"Estamos fazendo a grande música"

Por Sérgio Fogaça

   Wandi Doratiotto, mais conhecido como apresentador do programa Bem Brasil, da TV Cultura, e integrante do grupo paulistano Premê, é o próprio "gente boa". Durante nosso papo ao ar livre dentro da TV Cultura, a conversa foi constantemente interrompida pelos colegas de trabalho para cumprimentá-lo, ou mesmo trocar algumas palavras. Sinal puro e límpido da atenção irrestrita que dispensa indistintamente a todas as pessoas. Boa praça e alto-astral, sua personalidade festiva vem de berço. Sua família tem espírito musical. O pai tocava violão, a mãe cantava, os tios formaram dupla sertaneja e o filho já desponta com um certo sucesso com apenas 22 anos. É dele, em parceria com outro compositor, a música Beijo Roubado, gravada pelo grupo de forró Rastapé e que vem sendo muito executada pelo Brasil afora. O Brasil da música e de Bem Brasil, programa que Wandi apresenta desde o início, em 1991. Por lá já passaram cerca de 500 artistas. Só sendo um deles para segurar tanta responsabilidade e prazer pelo ofício. Com o Bem Brasil, Wandi mostra que as tardes de domingo tem jeito, sim. Basta sintonizar na emissora e abrir o peito para o que tem de melhor no cenário da música brasileira. Wandi é paulistano do tempo em que podia pescar nos lagos que existiam onde é hoje a TV Cultura. Ouvia música desde pequeno, mas também se aventurou pelos céus pilotando avião. Tanto entusiasmo que parece mesmo um menino que não para de sonhar e se prepara para mais um vôo: o primeiro CD solo. Antes disso, uma carreira de raro sucesso embalada, principalmente, pelo grupo Premê, uma das principais referências do que se acostumou chamar de vanguarda paulistana. Foram seis discos na bagagem, muitos shows e acúmulo de sabedoria e prazer. Esse é o raio-x de um brasileiro típico: bem humorado, gentil, trabalhador e musical. Acompanhe a entrevista que o instrumentista, compositor e ator concedeu para a seção "Perfil" da Página da Música.

Página da Música – Onde você nasceu?

Wandi Doratiotto – Nasci em São Paulo, embora a maioria ache que eu seja do interior. Mas a minha família, como muitas da capital, também tem um pé no interior. Meu pai de Atibaia, onde tem bastante Doratiotto, e minha mãe de Bragança Paulista. Pertinho daqui, mas quase Minas Gerais, para quem não conhece. Então, embora tenha nascido aqui, amo essa "levada" do interior.

PM – De que bairro você é?

WD – Bairro da Lapa. É bom que se frise que é a Lapa de São Paulo, já que ainda muita gente associa o bairro Lapa com o Rio de Janeiro. Isso é muito forte.

PM – Em que ano você nasceu, para a gente situar?

WD – Nasci em 1953.

PM – E quando você percebeu que a música foi aparecendo na sua vida?

WD – Olha, falando ainda do bairro, a Lapa, por volta dos anos 50 e início dos 60, em cada esquina havia gente tocando. Tinha uma orquestra que chamava-se Misto Quente, cujo regente é sogro da minha irmã. Tinha um cara de nome Odair, que lembro sempre, era um gênio do violão. Mas infelizmente logo se desvirtuou, sabe, família de classe média baixa e muito futurista para a época, dentro de um bairro operário. Eu mesmo sou oriundo de família classe média baixa. Meu pai trabalhava na prefeitura de São Paulo. Estudei em escola pública sempre. Aquela coisa típica brasileira mesmo. Hoje a Lapa está totalmente desfigurada do que foi.

PM – Seus pais gostavam de música?

WD – Meu pai era músico diletante. Tocava cavaquinho e violão. Um ouvido incrível, um homem culto, não no sentido de cultura formal. Mas realmente um cara com uma cabeça super bacana, um sujeito engraçado e de muita perspicácia. Tanto que ele viu que eu tinha algum dom para a música de fato.

PM – A família era grande?

WD – Nosso núcleo não. Eu tenho só uma irmã. Um pouco atípico para a minha época, quando se costumava ter família grande. Mas é grande no geral. Meu avô por parte de mãe se casou duas vezes e tinha dez filhos. Pelo lado de pai, também um monte de irmãos, a maioria com um monte de filhos. Aquela coisa normal. Mas meu pai, um barato, ele me via tocando violão e sentia meu interesse profundo por música. E qualquer família da época falaria o que todos os pais costumam falar para o filho, ou seja, para não seguir esse caminho e procurar algum trabalho mais "sério". Mas meu pai, não. Percebendo meu interesse pela música, falava: "Não trabalhe em meio fechado, em empresa, vai firme com a música que a gente segura a onda". Ele me incentivou para estudar e fui adiante. Fui procurar pessoas que eu conhecia e fui indo até fazer faculdade de música. O que eu sempre repito é como a inteligência de um pai que não tenha a cultura formal pode ajudar. Foi o incentivo mais importante, coisa que já fiz com meu filho, embora a gente hoje tenha mais recursos e ele seja realmente um profissional, ainda com 22 anos. Ele é um músico absolutamente bom. Arranja, toca, já estudou um pouco fora. Eu não consigo hoje fazer nada sem perguntar ou mostrar para ele. Ele é produtor do CD que estou gravando (o primeiro trabalho solo de Wandi). Mas não é produtor porque é filho; é porque ele sabe mesmo, como todos os jovens da idade dele que estudaram. Quer dizer, ele e vários outros que são do ramo mesmo. Começa e quando vai ver já estão dominando o piano, do piano passam para o acordeon. Ele toca bandolim, violão tenor, guitarra, piano, como os outros companheiros dele. Só pelo fato de a gente dar uma base, eles vão embora. Eu também tive a sorte de ter tido essa base, mas de uma maneira bem diferente.

