O Cientista Pop

 

Por Sérgio Fogaça

Maurício Pereira é uma personalidade pop. Letras articuladíssimas e arranjos criativos, suas músicas parecem ter respiração própria. Futurista com o pé fincado na tradição. Sua carreira começou já trazendo a marca da inventividade. Foi com o companheiro André Abujamra, quando montou "a menor big band do planeta": Os Mulheres Negras, em 1985. A dupla lançou dois discos, "Música e Ciência", em 1988, e "Música Serve Pra Isso", em 1990. Depois voou solo a partir do lançamento do CD "Na Tradição", em 1995. Ali já tinha marca própria, carimbo. Texto fluente e fluência harmônica. Sempre bem acompanhado, vai travando empatias durante o seu percurso musical e de vida. Depois de André veio Daniel Szafran, com quem co-produziu seu último CD, "Mergulhar na Surpresa", em 1998. Além desses trabalhos, participou de outros. CDs infantis, por exemplo, sempre de qualidade, como o do Castelo Rá-Tim-Bum, em 1995. É paulistano até não poder mais. Mistura de português com italiano. Só não nasceu na Mooca, mas cresceu numa Vila Olímpia onde se via até tatu. Casado, três filhos, é mais um valente da música brasileira, pela qual vive, sobrevive, produz gente nova e reproduz sons geniais. Neste bate papo radiografamos um pouco mais o perfil de Maurício Pereira.

 

Página da Música - Onde você nasceu?

Maurício Pereira - Nasci em São Paulo, na maternidade São Paulo, em 8 de novembro de 1959. Sou paulistano da gema. Italiano com português, uma mistura que costumava ser típica em São Paulo, mas acho que agora isso se diluiu um pouco. Meus avós são de Campinas. Ou seja, tenho pai campineiro e mãe de São Paulo, mas meus avós todos são de Campinas. Inclusive, um dos meus avós estudou em italiano, no Circulo Italiano, em Campinas. Então ele falava todos os dialetos. Acho que é do interior de São Paulo isso: italiano com português. Na Europa não tem essa mistura. A Itália está longe de Portugal. É uma mistura tipicamente do sudeste brasileiro.

PM - Você estudou italiano?

MP - Não, mas minha avó falava. Eu sou bisneto de italianos, então eu entendo. O estado de espírito do italiano é muito presente na família. Alguns parentes falam alguma coisa, vez ou outra um filme que assisto, se precisar ler eu leio, mas não consigo escrever direito.

PM - Em que bairro você cresceu em São Paulo?

MP - Quando eu nasci morava na rua Maria Antonia, no Centro, mas cresci na Vila Olímpia, lá por 1961 ou 1962. A Vila Olímpia que hoje só tem agência de propaganda, empresa de tecnologia e boteco de mauricinho...

PM - Você foi o primeiro mauricinho de lá então?

MP - (risos) Não, eu era mauricinho, mas naquela época mauricinho era um Maurício pequeno. Mas a Vila Olímpia no começo dos anos 60 não tinha asfalto, não tinha esgoto nem luz na rua. Para você ter uma idéia, na minha casa havia uma fossa. Só foi ter telefone quando eu estava com uns 10 anos de idade. Ônibus, só uma linha. As vezes a gente via um tatu, tinha muito sapo também. Havia muito terreno vazio, então tinha muito garrafeiro, jardineiro, carroceiro, maloqueiro, cigano, gente vendendo leite de cabra. E eu brincava na rua. Tinha uma galera boa, tudo molecada. Era um bairro que estava sendo formado, por isso, era típico casais de gente nova. Minha mãe trabalhava no INPS, que na época chama-se IAPI, que financiava a compra de umas casas. Eram conjuntos de casas grandes onde moravam casais novos. Gente que estava começando na vida e tinha chance de comprar uma casa ali, já que era um bairro tipo fronteira da cidade. Como hoje, sei lá... hoje não tem mais fronteira. Mas se fosse o Brasil, ali seria Tocantins ou Rondônia. A cidade acabava ali.

PM - Como era sua família? Era grande, você tinha mais irmãos?

MP - Tenho mais dois irmãos homens e eu sou o mais velho.

PM - Mas a sua infância foi de brincar na rua mesmo?

MP - Bicicleta, futebol, rádio e televisão.

PM - Estudou em escola pública?

MP - Um pedaço na pública, um pedaço em particular. Ali no Itaim tinha o Costa Amâncio, uma escola pública boa. Mas o colegial fiz no Santa Cruz, depois de ter feito o ginásio no Costa Amâncio. E eu era um dos que escrevia melhor no Santa Cruz, não senti falta de ter feito o ginásio em escola pública. Tirando a parte ideológica, porque fiz o ginásio no auge da ditadura, de 1970 a 73, então tinha Moral e Cívica, não se dava tanta atenção às matérias de humanas, mas era bem melhor. Mesmo assim, se você tivesse um bom professor de história, por exemplo, podia ser legal. Eu lembro que naquela época, no Costa Amâncio, a onda era uma idéia de causas e conseqüências, o que já é melhor do que só ficar falando datas e fazendo a gente decorar. E esses dias olha o que eu achei (Maurício mostra um libreto): meu livro de músicas do Costa Amâncio. São cantos orfeônicos, só hinos. É por isso que quando tinha Os Mulheres Negras eu cantava hino paulista etc. Esse é um livro de João Batista Julião. Aula de música lá era só hino. Minha classe, desafortunadamente, era só de homem. Quarenta e oito machos, durante quatro anos.

PM - Mas por que, não era permitido misturar?

MP - Não sei, acho que o diretor achava que não dava certo misturar. Não sei se era assim em todo o colégio do Estado?!? Então eram 48 malucos cantando hino à bandeira, hino a república, a independência. A gente berrava até explodir a classe.

PM - Bem ou mal, já foi algum tipo de referência musical.

MP - Canto orfeônico. Um troço que no tempo da minha mãe rolou muito. Ontem mesmo eu estava olhando esse livro para entender, ter essa noção de canto orfeônico. São músicas assim super caretas, entre aspas.

PM - Você sabe o que identifica o canto orfeônico?

MP - Acho que é coral, coisas cívicas. Eu não sei direito, preciso ver melhor. É uma coisa que acho que no tempo do Getúlio Vargas e Ademar de Barros devia rolar muito.

PM - Mas de onde você considera que vem suas primeiras influências, primeiras lembranças de música?

MP - Minha mãe era professora de piano quando eu era pequeno. Eu acompanhava ela dando aula. Ela até me colocou para estudar um pouco, mas não deu certo, fui mais de jogar bola. Escutava muito rádio. Sempre fui ouvinte de rádio. Tenho radinho desde uns quatro anos de idade. Quando era pequeno, fazia as minhas lições ouvindo rádio. Ouvia todos os programas da manhã da Rádio Bandeirantes, já que estudava à tarde. Ouvia a Eldorado, porque meu pai ouvia muito essa estação. Ouvia o programa do Moraes Sarmento, à noite, por isso conheci Noel Rosa, Lamartine Babo, Carmem Miranda. Escutava antes de dormir. "Comia" pilha quando era pequeno.

