de in ditas. Isso em novembro. N o tenho mas eu topo. Comecei no fim do ano passado, um trabalho de letra que j vinha fazendo, eu comigo mesmo, letras e grooves. Foi tanta vontade que acabei compondo duas d zias de m sicas. uma fornada interessante. N o can o mais simples, que tem a, b, refr o, a, b, refr o, s o can es com formatos diferentes. uma caracter stica minha. Ai, muita coisa desse material novo groove com poesia.

PM - Porque voc cita poesia e n o letra?

MP - A poesia usa palavras e tem um caminho de texto que mais maluco que a can o. A can o tem a rima, ela mais simples, mais organizada. A poesia pode ser mais porra louca, mais viajandona. Ent o um disco que metade poesia e metade letra, um disco de groove, as melodias... n o t o melodioso, mas tem linha mel dica. Tem uma influencia de hip hop, que um tro o que escuto h vinte anos, e que na minha opini o uma das coisas mais importante da m sica paulistana nos ltimos dez anos. de onde vieram os poetas, de onde veio alguma provoca o. Ou mesmo novidade em produ o e de sonoridade. Acho que o hip hop foi muito importante para a cidade de S o Paulo nos anos 90. Ent o tem alguma influencia, embora eu n o v fazer hip hop, porque eu n o estou aqui para papagaiar ningu m. E vou ficar rid culo se a essa altura do campeonato for fazer hip hop. Embora eu adore. Tem influencia, coisas com mais groove, mais batidas, mais mel dicas. Ao mesmo tempo quando falo o texto, um pouco hip hop, um pouco poesia. Eu falo como poeta, ent o me liberto do r tmico. Acho que um trabalho interessante.

PM Tem uma previs o de quando fica pronto esse trabalho?

MP Nesse primeiro semestre acho que n o sai. um trabalho legal, eu estou contente.

PM Voc gosta bastante de hip hop.

MP N s n o temos folclore aqui em S o Paulo, ent o o folclore da gente a gente. o hip hop, nibus a mistura de coisas, o jeito que a gente fala o portugu s, a m sica n o t o melodiosa e suingada que a gente faz. muito rico S o Paulo. N o toca no r dio, mas muito rico. S o alguns trabalhos muito paulistanos e que tem a ver com o meu perfil. Qual o meu perfil? Sou um cara do pop, sou inventor, estou metido com coisas esquisitas. Ao mesmo tempo que sou t mido, tive muita exposi o na m dia, porque durante dois anos estive todos os dias na TV. Nem o Francisco Cuoco esteve todos os dias na TV, s o Cid Moreira. Ent o coisas que tem haver com m dia, com pop, com superficialidade e ao mesmo tempo com inven o, com tradi o e ao mesmo tempo com falta de tradi o. Nos anos 90, trabalhos pop do subterr neo paulista ca ram na minha m o. Primeiro foi a Banda Paralela, banda que toca marchando, que nem retreta de coreto de interior. uma retreta, s que toca pop, rock, funk, marchando. muito pop a Paralela, genial. Fiquei loco quando vi e disse: "quando voc s forem gravar me chamem." Ajudei eles a gravar, tinha pouco dinheiro. E falei: "vamos ajuntar, fazer pr -produ o, ensaiar bastante." Eu achei muito legal, muito paulista, que tinha haver com tradi o e tinha haver com novidade. Foi isso, preparei eles, organizei um pouco o som para ir para o est dio, j que era uma banda de rua. N o estavam acostumados a microfone. Descolei de gravar no Mosh a pre o de banana, descolei um cara legal para mixar. Dei as discas de prensagem, etc. Meteram uma grana e produziram o disco por conta pr pria e j est o na segunda ou terceira edi o, vendem muito em show, est o tocando num programa do Netinho. Uma banda louca, trabalho muito interessante, bom de tocar em festa.

PM - Mas como foi que voc conheceu eles, ou melhor, como esses "trabalhos pop do subterr neo paulista" ca ram na sua m o?

MP - Em 90 e alguma coisa, o Sesc me convidou para dirigir uma s rie de shows chamado Som da Demo, que era um projeto onde dez grupos iam ter suas m sicas gravadas num disco e tinha o show de lan amento do disso. Grupos novos que o Sesc escolheu e eu fui dirigir os shows. Junto com a dire o de show, fiz um workshop para esses m sicos novos. Porque? Eu ia ter que colocar dez m sicos no palco, com o Paulo Moura e o Hermeto Pascoal no meio, ent o ia ter dez mudan as de palco, de luz, de som, de forma o. Ent o fiz um workshop com os caras sobre trabalho no palco. Nesse evento conheci o Bico-de-Pena. Um marido e uma mulher, Renato Camargo e Angelique Camargo, ele toca flauta e ela violoncelo. M sicos eruditos, de orquestra, que queriam tocar o popular, com uma t cnica muito grande, e ainda, mais do que tudo, com uma garra muito grande. Arranjos quase intoc veis, parece que tem dez pessoas tocando. Gravei tamb m sem clicar, e ao vivo no Zabumba. Eles est o na mesma sala se olhando, porque era importante. E quando fui preparar eles para o disco eu falei isso: "voc s est o tocando muito bem, agora tira a partitura da frente, vai para a praia dez dias, volta, e toca de ouvido at a gente gravar o disco." Isso amoleceu o disco e trouxe um car ter mais popular. Trabalho muito bonito o deles. E sempre tentando achar um selo para lan ar, mas os selos n o tem como bancar, ent o lan aram por eles mesmos.