PM – E você foi escutando o quê ali na sua casa, com seu pai? O que ele tocava? Tinha coisas próprias?

WD – Tinha, eram coisas instrumentais no violão e cantava músicas de Tonico e Tinoco que ele gostava. Músicas dos grandes sertanejos, a música caipira. Lembro de Torres e Florêncio, que ainda ouço como pesquisa, tenho interesse. Tonico e Tinoco também. Tanto que fiz uma peça com o Carlos Alberto Sofredine, que morreu ano passado – grande e querido Sofredine do teatro –, e chamava-se "A Estrambótica Aventura da Música Caipira". Ele fez a direção de cena e eu fiz a direção musical. Estavam o Pena Branca e Xavantinho, meu querido Laert Sarrumor, do Língua de Trapo, o Passoca, umas meninas cantoras etc. A pessoa que ia assistir ficava espantada de ver aquela verdadeira música caipira. Mas nós fazíamos também um passeio pela música sertaneja. Enfim, voltando um pouco, eu escutava muito o violão em casa, que era o instrumento de fascínio do meu pai. Muito Dilermando Reis, um músico de Guaratinguetá. Ele tinha umas coisas para a época que eram absurdas de bonitas, para quem ama o som do violão, como eu, desde menino. Tanto que meu pai ia passear comigo quando eu tinha uns cinco anos, pelas ruas da Lapa, e íamos devagarinho porque eu parava em tudo que é esquina que tinha música. Tinha o Waldir, por exemplo, um pintor de faixas comerciais que tocava um cavaquinho sensacional.

PM – Em que lugar exatamente você morava?

WD – Na rua Félix Guilhem, próximo da Siemens. A Siemens, que hoje é um poder, era uma firma incipiente, mas já tinha uns 4 mil funcionários. Por que estou contando isso? Porque na saída da empresa, às 17h30, o Waldir ficava com o cavaquinho na porta, tocando, enquanto toda aquela gente passava. Brasileirinho, Doce de côco, tocava ipsis litteris como o Waldir Azevedo.

PM – Porque ele tocava ali na calçada?

WD – Porque tinha a platéia natural. Quatro mil pessoas passavam por ali, e ele tinha aquela platéia. Muita gente parava, eu parava direto. Ao lado dele tinha o Odair, que era um gênio absoluto. Uma espécie de Yamandú (Costa) hoje. Então, foi uma felicidade ter nascido na Lapa. Geneticamente eu tinha a Lapa no sangue e teve a Lapa para dar essa plataforma fantástica.

PM – Sempre teve muito choro na Lapa?

WD – Muito, sempre, mas não era só o choro, era o choro também. Tinha orquestra, que fazia um jazz, uma pré-bossa nova.

PM – Onde você escutava a orquestra?

WD – Escutava no Clube União Brasil da Lapa.

PM – Esse clube existe ainda?

WD – Cara, se existir eu gostaria de ser um diretor do clube. Tinha um cara chamado Carmera, que, aliás, está vivo, às vezes vou na casa da minha mãe e ela diz que o Camera perguntou por mim, coisa e tal. O Carmera era quem organizava os times de futebol da Lapa. Aqui, onde nós estamos falando (jardim da TV Cultura, na rua Cenno Sbrighi, bairro da Água Branca), tinha quatro lagoas do Instituto Brasileiro do Café e eu vinha pescar com meu pai nessas lagoas. Vi surgir a primeira pedra desta TV, eu morava aqui, na Lapa de baixo, muito perto. E por aqui também tinha 11 campos de futebol, exatamente 11, uma trave atrás da outra. Por isso é interessante nós estarmos aqui, enquanto conto essa história. O rio Tietê enchia e alagava os campos etc. Enfim, a Lapa foi pródiga em coisas legais para um jovem, uma criança. Foi uma infância maravilhosa. Tudo isso somado, vem esse prazer pela música. Então, quando cresci, pensei: "Não posso fazer outra coisa". Embora eu tenha tirado brevê, voado, sempre gostei disso.

PM – Essa idéia da música já veio desde a adolescência?

WD – Não necessariamente, neste caso. Eu ia bem de matemática e de física, fiz o científico. Acho que foi o último ano de científico...

PM – Essa paixão por avião vem desde quando?

WD – Desde pequeno gostava de avião. Depois comecei a ler Saint-Exupéry, não só "Pequeno Príncipe", mas também "Terra dos Homens", que era uma coisa tão densa sobre avião. Eu tinha um fascínio por aviação. Tirei um brevê porque trabalhava no comércio. Essa coisa exuberante de aviação, a juventude é uma coisa muito ampla, de horizontes enormes. Já a música requereria uma definição e muita concentração. Como os músicos eruditos, por exemplo, crianças que viram spalla de orquestra, com o violino, começam com quatro ou cinco anos. Nós que tínhamos uma criação solta, os pais só olhavam de longe para ver como ia indo, a gente tinha uma possibilidade ampla demais. Então só fui focar depois, quando trabalhava nos lugares, pegava os instrumentos e fazia festinha cantando. Eu sempre levava o violão no avião. Tocava nas praças em frente aos hotéis.

PM – Você teve uma carreira profissional de piloto?

