Alda Rezende- "Samba Solto"
A cantora e compositora Alda Rezende faz um trabalho chamado de pop de qualidade. É bom mesmo dar uma situada porque a expressão pop muitas vezes vem associada a uma música "menos bem cuidada". Além disso, Alda tem formação erudita e vasta experiência profissional. Já cantou ao lado de nomes como João Bosco, Ná e Dante Ozzetti e vem participando de eventos importantes em Belo Horizonte, sua cidade natal, e outros lugares do Brasil. O CD "Samba Solto" tem 13 faixas com boas resoluções de arranjo e a voz quente e expressiva de Alda. Outra qualidade da artista é mostrar compositores interessantes e ainda não muito conhecidos. O CD começa com a letra bem construída de Makely e Renato Negrão. A música chama-se Queixumes. É legal registrar a presença de Décio Ramos, do grupo Uakti, nessa e em outras composições do disco, tocando bateria e percussão. Em seguida, o banjo, além de outros instrumentos, de Kristoff Silva anuncia a música Movediça, dele em parceria com Renato Negrão. Parece feita para ela cantar. Insistência, de John, do grupo Pato Fu, tem um interessante arranjo que inclui violino, baixo, moringa e chocalho. Depois, também de Kristoff Silva e Renato Negrão, vem a música Antes. Uma espécie de tecno-baião. Muito mais para baião. A próxima é uma experiência musical feita só com sons de um brejo. Ao mesmo tempo, ainda nessa faixa, a cantora inicia o texto da próxima, que, por sua vez, incorpora os sons da anterior. Como se fossem duas músicas complementares. Essa segunda canção chama-se O cego, de Cristiano Vianna e Pedro Portella. O disco segue e aqui traz uma participação especial. Desta vez de Ná Ozzetti, que faz um duo com Alda na canção Menina ilha dos olhos d’água, de Cristina Brasil e Makely. Também Sérgio Pererê participa com um vocalise. A próxima é a única composição de Alda, em parceria com Kristoff Silva. Trata-se de Samba do desenredo. A nona faixa é um clássico. Pai grande, de Milton Nascimento, é uma canção que Alda já fazia há bastante tempo em shows e agora resolveu gravar. Depois, novamente a presença de John, com a música Faca, em parceria com Marompas e Rubinho Troll. Uma balada bem interessante, cheia de climas. A décima é Hotel maravilhoso, de Flávio Henrique e Chico Amaral, onde aparece bem a voz grave de Alda. Depois vem a canção título do CD, de Makely e Paulo Beto. Em Samba solto, Alda Rezende experimenta mais ainda quando constrói a canção só com sua voz, ou melhor, vozes que cantam e também fazem a percussão. O CD termina mais tradicional com Anuário, da grande dupla Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro. Lançamento Independente. Site de Alda Rezende - www.aldarezende.com.br (Por Sérgio Fogaça)
"Cavalo de Praia - Sambas da Ilha"
A pureza do samba. A batida irresistível, crua e ao mesmo tempo harmoniosa. Um sonho de um idealista em forma de CD. O sonho não é irreal, aqui você pega e escuta 12 faixas. "Cavalo de Praia - Sambas da Ilha" reúne músicos principalmente de Santos e São Paulo. Foi idealizado por Jair de Santos Freitas, conhecido poeta e militante cultural e político santista. Jair queria iniciar um movimento de captura do samba tradicional em sua cidade. Um mês depois de iniciar o projeto ele morreu, aos 46 anos. "Cavalo de Praia" ficou então como legado e o projeto foi encabeçado por Mariza Freitas, mulher de Jair e que assina a produção executiva do CD. Cinco das 12 canções deste trabalho são de Jair. Mas o CD é, na verdade, a reunião de seis compositores e o conjunto de idéias de todos os participantes. O disco abre com uma verdadeira roda de samba com direito a instrumentos como tampa de lata, além de outros mais tradicionais. Vou vender meu samba é de Renato Borgomoni, que hoje tem 85 anos, mas compõe sambas desde a adolescência. Depois vem Mamão com açúcar, de Jair de Santos Freitas, trazendo, além da percussão e cordas, um naipe de metais que nos leva direto para os bons tempos da gafieira brasileira. A voz de Kika Willcox, conhecida cantora de Santos, anuncia Fica longe, de Jair de Santos Freitas também. A quarta tem o divertido título de Herrar é umano, de Luiz Cláudio Santos, seguida de O resto é companhia, parceria de