PM - Você falou do Tom Jobim. A sua obra tem muita influência dele?

NA - Eu acho que todo mundo tem influência de Tom Jobim. Não tem como um músico brasileiro não ter influência de Tom Jobim. Primeiro, porque ele foi um esclarecedor dessa questão, porque ele sempre foi a primeira pessoa a falar sobre as influências. Ele é uma pessoa que se deixou influenciar de uma maneira generosíssima por Ravel, Villa-Lobos, pelo próprio Radamés Gnatalli e pelas pessoas que conviviam com ele. Ele declarava, às vezes até com um excesso de modéstia, "isso aqui foi fulano que me influenciou"... Pessoas que nem estavam no mesmo nível dele. Não tem como um músico brasileiro não ser influenciado por Tom Jobim. É e muito. Porque é a alma brasileira. É o negócio que ele falava do Villa-Lobos. Ele tinha um fascínio pelo Villa-Lobos, pela música e a estética musical dele, por toda essa maneira de traduzir com a visão nossa as informações musicais, que, na verdade, vêm de tudo quanto é lugar do mundo.

PM - Você é de Belo Horizonte. Quando foi para o Rio?

NA - Em 1966. Sou mineiro. A pessoa não tem como negar o lugar de onde vem; aquilo vem dentro de você, mas eu sempre, ingenuamente entre aspas, me considerei um brasileiro. Eu não gostava dessa idéia de ser mineiro, de ser carioca, de ser gaúcho... Isso é uma profunda cisma. Eu gosto da alma do Brasil. E o lugar que melhor traduziu para mim a alma do Brasil foi o Rio de Janeiro. Eu tinha muita vontade de sair de Belo Horizonte, viajar, uma espécie de coisa de cigano. Então, na minha época, que foi de Beatles, Pixinguinha, o Rio de Janeiro sempre simbolizou um lugar onde não tinha uma fronteira. Me fascinou essa idéia de Brasil, sem fronteiras, daquela época hippie, que tinha o negócio de paz e amor e as pessoas eram o que eram, mas não botavam aquele chapéu. O Rio de Janeiro é um lugar de uma generosidade visual e de lugares bonitos que não ficava forçando uma barra do "carioca". Carioca era qualquer pessoa que chegasse e começasse a viver aqui. Isso sempre me fascinou muito. Eu achei Minas Gerais aqui no Jardim Botânico. Quando eu vou a Minas Gerais, todo mundo diz que eu falo com a levada de carioca. Eu não percebo. Acho que continuo falando feito mineiro.

PM - É uma mistura...

NA - É. Eu gosto dessa misturada. Eu sempre gostei. Mesmo porque isso dá uma certa discussão paralela. Tira um pouco a atenção da coisa que o Villa-Lobos falava da "alma brasileira". Você vê que o Villa-Lobos, apesar de ele ter nascido e morado aqui (no RJ), viveu no Brasil inteiro. Ele fez até um processo contrário. Estou falando com você e observando isso: ele saía daqui e ia para o Amazonas. Trazia a alma da inspiração dele, do que ele colhia, desenvolvia... De uma certa forma, foi até criticado. O Tom também. Não tem nada melhor que influência. É sinal de que você está aprendendo alguma coisa com alguém. Você não pode é copiar. Você sabe que eu acho isso uma grande matéria em todos os sentidos. Não é só na música, não. Na própria vida, coisa de manter a característica.

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