WD – Eu voei uns quatro meses para um fazendeiro. Tinha uns 18 anos. Aprendi aqui no Campo de Marte e em Bragança (Paulista), terra de meu avô. Porque lá eram mais baratas as horas de vôo.

PM – Você começou a tocar em casa?

WD – Isso, com cinco anos, mais ou menos, já tocava uns acordes. E a primeira música que eu ensinei para meu filho foi a que eu aprendi também no cavaquinho. Ele tinha mais ou menos a mesma idade também, uns cinco ou seis anos. Eu fiquei muito emocionado em perceber que ele tinha ritmo e principalmente que ele esperava o tempo da música. Porque é normal uma criança fazer a melodia seqüente sem esperar o tempo. Então, ele tinha o tempo intuído. Fiquei muito animado, investi com toda a força e ele realmente é músico. Mais cedo que eu ele definiu que era músico. Voltando à história de ser piloto: Eu tirei o brevê porque trabalhei para o Issac Varger, um comerciante, e ele percebeu que eu tinha um jeito diferente da moçada da época, não pensava só em futebol. Eu trabalhava meio período no comércio, para defender uma graninha, batia máquina super rápido, acho até que por causa do instrumento. O Issac amava aviação e isso veio ao encontro de meu gosto infantil. Ele me incentivou a tirar um brevê. Disse que se eu tirasse ele compraria um avião. Naquele tempo quem tinha comércio na Lapa ganhava muita grana. Os comerciantes, em geral, naquela época eram ricos. De modo que ele gostava de mim e vice-versa – os judeus são muito ligados em cultura, eles vêem pessoas interessadas e se identificam. Eu gosto de lembrar porque foi uma pessoa que me incentivou bastante também. Puxa, foi muito bom. Fui um garoto de sorte, vinha de família sem muitos recursos e tive um avião para voar. Eu era muito atento com as pessoas, muito entusiasmado, como sou até hoje, então as pessoas ficavam entusiasmadas também comigo. Eu freqüentava a biblioteca da Lapa e devorava livros desde menino. E a maioria não lia. Era só jogar futebol e trabalhar desde cedo.

PM – Já tinha um perfil diferente.

WD – Não sei porque já que eu tinha perfil para ser um garoto "normal". Eu não me sinto nada melhor do que ninguém, mas foi bacana ter sido diferente porque me deu chance de não seguir uma carreira menos prazerosa, mais livre, como eu segui.

PM – Você já tocava e também compunha?

WD – Tocava. A primeira música que eu fiz foi baseada no Juca Chaves. Eu tinha uns 14 anos.

PM – Quer dizer, você já fez a primeira música inspirada num cara que unia música e humor. Você sempre foi bem-humorado?

WD – A minha família sempre foi de gente bem-humorada. Minha mãe cantava com as irmãs, tinha uma dupla sertaneja. Cantava em terça, afinada pra caramba. Cascatinha e Inhana e outros. Outra grande influência foi dois tios de Bragança Paulista. Os tios Carlito, Carlos Espina, que está vivo, e o tio Neno, já falecido. Eles tinham uma dupla profissional...

PM – De música caipira?

WD – Isso. Eles cantavam em rádio. Cantavam muito bem, me levavam em todo o lugar. O Carlito tinha um violão que puxava de baixo da cama, e eu ficava sensibilizado, ainda menino de ver ele tocar aquelas coisas simples, mas eu amava. Eu tenho um fascínio por música que não acredito. Não conseguia passar em algum lugar que tivesse música e não parar. Uma coisa atávica. Ou seja, esses tios foram grande influência. Depois o vovô, pai deles. Era fazendeiro de torrefação de café, um cara com muitas possibilidades, mas absolutamente inculto. E ele tinha medo. Para quem não se lembra, quem mexesse com música nos anos 30, 40 ou 50 era marginal. Eu não peguei essa fase. A gente já tinha aquela coisa do pop star. Então meu avô não deixava. Mas eles pulavam a janela na madrugada e saíam para cantar, ir para as rádios. Foi uma coisa terrível para eles. Não podiam seguir o ofício e não seguiram mesmo. Um virou advogado e outro contador, aquelas coisas da época, e pararam. Minha avó, segunda mulher do vovô, tocava harmônica. Um bisavô tocava violino. Era uma coisa inominável para uma família da época. E ele era uma pessoa absolutamente futurista. Casou-se com uma negra. Então era uma família curiosa, para dizer o mínimo. Até hoje muito engraçada. Meu pai era uma pessoa absolutamente engraçada. Sentava num bar e ficava reparando nas coisas. Altamente observador. Ele não pisou um minuto em escola e nunca entrou num cinema. Morreu com 78 anos, há oito anos. Eu falo isso para a gente perceber as coisas. Meu filho, já por ser filho de músico, tem uma base imensa, e não faço nada muito especial para ele, mas já vai trabalhar agora na TV Cultura para um programa novo, como músico. Está como músico profissional com a banda dele, a Banguela Banguela. Eu falo a toda hora porque é orgânica nossa ligação. E ele me estimulou a fazer meu CD solo.

PM – E você teve um aprendizado mais formal de música?