PM - Quem é esse radialista que você citou?

MP - Moraes Sarmento é um radialista que já morreu e fazia a hora da saudade, na Rádio Bandeirantes. Mas também conheci muita música pela televisão. Eu sou dos anos 60. Então vi muito programa da Jovem Guarda, que, para mim, foi vital. Domingo eu assistia O Circo do Arrelia, Jovem Guarda e Perdidos no Espaço. Sábado à noite tinha o Astros do Disco, com o Randal Juliano, na Record. Então ia lá o Jair Rodrigues, Elisete Cardoso, Francisco José, caras da antiga, Lindomar Castilho, vários.

PM - A família toda via ou foi uma coisa sua?

MP - A família gostava muito de assistir O Fino da Bossa. Com Elis Regina, Elisete, Caçulinha, Zimbo Trio, Jair, Wilson Simonal, Ciro Monteiro. Eram caras que lembro de ver na TV. Tudo na Record. Tinha também o Essa Noite se Improvisa. Um programa apresentado pelo Blota Jr., onde falavam uma palavra e tinha que adivinhar a música. Quem ganhava era sempre o Erasmo Carlos e o Caetano Veloso. Assisti a todos os festivais da Record pela televisão. Lembro de ver A Banda, Disparada, Ponteio. Através da televisão vi muita música, principalmente MPB, Jovem Guarda e O Fino da Bossa. Naquela época não tínhamos aparelho de som, era só a vitrolinha. Pelos compactos, ouvia historinhas naqueles disquinhos coloridos que agora relançaram. Com orquestração do Radamés Gnattali, Guerra-Peixe. Texto, direção e músicas eram do Braguinha. Então, não deixa de ser referência. E também eu ia direto em baile de Carnaval.

PM - E quando você começou efetivamente a mexer com a música, aprender, tocar?

MP - Quando estava no fim do colegial voltei a estudar piano e aprender saxofone. Mas acho que sempre fui um ouvinte atento. Prestava atenção para saber quem eram os músicos que tocavam com determinado artista. Ouvia muita MPB e jazz nos anos 70. Também rock’n roll, reggae e funk, por exemplo. Enfim, eu era um ouvinte que estabelecia relações, um ouvinte atento. E sempre escrevi muito.

PM - Isso já na adolescência?

MP - Na adolescência. E às vezes escrevia sobre música. Idéias. Mas acho que o meu primeiro contato ativo mesmo foi esse piano e saxofone que estudei perto de entrar para a faculdade. Fiz jornalismo na ECA (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo). Estudei música um semestre só, com um professora particular. Estudei o microcosmo, de Béla Bartók que... eu não virei músico ali, mas me deu uma noção de fraseado que foi muito bom para mim. O microcosmo é isso, você entender frase, contracanto...

PM - Explica para gente o que é o microcosmo, de Béla Bartók?

MP - É um método de piano solo. Béla Bartók é um compositor húngaro. O método era muito simples, mas ele colocava em cada mão uma frase e as mãos não se copiavam. Nessa época também estudei muito num livro de instrução musical, solfejo, entoar nota, percepção, um pouquinho de harmonia. Mas aí eu parei. Durante a faculdade, comecei e parei de estudar sax umas 50 vezes. Eu achava que não ia ser músico mesmo. Nunca toquei em banda, não tinha banda. Não compunha, não cantava. Nada, nada. Acabei a faculdade e fui trabalhar como jornalista. Isso foi em 1980. Trabalhei numa rádio da rede LC, dona da Musical FM. Escrevia uma programação de FM que era vendida para o Brasil inteiro. Eram notícias que iam para a rede da rádio, no mês seguinte. Depois traduzi teletipo na UPI (United Press International), trabalhei na Bandeirantes, escrevendo chamadas para filmes. Isso na época em que o Walter Clark entrou lá. E depois ainda fui revisor no Estadão. Até 1985, entrei e saí de mil empregos de jornalismo e continuei estudando saxofone, do jeito que deu. Isso graças ao Rafael Batata, que era o clarinetista da Sinfônica Municipal, que sempre me aceitava de volta para começar do zero. Ele teve muita paciência comigo.

PM - Mas você então continuou a estudar música?

MP - Enquanto trabalhava como jornalista, fazia uns cursos. Ganhava uma grana e ia estudando. Aí conheci o André (Abujamra), acho que em 1983, num curso de percussão africana no TBC, teatro que o pai dele (Antonio Abujamra) arrendava na época. Curso com o Daniel Slon, que era discípulo do Guen, um percussionista argelino que passou um tempo aqui no Brasil e deixou os instrumentos. O Daniel Slon era uma figura. O pai dele era spalla da sinfônica da USP, o irmão dele tocou com o Sérgio Mendes. Ele era um judeu/argelino que dava aula de células rítmicas africanas. Nessa oportunidade, teve um grupo que se formou e o curso durou dois anos. Mas eu e o André tivemos empatia logo na primeira aula. Ele fazia faculdade de música. Logo me convidou para eu tocar com os amigos dele lá da faculdade, na FAAM (Faculdade de Artes Alcântara Machado), e fui tocar. A gente tinha uma banda chamada Muscad Xalote – eu, o André e mais um pessoal que toca no Terra Brasil, que é uma banda de música instrumental. A "briga" na banda era porque eu e o André éramos pop e o resto da banda, instrumental. Metade virou Os Mulheres Negras e metade Terra Brasil.

PM - Quando começou então a banda Os Mulheres Negras?

MP - Foi em 1985. Eu ainda não sabia o que ia fazer da vida. Fazia bicos com jornalismo.

PM - Você estava exercendo sua profissão, mas estava sempre "beliscando" a música?

MP - Sempre belisquei. Nunca parei de tocar sax, nunca parei de ouvir. Para você ver, eu entrei num curso de percussão africana. De repente estava lá tocando com caras de uma faculdade de música. Entrei na Orquestra da FAAM.

PM - Você então resolveu ser músico?

MP - Eu resolvi ser músico a partir de um workshop que o André me convidou para fazer com o Paulo Moura, em 1985. Eu pensava: não estudei música direito, não entendo nada e não estudo desde pequeno e, de repente, me vi ali no meio de uma pá de músico, e saquei que eu era muito musical, acima da média até. Eu vou fazer isso, tinha o instinto da coisa. E o curso do Paulo Moura foi muito legal. A energia que ele levou para o curso, os toques que ele deu etc. Aos 25 anos voltei a estudar música. Foi com o Gerson Flutuoso, um cara que ensina contrabaixo no Sesc Vila Mariana. Precisava tirar o atraso, então fui estudar leitura, solfejo, percepção, harmonia. Estudava de ouvido porque não sabia tocar instrumento harmônico: nem piano, nem violão. Então meti o campo harmônica na minha orelha assim, por osmose.

PM - Você foi entrando de sola mesmo? Porque ao mesmo tempo em que você estava estudando, você já estava fazendo show com a dupla, certo?

MP - Sim. Pô, acho que até a metade dos Mulheres Negras eu estava estudando. É sacrificado porque você não tem saco de estudar, mas, depois de velho, você aprende mais rápido. Ao mesmo tempo, Os Mulheres Negras foi uma escola de outra forma também...

