Vitor Ramil se apresenta no Rio de Janeiro

O compositor e intérprete sulista faz shows dias 21, 22 e 23 deste mês na sala Baden Powell

Por Sérgio Fogaça  

    Na verdade, Vitor Ramil se apresenta no Rio, em Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e Pelotas, e depois em São Paulo, no início de agosto. O compositor e intérprete mostrará o repertório de seu mais recente trabalho, "Tambong". Lançado ano passado, o show do CD só havia sido feito em Buenos Aires, em Porto Alegre – na abertura do Fórum Social Mundial –, e depois uma temporada de um mês durante o verão do Rio de Janeiro. A novidade agora é que o compositor traz o percussionista Santiago Vazquez, da Argentina, para compor o espetáculo com mais fidelidade. "Eu tinha muita vontade de fazer show com ele aqui no Brasil", confessa Vitor. Além dele, o compositor ainda vem acompanhado de André Gomes e Roger Escarton, "compondo uma formação muito interessante", segundo o próprio Vitor.

    O CD Tambong foi gravado em Buenos Aires, com a produção de Pedro Aznar e confirmando uma certa idéia de combinar música e poesia brasileira com as mesmas artes dos países do Prata. O trabalho soa tão original quanto a idéia de misturar arranjos do sul da América do Sul ao Oriente, por meio de instrumentos de percussão e sopro daquela parte do mundo. O disco saiu em duas versões: português e espanhol. Vitor comenta também sobre esse assunto nesta entrevista para a Página da Música. O CD contou com as participações de Lenine, Egberto Gismonti, Chico César e João Barone, baterista da banda Paralamas do Sucesso.

    Abaixo, Vitor Ramil fala do show, do disco, do mercado internacional, das cidades onde viveu, vive e pretende viver e de novos compositores.

Página da Música – Nesse show você apresenta basicamente o repertório do último trabalho, o Tambong?

Vitor Ramil – Tem um tema do Ramilonga, o disco anterior, mais dois ou três temas do Tango, um disco que fiz na década de 80, com o Nico Assumpção e o (Carlos) Bala, que tem bastante a ver com as coisas instrumentais do resto do show.

PM – Sempre, além de cantar, você costuma também contar algumas histórias, das músicas, por exemplo. Você mantém esse mesmo formato?

VR – Mantenho sim. Sempre existe um link bem forte com a platéia. Na relação com os músicos também rola uma coisa bem próxima. É um show bem despojado, centrado na música e na poesia, com conversa, papo.

PM – Quem está te acompanhando nesse show?

VR – Estou trazendo pra cá o Santiago Vazquez, que é um percussionista que gravou o Tambong comigo, na Argentina...

PM – Ele é argentino?

VR – Sim, ele é argentino.

PM – Essa é uma diferença desse show, não?

VR – Ele nunca tocou no Brasil. Ele é um percussionista muito bom, muito preparado. Estudou música na Índia e Estados Unidos. Ele também tem um grupo muito legal chamado Puente Seleste. Eu tinha há muito tempo vontade de fazer show com ele aqui no Brasil. Fizemos lá em Buenos Aires e foi um arraso. Junta ele com o André Gomes, que toca cítara e baixo, sendo os dois virtuoses, é muito interessante a combinação que dá. E além deles dois tem o Roger Escarton, que toca harmonion e guitarra. E o Roger faz tipo um meio de campo entre os outros dois, é um músico muito sutil. Então, é uma formação muito legal. São temas do Tambong, com muitas coisas preservadas, até porque é o Santiago mesmo que está tocando, mas também muita coisa recriada, adaptada para essa formação.

PM – E depois do Rio de Janeiro vocês seguem para onde?

VR – A gente se apresenta em Curitiba dia 26, em Florianópolis dia 28, Porto Alegre, dia 29, e em Pelotas, dia 2 de julho. Depois em São Paulo, nos dias 9 e 10 de agosto.

PM – Você já vem há um tempo apresentando esse show?

VR – Esse show só fizemos em Buenos Aires, durante duas noites. Aliás, foi antes dessa tragédia econômica lá. Teríamos voltado em março, mas nesse meio tempo aconteceu toda essa confusão e o país deu mais ou menos uma parada. Mas agora a gente está estreando no Brasil.

PM – Esse CD saiu em duas versões, português e espanhol...

VR – Exato. É o mesmo disco, as mesmas bases, mas em duas versões: uma em português e outra em espanhol.

PM – Ele é comercializado onde, além de Buenos Aires?

VR – Ele foi enviado nos dois idiomas para vários lugares, na verdade. Na Argentina eu lancei em espanhol, mas tem alguns exemplares com versão em português por lá. A idéia original é que da Argentina ele seria distribuído para o Chile e Uruguai. Mas também com a crise econômica esse esquema furou. Além da Argentina, em espanhol, esse disco tem ido muito para a Europa e para o Japão. Por exemplo, na Espanha ele saiu numa coletânea da FNAC, de música brasileira, mas eles quiseram versão em português. Na Europa eles preferem ouvir em português. Mas na Espanha vai um pouco em espanhol e um pouco em português. Eu fiz em espanhol pensando mais nesses países, Argentina e Portugal. Acaba que é uma coisa meio simbólica mesmo, de mesclar os dois idiomas, uma coisa um pouco do Rio Grande do Sul mesmo.

PM – E a vendagem em outros países, fora da América do Sul, você tem notícia de que vai indo bem?

VR – Parece que vai. No Japão, por exemplo, cerca de 400 CDs já foram vendidos. Eles são muito ligados na música brasileira. Tem revistas dedicadas a música brasileira e música latina, de modo geral. Até mesmo na música Argentina eles são muito ligados. O Santiago Vazquez me disse que os discos dele também vendem super bem no Japão.