WD – Sim, fiz aula com o Carlos Iafelichi, um violonista. Ele fazia uma música meio semi-erudita. Daí comecei num aprendizado mais formal com ele, aprendendo a ler partitura, já que eu era autodidata demais. Com uns 20 anos eu tive um acidente com o avião, que não aconteceu nada comigo, mas me fez pensar. Caí no Mato Grosso. Uma pista curta que eu atravessei e caí num açude. Saí inteirinho e fiquei lá, acompanhando o processo de arrumar o avião e pensando na vida. Eu pensava se tinha em mim essa coisa precisa, cartesiana para ser um piloto. Embora eu seja muito concentrado quando preciso. Mas de qualquer forma era uma profissão muito séria e perigosa, de certa forma. Aí eu comecei a me afastar um pouquinho. Não por medo, porque depois voei de novo, em duplo comando. Até hoje vou a aeroclubes. Mas comecei a me afastar e a pensar mais em música. Com 22 anos comecei a fazer um trabalho sobre Noel Rosa, um dos maiores compositores do século e pouca gente se lembra.

PM – Era um show?

WD – Era de pesquisa, eu queria juntar umas pessoas e fazer um show. Procurei o José Ramos Tinhorão...

PM – Você já tinha essas referências, então?

WD – Eu amava a música antiga, estudava muito. Embora gostasse muito de vanguarda também e sons diferentes. Mas tem essa ligação estreita com a música dos anos 10.

PM – A gente está falando em começo dos anos 70?

WD – Isso mesmo. Época também em que descobri mais Paulinho da Viola, que adoro, gosto muito. Acho que o Paulinho concentra muito bem essa idéia de raça negra, que é a melhor contribuição que o Brasil pode ter. A cultura via África filtrada. Seriamos uma cultura parda sem a presença negra. Tudo passa por eles. Mas com essa coisa de pensar em Noel Rosa fui procurar gente que sabia mais. Fui procurar o Plínio Marcos, por exemplo. Ele falou "mete as caras aí, mete as caras", mas só ficou nisso. Depois o José Ramos Tinhorão, para quem não sabe um pesquisador importante, embora eu discorde violentamente das conclusões dele, mas é um pesquisador importante. Escreveu grandes livros. Sentei lá com ele, eu e minha namorada, que hoje é minha mulher. Ele, primeiro, queria saber se eu era classe média ou era operário, toda essa coisa fragmentada. Ele dava nota de popularidade, muito engraçado. Mas ele achou legal que tinham jovens interessados em Noel. Eu fiquei animado porque ele demonstrou interesse na gente. E ele falou que o Sérgio Cabral ia passar na casa dele. Passou o Sérgio Cabral lá e nem chegamos a conversar, já tínhamos saído. O Tinhorão falou um monte de coisa, sugeriu alguns livros, nada muito concreto. Aí nossa turminha saiu dali, eu, minha namorada e mais algumas meninas, mas não rolou nada efetivamente. Depois, por uns dias me afastei um pouco e até viajei. Quando voltei para São Paulo e abri o jornal, estava lá: "Você Conhece Noel Rosa?" Era um trabalho do Sérgio Cabral. Quer dizer, eles já deviam ter isso na cabeça, mas acho que fizeram porque perceberam que jovens estavam interessados. E fizeram até uma peça na ocasião, com a presença deles. Mas nem lembro direito se o Tinhorão assinou alguma coisa ali.

PM – Mas o que foi essa montagem?

WD – Era um show.

PM – Foi no Rio?

WD – Não, em São Paulo. Mas eu me senti ainda inseguro para montar um negócio desses. Fiquei com aquilo na cabeça. Sempre interessado em pesquisa. Inclusive, há um ano, exatamente no Boteco do Cabral, fiz com ele sobre Assis Valente. Eu e o (Jards) Macalé, que adoro também. O Macalé está um pouco sumido, mas é um gênio total. Ele foi o diretor artístico da Tropicália. Se isolou em Londres com a turma e era ele o primeiro a falar de como eram as coisas. Aí comecei a circular mais pelo Embu, que hoje é Embu das artes. Tinha o Solano Trindade, que é um poeta negro maravilhoso, a Raquel Cambinda, uma artista plástica que hoje faz folhinhas da Pirelli. Ela tinha um grupo de danças populares e folclóricas, Caiapós, coisas primitivas de dança que eu fazia com a rapaziada de lá. E isso tudo me ajudou muito a respeito de rítmica. Fazia samba etc.

PM – Ali a ficha da música já tinha caído mesmo e seu pai dando uma força?

WD – Sempre. Isso é que era curioso também. Imagine, eu usava tamanco, bolsa, e ninguém, nem meu pai nem minha mãe falava nada. Eu era o único daquele jeito na Lapa. Mas eu era muito querido, não rolava preconceito, que podia ter rolado. Era uma coisa diferente para época. Hoje qualquer pai de família coloca brinco. A chamada moral esticou. Não tem mais aquela coisa antiga.

PM – Você tinha alguma atuação ou pensava sobre política?

WD – Sim, antes da aviação comecei a me engajar politicamente. Lá pelos 17 anos. Virei comunista bravo, de entrar em entidades estudantis, reuniões em igrejas, lugares clandestinos. Virei um cara extremamente preocupado com o Brasil, com as coisas do mundo. Comecei a ler coisas mais pesadas, Marx etc. Já um lado mais Geraldo Vandré. Mas, modéstia à parte, eu tinha um certo jeito para composição. Digo isso porque essa coisa da política, consciência, lendo mais jornal, lendo mais livro ampliou os horizontes para conseguir fazer letra. Mas falando disso, me lembrei de um fato recente. Desculpe eu fazer um salto. Fui agora há pouco para Salvador e entrei numa festa que eu ia fazer para a Brastemp, junto com o outro meu amigo que faz as propagandas comigo, e logo que entro vem o Juca Chaves em minha direção. Vem falando sobre o programa, o Bem Brasil, e tal. E eu fiquei emocionado. Eu já tinha me encontrado com ele no Faustão, quando era ainda Perdidos na Noite, na rede Bandeirantes, mas não tinha dado para conversar. Mas o fato é que desta vez eu pude dizer a ele que ele era minha maior influência, que a primeira música que tinha feito foi inspirada nele, como já falamos. Ele achou surpreendente e eu falei que ia gravar a música para enviar para ele. Acho interessante ter sofrido influência do Juca Chaves. E ele é um homem curioso, fazia coisas engraçadas.

