PM – Como é feita a distribuição de vocês?

OH – Por enquanto ela está com a Kuarup. Nós estamos fazendo uma espécie de parceria desde o início.

PM – A gravadora já está fazendo um ano?

OH – Isso, está fazendo um ano agora em junho.

PM – Como é a equipe de vocês? É grande ou bem enxuta?

OH – Nós temos cerca de 20 pessoas trabalhando ao todo.

PM – Como funciona a contratação de artistas? Eles procuram vocês, acontece o contrário, ou as duas formas? Tem também a oportunidade de projetos, como aconteceu com esse trabalho do Franceschi recentemente, certo?

OH – É exatamente um pouco de tudo isso que você disse. Se a gente tivesse um padrão de comportamento seria mais fácil, mas não é assim que a gente é. Às vezes, um encontro com um artista acontece de um interesse recíproco. Às vezes, ouço um trabalho que acho lindo e que demonstro meu prazer artístico e estético diante daquilo. Ao mesmo tempo, o artista manifesta a vontade de fazer alguma coisa na Biscoito. Então, digo," oba, vamos fazer". Ou, muitas vezes, o artista nos procura. Muitas. E aí acontece bastante o que te falei há pouco, que é duríssimo para mim, porque não dá para gente fazer tudo e tem muita coisa boa. Mas eu sempre converso francamente porque detesto enrolação. Sabe aquela coisa: "É muito bonito, mas me procure daqui a seis meses". Eu digo "olha, não temos espaço agora e não sei se teremos na frente". Porque a gente não quer aumentar o casting da gente com mais de dez artistas contratados.

PM – É em torno desse número que vocês têm contratados?

OH – Não, temos seis e mais uma idéia de umas três pessoas.

PM – Quem são os seis?

OH – Francis Hime, Miúcha, Sérgio Santos, Quarteto Maogani, Maria Bethânia e eu. Contratados são esses.

PM – Quer dizer, tem esses contratados mas também tem os projetos?

OH – Os projetos a gente quer fazer sempre. Aparece um projeto como esse do "Memorial", que é Wagner Tiso e Zé Renato. Ou então esse com o Hermínio (Belo de Carvalho), "O Samba é Minha Nobreza", que é lindo.

PM – Esse também é de vocês?

OH – Gravamos lá, produzido pela gente, no estúdio da gente. Sem patrocínio nem nada. O espetáculo é que teve patrocínio, mas a gravação é nossa.

PM – E o projeto que você falou antes, do Zé Renato e Wagner Tiso?

OH – Chama-se "Memorial", uma homenagem ao JK e sai também neste mês de junho.

PM – Podemos justamente falar dos próximos lançamentos?

OH – Claro. O "Mar de Algodão", meu disco que saiu agora no final de maio e o "Memorial". São os mais atuais.

PM – O disco da Miúcha...

OH – Esse tinha saído em março. Chama-se "Compositores". E o do Sérgio Santos (ao lado) saiu em janeiro. Outro que saiu em março também foi o da Joyce, "Gafieira Moderna", mas esse foi licenciamento. Em julho vamos lançar a Zezé Gonzaga, com o título: "Eu sou apenas uma senhora que gosta de cantar".

PM – É algum projeto específico com ela, sobre algum autor?

OH – São coisas variadas. Eu a convidei para fazer o Paço Imperial, dali nós gravamos – a gente grava tudo lá do Paço – e, em seguida, convidei para fazer o disco. Pensamos no Hermínio (Bello de Carvalho) para produzi-la também. O disco é lindo, lindo, lindo. Em agosto, a gente lança uma produção minha antiga, de 17 anos atrás, que é sobre obra de Fernando Pessoa.

PM – Um projeto que envolve vários intérpretes?

OH – E vários autores também.

PM – Quem, por exemplo?

OH – Tom Jobim fez duas faixas. Musicou dois poemas do Fernando Pessoa. Sueli Costa musicou outro que Nana Caymmi canta. Francis (Hime) fez um que nós dois cantamos, um dueto. Eugênia Mello e Castro canta outro do Milton Nascimento. Dori Caymmi fez um que ele mesmo canta.

PM – Ainda dos próximos lançamentos tem mais alguma coisa?

OH – Em setembro tem Maria Bethânia com "Maricotinha ao Vivo", que a gente gravou. Em outubro Clara Sandroni com um trabalho dela que nós estamos licenciando sobre Baden Powell. Ela e Mauricio Carrilho. Em novembro, provavelmente, vamos conseguir lançar um disco sobre Luizinho Eça, um projeto muito bonito. E em dezembro as obras completas de Paulo Vanzolini, que está sendo gravado em São Paulo. Depois, nesse meio tempo, tem relançamentos, como um disco meu sobre a Chiquinha Gonzaga, em outubro. E tem os Compassos números quatro e cinco.

PM – Faz pouco tempo que a Maria Bethânia está com vocês. Interessante esse movimento de um artista que sempre esteve em gravadoras grandes, já estabelecidas, se moverem para selos iniciantes, não?

OH – Existiu uma conversa dela com a Kati (Braga), mais diretamente, e elas foram pensando em fazer uns projetos de Bethânia, que ela tinha idéia de fazer. Foi quando Kati sugeriu que ambas conversassem comigo. Além disso, Bethânia já estava pensando em fazer um movimento nesse sentido, e fez.

PM – Essa foi uma decisão que deve trazer mais tranqüilidade para ela também. Imagino que ela se sinta melhor fazendo as coisas no tempo dela?

OH – Exatamente. Eu acho que ela tem bem o tempo dos selos, e principalmente o nosso. É isso, com mais calma. E tem uma coisa que tenho como um mote para mim, do que eu desejo. Não sei se vou conseguir, mas é o meu desejo. Por exemplo, eu não consigo imaginar você contratar um artista por um repertório, ou por uma linha. Você contrata um artista com todo o pensamento dele, com toda a história dele, com todos os desejos dele. Então, eu não posso interferir num repertório quando eu chamo o Sérgio Santos para gravar com a gente, ou a Miúcha, e perguntar "mas escuta, o que você vai gravar?" Ou eu admiro esse artista, sinto afinidade com ele, ou então não tem sentido. E a Bethânia é isso, uma artista de uma coerência enorme no trabalho dela, assim como todos que estão ali dentro do nosso selo.

PM – Isso é uma diferença fundamental desses selos que tem essa abordagem, esse respeito com o artista, diferente daquelas grandes gravadoras que estão há anos no mercado com um tipo de abordagem muito clara de negócios. Percebemos que tem muitos selos independentes e isso é saudável, não?

OH – Eu acho muito saudável. Acho que os selos estão aí para adubar a terra mesmo, para deixar novamente essa diversidade surgir. Essa sempre foi uma característica marcante no Brasil, a diversidade musical.

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