Página da Música - Quando você começou a pensar em escrever essa biografia?
Ricardo Puga - Foi mais ou menos em 1996. Não foi uma coisa pensada, mas uma somatória de coisas. Desde criança sempre tive uma certa aptidão para escrever. Eu tinha vontade de escrever um livro. Entrei para a faculdade e falei: se eu escrever um romance ou um livro de contos, ninguém vai ler, a não ser que eu faça um nome, trablhando num jornal. Mas foi meio o contrário o que está acontecendo. Comecei a conhecer o trabalho do Beto Guedes em 1983. Eu tinha 14 para 15 anos.
PM - Quantos anos você tem?
RP - Trinta e três. Na época, eu estava na praia, sozinho, o pessoal tocando umas músicas. E eu nem sabia que as músicas eram dele. Tinha um pessoal de Minas que falava "eu gosto muito do Beto Guedes". Esse nome, então, ficou gravado na minha memória. Em 84, voltando para a escola, um amigo meu começou a tocar. Ele disse que era do Beto Guedes. Um pouco depois, o Beto veio para São Paulo fazer show de lançamento do quinto disco dele, "Viagem das Mãos". Na época tocava bem mais nas rádios. Fui ver o show sozinho, com 15 anos. Entrei no Circo Mágico do Anhembi e fiquei assustado com o pessoal que foi assistir o show. Era um pessoal bicho-grilo. Eu tinha comprado uma coletânea dele, "Lumiar". Depois, comprei o "Viagem das Mãos" e aí fui ao Centro Cultural (São Paulo), comecei a pesquisar, tinha alguns discos, ouvi os anteriores, até que fui adquirindo.
PM - Ele é de uma geração que ouviu muito Beatles. Nesse disco mais recente do Beto também tem uma versão dos Carpenters. A referência dele parece que foi muito a música feita fora do Brasil. Você também teve contato com esses grupos estrangeiros?
RP - Não. Na minha casa o disco que tinha de mais radical era o dos Secos e Molhados. Tinha Maria Bethânia, Roberto Carlos. Eu achava aquela capa dos Secos e molhados, com 8 ou 9 anos de idade, o máximo. O Beto teve essa referência fortíssima dos Beatles, mas na infância dele - ele cresceu em Montes Claros - não tinha televisão. Só havia o rádio. Então, era o som regional do Norte de Minas gerais com a Bahia. Tinha o Luiz Gonzaga, duplas caipiras da região, Dilermano Reis, violeiros. Quando ele vai para Belo Horizonte na década de 60 e os Beatles começam a aparecer, o Lô, Milton, Márcio Borges e o Yé vão assistir "A Hard Days Night" e elas chamam o Beto para assistir ao filme também. O Beto fala que não vai, que não sabe quem eram aqueles caras. Eles ficam maravilhados. São essas histórias que vão estar no livro. Um pouco depois, o Lô e o Yé ganham do Bituca e do Márcio Borges o disco "A Hard Days Night". Eles levam à casa do Beto para ele ouvir. O Beto achou sensacional. O Lô mesmo conta que, a partir daí, o Beto se tornou o mais beatleamaníaco deles todos.
PM - E como foi que você acabou resolvendo escrever o livro mesmo?
RP - No final de 98 eu tirei férias da empresa onde eu trabalhava. Eu só tinha essa idéia muito imatura e estava inseguro. Pedi a opinião de pessoas próximas. Fui para Belo Horizonte para tentar falar com o Lô e o Venturini, para ver o que eles achavam e para me apresentarem para o Beto. Eu não tinha nem o telefone deles. Como eu já estava lá, resolvi tentar falar direto com o Beto. Eu também não tinha o telefone dele. Tinham me dado um telefone que era do empresário do Beto. Liguei e perguntei: "É da casa do Beto Guedes?" Ele falou: "É." Perguntei se podia falar com ele, mas o Beto estava em Montes Claros. Era o empresário dele, Cláudio, que estava falando comigo e perguntou se podia ajudar. Eu expliquei e no dia seguinte a gente se encontrou. Eu contei que estava querendo escrever e ele achou interessante. Perguntou: "Você já me trouxe alguma coisa por escrito?" Eu disse "não, mas eu vou fazer e te mando". Ele falou: "Faz isso, até para a gente ver como você escreve."
Voltei para São Paulo e nos finais de semana eu colocava no papel as idéias. Durante uns quatro finais de semana eu passei escrevendo e reescrevendo.
PM - Isso só com base na sua vivência com a música dele, sem pesquisa ou entrevista?
RP - Não fiz entrevista e pesquisa. A minha intuição – e eu estava certo – era que o meu primeiro passo deveria ser a autorização dele para poder conversar com todos.
PM - Na verdade, você fez uma apresentação do trabalho?
RP - Eu só escrevi o que eu tinha em mente. Eu tinha pouca coisa pesquisada. Na verdade, eu tinha o entusiasmo, admiração pelo trabalho dele, o conhecimento de todos os discos. Uma coisa que eu acho que fez com que ele me autorizasse é que eu já conhecia o trabalho de todos os demais. Eu mandei o projeto e fiquei naquela ansiedade. Passaram uns 15 dias, liguei para o empresário e perguntei: "Você leu?" Ele: "Li. Está lá com o Beto agora." Falei: "O que você achou?" Ele: "Achei legal. Vai ligando aí porque o Beto ainda não me falou nada." De 15 em 15 dias eu ligava e era a mesma coisa. Depois de uns dois meses e meio eu liguei e o Cláudio falou "O Beto ainda não me deu uma resposta, mas também tem uma moça do Rio que mandou um projeto para fazer um livro." Na hora, eu falei: "Que legal! É sinal de que está na hora de alguém escrever." Ele disse: "É. Mas eu não sei o que o Beto vai falar." Comecei a ficar angustiado. Aí, ele veio fazer show em São Paulo, no projeto Café com leite, e eu disse "vou pegar ele pelo pé e perguntar." Depois da apresentação eu fui ao camarim com o livro "Os Sonhos Não Envelhecem", do Márcio Borges. Eu pedi para ele autografar. Eu falei que eu é que tinha mandado para ele o projeto. Ele é de muita doçura. Eu perguntei: "Li". "E aí, o que você achou?" Ele falou: "Achei legal, gostei, vamos começar a conversar, a escrever." Do jeito dele. Era difícil ele chegar ao final de uma frase. E ele falou uma coisa que, sempre quando estou em momentos difíceis, me lembro: que para ele ia ser uma honra.
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O livro "Os Sonhos Não Envelhecem", de Márcio Borges
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