CD's Junho 2001

Guinga – "Cine Baronesa"

Salve, salve! Só saudando mesmo para começar a falar de um CD como este. Um gênio da espécie musical lançou seu quinto trabalho e vem muito bem acompanhado. "Cine Baronesa", do compositor e instrumentista Guinga, é um desses discos para ter até o resto da vida. São 13 faixas que esbanjam virtuosidade. Sabendo andar em boa companhia, Guinga contou com os arranjos de Gilson Peranzzetta, da grande escola de arranjadores brasileiros, em oito faixas. O disco é aberto com Melodia Branca, do próprio Guinga. A faixa título vem a seguir e traz um belíssimo vocalise de Fátima Guedes. Vô Alfredo, a terceira faixa, é para pular de alegria mesmo, com arranjo de Nailor "Proveta", outro virtuoso. Depois, o registro da primeira parceria de Guinga com Sérgio Natureza, Nem mais um Pio. Yes, Zé Manés, de Guinga e Aldir Blanc, ganha a especialíssima participação de Chico Buarque interpretando a música. Depois de Caiu do Céu, a sexta faixa, a gente imersa num mundo totalmente carioca. Não que o CD todo não respire o Rio de Janeiro, mas esta faixa em especial é o próprio. No Fundo do Rio, em parceria com Nei Lopes, que também faz duo com Guinga cantando, traz o grande Sérgio Cabral (quer mais carioca?) na fala de um pequeno texto que fecha a música. A levada da canção tem ginga e tudo. Estonteante é a próxima canção, um tributo a Tom Jobim, com participação de Ricardo Pontes na flauta. A nona canção é Geraldo no Leme, com um timaço de músicos e arranjo de Proveta. Fox e Trote repete a saudável parceria de Guinga com Nei Lopes e remete às músicas do tempo em que o Cine Baronesa funcionava a todo vapor. A música traz ainda a participação especial do Quarteto Maogani. Como Eu Imaginara mostra a parceria de Guinga com Hemínio Bello de Carvalho, seguida por Orassamba, com Aldir Blanc. Vale a pena prestar atenção no jogo de palavras articulado que traz essa canção. O CD fecha purinho, com Guinga entoando a Melodia Branca só ao violão. Trabalho primoroso de um mestre reconhecido a tempo, como já dissemos. Lançamento Caravelas. Distribuição Sony Music - Tel. 0800-234425 (Por Sérgio Fogaça)

 

Adélia Prado – "O Tom de Adélia Prado"

Já com sua primeira edição (2000) esgotada, chega ao público o relançamento do CD "O Tom de Adélia Prado" (Selo Karmim). O disco traz a delicada intensidade da expressão poética de Adélia Prado na voz da escritora e registra todos os poemas do livro "Oráculos de Maio", em uma apresentação diferenciada. Uma preciosa trilha, assinada pelo músico Mauro Rodrigues, reúne violão (Fernando Araújo), oboé (Carlos Ernest – Kalota), violoncelo (Firmino Cavazza) e flauta (Mauro Rodrigues), desenhando uma paisagem sonora para receber a voz e a interpretação brilhantes de Adélia Prado. Com especial completude, a música permeia os versos de Adélia, que lança sua poesia vibrando mulher, retorcendo fêmea, a descrever o feminino. A produção reafirma a linguagem de qualidade refinada, impressa nos 10 anos de existência do Selo Karmim (MG). Um registro iluminado deste nome maior da poesia brasileira, mulher que transborda em inúmeras outras em seus textos. A evidência do tom coloquial, presente, atravessa o universo feminino para traduzir o ser humano. Uma simplicidade original. Uma grandiosidade ímpar. Lançamento Karmim - (31) 3223-7925 e karmim@uol.com.br. (Por Márcia Francisco, contato: mfrancis@uai.com.br)

 

Jica Y Turcão - "Ord Music - A música ordinária de Jica Y Turcão"

