PM - Gostaria que você falasse um pouco desta história dele e o Relâmpago Elétrico?
RP - Essa história é o seguinte: o Ronaldo Bastos ia para os Estados Unidos - eu soube por uma reportagem da Folha de São Paulo de 77 - e perguntou para o Beto se ele sabia o que era o Relâmpago Elétrico. O Beto falou: "Não sei." E ficou só nisso. Aí, o Ronaldo Bastos foi para os Estados Unidos, foi à casa de algum amigo dele e eles estavam olhando umas fotos de aviões (o amigo do Ronaldo devia gostar do assunto). Ele viu a foto do Relâmpago Elétrico, que era um avião, e ele juntou uma coisa e outra. O Beto também. A partir de um certo momento ele começou a se interessar por aviões, aeromodelismo. Ao mesmo tempo que ele tinha pavor de voar de avião, ele adoraria fazer. Então, o Ronaldo Bastos fez essa comparação do Beto ser uma pessoa muito elétrica, muito imperativa. Está sempre tendo que fazer alguma coisa, uma hora está bebendo, uma hora ele passa a mão no cabelo... Com a coisa do avião ficou o nome chamativo para o disco "A Página do Relâmpago Elétrico".
PM - Você falou dele bebendo. Esse assunto vai ser abordado no seu livro?
RP - Acho que sim, porque é uma coisa que ele assume, não tem como negar. Ele conta. Saiu publicado em jornais. Ele diz que no início da carreira ele entrava no palco totalmente em outro mundo. Eu não acompanhei os shows no início da carreira, mas o pessoal dizia assim que tinha vez que ele não acabava o show porque tomava todas. Ele é uma pessoa muito preocupada com tudo, é uma pessoa perfeccionista.
PM - Você acha que o fato dele ter tido esse período mais afastado tem a ver com essa relação mais forte com a bebida no passado? Isso influenciou na voz de alguma forma?
RP - Na voz eu vou concordar. Hoje ele não tem a mesma voz que tinha no início da carreira. Era uma voz que eu não sei se é falsete ou se não é, porque o irmão dele disse assim: "Não é falsete. A voz natural do Beto era aquela". Ele não precisava dar um falsete... Mas hoje ele já não canta como está gravado nos discos. Ele já canta num tom mais baixo em shows. Então eu acho que nesse aspecto a bebida afetou. Agora, uma coisa interessante é que muita gente acha assim: "Ah, o Beto é um doidão." É que ele é muito antenado, muito sensível. Estava tocando uma música ali, ele fica falando com você e, daqui a pouco, diz: "Putz, a música do fulano..." Quer dizer, ele é uma pessoa artística, mil por cento. É um gênio. Isso não sou eu que estou dizendo. São as pessoas que conhecem ainda mais que eu, convivem com ele. É uma pessoa agressiva na hora em que está gravando disco, é de quebrar guitarra e não sei o quê. E uma pessoa me falou: "Mas a arte é agressiva, o processo de criação, apesar de passar uma imagem doce, tem também essa coisa agressiva."
Hoje, com a maturidade que ele tem, ele leva a coisa de uma maneira diferente, mas há 10 ou 15 anos era muito pior. Ele mesmo diz que demorou muito a compor, demorou muito para gravar o primeiro disco, porque ele achava que as coisas que ele fazia não prestavam. E foi um disco elogiadíssimo.
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