PM - Produziu mais gente?

MP - Sim, depois produzi a Rita Monteiro, que foi parecido tamb m. Chegou, me procurou, um trabalho interessante, uma cantora... o Brasil tem muitas cantoras, que muitas vezes tem um repert rio parecido, uma maneira parecida. A Rita me veio com um lado mais paulistano de repert rio. Tinha eu, tinha Tonho Penhasco, tinha Taciana, tinha uma p de gente que nem sempre est no mesmo disco. E uma banda que tinha uma pegada de rock n roll, apesar de ser MPB, ent o achei interessante. Uma MPB meio de garagem. E ela ra uda. Pouco dinheiro, ent o otimizei a produ o, fiz eles ensaiarem bastante em fun o da grava o. Gravamos no est dio do Luiz Waak, ficou legal o trabalho, ela deu sorte, trabalhou com muita gente boa a um custo baixo. Ela prensou, como sempre n o conseguiu gravadora, mas isso normal. E agora estou produzindo mais dois, tamb m nesses esquemas malucos. Um da Rossanna Decelso, produtora do Zeca Baleiro. um disco de m sicas in ditas do Zeca. Estamos gravando bem devagar, nas horas de folga dela, tem bastante gente participando do disco, at o pr prio Zeca. Tem Paulinho Moska, Lob o, Pato Fu, a Banda Paralela, Bico-de-Pena, o Swami Jr., Toninho Ferragutti, uma p de gente. Uma mistura grande para fazer um disco em cima de Zeca Baleiro, artesanal. Estou terminando de produzir tamb m o disco de um artista maravilhoso do Recife chamado Armando Lobo. um trabalho que tem haver com frevo, pop e MPB. Todo orquestrado, porque ele m sico erudito, no entanto ele tem uma veia popular forte, e ele um m sico barroco fan tico. Tem um p no barroco, um p no frevo, ao mesmo tempo as letras e melodias s o muito bonitas. um poeta mundano. As m sicas tem religiosidade, mas tamb m tem aspectos mundanos, um trabalho muito interessante. Uma das coisas mais interessantes que eu j vi. Orquestra es maravilhosas, a banda mandando ver. Ao mesmo tempo que tem oito linhas de metal, de corda, tem l uma cozinha de baixo, piano e bateria descendo o bra o tamb m.

PM Bom, voc algo pr ximo do multi-homem?

MP N o porque eu queira, eu sou um tipo pregui oso. Eu gostaria de cair na estrada, fazendo shows acompanhados do Daniel, mas tenho tr s filhos para criar, fa o uma m sica diferente do padr o, nenhuma gravadora me quer, nenhuma radio toca minha m sica. necessidade e paix o. Vejo trabalhos muito legais que acho que tem que rolar. Voc v , todos os discos que gravei dos outros, s o o primeiro disco de algu m. Depois que rolar, vem algu m com grana e faz. Nesses anos 90, entre outras tantas coisas, fiz o primeiro show brasileiro via internet ao vivo, em 96, ningu m tinha site. Mas como te digo, o que a gente descobre fazendo a pr pria produ o. N o tinha m dia para mim, radio grande e tal, agora esta at um pouco melhor, tem uma rede de radios educativas pelo Brasil a fora, mas no meio dos anos 90 o neg cio estava trancado. Ent o fui nas radios piratas e na internet. Seguramente eu fui um dos cinco primeiros artistas a ter site no Brasil. Em 95 eu j tinha site. Eu atrasei o lan amento do Na Tradi o para existir internet. Quando vi o que era, pensei: eu preciso desse tro o. E vendo muito pela internet. Me escrevem e-mail e respondo todos, vendo pelo correio. A internet uma ferramenta forte para mim. Nesse show em 96 eu tive 50 mil pessoas no mundo inteiro assistindo.

PM Como foi esse show?

MP Um show ao vivo, no Centro Cultural S o Paulo. Quem produziu a parte de filmar, a tecnologia, foi o Jo o Ramirez, que hoje trabalha na TV Uol. Ao vivo. O (Gilberto) Gil n o conseguiu, com IBM, Warner e O Globo. E no entanto, com Jo o Ramirez e seus dois 486 eu consegui fazer isso.

PM Uma coisa que permeia muito a sua hist ria, pelo menos musical, : do m nimo o m ximo, n o?