PM – Você acha que a sua música tem o mesmo tipo de aceitação ou assimilação em todo o lugar do Brasil, pensando nas mais diferentes regiões, ou mesmo fora do país?

VR – Olha, em primeiro lugar no sul, é claro. Agora, por exemplo, eu viajo muito a Belém do Pará, que é um lugar onde tenho muita afinidade com o público. É um lugar para onde vou e encho teatro, sabe, as pessoas conhecem música antiga. A gente tem uma relação muito forte. Para mim é bem significativo que seja um lugar tão distante, mas tão sintonizado com meu trabalho. Tem uma história sempre legal com o Rio de Janeiro também. Eu acho que toco no Rio tanto quanto em Porto Alegre nos últimos anos. Anualmente eu tenho tocado no Rio.

PM – Onde você está morando agora?

VR – Estou morando no Sul, em Pelotas.

PM – Já faz um bom tempo, não?

VR – Eu morei no Rio até 1992 e depois voltei para o Sul. E foi ótimo esse período todo lá... Eu já digo foi ótimo porque já estou pensando em voltar para cá (Vitor falou com a gente do Rio de Janeiro).

PM – Para o Rio de Janeiro?

VR – Talvez para o Rio ou para São Paulo. Ainda estou meio sem saber. Essa coisa de ir para o interior foi muito importante até o momento. Escrevi meu livro (chamado Pequod). Compus material para dois discos e para mais dois, se eu quiser fazer já está tudo pronto. Eu produzi muito lá nesse período.

PM – Vale então um pouco essa idéia de estar num lugar mais tranqüilo e produzir mais, ter mais tempo para isso?

VR – Acho que isso depende da pessoa. Tem gente que vai para um lugar tranqüilo e pode se sentir desmotivado, se sente fora do eixo. Por exemplo, eu aqui no Rio tinha uma vida muito caseira, passava o dia lendo e compondo. Quando voltei para o sul minha criatividade foi a mil. Mas eu sinto falta, assim... por exemplo, como eu resolvi ter o meu selo e quero investir nisso, o Sul é um lugar muito afastado. Então tudo é mais difícil. Estar lá na ponta do Brasil torna tudo mais complicado comercialmente. É bem possível que eu volte para cá.

PM – Aproveitando essa sua proximidade com os músicos do sul, você pode citar alguns compositores ou músicos legais, que, na verdade, a gente por aqui conhece pouco?

VR – O meu compositor favorito, da atualidade, é um uruguaio. Ele chama-se Jorge Drexler. Ele é um compositor fenomenal e vive em Madri atualmente. Um músico maravilhoso, canta bem, os discos dele são muito bons. Faz um trabalho moderno, mas sempre buscando os elementos lá do país dele. Realmente um cara muito, muito bom. Na Argentina, tem esses caras que estão até trabalhando comigo, como o Pedro Aznar (produtor do CD Tambong), que é um super músico, compositor e produtor. O Santiago Vazquez, que também é um músico excepcional e também tem um grupo muito legal. Tem todo o pop argentino, como o Fito Paez, que acabou de vir ao Brasil fazer shows, também um super compositor. A cena roqueira argentina é muito boa, tem muitas bandas pintando a toda hora. E fora, claro, toda a área do tango que tem músicos maravilhosos...

PM – E do Rio Grande do Sul?

VR – Do Rio Grande tu tem por um lado a cena do rock em Porto Alegre. Ela é muito boa, muito forte, com uma série de bandas pintando. Tem também um mercado de música gauchesca grande. Inclusive as bandas de rock de Porto Alegre quase que não saem de lá. Acabam entrando no circuito mesmo de bandas de tocar por ali.

PM – Se auto-sustentam.

VR – Ainda tem no meio disso compositores urbanos de Porto Alegre que fazem um mix disso tudo.

PM – Você pode dar algum exemplo?

VR – Tem o Nei Lisboa, um compositor que compõe muitas baladas, blues. O Nei não tem assim um link regional forte, é mais universal. Tem o Totonho Villeroy, um compositor que está aqui no Rio agora. Tem o Bebeto Alves, um compositor que é mais da geração de meus irmãos (Kleiton e Kledir), mas também é um cara que está a mil, sempre atuando. Das bandas tem o Ultraman, uma banda nova, tem a Tequila Baby, também a Comunidade Ninjitsu. Tem muita gente legal. O Papas na Língua também é uma banda muito legal, com bons compositores e um bom cantor.

PM – Para terminar, você comentou sobre vir morar numa dessas duas capitais, Rio ou São Paulo...

VR – No ano passado eu estive muito em São Paulo. Toquei com o Chico (César), toquei com o Zeca (Baleiro). As pessoas me dizem muito: "Pô, vem pra cá, vem morar aqui, em São Paulo tem muito espaço para o tipo de trabalho que você faz". Eu também escrevo, muita gente acha que meu feeling está muito mais para São Paulo do que Rio de Janeiro. Me dizem isso. Mas minha história pessoal está mais ligada ao Rio. Eu sempre gravei meus discos no Rio, por exemplo, desde meus 18 anos eu venho pra cá. Então, vamos ver o que vai acontecer. Nunca digo que vou para algum lugar, porque depois acabo não indo. Não sei ainda.

 

Vitor Ramil - "Tambong"

Dias 21, 22, às 21h, e 23, às 20h

Sala Baden Powell - Av. Nossa Senhora de Copacabana, 360, Copacabana

R$ 15,00