PM – Ele tinha harmonias legais também, além das letras bem-humoradas.

WD – Isso mesmo. Isso que sempre me atraiu. Não era um humor sem um embasamento harmônico. Alvarenga e Ranchinho, que eu levei para o Premê, é uma verdadeira dupla caipira genial. No tempo de Getúlio Vargas, eles saíam presos pelo DIP, que era um regime forte, uma política nervosa que tinha, um órgão de imprensa e política. Até que a Alzira Vargas, filha do Getúlio, foi assistí-los, num circo, e amou, falou para o pai ir assistir. Getúlio Vargas foi assistir e deu uma ordem expressa para nunca mais prenderem aquela dupla. Isso é história. Tal a genialidade, beleza e a fina ironia deles. Então é uma história maravilhosa. Hoje a gente vê, às vezes, uma dupla sertaneja, quem nunca viu e diz: "Ah, como eles cantam bonitinho". Mas precisa conhecer o que foi a verdadeira música sertaneja no Brasil. Não estou dizendo que não se faça música boa hoje, sou amigo de Chitãozinho e Chororó, gosto de alguns outros sons, não gosto de outros. Mas digo assim: não é porque é moderno e meio "breganejo", também tem algumas coisas lindas. Mas é que se misturou demais o balaio.

PM – Voltando um pouco para a sua carreira, agora você já estava se profissionalizando, certo?

WD – Depois das danças do Embu, ou simultâneas a elas, eu comecei a compor e tocar com a Turma do Ferreira. Tinha o Borba, o Silvio Modesto. Era curioso porque que era gente popular, do povo, muito mais do que a minha família.

PM – Quem era a turma do Ferreira?

WD – Esse Borba, um cantor magnífico. Ele está por aí. De vez em quando a gente se fala. Ele fez o Bem Brasil até com o time dele. Um cantor magnífico. Eles são paulistanos e fazem samba. O Silvio Modesto tem umas dez músicas gravadas pela Beth Carvalho, sambas antológicos.

PM – Samba paulista mesmo.

WD – Isso, com Geraldo Filme, era essa turma. Por sorte gravitei no meio deles. Um branquinho gravitando naquela sabedoria do samba paulista negro, que era a raiz mais interessante. Eu amo o rock’n roll, ou outras coisas diferentes, mas meu coração, no fundo, é de sambista. De modo que foi uma escola magnífica. Compus com o Borba, uns dois ou três sambas, mas cantávamos muito por aí. Em botecão. Chegava sem grana, sem nada, sentava e tocava, era cervejada, salaminho, queijo. Tinha também a Gija, a Mara, fazíamos um trio. Um barato, duas mocinhas, branquinhas, bonitas, fora do ambiente de bar. Viajávamos por aí, praias, outros estados, tudo cantando. Mas não era num teatro. Parava num boteco, numa praça, sei lá, parava, tocava e ganhava algum. Aí a música foi aquecendo, fui compondo muita coisa. Mas não lembro mais de nenhuma quase. Daí eu estava preparando um trabalho meu para fazer no teatro, com minhas músicas, essa leva de músicas que eu havia composto, com meus 25 anos, e comecei a procurar músicos. Fui numa orquestra, eu queria um violoncelo, e encontrei o Biafra, que assim era chamado no Premê...

PM – O Mário Manga...

WD – Mário Manga hoje. Fui eu que dei o apelido de Manga para ele, porque era uma tia dele que cortava seu cabelo e eu falava que ele parecia uma manga chupada. Ficou um apelido bom, por sinal, eu acho. Mas a gente se deu muito bem, começamos a conversar e ele me disse que eles estavam começando um conjunto na ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP). O grupo ainda não existia. Mas aí fui fazendo minhas coisas junto com o Manga, ensaiando. Ele como músico, fazendo coisas minhas, mas logo começamos juntos no Premê. Fiquei fascinado com o grupo.

PM – Quem era o grupo na época?

WD – Mário Manga, Claus Petersen, Marcelo Galbetti, Azael Rodrigues e logo comecei junto também, porque na primeira formação lá na ECA eu não estava. Manga e eu ficamos irmãos, eu admirava ele como ele me admirava, como é até hoje. Comecei a compor e começamos a usar de Jorge Veiga, Macalé etc. A gente fazia muito choro e também fizemos samba de breque, de Moreira da Silva e Jorge Veiga, como já disse. Mas com arranjos absurdos. Era uma avacalhação (risos).

PM – Um pouco aquela história já de poder misturar, experimentar e ter bastante informação, com jovens da ECA, você com outra vivência, e final dos anos 70. Muita liberdade.

WD – Claro, já podia tudo. Já vinha de Jovem Guarda, Tropicália, Mutantes...

PM – Walter Franco...

WD – Smetak na Bahia. Uma liberdade total. Tinha choro, samba. A gente tinha condições de pegar partitura e tínhamos como tirar harmonia com facilidade. Os puristas tinham ódio, porque a gente brincava. A gente começou a fazer shows que enchiam de gente, era muito legal. O Lira Paulistana pintando e catalisando essas idéias diferentes. Isso lá por 1978.

