"A música brasileira é a melhor do mundo"

Por Evanize Sydow  

    Estréia este mês no site Página da Música a seção "Outras Palavras", mais uma forma de integrar leitores e artistas. Nela, quem faz as perguntas é você. Nossos assinantes recebem antecipadamente um boletim divulgando o nome do entrevistado e têm um prazo para encaminhar as suas questões. Quem abre com chave-de-ouro a seção é o segundo músico mais popular de Minas Gerais, segundo a Associação de Músicos Arranjadores. Perde apenas para Milton Nascimento. Paulinho Pedra Azul, cantor, compositor e poeta, respondeu as perguntas dos leitores da Página da Música durante uma tarde no hotel onde se hospeda em São Paulo. Ele está na capital para fazer dois shows – dias 28, no Teatro Jardim São Paulo, e 29, no Sesc Itaquera. Também se apresenta em Guarulhos, dia 25, no Teatro Nelson Rodrigues, e na cidade de São José dos Campos, dia 26.

   Nascido na região do Vale do Jequitinhonha, Paulinho Pedra Azul tem em sua bagagem 15 discos gravados, 12 livros publicados, 15 troféus em festivais de música nos anos 70 e outras 17 homenagens espalhadas pelo Brasil. Nos shows que faz em São Paulo, ele comemora 20 anos de carreira. No repertório estão seus principais sucessos, como a música Jardim da fantasia, O Pedido, de Elomar, e canções de Godofredo Guedes, pai de Beto Guedes, que foi tema de um disco inteiro de Paulinho Pedra Azul em parceria com Wagner Tiso. Acompanhe a entrevista (ao lado de cada pergunta está o nome do leitor que a enviou).

José Nelson Faria Barbosa - Qual é a sua relação com o pessoal do Clube da Esquina?

Paulinho Pedra Azul - Eu não tive uma influência do Clube da Esquina porque saí de Pedra Azul direto para São Paulo. A minha relação com eles foi depois que eu saí de São Paulo e voltei para Belo Horizonte. Aí vim a ter uma relação de amizade, não foi nem profissional. De um tempo para cá, estou começando a ter uma relação mais profissional. Foi quando Tavinho Moura participou de disco meu, Toninho Horta, compus com Lô Borges. Eu vim a ter uma relação com eles depois que morei 11 anos em São Paulo.

Ricardo Puga - Gostaria que você contasse um pouco da história da música Jardim da fantasia. Você faz idéia de toda a repercussão que ela já teve em todo o Brasil?

Paulinho Pedra Azul - As pessoas comentam que foi uma música que fiz para uma noiva que eu tinha e que morreu. Mas isso é mentira, não existe morte nessa música. Foi invenção de algumas pessoas que escutaram e, por conta própria, espalharam essa história, que eu não consigo desmentir até hoje. A pessoa para a qual eu fiz a música está viva, foi a primeira namorada que eu tive em Pedra Azul. Humildemente, tenho essa consciência de como a música alcançou o Brasil porque viajo muito e em todo lugar que passo, do nordeste até o sul do país, as pessoas comentam e cantam, em beira de praia, boteco, barzinho, teatro... Não diria que é a música mais importante do meu repertório, mas é a mais conhecida. Jardim da fantasia é apelidada de Bem-te-vi.

Ricardo Puga - Também gostaria de saber da história da música Inferno e paraíso.

Paulinho Pedra Azul - Essa tem uma história. Eu compus na época em que morei aqui em São Paulo. Fui tocar em um bar no Paraíso e antes de começar o show fiquei por ali rodando pelos quarteirões e pensando: como é que um bairro desse, com tanto barulho, parece mais um inferno do que um paraíso? Foi ali que surgiu a música Inferno e paraíso. De uma certa forma, é uma homenagem a São Paulo. No final fala assim: "Somos nós os fantasmas do sorriso, que fazemos desse inferno um paraíso". 

Robson Dias da Silva - Qual o próximo trabalho? Tem CD no forno? Tem previsão de show por Salvador?

Paulinho Pedra Azul - No segundo semestre vou a Salvador para fazer show, mas ainda não sei a data. Estou trabalhando num disco novo, com músicas inéditas, para comemorar os 20 anos de carreira. Vai ser lançado no segundo semestre.

Dalessandro Adame de Carvalho e Gracilene Biá - Como fazemos para conseguir seus CDs e livros em São Paulo?

Paulinho Pedra Azul - É muito difícil porque os livros e discos as pessoas só conseguem durante as minhas apresentações. Como eu trabalho de forma independente, é difícil a distribuição e é complicado a gente encontrar alguém que queira distribuir. Com certeza, nos shows que estou fazendo aqui vai ter o disco. Os livros não porque eles estão esgotados. E estou vendo uma forma de fazer uma coletânea para poder lançar no ano que vem. No show vamos ter uma coletânea com 20 músicas, um disco comemorando 10 anos de carreira, e o disco novo, que tem 18 músicas. Já dá para a pessoa ter uma idéia do meu trabalho.

Herialdo - Você fez shows em Macapá em meados de 90. Os amapaenses estão sentindo a falta de suas músicas. Trouxemos Vital Lima, Zé Renato e você está em nossa programação. Qual é o seu contato?