PM - Desculpa, mas isso que você falou sobre "estudar depois de velho" tem a ver com a determinação.

MP - É verdade. E também você não está estudando porque ninguém está mandando, além da música ser interessante. Se eu pudesse ter uma bolsa para passar um ano estudando arranjo, composição, pesquisando música brasileira, autores etc, eu queria, mas não dá tempo, a correria é muito grande. Mal dá para se reciclar como artista. E aí o Mulheres começou. Eu e o André, a gente se vestia mal, a gente achava que tinha que ter cara de alguma coisa. Anos 80, a gente era pop mas era uma banda instrumental. Pelo menos durante um ano e meio, o Mulheres foi uma banda instrumental. Só que a gente tocava U2, Paralamas, Bob Marley, Lobão e depois começamos a fazer músicas com equipamentos eletrônicos. Mas éramos uma banda instrumental. A prova é o primeiro disco do Mulheres. Cerca de 60 ou 70% das músicas são instrumentais.

PM - Esse primeiro disco foi lançado quando?

MP - Em 1988. Chamava-se "Música e Ciência", lançado em vinil, pela Warner, produção do Pena Schmidt e Paulinho Calazans, que era o tecladista do Sá e Guarabyra e hoje está com o Caetano.

PM - Foi lançado pela Warner?

MP - Nos anos 80 a Warner lançou todo o rock paulista, graças ao André Midani e ao Pena Schmidt. Foi o Peninha que levou os paulistas do rock para lá. Levou também uma outra leva de grupos como o Luni, Inocentes, Gueto e Nouvelli Cousine. O André Midani era um chefão de gravadora que gostava de música. Hoje eu não vejo isso. Gostava, entendia e bancava a maluquice. Hoje os caras só pensam em grana. O Midani pensava em grana, negociante ótimo, perfeito, capitalismo é isso aí, mas você podia discutir estética com o cara. Deu guarida para um trabalho como o do Mulheres...

PM - Agora esse tipo de sensibilidade só existe nas pequenas?

MP - Agora é só nas pequenas, não tem jeito...

PM - Pequenas por enquanto?

MP - Eu acho que vai mudar, mas não vale a pena crescer. Porque o mercado das pequenas é pulverizado. É melhor fazer uma cooperativa e descobrir o seu nicho e oficializar esse mercado. Mas crescer acho bobagem, se não passa a ter jabá, a distribuição passa a ser cara. Por exemplo, como o site de vocês. É uma equipe enxuta, que sabe cuidar bem do que está fazendo. Como é o número de acessos?

PM - Sempre mais de 35 mil acessos por mês...

MP - Pô, é acesso pra caramba! E é isso, se tem uma hora que você começa a crescer, você tem que ter uma estrutura igual à do Uol. A particularidade de vocês funciona até enquanto vocês são os donos do texto. Quando cresce demais e tem que terceirizar, a coisa começa a perder a pessoalidade. Isso é o legal do mercado independente: pessoalidade. É uma maneira de você fazer negócio, de você fazer cultura. Uma maneira forte, inquebrável. Fui descobrir isso depois que saí do Mulheres. Embora, no Mulheres, a gente já praticasse isso, mesmo dentro de uma gravadora grande. O Mulheres foi uma escola.

PM - Do que exatamente?

MP - Eu e o André tivemos uma noção de não só querer fazer um show, mas um espetáculo. O que é um espetáculo? Não é só colocar dez músicas ali, como muita gente faz. Não. Tem figurino, roteiro, iluminador, técnico de som para timbrar, acertar as coisas, tem produtor, empresário. Então, O Mulheres era uma banda que, em 85, com seis meses de vida, já tinha equipe. Os técnicos que a gente formou, entre aspas, ali no Mulheres, eram caras que foram para Titãs, Fernandinha Abreu e Lulu Santos depois. E nós éramos uma banda de "bolso", a gente ensaiava no quarto do André. Mas que tinha tanta noção de show business que a gente gerou mão-de-obra para os artistas que tinham grana para estar no Olympia e no Palace (casas de espetáculo grandes em São Paulo).

PM - Vocês dois tinham essa noção de espetáculo?

MP - Partia da gente. Acho que vem de várias coisas. Primeiro a gente tem um som maluco. Segundo, tanto eu como o André somos muitos cênicos e muito gozados. Então a gente misturava as coisas, o show era meio circense. E o André vem de uma família de teatro. É impossível ele não pensar em termos de espetáculo, na direção e roteiro. E o Mulheres foi ficando meio mitológico. A gente era organizado, tinha uma microempresa, tinha produtor.

PM - O Mulheres foi de 1985 até que ano?

MP - Até 1991. No final de 90 nós lançamos nosso segundo disco: "Música Serve Pra Isso". Já foi produção nossa, minha e do André.

PM - Foi uma produção independente?

MP - O primeiro a Warner colocou a gente no Vice-Versa, que era um estúdio grande, com o Peninha. Ficamos lá dois ou três meses, fizemos uma demo e tudo mais lá. Esse segundo a gente produziu tudo, e depois a gente apresentou a nota para a Warner e ela pagou. O Peninha Schmidt sempre dava essa cobertura para gente e o Midani dava esse apoio também. Gravamos no Mosh, que é um estúdio de gravadora grande de São Paulo. Mas a concepção sonora foi da gente. E acho legal isso porque nos anos 80 os artistas não pensavam em produção de disco. Sempre tinha o Liminha, o Peninha, o Mazola ou não sei quem. Então, o Mulheres foi uma das primeiras bandas a ter iluminador... Tipo o Guilherme Bonfante, que trabalhou comigo, depois também com o André no Karnak. Foi trabalhar com uma pá de artista. Com a Marina Lima etc. Pessoas que foram trabalhar com a música. E no segundo disco a gente foi buscar sonoridade, nós que mixamos. Não tinha muita gente que fazia isso não. Nos anos 90, sim. Mas antes de nego ter computador em casa a gente já fazia isso. Então, o Mulheres foi uma boa escola para nós e, indiretamente, muita gente boa bebeu no Mulheres. Embora ninguém fale disso. Mas bebeu. Também muito cara assistiu, teve idéia e usou depois. Eu vejo isso. Alguns falam e outros não. O Mulheres foi uma escola de fazer espetáculo. E mais: fazer espetáculo e ter a microempresa. Fazer dentro do mercado. Editar as músicas, vender o show, ter uma agenda. Foi "profissa" para xuxu. Lidar com o mercado da nossa maneira. A gente enviava um jornal semestral, tinha 5 mil pessoas na mala direta. Era super organizado, guerrilha total. Aprendemos muita coisa. A se comunicar com o público. Aprendi a improvisar no palco, porque antes eu era mudo no palco. Depois é que aprendi a falar com o público e o André cuidava mais dos instrumentos. Então, para mim foi uma escola também de lidar com a platéia. Eu não sabia dar entrevista. Era tão tímido que não conseguia olhar para a câmera. Aí em 1991 acabou.

PM - Como foi depois que acabou o Mulheres?

