PM - Eu entrevistei o Fernando Brant e ele estava contando da ida de vocês para o Rio. Vocês foram juntos para o Rio?

NA - Muito pertinho. Eu talvez tenha vindo antes, mas vamos dizer que o que ele falou está certo porque em termos de trabalho foi a mesma época. O Fernando já tem uma característica um pouco diferente porque ele tem um pouco de pé no chão lá. Eu acho que tudo o que eu falei para você daqui ele fala de lá. Mas ele chegou a vir, tem as coisas dele aqui, mexe com direito autoral. O Fernando é o cara mais importante do Clube da Esquina. A importância dele eu posso verbalizá-la. Ele é conciliador, é profundamente amigo dos amigos dele, é generoso. É uma pessoa capaz de ter um discernimento de ver os defeitos de uma outra pessoa, mas jamais tirar um grão de areia do que essa pessoa vale e que é. 

PM - O que representou para você a época do Clube da Esquina?

NA - Nessa história em que a gente se encontrou no Rio tinha duas partes: uma, em torno do Milton (Nascimento), que é meu amigo desde Minas Gerais – conheci o Milton em 1963 e sou amigo dele até hoje. Eu tinha uma convivência aqui com ele depois que veio para o Rio de Janeiro e que tornou-se uma convivência de amizade e trabalho. Foi uma coisa muito importante para mim e eu acho que para todo mundo que participou disso, até porque nunca houve um planejamento. O Clube da Esquina não foi uma coisa que tivéssemos dito assim: "Agora nós vamos fazer um movimento." A gente começou a tocar, o Milton já era mais conhecido que os outros, já gravava em discos e convidava as pessoas que estavam ali perto, que era a gente mesmo, tinha os parceiros dele, Fernando, Márcio Borges, Ronaldo (Bastos). O Clube da Esquina foi formado por esse trabalho. A gente foi gravando, gravando e, quando viu, tinha 10, 15 discos. O Lô começou a gravar, eu gravei e fomos fazendo as coisas. Virou o Clube da Esquina. Não foi uma coisa planejada. Foi um período de importância, de experiência.

Pm - Este ano o disco Clube da Esquina está completando 30 anos. Vocês não pensam em fazer uma comemoração?

NA - Na verdade, não existe um grupo. Existe um trabalho feito. Tem uma coisa chamada Clube da Esquina que está pronta, feita e essas pessoas existem e não saõ exatamente um grupo permanente. É por isso que eu digo que o Fernando é importante. Porque ele é uma pessoa capaz de gerar informações e situações que podem fazer, inclusive, as pessoas pensarem um pouco sobre isso.

PM - Queria que você relembrasse o momento em que cantou a música Sentinela em 68, no Festival da Record.

NA - Foi nessa época que eu convivi muito com o Milton. Márcio Borges e Milton fizeram a música Coragem em minha homenagem. Eu vi tudo nascer, como também Sentinela. Era a época em que o Milton estava indo para São Paulo. A gente – eu e o Marcinho – ficamos uns 10 ou 15 dias na famosa pensão do Bóris. Eu era totalmente apaixonado pela Elis (Regina), como milhares de garotos. O Milton a conhecia e falou que ia me levar até a casa da Elis. Eu não acreditei... A gente almoçou na pensão do Bóris e fiquei ansioso. O Milton falou: "Vou dormir um pouco e de noitinha a gente vai para a casa da Elis". Foi me dando uma ansiedade, fui para o bar e pedi uma batida de amendoim. Tomei uma, duas, três e quando voltei eu já estava "qualquer coisa". O Milton me levou até perto da casa da Elis, na Avenida São João. E dizia assim: "Eu não posso ir com você desse jeito." Eu chorava, fazia discurso, dei um vexame...

    Então, o Milton me convidou para cantar no Festival da Record. Quem cantou também foi a Cynara e Cybele. Aliás, nós quatro cantamos. 

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