Subversão, irreverência e humor. Com dez anos de carreira como dupla, os músicos Jica Y Turcão não economizam no humor e na musicalidade. Este é o segundo trabalho deles, lançado no final do ano passado. O humor do CD não é levado na base do fino trato. A especialidade da dupla é o escracho mesmo. Mas isso não significa falta de cuidado com a música. Pelo contrário. A parceria sabe utilizar com competência os recursos musicais. São 14 faixas para rir e sonhar, por que não? A subversão citada acima fica por conta do Carro Chefe, segunda faixa. Embora o título sugira uma música de "trabalho" do CD, ela é feita a base de uma marcha... fúnebre, praticamente. Subversão, mesmo, quem vai tocar? Depois eles avançam para uma espécie de trilogia. O tema Ó Minas Gerais é tocado três vezes durante o disco, com os músicos a cada hora se utilizando de recursos musicais diferentes. É divertido. Embora não totalmente, o humor fica um pouco de lado na 4ª faixa, com a música Meu Bem, ritmo definido como galope. E a cavalgada é bem prazerosa, com boa letra. Os tambores anunciam Mama Hue, do folclore de Angola, e lembram como Jica é habilidoso na percussão. Um dos pontos altos do CD é Bolero de Rosicler. Música é feita de boas idéias, não? Pois então, a dupla se aproveita de um despertador (aquele neurótico, de rádio-relógio), que serve como base para uma versão do Bolero de Ravel. A partir daí, o disco começa um passeio pela cidade de São Paulo. Santo Amaro abre o tour, com uma marchinha tipo Lamartine Babo. Depois vem Lapa-Penha, denominado no encarte como samba de feijoada ou pagode de mesa. Cardeal não tem pretensões religiosas. A música sugere um passeio pela Cardeal Arcoverde, uma das mais famosas veias do bairro de Pinheiro, em São Paulo. O folclore mexicano e peruano é lembrado nas faixas que vêm a seguir, Male Betulia e Cholito Pantalón Blanco, respectivamente. É sempre bom lembrar que essa é uma praia onde os músicos se sentem muito a vontade. Os dois tocaram durante 20 anos no Tarancón, grupo que difunde a música latinoamericana. O CD fecha em altíssimo astral com Arco-íris, num ritmo que lembra os alegres charlestons americanos dos anos 20. Para adquirir o CD: jicayturcao@comcultura.com.br ou pelo telefone (11) 578-9915. (Por Sérgio Fogaça)

 

Nilson Chaves – "Gaia"

Nilson Chaves é cantor e compositor que se ouve de alma aberta, disponível. Com este disco "Gaia" – seu oitavo trabalho – as emoções não foram diferentes. Representando as energias que emanam da Terra, o CD traz parcerias de Nilson com os poetas Thiago de Mello, Eliakim Rufino, João Gomes, músicas de Chico César e Luli e Lucina. Um coro formado por, entre outros, Adil Tiscatti, Eudes Fraga, Flávio Venturini, Gracinha Almeida, Marco André e Vital Lima, além do violão de Sebastião Tapajós, acompanha a voz suave deste paraense com 25 anos de carreira e sucesso na Europa. No Brasil, Nilson é rei no Pará. Seu público em outros estados, no entanto, aguarda pela boa vontade e sensibilidade dos programadores musicais para assistir a um espetáculo. O Brasil tem dessas coisas. Enquanto isso, o artista produz. Estão em "Gaia" Monólogo do Índio, Sonata para ir à Lua, Viver feliz (de Luli e Lucina), Templo, Piantã, Raízes expostas e outras 12 músicas. Elas mostram um cantador e violeiro mais percussivo e moderno nas misturas de timbres. "Gaia", nas palavras do poeta maranhense Jamil Damous, é o símbolo da abençoada terra amazônica. Lançamento Outros Brasis – Tel. (21) 526-2441 e www.outrosbrasis.com.br. (Por Evanize Sydow)

 

Trio Amaranto e Marina Machado – "Flávio Henrique por Marina Machado e Amaranto – Aos olhos de Guignard"

A refinada produção "Aos Olhos de Guignard", registra, primorosamente, a arte do compositor Flávio Henrique. Mineiro de Belo Horizonte, Flávio Henrique já espalha sua expressão musical de qualidade para todo o Brasil. Um dos ganhadores do Prêmio Visa 2000 e BDMG Instrumental 2001, o compositor coleciona inúmeras outras reconhecidas premiações. Mas os títulos, que constatam o reconhecimento deste artista, não sobem à cabeça de Flávio, incansável em produções consistentes que fazem dele representante da mais autêntica MPB. Esta arte fervilhante originou, ainda, o Stúdio Via Sonora, fundado por Flávio Henrique, em 1996. "Aos Olhos de Guignard" é uma das recentes produções do Via Sonora. Gravado ao vivo, o disco passeia pelas composições de Flávio por meio de interpretações bem originais. A delicadeza do Trio Amaranto, formado pelas jovens irmãs Lúcia, Marina e Flávia Ferraz, se uniu ao timbre personalíssimo da cantora Marina Machado e originou um desenho sonoro surpreendente. Há que observar os sons sensíveis e apropriados do baterista Esdra Ferreira Neném (MG), presentes no CD. O disco canta a Aleijadinho, Drummond, Milton Nascimento e outras personalidades que descortinaram Minas e sua arte. Presentes, também, parcerias de Flávio Henrique com Murilo Antunes. Ouvidos atentos à música Quadros Modernos, que somou os dons desta parceria (letra) ao talento universal de Toninho Horta (música) - "Só resta sonhar"! Lançamento Via Sonora. www.flaviohenrique.com.br. (Por Márcia Francisco, contato: mfrancis@uai.com.br)