PM – Teve um festival em 1979, da TV Cultura, do qual vocês participaram, além do Arrigo Barnabé.

WD – O Arrigo pegou primeiro lugar e nós pegamos, com o Brigando na Lua, em segundo lugar. Daí deu uma bela ajuda para a gente começar a gravar o disco e nós já começamos a colocar guitarra. Na música Fim de Semana: "era um domingão/tinha muito sol/meu avô na frente/minha avó atrás...". E gravamos o disco de 80 para 81, quando lançamos. O Premê foi a melhor coisa do universo para a minha vida. Nesse tempo, em 1977, eu entrei no Mozarteum, para fazer escola superior de música. E ficava de ouvinte na ECA, vendo uma coisa e outra. Eu só não era oficializado na ECA, mas também, depende, o Arrigo era da ECA, mas largou no meio, também aparecia de vez em quando. Os demais do Premê levaram meio a sério, se formaram. Eu me formei no Mozarteum. E lá fiz Educação Artística e Música, já que eu queria me resguardar, para qualquer coisa, ser professor. E fui. Em 1979, paralelo ao Premê, eu entrei na rede estadual de ensino. E o Premê crescendo, fazendo festivais, indo para o Rio de Janeiro. Entramos na RGE da ocasião, Continental. Foi se criando um projeto lindo com o Premê. O primeiro disco do grupo foi um acontecimento notável, em termos relativos. Domingão (Fim de Semana) tocou no Brasil inteiro. Fomos a Porto Alegre e tinha 2 mil pessoas para assistir o show, que era muito para a época. Nós olhávamos e pensávamos: "Mas para quem é esse público?". Sem nenhuma frescura, a gente achava que ia tocar alguém antes de nós. Teve um sujeito, acho que chamava Mauro, da rádio Itapema ou Ipanema, que levou o Domingão numa fita e rodou. Chegamos lá e a música já era famosa. Foi realmente bonito. Antecedemos quase todos os grupos de Brasília. Quando a gente entrou na Odeon, o Renato Russo participou de um disco nosso.

PM – Em qual disco?

WD – Era um disco feito para o programador de rádio. Mas tinham as músicas do CD, que eu não me lembro o nome. Um disco que era para o programador colocar e ir tomar café. Era uma brincadeira. Tinha comerciais que a gente inventou, o Tim Rescala ajudou a elaborar, o Renato Russo participou fazendo um discurso super estranho, moderno pra caramba. O Hebert Vianna ia nos ver no Circo Voador. Dizer isso não é orgulho de ser precursor, não, mas dizer que a gente teve a sorte de pegar um caldo começando, de um pop underground que a gente foi, junto com Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, em São Paulo, logo depois a Blitz, que conseguiu polir as arestas de um jeito de fazer música paulistana, muito truncado, e virou essa banda maravilhosa. Eu amava a Blitz. Com o CD acontecendo um pouco, nós começamos a gravar mais ou menos, de dois em dois anos. Começamos também a fazer o Projeto Pixinguinha, para quem não sabe, foi a melhor coisa que se fez no Brasil nessa praia. Fizemos Piauí, Teresina.

PM – Era um projeto do governo federal?

WD – Era federal.

PM – Em que época, mais ou menos?

WD – 1982 em diante. Fizemos quatro shows. Era um artista consagrado, que não éramos nós, lógico, e um principiante. A gente foi com Ademilde Fonseca, a rainha do chorinho, uma intérprete monumental, fiquei honrado de pisar no palco com ela. Também com Roberto Silva, que a maioria não sabe, mas o João Gilberto fala assim: "Se tem um cantor nesse país, é o Roberto Silva". Ninguém conhece até hoje. Lá conhecemos o Dezinho, que era um senhor, na época, com uns 56 anos, e tocava guitarra. Um cara super engraçado, que, com brincadeiras paralelas em bar, deu nome para o disco "Quase Lindo". Tinha um baixista, que dizia que era filho do Erlon Chaves, só queria as menininhas, e o Dezinho olhava e dizia: "Ele não é quase lindo, olha o jeitão dele" (risos). Quase lindo é o nome do CD. Tudo surgiu assim. Enfim, seres humanos magníficos que gravitavam em volta da gente foram compondo essa idéia que é o Premê. O Projeto Pixinguinha foi muito importante, shows no Lira, nos teatros do Bixiga, no Sesc Pompéia. Foi recorde de público até hoje no Sesc Pompéia. Foram 1.200 pessoas dentro do teatro e mais mil do lado de fora. E fizemos outro show em seguida, sem a mídia saber, sem avisar.

PM – Foi no teatro?

WD – No teatro, aberto dos dois lados.

PM – O Premê foi tendo uma carreira que reverbera até hoje, o grupo afinal ainda existe. Mas como foi aparecendo o ator ou apresentador Wandi?

WD – Como muitos publicitários iam ver nossos shows, e a gente tinha uma brincadeira enquanto trocava de instrumento, passando de uma guitarra para um bandolim, ou para um violoncelo. Eu falava muito nesse tempinho. Geralmente eu falava mais, com esse dom de falar, como você pode perceber. Brincava, contava um caso, fazia alguma coisa bizarra. Um desses publicitários que via a gente foi Fernando Meirelles, da O2, acho que o maior publicitário do Brasil, para o meu gosto. Ele veio falar sobre um comercial, mas eu relevei dizendo que não tinha jeito para ator. Mas não acho que seja ator hoje, eu me viro bem, sou geminiano teimoso, precisei ganhar mais dinheiro, porque estava muito duro. Virei o tambor para um lado e comecei a ganhar dinheiro. Para o meu gosto, até mais do que eu precisava. Mas sempre aquela coisa de classe média, média. Fiz um comercial, fiz outro e comecei a gostar.