MP - Bom, eu cai no mercado a seco. O André nesse meio tempo montou um estúdio e foi fazer publicidade. No fim do Mulheres eu acabei compondo um disco inteiro, que foi o Na Tradição. Estava composto ali por volta de 91 ou 92. Mas fui com muita calma. Estava de ressaca, em 91 quase não toquei. Arranjei um trampo que me segurou, além de dar canja em alguns lugares. Trabalhei na novela Ana Raio e Zé Trovão. Fazia o papel de um palhaço saxofonista, que aparecia no fundo. Comecei no fim desse ano a fazer testes para formar uma nova banda. Pensei que não queria pegar nenhum dos caras que eu já conhecia. Até porque metade já tinha ido para o Karnak. Eu fiquei músico depois de velho, entre aspas, ou seja, eu não tinha minha turma de músicos adolescentes. Não tinha 15 anos de estrada, eu tinha uns cinco anos e só com o André. Então pensei: para ter uma sonoridade diferente do que estava rolando, vou fazer teste. Fazia uma demo das minhas músicas no computador. Fiz um monte de cópia e me tranquei num estúdio lá na Pompéia, chamado Quorum. Fiquei um mês lá. Entrava um baterista atrás do outro, um pianista atrás do outro. E montei o time. Que era o Eli Roisman, na bateria, que tinha vindo de uma banda de country. Ele tinha uma pegada muito legal, de lenhador assim e era inteligente. E era um cara que quando tinha que tocar em 7 por 4, ele tocava, 5 por 4. Um cara que você poderia falar de estética com ele.

PM - Características que te interessavam na época?

MP - Eu queria uma banda de branco. Em São Paulo, no início dos anos 90, todo mundo tocava igual preto, embora todos brancos. Eu queria uma banda européia.

PM - Quais foram os escolhidos?

MP - Eli Roisman, na bateria. Baixista eu experimentei vários, mas acabei trabalhando com o Fon Jimenez, que agora é sonoplasta da MTV. Na época ele era roadie dos Mulheres Negras. Eu estava cismado que não queria guitarra na banda. Queria uma banda diferente. Estava procurando um pianista, que fosse de levada. E não de melodia ou de muita nota. Pouca nota e groove, só isso eu queria no piano. Só isso, é a coisa mais difícil. Experimentei um monte de pianistas, cheguei no Gerson Surya, que tocava em bandas de reggae por aqui. Também tocava com o Zé Kéti, teve na Bahia e tocou com o Edson Gomes. Negão, pouca nota e muito suingue. E trombone... Nessa época eu estava dando umas canjas no Grêmio Recreativo Amigos do Samba Rock Funk Soul, do Skowa, Azael, Tuba.

PM - Quando foi isso, mais ou menos?

MP - De 91 para 92. E lá eu já tocava com o Cláudio Bone, que era um trombonista que também tovaca guitarra, cantava, um músico maravilhoso. Morreu num assalto há uns quatro anos . Então a banda era essa. O Eli que era um baterista assim rock’n roll, Led Zeppellin. O Fon que era um baixista meio Police. O Gerson que era manhoso, pouca nota, quase uma mistura de João Donato com Herbie Hancock da fase funk. E o Cláudio Bone que era um trombonista maluco, meio jazz, meio gafieira, meio rock’n roll, cantava muito. Ouvido absoluto, uma cara de frente de palco, que improvisava comigo. E aquelas músicas esquisitas que eu fiz. Eu estava muito sem dinheiro e sem infra. E assim, eu sou um tipo tímido, então nos meus tempos de Mulheres Negras eu não conheci produtores, donos de estúdio. Ficava lá, trancado no meu pedaço fazendo música. Sempre fui meio quieto. Eu não conhecia essa mecânica de gravar disco. No Mulheres tinha a produção da gente, a grana da Warner. Então fui descobrir como fazia disco. O Dino Vicente co-produziu o disco comigo. Dino que trabalha com Rita Lee, Arrigo Barnabé, Dulce Quental, Guilherme Arantes, uma pá de gente. Era meu amigo. Trabalhava escrevendo arranjos no Vozes do Brasil, que era o estúdio do Zé Rodrix e Tico Térpins, estúdio de jingle. E o Dino me arranjou horários lá. Gravei o disco de um jeito clássico. Gravado como se gravava na RCA, nos anos 70. Não tive grana para mixar. A mixagem do Na Tradição é uma cópia de monitor muito bem feita. Tanto é que as pessoas gostam do disco e ele não tem nenhum invenção em termos de mixagem. Ele é arroz e feijão total. O disco vale pela canção e por ser um disco clássico. Com pouco dinheiro e pouco conhecimento de produzir um disco, foi o que eu consegui fazer. É um disco bem denso e bem esquisito. Inclusive esquisito no sentido que a palavra tem em espanhol, que é raro, difícil de encontrar. É um disco que não parece com nada. Jamais alguém conseguiu comparar o Na Tradição com alguma coisa. Não parece com nada. Que é bom. Do jeito que o mercado é hoje é péssimo, as pessoas querem que você se pareça com alguma coisa. Mas como eu sou, basicamente, um inventor sem pátria assim...

PM - Mas quando você montou essa banda, parece que você sabia bem o que queria, tipo de instrumentação etc. Mas aí vocês começaram a gravar e ensaiar, e depois partiram para gravar o disco?

MP - Era uma época que tinha uma casa velha da minha mãe e eu tinha um quarto lá, antes de eles venderem. Eu tinha um equipamentozinho de som e a gente ensaiou muito lá. Então a banda, depois de quatro meses, antes de estreiar, já se conhecia muito bem. E teve uma química maluca. Eram caras que jamais iam se cruzar na vida, e se cruzaram. Teve uma química. E qual era essa química? Muita dinâmica, garra, muito sangue quente. Banda de muita emoção. Uma vez eu dirigi um show do Hermeto Pascoal e isso me influenciou. Nem sei se foi na época dessa banda... Não, foi depois. Mas eu já fazia uma coisa intuitiva que o Hermeto também fazia. Eu colocava a banda sempre muito perto e pedia para os músicos se olharem. E ainda falava: "vocês ficam na cola de como eu estou cantando, eu quero a banda ativa o tempo todo". Não é porque a gente ensaiou e a banda tem um arranjo que ela precisa ser sempre igual. Eu posso chamar no meio, aumentar um solo. Se o músico brincou e vai continuar, continua. Se eu chamei para cantar mais alto, vamos comigo. Então era um banda muito viva, muito pulsante.

PM - Improviso mesmo?!

MP - Improvisava o tempo todo. Era uma banda que estava o tempo todo acordada. Não tocava nada escrito. Cada música ia ser diferente, num diferente show. E fomos muito para a estrada. Fizemos show em periferia.

PM - Qual era o nome da banda?

MP - Natra Toca Tudo. Depois virou só Natra. Que veio mesmo de Na Tradição.

PM - Fizeram bastante shows?

