"O instrumento sou eu mesmo"

Por Evanize Sydow  

    A seção "Outras Palavras" traz esta semana um dos gênios da música mundial: Hermeto Pascoal, que está em temporada no Supremo Musical, em São Paulo, até o dia 21 de julho. No palco, ele e seus cada vez mais numerosos instrumentos. A novidade desta vez são os sons diferenciados que o artista está tirando de uma mesa colocada próxima ao seu piano. Isso sem contar os outros mais de 20 objetos que viram música em suas mãos. "Está dando um resultado bonito. Mas tem também os bonecos, a chaleira com água, sem água, o copo com água", ele conta. No repertório estão Bebê, São Jorge, Chorinho para Ele, Viva Jackson do Pandeiro, Fauna Universal, Capelinha & Lembranças, dedicada a Miles Davis e várias outras surpresas.

    Surgida como mais uma forma de integrar leitores e artistas, a nova seção é feita de perguntas enviadas pelos assinantes da Página da Música. Acompanhe abaixo a entrevista (ao lado de cada pergunta está o nome do leitor que a enviou).

Página da Música - Como estão os shows aqui em São Paulo? O que você está trazendo para esses espetáculos?

Hermeto Pascoal - Esses shows estão sendo maravilhosos. A receptividade está sendo maravilhosa e tem um público dividido. O público que vai em teatros e aquele público que vai, entra no restaurante de repente, no restaurante tem um teatro lá embaixo..., mas o clima é de boate, como se fosse de teatro. Eu trabalhei muitos anos à noite e estava com saudade de tocar com o pessoal que me conhecia tocando de uma maneira. A resposta foi maravilhosa. Um pouco daquele público que estava acostumado comigo e aquelas pessoas que só me conheciam quando eu tocava para dançar. Então, está sendo lindo, tem gente que até chora. Domingo agora tinha muita gente chorando no auditório e no camarim, falando comigo e chorando mesmo. Aí eu brincava e dizia:" Escuta, você está chorando porque está triste, não gostou do som?" As pessoas chorando de alegria e emoção.

Página da Música - No palco você está sozinho?

HP - Eu e os instrumentos.

Página da Música - Quantos instrumentos você está tocando em São Paulo?

HP - É muito difícil porque tudo é instrumento para mim. Até o chão para mim é instrumento, quer dizer, é difícil contar, mas basicamente o instrumento central é o piano. Eu sempre toco mais piano, mas eu tenho as coisas de percussão. Agora eu bolei um negócio muito bonito: estou tocando na mesa do bar. É como se eu estivesse na minha casa esperando a comida. Em casa eu não paro, batendo na mesa. Enche a paciência! E aí eu conto a história para o público...  tem garfo, tem faca, tem os pratos, bandejas. Eu ponho tudo em cima da mesa, mas eu faço um som com uma mesa só. Bato em cima da mesa e imagino a bateria com todas as suas peças, imagino os instrumentos de percussão. Está dando um resultado bonito. Tem os bonecos, a chaleira com água, sem água, o copo com água. Eu devo ter lá uns 20 instrumentos.

Página da Música - Qual o repertório que você está tocando lá?

HP - Eu penso em tocar, vou pensando até chegar no palco; quando chega no palco, a cabeça vira e eu mudo tudo. É difícil dizer, mas tem umas músicas que eu toco, por exemplo, Boiada, que é uma música do meu disco e já está ficando bastante conhecida, tem Bebê, que também é uma música que as pessoas me pedem muito para tocar. Este show é completamente diferente do outro que eu faço com o grupo. Nesse, estou mais diretamente com o público, que participa também, canta. É diferente do outro. O outro com o grupo é mais o Hermeto também como instrumentista, mas mais como arranjador... É outra coisa. É a versatilidade do Hermeto. Eles me chamam de Papai Noel... é tanta coisa que me chamam e eu fico feliz demais.

Página da Música - Qual foi o último objeto de onde você tirou som?