PM – Isso quando, mais ou menos?

WD – Por volta de 1985. E fui fazendo vários, fui fazendo pelo interior também. Foi o Fernando Meirelles que me deu essa confiança, com a sabedoria incrível que ele tem. Ele me deixou à vontade.

PM – O da Brastemp é mais recente?

WD – Começou em 1991. Ganhamos prêmio em Cannes.

PM – Você faz direto para eles, desde então?

WD – Sim, eu com o Artur Koll, meu amigo de infância.

PM – Ele trabalhou também no primeiro Rá-Tim-Bum, não foi?

WD – Foi, e também participou no Premê, nos intervalos. Ele e outro ator. Aliás, vamos nós três fazer alguma coisa juntos. Já até nos reunimos. Será um trabalho com música, alguma coisa de teatro, mais para frente falamos com mais detalhes sobre isso.

PM – Você só faz comercial para a Brastemp?

WD – Não, faço para outras coisas, mas não faço para produtos similares, como fogão, geladeira. Acabo de voltar de Florianópolis, onde fiz comercial para cursinho pré-vestibular, por exemplo. Fiz sobre muitas coisas. Já peguei a manha, me dou bem, procuro sempre saber do que se trata para não entrar em roubada. Não tenho feito de bebida, embora adore beber. Nem cigarro, nem coisas para governo. Para política, trabalhei muito para o PT de graça e às vezes ganhando. Hoje, estou meio reticente. Mas enfim, tudo foi indo bem. Com o Premê e a publicidade. O Premê nunca gerou grana, mas sempre foi uma grande vitrine, como poucas. De tudo que fiz na minha vida, o melhor foi o Premê e o programa Bem Brasil. Que começou em 1991 também.

PM – Você fazia show solo também?

WD – Sazonais. Ia para Belém do Pará trabalhar, fazia show, ia para Brasília, a mesma coisa.

PM – Então o Bem Brasil também começou em 1991, quando você passou a fazer os comerciais para a Brastemp?

WD – Isso mesmo. Ele começou aqui onde estamos conversando. Mas de 1991 a 1994 era gravado no anfiteatro da USP, depois fomos para o Sesc Interlagos, que é nosso grande parceiro até hoje. Graças à parceria com o Sesc, estamos hoje no ar. É um programa caro para ser gerado.

PM – E a parceria com o violeiro Paulo Freire?

WD – Meu querido Paulinho é amigo desde os anos 70. A gente vem fazendo uma dupla e tocando até que bastante por aí. Já desde meados dos anos 80.

PM – E como é o trabalho de vocês?

WD – O Paulinho tocava guitarra, depois MPB, viajou para o Urucuia, terra onde o Guimarães Rosa fez sua estética e ética, e ele começou com um caminho mesmo da viola. Ou seja, ele faz um trabalho que tange o universo caipira, mas um caipira futurista, porque ele faz erudito na viola, mistura com histórias do demônio, uma mística em cima das histórias da viola. Mas a nossa dupla é de uma empatia absurda. Ele faz coisas dele, a intersecção passa por Alvarenga e Ranchinho, uma ou duas, eu faço uma parte sozinho, samba ou coisas que eu gravei com o Premê, de minha autoria. Contamos causos etc.

PM – Qual é a base instrumental?

WD – Cavaquinho, violão e viola.

PM – E o seu filho, que você já mencionou, também foi pego pela música?

WD – Ele chama-se Danilo Moraes. Está hoje num grupo de forró chamado Banguela Banguela. Como eles chamam, é forró sudestino. Ele já ouvia Jackson do Pandeiro desde menino, ganhou um festival com música inspirada no Jackson.

PM – A banda dele tem CD?

WD – Tem um CD pelo KVA, junto com outras duas bandas e estão fazendo outro. E ele tem uma música, junto com o Teté, que até saiu da banda, que chama-se Beijo Roubado: Pega ladrão/pega ladrão/devolve um beijo, que um só beijo é sensação. O grupo Rastapé gravou e vendeu quase um milhão de cópias. O Danilo, que ainda é garoto, ganhou mais direito autoral do que eu ganhei em toda a minha vida. Eu tenho cem músicas gravadas e ele tem um sucesso, mas é um estouro.

PM – Ele foi o maior incentivador para você fazer seu CD solo?

WD – Ele e o Swami Jr, que é um grande músico, acho que o cara mais gentil e generoso do Brasil que eu conheço. Ele é o maior entusiasta de pessoas que têm algum dom. O Swami deu aula para o Danilo e já começou com Águas de Março, do Jobim. Sensacional. Que gosto musical! Então ambos sempre me incentivaram.

PM – Em que fase você está desse disco?

WD – Eu já tenho, basicamente, umas nove músicas prontas. Vou gravar 15. Espero terminar agora em julho ou agosto, para prensar e tentar lançá-lo em setembro, por aí.

PM – Tem um gênero mais específico?

