O frio também desperta fortes emoções

Por Arnaldo de Ávila

     É o que podemos comprovar assistindo ao show de lançamento do CD "Tambong", do cantor e compositor gaúcho Vitor Ramil.

     As canções com tom melancólico e cheias de imagens nos inspiram a viajar pelo universo de sua música e a "estética do frio", presente nas composições, mesclada com a latinidade e a pluralidade de ritmos e emoções, dão o tom do espetáculo intimista, voz e violão.

     Descontraído e bem humorado, Ramil encanta pela sua simplicidade e pela genialidade de suas composições. No show, o músico conta "causos" engraçadíssimos. Exemplo disso é a história da inspiração para o nome "Tambong", que, segundo ele, ocorreu em um sonho e somatiza todos os ritmos incorporados em suas composições para este novo disco: tango argentino, candomble uruguaio, milonga, bossa e samba brasileiros. Ele achou que havia criado uma palavra que traduzia toda a essência do trabalho, quando, para sua surpresa, lhe chega o e-mail de um amigo dizendo que havia descoberto vários significados para a palavra Tambong, em vários idiomas. Ele pensava ter criado uma nova palavra e descobriu que a mesma é conhecida no mundo todo.

     Vitor Ramil traz em sua obra fortes influências de suas raízes sulistas, dos ritmos uruguaios e argentinos, da bossa nova e de Bob Dylan, de quem canta três versões no show. Duas delas estão no CD.

     Os shows em São Paulo têm as participações de Zeca Baleiro e Chico César, que também participa do disco gravado em estúdios argentinos, com produção do renomado músico portenho Pedro Aznar. Participam ainda do trabalho Lenine, Egberto Gismonti, João Barone, dos Paralamas do Sucesso, e Kátia B.

     Dentre os artistas que já gravaram composições de Vitor Ramil estão Gal costa e Mercedes Sosa.

     No próximo dia 1º de junho, Vitor Ramil encerra a temporada em São Paulo, no Teatro Crowne Plaza. A turnê, que começou por Porto Alegre e Rio de Janeiro, continua nos próximos meses em Curitiba e Florianópolis. Em setembro, Ramil lança "Tambong" em Buenos Aires e nas grandes cidades da Argentina. Depois, retorna para fazer espetáculos no norte e nordeste do Brasil.

     O inquieto músico não pára por aí. Já está preparando repertório para um novo disco, com previsão de lançamento em 2002.

     Acompanhe trechos da entrevista que Vitor Ramil concedeu à Página da Música no final do show deste 25 de maio.

PM – Como surgiram as participações no CD "Tambong"?

VR – Surgiram muito naturalmente. Os argentinos têm o hábito de participações em discos. A gente estava gravando e o Pedro Aznar dizia "Seria lindo o piano do Egberto nesta música". "Legal! Quem sabe a gente liga pro Egberto e ele topa tocar..." Assim foi indo. "Alguém podia cantar comigo essa música do Dylan..." Fui para Fortaleza e lembrei do Lenine. "O Lenine é o cara!" Porque eu estava querendo fazer essa fusão do sul frio com o Brasil quente. O Chico César estava de passeio em Buenos Aires, soube que a gente estava gravando e tinha um tema que acabou ficando meio afro, a gente nem sabe porque. Aí o Chico já gravou. A gente começou a pensar que tinha de ter uma bateria aqui e o João Barone seria o cara ideal para tocar porque tem tudo a ver com ele. Foi tudo muito natural. Não foram participações no sentido de divulgar o disco. Não houve nunca, em nenhum momento, esta intenção. Foram participações realmente artísticas e afetivas.

PM – Como é ter como produtor o Pedro Aznar, que é um músico argentino super conceituado, inclusive no Brasil?

VR – O Pedro Aznar é um músico fabuloso e é um produtor também fabuloso, porque ele é um cara que consegue estar concentrado na produção, comandando computadores e coisas assim e, ao mesmo tempo, passa a mão no baixo ou em outro instrumento e toca – ele toca vários instrumentos e com muita sensibilidade. É um músico que me dá muita segurança, muita tranqüilidade. Eu me sinto seguro com ele em relação aos resultados. E tanto eu quanto ele somos perfeccionistas. A gente vai até a última instância sempre para deixar a coisa no ponto.

PM – Qual o balanço geral que você faz da repercussão do seu trabalho?

VR – Para mim, São Paulo está sendo, de todos os lugares onde eu toquei até agora, o mais excitante. Eu quase nunca toco em São Paulo. Posso radicalmente dizer que eu nunca toquei em São Paulo. Vim com a minha banda fazer o "Ramilonga" (CD anterior de Ramil) e antes eu tinha feito algumas apresentações que não tinham muito como ecoar. Ainda não tinha encontrado o meu canal. Justamente no momento em que eu me sinto maduro, com um trabalho que eu gosto, é aquele também em que eu chego em São Paulo. O Carlos Mamberti, o programador do Teatro Crowne Plaza, ouviu o disco e gostou muito. Então, tive este canal de uma pessoa que sacou que o trabalho é interessante. Quando tu vai chegar numa cidade estranha e tu é um cara que não tá na mídia, tens que contar um pouco com a sensibilidade das pessoas que vão ouvir e perceber que o trabalho é legal.

 

Vitor Ramil – Lançamento do CD "Tambong"

O show do dia 1º de junho terá participação de Chico César

Teatro Crowne Plaza

Rua Frei Caneca, 1360

Tel. (11) 289-0985

Ingressos: R$ 15,00