Ney Matogrosso interpreta can es da poca de ouro no Brasil

Por S rgio Foga a

      A palavra artista assume uma adequa o completa quando se lembra o nome de Ney Matogrosso. O int rprete tem como marca mais evidente um grande jogo de cintura interpretativo e um refinado gosto para a escolha de repert rio. Sua m sica, na maioria das vezes, vai muito al m dos ouvidos. Mesmo que a alma se alimente de can o, seus shows costumam ainda trazer elementos c nicos surpreendentes e um grande showman: o pr prio Ney.

      N o ser diferente agora, com a estr ia de seu novo espet culo. "Batuque" apresenta o repert rio do seu elogiad ssimo CD de mesmo nome. S o sambas, choros e marchinhas que abarcam os anos de 1914 a 1947, per odo que inclui a chamada poca de ouro do r dio brasileiro. Entre as m sicas est o Urubu malandro, de Louro e Jo o de Barro, O que que a baiana tem?, de Dorival Caymmi, e O mundo n o se acabou, de Assis Valente. A escolha do repert rio contou com a ajuda dos pesquisadores da m sica brasileira Fausto Nilo, Jairo Severiano, Paulinho Albuquerque e Zuza Homem de Mello. A grande motiva o para Ney gravar e cantar m sicas desse per odo, segundo ele pr prio, foi o car ter ing nuo das can es, presente at nas letras mais maliciosas.

      No repert rio est o algumas m sicas que Carmen Miranda cantava, e isso importante para entender a g nese do trabalho. Em meados de 2000, o grupo de choro N em Pingo D gua convidou Ney Matogrosso para participar de um show no Sesc Pomp ia, em S o Paulo. Surgiu ent o a id ia de incluir can es famosas com Carmen Miranda para a voz de Ney. Todos gostaram tanto do resultado que, logo em seguida, Ney j estava em est dio gravando quatro can es que seriam as primeiras do novo CD, que tamb m est o no show. S o elas Bambole , de Andr Filho (1932), Adeus Batucada, de Synval Silva (1935), Bambo de Bambu, de Almirante e Valdo de Abreu (1925), e Tico-Tico no Fub , de Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros (1917).

      Ney assina a dire o geral do show, a ilumina o, a cenografia, al m do figurino em parceria com Ocimar Versolato. A banda conta com o viol o de Rog rio Souza, do N em Pingo D gua, que tamb m assina a dire o musical, Bol o, na bateria, Zero e Z Trambique da Vila, na percuss o, Jorge lder, no baixo, Marcello Gon alves, no viol o de sete cordas, Ronaldo do Bandolim, no bandolim, Z Nogueira, no sax soprano e Dirceu, clarinete, flauta e sax.

      Veja a seguir a entrevista que Ney Matogrosso concedeu P gina da M sica.

 

PM - Como foi a escolha de repert rio para esse trabalho?

NM - Inicialmente pensei em fazer um repert rio com can es que Carmen Miranda interpretava. Eu j estava voltado para essa poca. Quando comecei a prestar aten o, percebi que tinha muitas outras coisas que eu gostaria de cantar e que n o eram da Carmen. Ent o, abri o repert rio. Em vez de ficar restrito a Carmen Miranda, fiquei voltado para a poca mesmo.

PM - Voc percebe diferen a na "levada" ou na concep o das m sicas dessa poca, comparando com as m sicas mais contempor neas?

NM - Uma coisa que eu noto em termos musicais a presen a efetiva do choro, do universo do choro, que n o temos mais.

PM - Voc quer dizer que pouca gente tem se utilizado desse ritmo?

NM - Acho mesmo que ningu m mais faz. S se faz choro instrumental, e assim mesmo restrito a lugares espec ficos de choro. Quando na verdade o choro fazia parte do universo da m sica cantada, inclusive.

PM - Voc deve trazer essas can es na mem ria da sua inf ncia. Voc acha que elas te influenciaram musicalmente?

NM - S o a minha mem ria mesmo. Na verdade, quando eu comecei a fazer esse levantamento do repert rio vi que eu conhecia tudo. Do disco todo s n o conhecia Teu Retrato, de Nelson Gon alves e Benjamim Baptista.

PM - Ser que para esse tipo de trabalho a gente pode usar a palavra resgate da m sica brasileira ou voc tem uma outra vis o disso?

NM - Eu n o fiz com inten o de resgate, porque eu acho que resgatar usado para alguma coisa que est perdida e essas m sicas n o est o perdidas. Elas est o esquecidas, mas n o perdidas. um manancial inesgot vel maravilhoso que est a disposi o de quem queira.

PM - Qual a sua expectativa em rela o ao show? Voc s v o excursionar?

NM Depois da estr ia no Rio de Janeiro, n s vamos para o Sul, incluindo Punta del Este, no Uruguai, e depois para S o Paulo. Tem tamb m viagem para Portugal marcada, um monte de coisa.

PM - Voc tem interesse em gravar m sicas em espanhol?

NM - No disco j tem uma.

PM - Voc acha legal gravar em espanhol, lembrando at que a gente tem proximidade com a l ngua latina?

NM - Inclusive nessa poca a que se refere o disco, a m sica em espanhol estava muito presente no Brasil. Assim como a m sica francesa e italiana. N o era s m sica americana.

PM - Nessa poca, no Brasil, a influ ncia europ ia era muito maior que a americana, n o?

NM - Muito mais. Ouvia-se muito m sica portuguesa, argentina, francesa, italiana. Era muito mais abrangente o universo da m sica. A Am rica (do Norte) n o tinha posto a pata ainda em cima de n s.

PM - Voc acha que depois dessa "pata" da Am rica, a m sica brasileira, pelo menos a que a m dia mais propaga, ficou de um modo geral mais pop?

NM - N o, n o acho que seja por a . Acho que o pop surgiria inevitavelmente, se chegaria a isso. Mas acho que a Am rica, num determinado momento, sufocou a express o nacional e maci amente colocou a express o norte-americana no Brasil. Mas isso n o foi s aqui, foi no mundo inteiro. Foi uma poca em que a m sica americana predominou, que o cinema norte-americano predominou. Mas, ao mesmo tempo, n s tamb m t nhamos acesso ao cinema de outros pa ses. Mas foi um momento em que ela usou subterf gios de "amizade" e outros mecanismos para impor o consumo do que era criado l , para ganhar dinheiro. Um lance de mercado mesmo.

PM - A sua gera o tem uma caracter stica em comum que a jovialidade. Al m da sua evidente jovialidade, com quase 60 anos, podemos lembrar de Gilberto Gil, Tom Z e Caetano Veloso, por exemplo. Qual o seu ponto de vista sobre isso?

NM - Acho que uma maneira de encarar a vida, olhar para o mundo. Na verdade, claro que meu corpo est ficando velho, mas tenho minha aten o voltada para o mundo. Acho que a gente come a a envelhecer quando passa a achar que o que a gente viveu era melhor que agora e a voc estaciona e vira um lago pl cido. Eu n o estacionei e nem virei um lago pl cido. Eu ainda estou prestando aten o ao mundo. Mesmo que eu discorde dele, eu continuo atento a ele. Engra ado, eu j havia pensado nisso porque todos que voc citou nasceram perto da guerra. Eu, s vezes, fico me perguntando se tem alguma influ ncia esse fato. Deve haver, n o sei em que sentido, mas deve haver.

 

Ney Matogrosso "Batuque"

1, 2 ( s 22h30) e 3 de junho ( s 20h30)

ATL Hall

Av. Ayrton Senna, 3.000, Barra da Tijuca

Tel. (21) 421-1331

R$ 25,00 a R$ 65,00