Paulinho Pedra Azul - Em belo Horizonte é (31) 3223-6686. Em São Paulo, (11) 9850-1117 (José Luiz, produtor).

Maurício Nogueira - Hoje em dia a tentativa de um cantor da MPB para conseguir contrato com uma grande gravadora é difícil com o tipo de trabalho que está sendo feito para garantir o lucro. Lançam não mais música de boa qualidade e sim interessada em uma moda. Com isso, nós, artistas, nos vimos cada vez mais fechados em nossa própria criação, achando que ela não vale mais nada nos dias de hoje. Pergunto: qual a sua opinião sobre o contexto atual da música no Brasil, quais as melhores formas de quebrar essa barreira e a importância de se tornar independente (como você, no selo Clave de Lua)?

Paulinho Pedra Azul - Como eu faço um trabalho independente, não me preocupo muito com gravadora. Para compositor novo eu nunca indico ir para uma gravadora. Pelo contrário. Indico começar fazendo um trabalho independente, como o Chico César fez. O Chico César fez um disco ao vivo, baratinho, só voz e violão, mixou rapidinho, prensou, a gravadora se interessou e já está aí. No princípio, acho que a pessoa tem que partir para o trabalho independente para chegar à gravadora de uma forma mais profissional.

    O que eu acho da música brasileira é que ela continua sendo, e vai ser sempre, a melhor música do mundo. Independente de qualquer modismo que entrar, de qualquer trabalho que a mídia faça para que pessoas que têm um trabalho duvidoso vendam 3 milhões de cópias, que é o que vem acontecendo, a descaracterização dos ritmos brasileiros; é o que as gravadoras vêm fazendo, insistindo com uma coisa que já não tem mais qualidade, mas continua vendendo por não ter qualidade. As pessoas que quiserem fazer um trabalho sério vão ficar para sempre e vai ter sempre espaço para quem faz um trabalho com honestidade, digno, verdadeiro. Se essas pessoas desejarem vender 3 milhões de cópias, elas vão ter que fazer o que manda o mercado.

    Estou com 18 discos gravados e até hoje não recebi nenhuma proposta interessante de gravadora. O dia em que receber, vou conversar com eles. Logicamente, eu tenho interesse em ir para uma gravadora. É uma forma de você ter o seu trabalho mais divulgado nacionalmente. Desde que seja da forma com que eu venho fazendo o meu trabalho. Eu não tive nenhuma proposta de gravadora em meus 20 anos de carreira.

Página da Música - Você nunca fez disco por uma gravadora grande?

Paulinho Pedra Azul - O meu primeiro disco foi pela BMG-Ariola, que é o "Jardim da Fantasia" e está em catálogo até hoje. Os outros todos foram independentes. Já tive dois discos independentes distribuídos pela Velas. Uma experiência triste que tive porque tiraram um de catálogo e não estão trabalhando o outro. Mais um motivo que a gente tem para estar longe da gravadora. 

Guga Barros - Como é que você, um artista que canta, toca e compõe bem e tem um público fiel, que adora as suas músicas, não faz tanto sucesso, enquanto outros estão pela mídia espalhando música de baixo nível?

Paulinho Pedra Azul - Isso é uma questão até de coerência com meu trabalho porque como sou muito fiel às coisas que faço, logicamente não vou deixar gravadora nenhuma interferir na minha criação. E como é certeza absoluta que eles interferem mesmo, eu prefiro ficar como independente e fazer um trabalho digno.

Página da Música - Você tem preocupação em ampliar e renovar o seu público?

Paulinho Pedra Azul - Com certeza, o público vem se renovando. O que eu venho percebendo nesses 20 anos de carreira é que os filhos passam para os pais. Eu tenho feito um trabalho também com livros infantis. São formas que a gente tem também de renovar esse público, por intermédio da música infantil e das visitas que eu faço aos colégios. A criançada pede para eu cantar o Bem-te-vi e um monte de músicas. Tem pessoas de 18, 20 anos que vão ao meu show falando que leram meu livro quando tinham 6 anos de idade. Sinto que o meu público vai se renovando a cada tempo que passa.

Eliane Verbena - Tuas músicas fizeram parte da trilha sonora da minha vida naquela fase dos 20 anos. O clima e astral do meu cotidiano – cursando faculdade em Juiz de Fora, morando com amigos músicos, escrevendo poesias – ficava extremamente melancólico e profundo, quando seu LP entrava em ação. Era uma mistura de alegria e tristeza, euforia e angústia, fantasia e desilusão. Existe essa tendência mesmo em seu trabalho ou é só uma visão particular minha?

Paulinho Pedra Azul - Existe, sim. A minha música é essencialmente romântica e fala muito do cotidiano, da relação humana, fala de conquistas também, de amizade, filhos, separação, reconciliação, da natureza, fé. Apesar de ser basicamente romântica, ela tem uma ligação muito forte com a relação humana. Acho que é por isso que as pessoas se identificam. Eu vivo muito as coisas que eu canto. E canto muitas coisas que eu vivo. Nunca parei para saber se é mais triste do que alegre, ou se é mais alegre  do que triste. Eu sei que são coisas que aconteceram na minha vida ou coisas que eu gostaria que acontecessem.

