PM - O Milton e o Márcio Borges tiveram uma presença forte no contexto político. A música que eles estavam produzindo refletia isso. O Beto Guedes também? Como você pretende tratar disso no livro?
RP - Na apresentação eu fiz uma coisa legal que foi pegar "A Hard Days Night", quer dizer "A noite de um dia difícil" – o primeiro disco dos Beatles que o Brasil conheceu -, fazendo esse paralelo. Enquanto os Beatles estavam chegando ao Brasil com o filme, em março teve o golpe e, a partir daí, muita gente teve muitas e muitas noites de dias difíceis. Eu já conversei com o Lô a respeito disso. Ele disse que não sentia muito isso no Beto; era mais na família dele, com o Marcinho (Borges) e a mãe dele ficava com os cabelos em pé. Ele disse que o Beto não teve tanto porque ele tem uma cabeça mais artística. Mas o Beto gravou a música Cruzada, com letra do Márcio e música do Tavinho Moura, que é muito política. Almir Sater gravou também. Eu acho que o Beto foi mais para uma praia pacifista. A visão política dele foi aquela do "paz e amor". Os hippies inclusive viram na figura dele esse ícone do "paz e amor".
PM - E qual será a estrutura do livro?
RP - Vai ser uma cronologia. O livro começa com ele em Montes Claros na década de 50 sendo o oitavo filho da família e aí a família, no início da década de 60, muda-se para Belo Horizonte porque uma das irmãs mais velhas dele quer se casar e a mãe não quer. Essa irmã foge com o noivo para se casar. Eles descem para a capital, Belo Horizonte. Ele tem toda essa referência do norte de Minas com a Bahia. Depois, logo em seguida, conhece o Lô, que era de Belo Horizonte, e em seguida os Beatles chegam. Ele teve a influência regional do Luiz Gonzaga, Dilermano Reis, da música folclórica do norte de Minas com o Sul da Bahia, que é uma região pobre, uma região árida, é o sertão de Minas Gerais com a coisa da "modernidade" da metrópole mineira. Ele fez uma fusão de tudo isso e ele queria ter um som próprio, original. Ele não queria copiar uma coisa ou outra. Fez um som peculiar, um som próprio dele, diferente e que chamava atenção logo no primeiro disco. O primeiro foi muito bem recebido pela crítica. Até hoje é tido como o melhor disco dele. Chama-se "A Página do Relâmpago Elétrico".
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