MP - Fizemos muita coisa. Os Sescs, em São Paulo e interior. Casas de cultura, muitas. Projetos da Secretaria da Cultura. Nessa época comecei a dar oficina também. Eu quebrei tanto a cara para produzir disco. E mesmo aquela história que eu falei, que fazia na faculdade, que era juntar pedaços de pensamentos sobre música, produção, cultura. Comecei a fazer oficinas de produção de shows e também palestras sobre: vamos pensar esse pop vagabundo no contexto da cultura. Porque eu tenho um certo bode do nego que fala: "pô, sertanejo é uma merda." Não é uma merda, isso tem uma razão de ser. Enraizada mesmo. Isso surge de baixo para cima. No ano passado teve o negócio do funk do tigrão. Todo mundo ficou puto. Não era o fim da picada como a maioria falava. É um som que se faz há trinta anos na periferia do Rio. Tem razão de ser aquela batida Miami que eles usam, parece ciranda...

PM - A mesma coisa do Tchan, que é samba de roda, como disse o Gilberto Gil, ou foi o Paulinho da Viola?

MP - Exato. Quando vi saquei que era samba de roda e nego me gozou. Um dia Paulinho da Viola veio no jornal e disse que era samba de roda. Pô, então é, vamos ver o valor. Se não fosse o Tchan, talvez não se falasse em samba de roda.

PM - O problema é que depois vem a história da fórmula, que o cara pega e...

MP - Meu, não tem essa. Música pop é redundância. É superficialidade. Se você não gosta disso, então não vai ouvir rádio. Vai nesses shows que vão três pessoas atrás de papo cabeça. Eu sou um inventor do pop. Então eu escuto... se você quiser eu te mostro meus discos do Daniel, do Leandro e Leonardo, do Funk do Tigrão, que eu comprei. De Tchan, de pagode. Mas também não deixo de ouvir técno, música erudita, ou coisas de folclore brasileiro. O que vier eu traço. Mas, quando a gente está falando de pop, a gente está falando de redundância. No caso da canção pop: a, b, refrão, a, b, refrão, tchau! Solo de quatro compassos, cheio de frases feitas e clichê. O que é bonito do pop é você inventar sobre pressão. Para quem está no mercadão mesmo, vendendo, Pato Fu, Skank, Titãs, é até mais malabarismo eles conseguirem colocar invenção. Porque eles tem a pressão da grana. Eu sou o marginal do pop, eu posso por mais invenção. Então eu tenho mais liberdade. Até porque não tenho a pressão de ter que vender cem mil discos. Mas não sou melhor do que o Skank, que não é melhor que o Xitãozinho e Xororó, que não é melhor que o Tchan, que não é melhor que o Stokenhouse, nem que o Beethoven, nem que o Villa-Lobos. Para mim, música é música, não tem subdivisão. Música ruim é coisa que a gente precisa procurar, ouvir, porque tem a picaretagem. Então tipo, o Tchan descobriu uma onda, porque há dez anos atrás não existia o samba-reggae, samba de roda. Ou mesmo Daniela Mercury. Daniela Mercury, nego fala que é axé, que isso enche o saco. Tá, vai ver se a quinze anos atrás existia samba-reggae, esse tipo de música, que é uma mistura de música do Olodum com música pop, com MPB. Então, são pessoas que criaram sim. E a gente não percebe a criação do pop comercial porque ela vem em gotas, mas isso e normal. O perfume é assim, a alquimia é assim. O que é a alquimia? Um perfume que é a essência, você coloca uma gota e segura o dia inteiro, e a água de colônia você enche aquele frasco de água, é mais fraco, mas pode servir a mais pessoas. Pop é isso, é diluição, no bom sentido, no sentido alquimista da palavra. Diluição para ser democrático. Socializar e democratizar a invenção, a festa, a dor, a cultura. Bach, Beethovenn, Mozart, Caetano Veloso, Amado Batista, é o mesmo barco. Então para mim é muito claro, esse preconceito de dizer que tal gênero e ruim, não. O que me enche o saco não é o gênero, é o jabá. A gente fica com raiva as vezes de um musica, ou de um estilo, mas o que faz aquele troço ficar tocando em todos os lugares e, as vezes incomodando mesmo, é o jabá, que é o suborno que as gravadoras, geralmente as multinacionais, dão para as grandes rádios para só tocar a mesma musica. Então o que a gente tem ódio sem saber, é o suborno, a corrupção, não um gênero musical. Porque se fosse democrática a programação das rádios, se não tivesse o jabá, esse abuso de poder econômico, um som como o meu, ou da Alzira Espíndola, ou do Elomar, tocaria tanto quanto o do Roberto Carlos, sem jabá. Ou talvez, claro, os mais populares. Mas de qualquer modo, essa corrupção do jabá, tornou a radio inviável nos anos 90. O Mulheres Negras tocava muito no radio, hoje não tocaria, não tem mais as radios, tudo virou rede. O jabá virou institucional. Então voltando...

PM – EM 95 você gravou com essa formação o CD?

MP – Em 95 com essa formação, praticamente ao vivo dentro do Vice e Versa, eu gravei o Na Tradição.

PM – Como é praticamente ao vivo?

MP – Eu não cliquei. Clicar e colocar o metrômetro. Ensaiei muito a banda, marcava o andamento inicial. O Eli era muito bom em andamente. Então eu dizia qual era o tempo...

PM – Bom, isso tudo muito coerente com o que você me disse sobre como funcionava a banda. Com improviso, etc

MP – Certamente. No disco está assim, se teve coisa que nego errou, ou inventou, ou a banda viajou, foi, porque eu achava importante. É um disco super naturalista, sem agrotóxico. Inclusive não comprimi nada. Coisas que hoje se faz. Comprimir, gravar. Hoje eu não faria mais disco assim. Bom, nesse meio tempo fui tocar no Fanzine (programa voltado ao público jovem, apresentado por Marcelo Paiva, na TV Cultura de São Paulo), cantar no Fanzine, dois anos. Foi de 92 a 94. No duro, eu comecei com a minha banda em 92, mas só consegui gravar o disco em 95. Colocar ele na rua. Gravei ele em 93.

PM – No Fanzine tinha uma formação com gente do grupo Luni...

MP – O Carneiro, que era do Karnak e do Zé Geraldo, O Reinaldo Chulapa que era da banda Vexame, também tocava pagode com a Eliana de Lima e fazia música instrumental, Daniel Szafran que tocava com a Laura Finochiaro e com o Luis Airão, Jean Arnoult, o saxononista que tocava com o Clínica e com a Vexame, Fernando Salém, também da Vexame e o Luiz Waack, que tocava com o Itamar Assunção e com a Marisa Monte no começo, além da Natália Barros que cantava junto comigo. Eu entrei no lugar do Tel Wernek, que foi Dj do Ó Positivo, na Bandeirantes. Isso mudou um monte de coisa. Primeiro meu jeito de cantar. Eu cantei mais de 600 músicas no programa.

PM – A cada dia mudava o tema e vocês ensaiavam. Era bem puxado, como vocês faziam?