Janaína - Conheci o seu trabalho pela música Tele-fome do Jota Quest. Queria saber como que aconteceu essa parceria de vocês e o que acha do grupo?

Paulinho Pedra Azul - Eu considero o Jota Quest a melhor banda de rock pop do Brasil. Eles fazem um trabalho muito diferente. O Rogério Flausino esteve em uma festa em casa e eu dei um livro de poesia meu para ele. Ele levou para casa e, 15 dias depois, me ligou dizendo que tinha musicado um poema e que eles iam gravar. Na realidade, o poema se chama Telefome de Amor. Eu pedi para colocar só Tele-fome porque é como se a pessoa estivesse ligando de algum lugar, pedindo amor. Eles gravaram, foi o maior sucesso e estamos aí nos encontrando. Estou mandando algumas letras para ele (Flausino), de repente a gente vai ter mais alguma parceria em outro disco. Ele gosta muito de poesia.

João Roberto - Como foi a sua ligação com o pai do Beto Guedes (Godofredo Guedes), já que você gravou um disco com as músicas dele?

Paulinho Pedra Azul - Eu gravei com o maestro Wagner Tiso 12 canções do Godofredo. Ele deixou um trabalho extenso e muito bonito, apesar de compor há muitos anos, mas são muito atuais. Você pode pegar uma música dele de 40 ou 50 anos atrás e escutar hoje e vai ver que são super atuais. É um trabalho muito rico musicalmente. Ele tocava vários instrumentos, era um grande pintor também e eu conheci Godofredo quando ele já estava com 70 anos. A gente conversou muito no dia em que se conheceu. Foi uma ligação muito forte porque há muito tempo ele queria me conhecer, e eu também a ele. Dali ficou uma amizade muito forte, apesar de a gente ter convivido pouco tempo porque ele faleceu logo depois. Ele disse que o sonho da vida dele era que eu gravasse um disco, interpretando uma parte da obra dele. Infelizmente, ele foi para o céu e não teve tempo de ouvir. 

Patrícia Ribeiro - Aqui em Minas Gerais você é rei. É assim no resto do Brasil?

Paulinho Pedra Azul - Pelo menos nos lugares por onde eu tenho passado fora de Minas Gerais, o carinho das pessoas é uma coisa surpreendente. Belém, Teresina, Macapá, São Luis, Fortaleza, Maceió, Tocantins, Goiás, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais toda, São Paulo, sul do país. O pessoal tem um carinho muito especial pelo meu trabalho. A gente realmente não se dá conta da dimensão do nosso trabalho, de onde vai parar.

Isis - Qual é a origem do Pedra Azul no seu nome?

Paulinho Pedra Azul - Pedra Azul é a cidade onde eu nasci, no Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, quase divisa com o sudeste da Bahia e fica exatamente entre Teófilo Otoni e Vitória da Conquista. Passei a ser Paulinho Pedra Azul aqui em São Paulo porque tinha vários Paulinhos e o pessoal falava "aquele Paulinho de Pedra Azul". Dentro da gravadora, quando assinei o contrato, a princípio eu ia colocar Paulinho Moraes. Inclusive, no disco da Dianna Pequeno, onde ela gravou duas músicas minhas, na época saiu Paulinho Moraes. Na gravadora falavam "você é Pedra Azul". Acabei adotando Paulinho Pedra Azul. É um nome sugestivo, além de carregar o nome da cidade onde nasci. Paulinho sempre vem com um nome sugestivo depois: da Viola, Boca de Cantor, Astronauta, Nogueira.

Maria Beatriz S. Souza - Vou ao seu show aqui em SP. Vai ter música nova?

Paulinho Pedra Azul - Todos os shows que eu vou fazer por aqui serão uma leitura desses 20 anos de carreira. Vou cantar músicas de todos os discos e algumas coisas inéditas, como Tiro de letra, uma bossa, e uma outra parceria chamada Certas paixões. É voz e violão.

 

Paulinho Pedra Azul

dia 25, às 21h

Teatro Nelson Rodrigues - Lago dos Patos, s/n, Vila Galvão, Guarulhos

Entrada franca

dia 26, às 21h

Anexo da Cantina da Nena - Rua Luiz Jacinto, 260, Centro

Tel (12) 3922-4634

R$ 15,00

dia 28, às 21h

Teatro Jardim São Paulo - Av. Leôncio de Magalhães, 382, Jardim São Paulo

Tel (11) 6950-4115

R$ 10,00

dia 29, às 21h

Sesc Itaquera - Av. Fernando do Espírito Santo Alves Mattos, 1.000

Tel (11) 6523-9200

R$ 2,00 e R$ 5,00 (quarta a sexta) e R$ 3,00 e R$ 6,00 (sábado, domingo e feriado)

 

Contatos com Paulinho Pedra Azul:

(11) 9850-1117 (José Luiz) e 9662-7825 (Derivaldo)

(31) 3223-6686

ou dpjprod@ig.com.br