Jair com Luiz Cláudio Santos. Será que Paulinho da Viola escutou esta? Depois vem Sei lá, de Elenira Ribeiro, com mais uma letra inspirada do sexteto de compositores. Um samba suave, pra dançar junto. Segue com Por que, mulher?, de Jair. A economia de instrumentos, só piano e sanfona, ambos tocados por Lincoln Antonio, valorizou a interpretação de Ney Mesquita. A oitava faixa é A pressão atual, de Luiz Cláudio Santos. Bela percussão com pandeiro, tamborim e timba, além de surdo e cuíca, todos tocados por Ligeirinho, uma espécie de mestre de bateria do CD, que concebeu a base de quase todas as faixas deste trabalho. Segue com Intriga, de Paulo "Big" Maymone, com a participação da Banda Fuzarca, formada por Lincoln, Renata Amaral e Marco Cancello. A próxima é E já se leva, canção que surgiu a partir de um texto do trovador galego-português Joan Garcia de Guilhade, do século XVIII, que Lincoln Antonio musicou. A oportuna participação é do grupo A Barca, de São Paulo, sempre envolvido em projetos e trabalhos importantes de resgate da música brasileira. A penúltima é Quero ser tambor, que Lincoln Antonio também adaptou, desta vez de um poema do moçambicano José Craveirinha. As vozes são de Marcelo Pretto e Ney Mesquita. O CD termina magistral com Tatudonadona, de Jair de Santos Freitas. O samba foi gravado sobre uma gravação caseira de Jair, só, ao violão. Depois também entram mais instrumentos e as vozes de Luiz Cláudio Santos e Ney Mesquita. Salve Jair e o grande trabalho dessa turma toda! Lançamento Independente. O CD pode ser adquirido através do site www.samba-choro.com.br (Por Sérgio Fogaça)
Mozar Terra - "Caderno de Composição"
Com mais de 30 anos de carreira, o pianista, compositor e arranjador Mozar Terra dividiu seu tempo entre Brasil e exterior, já que morou dez anos na França e cinco na Dinamarca. Mas o sangue jamais foi negado e sua música é brasileiríssima. Entre outros trabalhos, escreveu arranjos para a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e para os songbooks de Tom Jobim e João Donato. Já acompanhou artistas como Caetano Veloso, Lúcio Alves, Emílio Santiago e Joyce. O CD "Caderno de Composição" é o primeiro trabalho autoral do músico. Todas as composições são de Mozar Terra, com exceção de uma que fez em parceria com Antenor Bogea. O CD começa com uma dessas "quebradeiras", no bom sentido, da música instrumental brasileira. Chama-se Ascensão. Depois vem Braços abertos, trazendo a participação especial de Paulo Bellinati no cavaquinho. A terceira é Flor da Serra, onde Mozar interpreta o tema só, ao piano. Segue com Mirante. Mozar recebe com seu piano a presença de Léa Freire, na flauta, e Kzam Gama, no baixo elétrico, além de Teco Cardoso, no sax soprano, embora Teco participe de todas as faixas, com exceção do trecho em que Mozar sola ao piano. Luzes de Vênus é a próxima canção, seguida de Entre o céu e a serra, outro piano solo de Mozar. A sétima é o samba Mestiço, embora tentar colocar um gênero nesse tipo de música livre seja uma perda de tempo. Depois, E o palhaço chorou, mais um belíssimo solo de Mozar. Um tema emocionante não só no título da música. Com A sereia voou, próxima canção, o clima é de gafieira e muito bem desenvolvido pelos músicos que acompanham Mozar. São eles, além de Teco Cardoso, já citado: Rodolfo Stroeter, no baixo acústico, Tutty Moreno, na bateria, François, no trombone, Roberto Sion, no sax tenor, e Walmir Gil, no trompete. A décima chama-se Ícaro, de Mozar e Antenor Bogea, com Mozar solando ao piano. De volta ao samba. Ou à gafieira? Vem o tema Subterrâneo. Para fechar, o último solo de Mozar, em Fantasia para Livia. Onírico! Lançamento Maritaca. Distribuição Núcleo Contemporâneo - Tel. (11) 3873-1386 ou pelo site www.nucleo.art.br (Sérgio Fogaça)
Paulo Gaiger - "Armazém"