MP Mas . Eu nunca tenho recurso, tenho que fazer as coisas da inven o e da economia. Eu acho at que uma forma de luta para a gente resistir numa cidade como S o Paulo : dos poucos recursos que se tem, voc jogar criatividade e for a em cima. Eu acho que ser artista e inventor no Brasil isso. Voc conseguir o m ximo de plumas e paet s com o m nimo de mat ria. desgastante, estou com 42 anos e estou cansado. Mas a id ia essa, como conseguir o m ximo do m nimo sempre. Com internet ou radio pirata. Fui em pelo menos cem radios aqui em S o Paulo. Algumas maravilhosas, algumas n o t o legais.

PM Voc fez isso antes do Lob o, n o ?

MP Parece que sim. O Lob o, eu acho o seguinte, um cara de gravadora grande, passou vinte anos na Globo. Na grande m dia, dentro do esquema grande, ele o cara que contesta mesmo. Acho que ele viu que existe vida no subterr neo e ficou deslumbrado, aproveitou essa imagem que ele tem. N o tenho duvida. O Lob o chegando tem mais poder aglutinador que eu. Ele um cone. Ele junta as pe as e tudo acontece. Eu fa o trabalho de formiga e fa o trabalho de desbravador. Tipo, quando o Mulheres Negras produzia disco e show, ningu m fazia isso nos anos 90. Ent o se voc esta sempre cinco, dez anos na frente no tempo, dif cil voc ganhar dinheiro, dif cil voc ter p blico, voc esta desbravando linguagem. Ent o natural que o Lob o que leve a fama mesmo, at porque eu j estou num estagio depois. Mas eu n o sei at quando vou ag entar estar desbravando, porque quando eu tiver 50, 60, 70 anos eu n o vou ter preparo f sico para isso. E o gasto psicol gico muito grande. Ser inventor, fazer coisas que ningu m nunca fez, por pequenas que sejam, um estresse, um desgaste.

PM Mas voc esta tranq ilo?

MP Tranq ilo no tiroteio. Tem um peda o de uma m sica minha que emblem tico. A m sica chama-se Inventor brasileiro e est no disco Mergulhar na Surpresa: "um inventor brasileiro a p / come fub , bebendo caf ...". A gente n o movido a milh es de d lares, fub e caf , as coisas simples e bvias. Tem que ser. O pagode uma inven o simples e obvia, o pagode genial, n o importa que tem um monte de nego que fez besteira depois. Mas um cara que juntou pop com samba... O samba estava morto nos anos 80, onde que se ouvia samba no radio. S no programa do Mois s da Rocha, na USP FM. USP, uma radio universit ria, era a nica radio que tocava samba, era um gueto.

PM Bom, que as pessoas passaram a escutar mais samba, ou mesmo, mais m sica brasileira, isso verdade.

MP Ele abriu a porta para se ouvir os mestres. O que o pop, democr tico. O pagode que o samba mais pop, mais simples, ele permite ao homem branco, do p duro e da bunda dura que n o sabe dan ar, permite que essa pessoa se divirta, dan e um pouco.

PM Com essa estrutura mais f cil e tal, porque ser que ao inv s do hip hop os artistas da periferia n o usam o pagode, por exemplo?

MP Mas eu acho que para S o Paulo, pelo menos, o hip hop muito mais obvio do que o pagode. Embora o pagode seja paulistano da gema. um samba de uma cidade que samba mal. O Germano Matias, o Adoniram Barbosa ou o Paulo Vanzoline, uma cidade onde o samba de outra esp cie, um samba de italianos. Por sua vez, a cultura negra n o hegem nica como no Rio. O Rio do samba, do samba-can o, da bossa nova que samba, samba-rock, funk, o funk carioca tem um p no samba, como a banda Black Rio, a gafieira. A cultura carioca negra e mulata. S o Paulo uma cidade europ ia, do rock n roll, dos Dem nios da Garoa e n o do Cartola e do Nelson Cavaquinho. A gente barulhento, da can o italiana tamb m, t no samba, t no Vicente Celestino, nesses nego que cantam de peito em cantina, Quando eu era pequeno ia ver isso l no Br s. outra onda aqui em S o Paulo. Acho que o negro aqui, numa cidade industrial, feia, cinza, cruel, dura se expressa mais intensamente atrav s do hip hop. E at porque a cidade muito pobre e o hip hop desobriga voc de saber melodia e harmonia, ou de tocar um instrumento.

PM N o parecido com o pagode nesse sentindo?

MP N o. Pagode exige m sicos com suingue e execu o. E o hip hop, se voc pegar uma base americana voc faz. quase como um repente sem instrumento, que venha do nordeste. uma oportunidade para essa molecada da periferia, que talentosa e tem muita coisa na cabe a. O dia-a-dia deles muito rico, embora seja pesado. D para eles uma chance de criar. E gente que j ouviu de tudo: rock, MPB, samba. o jeito paulista pop. dilui o.

PM - Muito obrigado pela entrevista.

MP - Obrigado a voc s tamb m e boa sorte!

 

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