MP – No fim da semana anterior, cada um recebia uma fita com as músicas da semana seguinte. Na segunda não tinha gravação. Então a gente fazia arranjo no final de semana e ensaiava todas, rapidamente em duas ou três horas ensaiava trinta musicas. Todos músicos muito experientes. E o mapa dos programas eram muito bem feitos pelo Salém. O Salém foi um mestre, maravilhoso o trabalho dele ali. Apesar de que lá, tínhamos a letra na frente. Músicos experientes, improviso, adrenalina e um ensaio bem feito para dar as diretrizes. Gravava um ou dois por dia, de terça a sexta. A gente tinha na real, três dias para montar aquele repertório.

PM – E foi nessa época que você conheceu o Szafran?

MP – Nesse meio tempo, ou seja, entrei no Fanzine e estava no processo de gravar o Na Tradição, conheci o Szafran. Foi um amor a primeira vista. Com ele é assim, num segundo já esta rolando música.

PM – Foi bem fértil esse período dos anos 90, você estava com uma banda própria, estava no Fanzine, conheceu um parceirão que esta ai ate hoje...

MP – Mas um baita estresse também. As vezes ensaiava de manhã até o começo da tarde com a Natra, corria para o Fanzine que começava gravar às 14h e ia até às 22h. Era todo dia isso, eu estava assim em fiapos, mas é o jeito. Mas o Fanzine também me segurou de grana para eu poder até bancar um pouco os músicos, para meter na estrada a banda, rodar, rodar, me fazer um pouco conhecido. Acabei bancando eu mesmo o Na Tradição.

PM – Esse foi independente?

MP – Independentasso. Eu lancei duas edições independentes e depois licenciei para a Tinitus. Nesse meio tempo eu queria estar na estrada. Eu fiz muita coisa de rua. Falei para o Daniel que gostaria de fazer um pocket show do meu trabalho. Primeiro eram algumas músicas dos Mulheres, as musicas do Na Tradição, comecei a escrever coisas novas que a banda Natra já foi tocando, mas o Daniel traduziu tudo para o piano. Então nós fizemos muito estrada de piano e voz. Onde não dava para ir com banda, ou porque o cachê era baixo ou não tinha equipamento.

PM – E essa parceria vai durando até hoje?

MP – Sim, nós temos feito muitas coisas juntos. Eu tenho quase dez anos de estrada com o Daniel. Trouxe ele para fazer oficinas comigo. Enquanto vou conversando e inventando texto, e as vezes uma melodia, ele já vai ligando os pedaços e fazendo música. Dou workshop sobre palavra cantada, canção, música. Tem também um outro workshop sobre produção de disco. Como a gente, com o mínimo de dinheiro, consegue produzir o melhor disco possível.

PM – Bom, esse foi um know how que você adquiriu na raça.

MP – E dá pra fazer coisas legais. A tecnologia e a inteligência permite que a gente faça isso. E tenho levado o Daniel comigo. Porque o Daniel, fora ser um grande pianista, não do jazz e nem do erudito, do pop, ele também é muito bom para trabalhar com computador. Então a gente também tem essa parceria. Nessa minha oficina de produção de disco, vou conceituando a coisa e o operacional ele faz para mim. Mixa, grava, o cara é muito talentoso. Então é uma parceria grande, fizemos música junto, no segundo disco ele foi um co-produtor.

PM – Só para não perder o fio da meada, você lançou o Na tradição em 95, aí você estava com essa banda que durou...

MP – Essa banda durou até 97. Aí eu já estava com o Daniel e preparando o material do próximo disco que foi o Mergulhar na Surpresa, lançado em 98 pela Atração. É um disco de piano e voz e alguns convidados. Eu só gravei esse disco de piano e vós porque eu conheci um músico fabuloso e original como o Daniel. Também gravei o Mergulhar, no mesmo espírito do Na Tradição. Não tem clique, não tem metrômetro. Fomos para o estúdio Zabumba, que tem um piano de calda. Também quem co-produziu o CD ali foi o André Magalhães, maravilhoso. Na mesma sala eu e o Daniel e o André falava valendo. Cantava, saiu, saiu. Em três dias fizemos sessenta takes. Foi um clima bem diferente do primeiro disco. Menos estresse e tensão. Chamei muito amigo para gravar. O primeiro disco foi meio clausura. A gente ficava lá trancado do estúdio Vozes do Brasil, parecia que a gente estava incomodando, pegava sobra de horário. Ninguém tinha certeza de nada. E no fim da banda Natra, o Daniel acabou entrando também. Saiu o Cláudio Bone e saiu o Gerson Surie. Entrou o Daniel no teclado e o Eduardo Cabello, na guitarra. O Cabello toca no Karnak e tem o Sindicato do Groove. Então as coisa foram todas ao mesmo tempo, porque no mundo independente não dá. Eu componho um material para um disco hoje, que deveria gravar daqui a três meses, para lançar daqui a cinco meses. Leva três anos para fazer, não tem jeito. Eu não sou político e nem negociante para fazer meus discos saírem depressa, infelizmente. Em 98 saiu o Mergulhar, consegui fazer alguma estrada, mas 98 foi um ano ruim, os Sescs estavam muito fechados, o mercado estava fechado, não tinham muitos projetos do governo, então não consegui rodar tudo com esse disco. Fiz bastante São Paulo, mas não consegui sair muito da capital, por isso fiquei animado de relançar ele quando acabou o licenciamento que eu fiz com a Atração. Relancei ele pela Lua Discos.

PM – Foi no ano passado esses relançamentos?

MP – No final de 2000. O Na Tradição eu arrematei um resto de estoque que estava na Velas, que tenho para vender comigo. Estão todos em cartaz.

PM – Foram relançados os dois do Mulheres...

MP – Isso, os dois do Mulheres foram relançados, na série Arquivos Warner, pela mão do Charles Gavin, baterista do Titãs. Eu e o André remasterizamos e, um detalhe, em cima de matriz digital, a maior sorte. Eu tinha matriz digital do segundo disco. Guardei assim do nada.

PM – Você tem então quatro discos próprios, dois do Mulheres e dois sozinho?

MP – Isso.

PM – Teve outros projetos?

MP – Em 2000, fiz um show de um ano no supremo, que ia virar um disco pela Lua. Mas por problemas de edição e produção, o projeto foi abortado. Um disco que chegou a ser gravado, mas nem eu e nem a Lua tem condições de lançar.

PM – Você canta coisas suas?

MP – Não canto nada meu. Estou de crooner. E a banda que tocou no Fanzine comigo, com a diferença que era o Cláudio Faria no trompete, no lugar do Jean Arnould, mas é a banda do Fanzine. Eu cantava Dafé, Cassiano, Don Beto, Erasmo Carlos, Dalto, Roling Stones, Donna Sammer. O direito autoral ficou impraticável. Nessas a Lua estava relançando o Mergulhar e eles me falaram que esse disco dançou e perguntaram se eu tinha material para um disco novo, de inéditas. Isso em novembro. Não tenho mas eu topo. Comecei no fim do ano passado, um trabalho de letra que já vinha fazendo, eu comigo mesmo, letras e grooves. Foi tanta vontade que acabei compondo duas dúzias de músicas. É uma fornada interessante. Não é canção mais simples, que tem a, b, refrão, a, b, refrão, são canções com formatos diferentes. É uma característica minha. Ai, muita coisa desse material novo é groove com poesia.