O músico e compositor gaúcho Paulo Gaiger fez arte dramática na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e é mestre em ciência do movimento humano. Com esse currículo não deu outra: sua música tem um forte apelo interpretativo. Por vezes, imagens e histórias inteiras se constróem enquanto escutamos suas canções. O CD abre rasgando com a música Transversais do país, de Gaiger. Já um manifesto que mostra um certo engajamento - ou compromisso - do compositor com a realidade urbana. Segue com O piano do Pery e o poema do Bebeto, também só dele. Música que traz um charmoso coro feminino na introdução e em outros momentos. A terceira faixa é Pretas da Guiné, de Marco Aurélio Vasconcellos. Não por acaso, o pulso mais forte da canção ficou por conta da percussão de Fernando do Ó. Maria, de Gaiger, a próxima música, é surpreendente. Começa com voz e violão e vai crescendo a participação dos instrumentos, entrando violinos, violoncelos e oboé, mas preservando a suavidade. Segue com Celebração, parceria de Gaiger com Sérgio Napp. Zumbindo, a sexta música composta só por Gaiger, tem a participação do grupo vocal Muito Prazer. A próxima, também só de Gaiger, tem uma estrutura musical que lembra as canções de Milton Nascimento e sua turma. Chama-se Mormaço. De Minas para Brasília. Em Planalto Central, Gaiger fez, provavelmente, de uma homenagem à região, um belo tema e única música instrumental do disco, embora haja um coro fazendo vocalise. Belíssima. Segue com Lamento sertanejo, de Dominguinhos e Gilberto Gil, com destaque para a interpretação de Gaiger. Depois do rock Antropo vem Camelôs do Brasil, ambas só de Gaiger. Em Camelôs, o cantor dá um recado direto ao país. "oh, pátria Brasil, oh pátria / que o destino te reservou". Depois vem, de Zequinha Caradípia, Soninha do Bacabal, com a participação especial de Celau Moreira, no violoncelo. Segue com um criativo samba, chamado Samba parado, ao melhor estilo João Bosco. A 14ª é Traduzir-se, de Fagner e Ferreira Gullar. Canção sempre bem-vinda em qualquer repertório. A seguir, Café frio, só de Gaiger, seguida de Príncipe das trevas, de Nico Nicolaiewsky, com a música incidental Os homens de preto, de Paulo Ruschel. O CD termina justamente com Batuque da despedida, de Paulo Gaiger. O trabalho é generoso mesmo, com 17 faixas. Lançamento Independente. E-mail: paulopoa@terra.com.br (Por Sérgio Fogaça)
Rita Monteiro - "Rita Monteiro"
Mágica. É assim que começa o CD de Rita Monteiro. A música é de Tonho Penhasco e Roberto Sampaio. Uma homenagem aos brasileiros e, por que não dizer, aos músicos também. Quem não faz "mágica pra viver", como diz a letra? E por falar em letra, na última estrofe parece que tem uma alusão à música Tropicália, de Caetano Veloso, quando os autores citam "entre girassóis e urubus". Uma ponte para lembrar também de tempos difíceis no Brasil. Depois vem Jogo de calçada, de Arnaldo Baptista, Wandler Cunha e Ilton Oliveira, lembrando mesmo os bons tempos de Rita Lee nos anos 70, no canto e resolução musical. A terceira faixa é Aí pirada!, de Sérgio Dias e Nelson Motta. Rita resgatou mesmo o universo pop brasileiro sem medo de errar. "Dance, dance, dance!" Se na música anterior a guitarra era de Luiz Waack, em Aí pirada! é de Tonho Penhasco. Boas escolhas. Segue com Não se apague esta noite, de Lô Borges e Márcio Borges. Aqui a cantora mostra uma outra região vocal, numa canção mais suave. Sobe o som, agora vem Ordem da canção, de Bruno Verner, que lembra o underground paulistano do início dos anos 80. A sexta canção é Tranqüilo, de Maurício Pereira. A cantora escolheu uma levada bluesy para caminhar, tranqüila, pela extensa e bem construída letra do autor. A próxima é 1.000.000 de estrelas, de Taciana Barros, e de volta à lembrança do tal underground paulistano. O namoro é sério. Boa marcação percussiva de Celso Nascimento. Aliás, vamos lá, a banda ainda é composta por Otávio Ortega, na fender rhodes, Georgia Branco, na guitarra, Benigno Jr., no baixo, e Marcelo Moreira, na bateria. Segue com The Supremes, de quem a cantora escolheu Up the ladder to the roof. A penúltima música do CD é Hem hem!, de Zeca Baleiro. Já que havíamos lembrado da vanguarda paulistana do início dos 80, agora então também tem vanguarda, só que dos anos 90. Além de Zeca Baleiro na música anterior, também Natália Mallo, cantora e compositora argentina, radicada no Brasil há mais de seis anos, de quem Rita escolheu a canção O frio para encerrar o disco. Densidade poética e emoção na voz. Lançamento Independente. E-mail: rita-monteiro@bol.com.br (Por Sérgio Fogaça)