Página da Música – Como nasceu a idéia do selo Palavra Cantada?
Paulo Tatit – Começou a partir de um CD chamado "Canções de Ninar". E a idéia desse trabalho veio de observar que as produções musicais infantis daquela época – 1994 – estavam muito ruins. Então, naquele momento pensamos em fazer esse CD.
PM – Estava no auge a idéia de discos infantis vindos de programas infantis, tipo Xuxa e Eliana, não?
PT – Acho que já fazia uns dez anos que estava assim...
PM – Isso foi em meados dos anos 80, já que teve alguns bons trabalhos no fim dos anos 70, como "A Arca de Noé" e "Os Saltimbancos"?
PT – Exatamente. "Os Saltimbancos" foi em 77 ou 79. Depois disso não lembro de mais nada legal. Acho que nós abrimos um caminho para artistas que tinham desejo de fazer música de qualidade para criança. Digo isso depois de termos feito esse selo, o Palavra Cantada. Depois de nosso terceiro ou quarto disco começaram a surgir muitos discos de outras pessoas, e a cada dia mais. Eu já vinha de uma tradição de música independente por causa do grupo Rumo e já sabia mais ou menos o caminho a seguir. Mas, em primeiro lugar, a gente queria ver se o "Canções de Ninar" daria certo, e ele foi muito bem.
Sandra Peres – A idéia do "Canções de Ninar" foi exatamente assim: o Paulo viajou numas férias acompanhado de um amigo com o filho, que escutava umas músicas não muito boas. No mesmo momento, eu estava nos Estados Unidos e comecei a ver que lá havia um universo grande de CDs infantis, e vários deles com canções de ninar. E exatamente naquele momento estava saindo umas coletâneas de músicas de ninar. Aí ele chegou com vontade de fazer um trabalho e eu cheguei com o tema.
PM – Vocês perceberam que no Brasil tinha muitas canções com esse tema e que poderiam resgatá-las, reuni-las?
SP – Música de ninar quase não tem, e o trabalho da gente não é de resgate. A gente sempre fez música inédita. Só trabalhamos com resgate em "Cantigas de Roda" e "Canções do Brasil". Fora esses, todos os outros são inéditos.
PM – Depois veio o "Canções de Brincar", com composições inéditas?
SP – Sim, e depois "Cantiga de Roda", com canções folclóricas que a gente rearranjou e fez. Depois veio o "Canções Curiosas", com inéditas. Na seqüência veio o "Mil Pássaros", o primeiro CD de histórias, com a Ruth Rocha contando suas histórias e uma música nossa para cada história. Em seguida veio o "Noite Feliz", que é o CD de Natal, também com histórias. Aí veio o "Nação Erê", quando a gente já estava gravando o "Canções do Brasil".
PM – Vocês dois já se conheciam ou trabalhavam juntos antes?
PT – A gente trabalhava junto em produção musical. Tínhamos um estúdio e produzíamos trilhas para teatro, dança, documentário e filmes publicitários, entre outras coisas.
PM – Ainda sem uma idéia definida sobre o universo infantil, ou seja, não eram trilhas voltadas apenas para crianças?
PT – Não exatamente, embora a gente sempre fizesse coisas para a TV Cultura que eram voltadas para crianças. Depois que o "Canções de Ninar" foi superbem, fizemos o "Canções de Brincar", dois anos depois, e o "Cantiga de Roda". Apesar de a Sandra já ter dito isso, eu só queria retomar para dizer que a partir do "Canções Curiosas" é que se consolidou o selo de música. Já eram quatro CDs. E a gente ainda licenciou alguns outros que achamos bem legais. O "Dois a Dois", do grupo Rodapião, de Minas Gerais, e o "Roda-Gigante", do Gustavo Kurlat, de São Paulo. São trabalhos em que você percebe um aprofundamento na questão da música infantil. A administração disso tudo passou a ser uma tarefa mais complicada. Teve uma época em que nossos CDs eram distribuídos pela gravadora Velas, e depois a distribuição passou para a Eldorado.
PM – Vamos contar melhor isso. O selo nasceu a partir do primeiro CD ou foi depois?
PT – Foi um pouco depois. Pensando em lançar outros CDs depois daquele primeiro trabalho, decidimos chamá-lo de Coleção Palavra Cantada. Está escrita no CD "Canções de Ninar" a frase Coleção Palavra Cantada.
PM – Vocês perceberam que iriam seguir esse caminho?
PT – Só para você ter uma idéia, o logotipo Palavra Cantada foi pensado no dia da entrega do fotolito do CD "Canções de Ninar".
PM – Ele era uma idéia e não um selo ainda?
PT – Exatamente. Isso foi acontecendo aos poucos. Não tínhamos a idéia clara de fazer um selo. Tanto que nós pedimos o logotipo na última hora. Só dois anos depois surgiu a idéia, com o disco "Canções de Brincar", quando começou a "cair a ficha" de que estávamos fazendo um selo infantil. Mas tudo isso por causa dos críticos e de outras pessoas que colocaram a gente nesse papel, quando lançamos o "Canções de Brincar". Eles diziam: "Eles fazem música infantil de qualidade". Então foi a resposta do público e da crítica que colocou a gente no lugar.
PM – O selo quase foi criado de fora para dentro, então?
PT – Foram as duas forças. A gente querendo e de fora para dentro as pessoas dizendo: "Vão firme que dá". Só que a gente continuou fazendo aquele outro tipo de trabalho durante anos. Até 1998 a gente compunha trilhas e buscava trabalho fora dessa área pela própria dificuldade de subsistir da venda de discos.
PM – Quando o selo foi formalizado?
PT – A firma Palavra Cantada, apesar de já ter o nome, veio bem depois. Muda bastante quando você formaliza a empresa. Você passa a ter obrigações sociais e jurídicas. Precisa ter equipe, estrutura. Porque diferentemente de muitos selos independentes, a gente vende. Temos um produto comercial. E foi a partir do segundo CD que montamos o selo e já com projetos fazer outros trabalhos.
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