PM - Porque você cita poesia e não letra?

MP - A poesia usa palavras e tem um caminho de texto que é mais maluco que a canção. A canção tem a rima, ela é mais simples, mais organizada. A poesia pode ser mais porra louca, mais viajandona. Então é um disco que é metade poesia e metade letra, um disco de groove, as melodias... não é tão melodioso, mas tem linha melódica. Tem uma influencia de hip hop, que é um troço que escuto há vinte anos, e que na minha opinião é uma das coisas mais importante da música paulistana nos últimos dez anos. É de onde vieram os poetas, é de onde veio alguma provocação. Ou mesmo novidade em produção e de sonoridade. Acho que o hip hop foi muito importante para a cidade de São Paulo nos anos 90. Então tem alguma influencia, embora eu não vá fazer hip hop, porque eu não estou aqui para papagaiar ninguém. E vou ficar ridículo se a essa altura do campeonato for fazer hip hop. Embora eu adore. Tem influencia, coisas com mais groove, mais batidas, mais melódicas. Ao mesmo tempo quando falo o texto, um pouco é hip hop, um pouco é poesia. Eu falo como poeta, então me liberto do rítmico. Acho que é um trabalho interessante.

PM – Tem uma previsão de quando fica pronto esse trabalho?

MP – Nesse primeiro semestre acho que não sai. É um trabalho legal, eu estou contente.

PM – Você gosta bastante de hip hop.

MP – Nós não temos folclore aqui em São Paulo, então o folclore da gente é a gente. É o hip hop, é ônibus é a mistura de coisas, é o jeito que a gente fala o português, é a música não tão melodiosa e suingada que a gente faz. É muito rico São Paulo. Não toca no rádio, mas é muito rico. São alguns trabalhos muito paulistanos e que tem a ver com o meu perfil. Qual é o meu perfil? Sou um cara do pop, sou inventor, estou metido com coisas esquisitas. Ao mesmo tempo que sou tímido, tive muita exposição na mídia, porque durante dois anos estive todos os dias na TV. Nem o Francisco Cuoco esteve todos os dias na TV, só o Cid Moreira. Então coisas que tem haver com mídia, com pop, com superficialidade e ao mesmo tempo com invenção, com tradição e ao mesmo tempo com falta de tradição. Nos anos 90, trabalhos pop do subterrâneo paulista caíram na minha mão. Primeiro foi a Banda Paralela, banda que toca marchando, que nem retreta de coreto de interior. É uma retreta, só que toca pop, rock, funk, marchando. É muito pop a Paralela, genial. Fiquei loco quando vi e disse: "quando vocês forem gravar me chamem." Ajudei eles a gravar, tinha pouco dinheiro. E falei: "vamos ajuntar, fazer pré-produção, ensaiar bastante." Eu achei muito legal, muito paulista, que tinha haver com tradição e tinha haver com novidade. Foi isso, preparei eles, organizei um pouco o som para ir para o estúdio, já que era uma banda de rua. Não estavam acostumados a microfone. Descolei de gravar no Mosh a preço de banana, descolei um cara legal para mixar. Dei as discas de prensagem, etc. Meteram uma grana e produziram o disco por conta própria e já estão na segunda ou terceira edição, vendem muito em show, estão tocando num programa do Netinho. Uma banda louca, trabalho muito interessante, bom de tocar em festa.

PM - Mas como foi que você conheceu eles, ou melhor, como esses "trabalhos pop do subterrâneo paulista" caíram na sua mão?

MP - Em 90 e alguma coisa, o Sesc me convidou para dirigir uma série de shows chamado Som da Demo, que era um projeto onde dez grupos iam ter suas músicas gravadas num disco e tinha o show de lançamento do disso. Grupos novos que o Sesc escolheu e eu fui dirigir os shows. Junto com a direção de show, fiz um workshop para esses músicos novos. Porque? Eu ia ter que colocar dez músicos no palco, com o Paulo Moura e o Hermeto Pascoal no meio, então ia ter dez mudanças de palco, de luz, de som, de formação. Então fiz um workshop com os caras sobre trabalho no palco. Nesse evento conheci o Bico-de-Pena. Um marido e uma mulher, Renato Camargo e Angelique Camargo, ele toca flauta e ela violoncelo. Músicos eruditos, de orquestra, que queriam tocar o popular, com uma técnica muito grande, e ainda, mais do que tudo, com uma garra muito grande. Arranjos quase intocáveis, parece que tem dez pessoas tocando. Gravei também sem clicar, e ao vivo no Zabumba. Eles estão na mesma sala se olhando, porque era importante. E quando fui preparar eles para o disco eu falei isso: "vocês estão tocando muito bem, agora tira a partitura da frente, vai para a praia dez dias, volta, e toca de ouvido até a gente gravar o disco." Isso amoleceu o disco e trouxe um caráter mais popular. Trabalho muito bonito o deles. E sempre tentando achar um selo para lançar, mas os selos não tem como bancar, então lançaram por eles mesmos.

PM - Produziu mais gente?

MP - Sim, depois produzi a Rita Monteiro, que foi parecido também. Chegou, me procurou, um trabalho interessante, uma cantora... o Brasil tem muitas cantoras, que muitas vezes tem um repertório parecido, uma maneira parecida. A Rita me veio com um lado mais paulistano de repertório. Tinha eu, tinha Tonho Penhasco, tinha Taciana, tinha uma pá de gente que nem sempre está no mesmo disco. E uma banda que tinha uma pegada de rock’n roll, apesar de ser MPB, então achei interessante. Uma MPB meio de garagem. E ela raçuda. Pouco dinheiro, então otimizei a produção, fiz eles ensaiarem bastante em função da gravação. Gravamos no estúdio do Luiz Waak, ficou legal o trabalho, ela deu sorte, trabalhou com muita gente boa a um custo baixo. Ela prensou, como sempre não conseguiu gravadora, mas isso é normal. E agora estou produzindo mais dois, também nesses esquemas malucos. Um é da Rossanna Decelso, produtora do Zeca Baleiro. É um disco de músicas inéditas do Zeca. Estamos gravando bem devagar, nas horas de folga dela, tem bastante gente participando do disco, até o próprio Zeca. Tem Paulinho Moska, Lobão, Pato Fu, a Banda Paralela, Bico-de-Pena, o Swami Jr., Toninho Ferragutti, uma pá de gente. Uma mistura grande para fazer um disco em cima de Zeca Baleiro, artesanal. Estou terminando de produzir também o disco de um artista maravilhoso do Recife chamado Armando Lobo. É um trabalho que tem haver com frevo, pop e MPB. Todo orquestrado, porque ele é músico erudito, no entanto ele tem uma veia popular forte, e ele é um músico barroco fanático. Tem um pé no barroco, um pé no frevo, ao mesmo tempo as letras e melodias são muito bonitas. É um poeta mundano. As músicas tem religiosidade, mas também tem aspectos mundanos, um trabalho muito interessante. Uma das coisas mais interessantes que eu já vi. Orquestrações maravilhosas, a banda mandando ver. Ao mesmo tempo que tem oito linhas de metal, de corda, tem lá uma cozinha de baixo, piano e bateria descendo o braço também.

