(Foto: Mário Luiz Thompson)

PM – O samba e o choro estão indo bem no Brasil, aliás, como sempre estiveram de um modo geral. Tem muitos shows na Lapa, aí no Rio de Janeiro, várias rodas de samba e choro aqui em São Paulo, além de muita gente nova chegando, tocando esses gêneros. Você acha que esses ritmos vivem um momento especial, ou foi sempre assim?

PV – Eu acho que há momentos em que essa coisa está mais forte e em outros não. Eu acho que a gente vive um outro momento agora. Não há mais uma coisa só. Por todos esses fatores que a gente tem falado. Isso merecia, inclusive, uma análise de vocês que escrevem, que ficam observando esses comportamentos. Não há mais um grande movimento. Não há mais uma vanguarda atuando. Não há mais novidades. Tudo aquilo que tem despontado como novidade acaba sempre depois frustrando as pessoas, são coisas efêmeras. Às vezes aparece alguma coisa diferente que permanece.

PM – Você pode dar um exemplo?

PV - Um exemplo que a gente pode lembrar é uma cantora como a Marisa Monte. É uma grande revelação desse período de uns, sei lá, 15 anos para cá. Alguns artistas têm essa perenidade pela sua importância. Mas o que a gente tem vivido nesses últimos anos é que muita coisa é colocada como novidade ou última moda. Na verdade, é isso mesmo. São algumas modas que passam com os verões ou com as estações. Então, eu acho que mereceria uma análise, porque isso não está acontecendo com tanta freqüência. Agora não tem mais essa coisa de "qual vai ser a moda do próximo verão" e todo mundo vai em cima. Isso está um pouco nebuloso, o esquema não funciona mais assim.

PM – O próprio mercado se movimenta diferente?

PV - Também existe essa outra coisa que é uma crise terrível de pirataria aqui no país, que é um assunto sério mesmo. E não é só disco, é tudo pirateado. E como podemos lidar com uma coisa dessas? Os autores, os direitos? Eu acho que isso, de uma certa maneira, desestimula uma série de artistas que trabalham nessa área. E o pessoal mais jovem não se preocupa muito com isso porque não tem acervo. O pessoal está chegando e quer chegar, quer mostrar o trabalho, quer espaço. O que eu imagino, o que eu sinto, é que existe uma coisa menos ansiosa. Você não tem necessidade, como você tinha há algum tempo, de ter um produto para vender urgentemente, para superar uma crise ou para substituir essa ou outra coisa que está desgastada. Não é bem assim mais. Acho que as pessoas, os produtores perceberam que esse jogo também já teve seu tempo. Ele está meio esgotado. E, na verdade, não se sabe aquilo que vem. Não tem ninguém aí anunciando nada.

PM – Isso não é um incentivo para que se consolide as coisas que a gente já tem, e que não são poucas, gêneros, ritmos etc?

PV – Tem pessoas mais jovens que continuam sem essas questões, vivendo o seu dia-a-dia, as coisas que surgem. Existem alguns preocupados em realmente apresentar uma alternativa nova, seja através do pop ou do rock. E existe um outro pessoal mais voltado para a história da gente, da música da gente, que é uma coisa fascinante também.

PM – Pois é, embora eu não acompanhe de perto porque não estou na cidade, parece que a Lapa, aí no Rio, tem revivido e feito muito samba. Ouvi falar de uma cantora que se chama Teresa Cristina. Aqui em São Paulo tem o Quinteto em Branco e Preto, que são muito jovens, mas fazem um samba legal, acompanham grandes sambistas de qualquer época...

PV - ... é, ligados nessa história. E isso para o pessoal mais jovem é uma novidade. De repente não é para a gente ou para outros, que já têm uma certa vivência...

PM – ... mas descobrir a maravilha de uma música do Pixinguinha pode ser uma novidade...

PV - ... exatamente, pode ser uma novidade. Entendeu como é que é? E a grande verdade é a seguinte: o Pixinguinha não está totalmente descoberto (risos). Essa é que é a verdade. Nem nós não sabemos tudo sobre o Pixinguinha.

PM – Agora a gente tem até uma possibilidade de começar a desvendar melhor essas e outras obras com essa recente disponibilização do acervo do Centro Petrobrás de Referência da Música Brasileira no Instituto Moreira Salles, não?

PV – Exatamente. E outras coisas também que vêm por aí, que também vão deixar todo mundo surpreso. Me refiro aos lançamentos que o pessoal da Biscoito Fino vai fazer com gravações do século XIX, só com música instrumental.

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