 

Vários intérpretes – "Os Meninos do Rio"

Ponto alto da alegria brasileira, o samba sempre foi e continuará sendo um dos representantes mais importantes da cultura deste País, apesar das intervenções negativas cutucadas pelo mercado. Este CD é maior. Samba puro, feliz, que relata a crônica social e refinada na voz de seus maiores intérpretes. "Os Meninos do Rio" traz um aspecto fundamental: os próprios autores interpretam a sua obra. Desfilam aqui a elegância de Elton Medeiros (Aprendizes de Lucas), Nelson Sargento e Jurandir da Mangueira (Mangueira), Dona Ivone Lara, Aluizio Machado e Campolino (Império Serrrano), Dauro do Salgueiro (Salgueiro), Baianinho (Em Cima da Hora), Luiz Grande e Niltinho Tristeza (Imperatriz Leopoldinense), Monarco e Jair do Cavaquinho (Portela). Um verdadeiro samba da união, outro fato a se festejar nesse projeto. Enquanto outros trabalhos contemplam exposições setorizadas, mostrando a "velha guarda" de uma agremiação específica das escolas de samba do Rio, este CD reúne várias delas. São 12 faixas que apresentam de três a cinco sambas cada. Pérolas como Liberdade, liberdade, na voz de Nelson Sargento, Vou partir, com Jair do Cavaquinho, O sol nascerá, com Elton Medeiros, e Tristeza, interpretada por Niltinho Tristeza, são apenas alguns exemplos. Tem muito mais. Cem anos de liberdade, com Jurandir da Mangueira, Maria Rita, com Luiz Grande, Remando contra a maré, com Dauro do Salgueiro, e Nos combates da vida, com Dona Ivone Lara, são outros sambas que ajudam a somar as quase 30 músicas do disco, sendo. Samba, agoniza mas não morre na voz de Nelson Sargento na última faixa. Este trabalho é mais uma importante contribuição para manter a chama acesa e altiva. Lançamento Caravelas. Distribuição Sony Music - Tel. 0800-234425 (Por Sérgio Fogaça)

 

Vitor Ramil – "Tambong"

Parece que, por enquanto, pouca gente conhece Vitor Ramil. Mas aqui está uma chance. O CD Tambong vem bem definido na estética desse artista sulista que assume muito bem tanto a sua regionalidade como a universalidade da sua música. Neste sexto trabalho, produzido para o mercado internacional, Vitor conta com as participações e verdadeiras parcerias musicais de Egberto Gismonti, Lenine, Chico César, João Barone e Pedro Aznar, que, além de produzir o CD, toca em quase todas as faixas. O título do trabalho nasceu de um sonho de Vitor, que depois ainda justificou a palavra percebendo que incluía várias influências que estavam no disco: tango argentino, candomble uruguaio, milonga, bossa e samba brasileiro. O CD carrega o ouvinte com delicadeza desde a primeira faixa, Não é céu, e vai assim até a terceira, Grama Verde. A quarta faixa é Um dia você vai servir a alguém, sendo o título original Gotta Serve Somebody, de Bob Dylan. Esta é uma versão de Vitor Ramil que retrata muito bem o Brasil. Aqui, Lenine o acompanha na voz e guitarras españolas. "Você pode ser um rei no país do futebol / pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol / você pode ser um mago, vender livros de montão / pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão / mas um dia vai servir a alguém, é." Impressionante, não? A participação de Egberto vem logo a seguir em Foi no mês que vem. Ramil musicou um poema de Paulo Leminski: O velho Leon e Natália em Coyoacán. Um belo clima concretista compõe a música. Em A ilusão da casa, duas participações: Chico César fazendo um vocalise e João Barone na bateria. O CD traz ainda uma regravação, Estrela, estrela, composta por Vitor Ramil aos 18 anos. Gal Costa e Caetano Veloso já gravaram essa música. Depois de trocar o eixo Rio-São Paulo pelo extremo sul do Brasil, Vitor Ramil afastou-se do calor do mercado, mas mantém o que lhe sustenta mais valor, a personalidade, artigo que anda em falta no mercadão. Pedidos do CD pela internet: www.vitorramil.com.br. (Por Sérgio Fogaça)