PM – Bom, você é algo próximo do multi-homem?

MP – Não é porque eu queira, eu sou um tipo preguiçoso. Eu gostaria de cair na estrada, fazendo shows acompanhados do Daniel, mas tenho três filhos para criar, faço uma música diferente do padrão, nenhuma gravadora me quer, nenhuma radio toca minha música. É necessidade e paixão. Vejo trabalhos muito legais que acho que tem que rolar. Você vê, todos os discos que gravei dos outros, são o primeiro disco de alguém. Depois que rolar, vem alguém com grana e faz. Nesses anos 90, entre outras tantas coisas, fiz o primeiro show brasileiro via internet ao vivo, em 96, ninguém tinha site. Mas é como te digo, é o que a gente descobre fazendo a própria produção. Não tinha mídia para mim, radio grande e tal, agora esta até um pouco melhor, tem uma rede de radios educativas pelo Brasil a fora, mas no meio dos anos 90 o negócio estava trancado. Então fui nas radios piratas e na internet. Seguramente eu fui um dos cinco primeiros artistas a ter site no Brasil. Em 95 eu já tinha site. Eu atrasei o lançamento do Na Tradição para existir internet. Quando vi o que era, pensei: eu preciso desse troço. E vendo muito pela internet. Me escrevem e-mail e respondo todos, vendo pelo correio. A internet é uma ferramenta forte para mim. Nesse show em 96 eu tive 50 mil pessoas no mundo inteiro assistindo.

PM – Como foi esse show?

MP – Um show ao vivo, no Centro Cultural São Paulo. Quem produziu a parte de filmar, a tecnologia, foi o João Ramirez, que hoje trabalha na TV Uol. Ao vivo. O (Gilberto) Gil não conseguiu, com IBM, Warner e O Globo. E no entanto, com João Ramirez e seus dois 486 eu consegui fazer isso.

PM – Uma coisa que permeia muito a sua história, pelo menos musical, é: do mínimo o máximo, não?

MP – Mas é. Eu nunca tenho recurso, tenho que fazer as coisas da invenção e da economia. Eu acho até que uma forma de luta para a gente resistir numa cidade como São Paulo é: dos poucos recursos que se tem, você jogar criatividade e força em cima. Eu acho que ser artista e inventor no Brasil é isso. Você conseguir o máximo de plumas e paetês com o mínimo de matéria. É desgastante, estou com 42 anos e estou cansado. Mas a idéia é essa, como conseguir o máximo do mínimo sempre. Com internet ou radio pirata. Fui em pelo menos cem radios aqui em São Paulo. Algumas maravilhosas, algumas não tão legais.

PM – Você fez isso antes do Lobão, não é?

MP – Parece que sim. O Lobão, eu acho o seguinte, é um cara de gravadora grande, passou vinte anos na Globo. Na grande mídia, dentro do esquema grande, ele é o cara que contesta mesmo. Acho que ele viu que existe vida no subterrâneo e ficou deslumbrado, aproveitou essa imagem que ele tem. Não tenho duvida. O Lobão chegando tem mais poder aglutinador que eu. Ele é um ícone. Ele junta as peças e tudo acontece. Eu faço trabalho de formiga e faço trabalho de desbravador. Tipo, quando o Mulheres Negras produzia disco e show, ninguém fazia isso nos anos 90. Então se você esta sempre cinco, dez anos na frente no tempo, é difícil você ganhar dinheiro, é difícil você ter público, você esta é desbravando linguagem. Então é natural que o Lobão é que leve a fama mesmo, até porque eu já estou num estagio depois. Mas eu não sei até quando vou agüentar estar desbravando, porque quando eu tiver 50, 60, 70 anos eu não vou ter preparo físico para isso. E o gasto psicológico é muito grande. Ser inventor, fazer coisas que ninguém nunca fez, por pequenas que sejam, é um estresse, um desgaste.

PM – Mas você esta tranqüilo?

MP – Tranqüilo no tiroteio. Tem um pedaço de uma música minha que é emblemático. A música chama-se Inventor brasileiro e está no disco Mergulhar na Surpresa: "um inventor brasileiro a pé / come fubá, bebendo café...". A gente não é movido a milhões de dólares, é fubá e café, as coisas simples e óbvias. Tem que ser. O pagode é uma invenção simples e obvia, o pagode é genial, não importa que tem um monte de nego que fez besteira depois. Mas um cara que juntou pop com samba... O samba estava morto nos anos 80, onde é que se ouvia samba no radio. Só no programa do Moisés da Rocha, na USP FM. USP, uma radio universitária, era a única radio que tocava samba, era um gueto.

PM – Bom, que as pessoas passaram a escutar mais samba, ou mesmo, mais música brasileira, isso é verdade.

MP – Ele abriu a porta para se ouvir os mestres. O que é o pop, é democrático. O pagode que é o samba mais pop, mais simples, ele permite ao homem branco, do pé duro e da bunda dura que não sabe dançar, permite que essa pessoa se divirta, dançe um pouco.

PM – Com essa estrutura mais fácil e tal, porque será que ao invés do hip hop os artistas da periferia não usam o pagode, por exemplo?

MP – Mas eu acho que para São Paulo, pelo menos, o hip hop é muito mais obvio do que o pagode. Embora o pagode seja paulistano da gema. É um samba de uma cidade que samba mal. O Germano Matias, o Adoniram Barbosa ou o Paulo Vanzoline, é uma cidade onde o samba é de outra espécie, é um samba de italianos. Por sua vez, a cultura negra não é hegemônica como no Rio. O Rio é do samba, do samba-canção, da bossa nova que é samba, samba-rock, funk, o funk carioca tem um pé no samba, como a banda Black Rio, a gafieira. A cultura carioca é negra e mulata. São Paulo é uma cidade européia, é do rock’n roll, é dos Demônios da Garoa e não do Cartola e do Nelson Cavaquinho. A gente é barulhento, da canção italiana também, tá no samba, tá no Vicente Celestino, nesses nego que cantam de peito em cantina, Quando eu era pequeno ia ver isso lá no Brás. É outra onda aqui em São Paulo. Acho que o negro aqui, numa cidade industrial, feia, cinza, cruel, dura se expressa mais intensamente através do hip hop. E até porque a cidade é muito pobre e o hip hop desobriga você de saber melodia e harmonia, ou de tocar um instrumento.

PM – Não é parecido com o pagode nesse sentindo?

MP – Não. Pagode exige músicos com suingue e execução. E o hip hop, se você pegar uma base americana você faz. É quase como um repente sem instrumento, que venha do nordeste. É uma oportunidade para essa molecada da periferia, que é talentosa e tem muita coisa na cabeça. O dia-a-dia deles é muito rico, embora seja pesado. Dá para eles uma chance de criar. E é gente que já ouviu de tudo: rock, MPB, samba. É o jeito paulista pop. É diluição.

PM - Muito obrigado pela entrevista.

MP - Obrigado a vocês também e boa sorte!

 

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