WD – Ele tem um lado pop, maneiro, uma série de sambas, rápidos, lentos. Uma homenagem que eu presto ao Dostoievsky, que eu amo, um dos maiores escritores de todos os tempos. Fiz um samba para o Dostoievsky, que ficou preso na Sibéria, quando ele se insurgiu contra o czar, no século XIX. Então ele ficou preso na Sibéria e toda obra ele gerou preso e a menos 40º de frio. Eu tenho fascínio pela história dele, foi submetido a uma falsa execução. E tantas obras fantásticas como "Crime e Castigo". E falo tudo isso no sambinha. Então acho que fui o primeiro no mundo a fazer um samba para um russo (risos).

PM – Tem faixas instrumentais e todas as composições são de sua autoria?

WD – Acho que vai ter só uma instrumental e as outras com letra. Tem uma música, que fiz com o Eduardo Gudin, que é um sambista que sempre respeitei. Ele ganhou festivais nos anos 70, um grande compositor. Nos anos 80, ele disse que tinha uma música e que gostaria que eu colocasse letra. Eu caprichei porque gostava tanto daquela turma... Era João Bosco e Gudin que mais faziam shows naquela época. Eu sonhava também e hoje estou convidando João Bosco para fazer parte do meu disco. Ele vai cantar uma música, espero que dê tudo certo. Uma música que chama-se Chapéu. Lendo um poema de Manoel de Barros eu me inspirei, embora não tenha nada do poema. Foi uma inspiração paralela.

PM – Qual é a música do Gudin?

WD – Sujeito discreto. Ele gravou num CD dele, acho que chamado Fogo Calmo das Velas. Mas o importante é que eu queria achar um caminho esteticamente razoável para fazer meu CD. Eu não queria fazer. Vejo tanto CD e pensava para quê mais um. Mas também sem CD você não consegue trabalhar.

PM – Você achou esse caminho?

WD – Achei. Achei para mim um caminho que eu acredito, uma estética que tem um fio condutor, que tem uma cara. E um orgulho profundo de trabalhar com grandes músicos. Eu convidei o Proveta, que já gravou Gigante Brasil, o Mané Silveira, o Swami em várias, o Danilo, além de produtor...

PM – O Danilo é o produtor do CD?

WD - Está produzindo junto comigo, mas é ele que fica na técnica. Ele canta, toca, arranjamos juntos, nós temos umas 20 músicas juntos. Nesse CD não, porque ele está gravando o dele também e no dele vai ter uma série de parcerias nossas. Alguns sambas na linha de Djavan, só como referência, um pouco mais andantes, mais modernos, mais pertinentes com a idade também. E uns pops undergrouds que a gente faz também. Mas no meu CD também tem o Bocato e o Sizão Machado, por quem tenho uma admiração extrema. O Swami também fala: "Aquilo é baixista!" Edmilson Capelupi, Guello. Então, estou cercado de músicos de tamanho quilate. Eu tenho impressão que vai ficar muito legal para o que eu quero. Eu tenho uma certeza: estou com um disco muito honesto e com músicos de alto nível. Uma coisa bem profissional.

PM – Você também trabalhou em cinema?

WD – Fiz acho que cinco filmes. O primeiro foi o "Sábado", do Ugo Giorgetti. E agora fiz uma participação em outro dele que está sendo lançado, "O Príncipe". Também o "Boleiros", do mesmo diretor. Assim como o Fernando Meirelles na publicidade, o Ugo me deu tanta confiança, que eu fiz um papel no Sábado que foi muito bom para mim, e ficou legal no filme. Mas você sabe que o cinema é a manifestação que eu mais admiro, no sentido de estar diante de uma obra. Porque ele contém tudo, todas as facetas do ser humano, a música, a psicologia, o teatro, tudo está ali.

PM – E como você está vendo a música brasileira hoje, você que acompanha tão de perto, por vocação própria e apresentando há tanto tempo um programa importante dessa área.

WD – Já passaram 500 artistas pelo Bem Brasil. Então eu tive a sorte de estar à frente de um programa que acabou mostrando um leque, um panorama geral da situação popular, pop, do que surgiu. Daniela Mercury fez em 1992 e ela fala, nos jornais etc, que o primeiro programa que a apresentou foi o Bem Brasil. É lógico que seria a mesma Daniela sem o Bem Brasil, mas ela fez e fala. Então nós vimos nascer muita gente. Sempre se fará música grandiosa no Brasil. Hoje tem uma moçada vindo aí, que eu não saberia citar nomes, são muitos. Temos uma juventude promissora e incipiente. Uma beleza! Está se fazendo no Brasil inteiro uma grande música hoje. Pena que a maioria das emissoras não mostre. A cena, como se fala, do Recife, é muito boa. Depois de Chico Science, antes, durante, agora. É que acho que estamos numa fase de dificuldade com as gravadoras. Que eram megalômanas e hoje estão com uma dificuldade desgraçada de segurar produtos "alternativos". O jogo das gravadoras foi apertado. Estavam ganhando muito, não estão mais. O CD pirata está aí, meio que não por acaso. Tudo que acontece tem uma ramificação imensa na economia mundial e na globalização. Tudo vai mudando rápido e eles estão tentando se organizar. O disco pirata pode ser terrível, mas é importante que tenha acontecido. Se o cara pode ter um disco por R$ 5,00 e ele não tem grana, ele vai comprar. Por que que agora a indústria está podendo vender um Chico Buarque e outros por R$ 9,00? Por que que não podia antes? Mas isso tudo requer uma reestruturação medonha. E a empresa grande é lenta. Não é como o pirata que é mais ágil. Esses selos menores que sustentam a cultura estão um pouco atrapalhados. Mas isso passa. Acho que estamos fazendo a grande música. Ela continua sendo feita no Brasil, e não vai parar nunca.