HP - O último eu não lembro porque quando misturo, considero como se fosse cada dia uma história. O último é uma paleta de tocar em cavaquinho, de tocar em guitarra, tocar em violão. Eu pego uma paleta e toco.... Então, a cada dia, a cada hora eu crio uma coisa, um instrumento. Olha, eu toquei no show lá até com o pano da mesa. Me deu na cabeça um negócio... e eu me arrisco mesmo. Se não sair som, digo: "Não saiu nada". Mas nunca acontece. Com o pano da mesa, eu cheguei no microfone e fiz um som danado.... Sempre tem novidade. O último é aquele da paleta, mas têm várias outras coisas que vêm e outras que virão. Eu não faço muita coisa premeditada. Às vezes, as pessoas dão o instrumento, instrumentos ótimos, mas são fabricados, são instrumentos prontos e eu não gosto das coisas prontas porque eu já toco flauta, saxofone, esses instrumentos convencionais. Prefiro, por exemplo, chegar na sua casa e você tem uma panela, você pega a panela e quer fazer um som com esta panela. Aí, você pega uma pasta comum de botar livro e digo: "Você quer fazer um som com esta pasta?" Pego essa pasta e faço som, sem bolar, sem nada e vai acontecendo na hora. Faço um som sozinho, sem instrumento nenhum. O instrumento sou eu mesmo. Estou preparado para tudo. Você quer fazer um som dentro da água ou quer fazer um som com areia... é uma infinidade, tanta coisa que não dá para contar.

Rita Abreu - Com quantos anos você começou a tocar?

HP - Foi no dia 22 de junho de 1936. Eu estou com 66 anos. Eu acho que o primeiro som que eu fiz foi na hora em que eu estava nascendo. A minha mãe Maria, minha parteira, me pegou em casa. Nasci em casa, estava chovendo muito à noite e eu me lembro. As pessoas se admiram quando eu digo isso. Eu me lembro tudinho. Eu contava para minha mãe, a minha mãe com 82 anos (faleceu com 82 anos). Quando eu contava a história do meu nascimento, minha mãe chorava. Eu dizia: "Mãe, eu tô vendo agora, eu estou falando como estou falando agora, estou vendo a imagem quando eu estava nascendo...." Ficou a imagem daquilo na minha mente. Eu me lembro que a mãe Maria bebia muito e fumava muito e ela, na hora, numa bacia grande com água morna, botou um pouco de vinagre, uma pitada de sal, pegou o fumo de rolo, colocou dentro da água, mexeu. Na hora em que nasci, ela me lavou com aquela água e com a cara cheia. Ela dominava o corpo dela, era uma pessoa santa. Ela botou a mão dentro da água como se fosse uma concha e deu para eu beber e disse assim: "Isso é para lhe dar sorte". Eu me lembro disso. Então, considero que o meu primeiro som foi com um trio: minha mãe, a mãe Maria, minha parteira, e eu.

    Os meus primeiros instrumentos foram de 7 para 8 anos, no máximo. Porque nessa época não tinha luz, não tinha nada. O meu pai me levava para a roça. Como eu era albino e não podia ficar muito no sol, ele me deixava em cima de um carro de boi e levava os bois para dar comida e cuidar da roça. Eu ficava embaixo da árvore. O que eu fazia? Acostumava os passarinhos a escutarem o meu som e eu o som deles. Se fosse em um lugar onde eu tivesse uma repercussão, isso ia ser um fenômeno. Fui insistindo com os passarinhos porque no primeiro dia eles ficaram assustados, mas eu pedia para o papai para me levar todo dia. Eles iam acostumando. Eu ia acostumando com os bois, vacas, cavalos, todo tipo de animal da minha região já me conhecia pelo som que eu fazia com eles. Mas não tinha divulgação nenhuma, na época, não tinha como divulgar. Até os meus 14 anos de idade morei lá, fiz a minha formação musical. Minha cabeça é feita no mato até os 14 anos, depois fui para Recife, conheci a metrópole e hoje a minha música é universal; minha, não, porque a música não é de ninguém. É universal porque eu conheço praticamente quase o mundo todo, toco a maioria dos instrumentos de música, praticamente todos os estilos. Eu chamo a música que toco de universal.

Alexandre Birkett - Você tem contato com entidades do mundo musical espiritual? Você já psicografou partituras?

HP - Não. Eu não psicografo partituras. Eu, de repente, sou vidente, mas sem premeditar. Quando quero, não consigo. Sou um músico totalmente intuitivo. Sou receptor, sou um aparelho. Recebo as instituições todas, mas não premedito nada. Eu não quero saber das coisas, eu quero sentir as coisas. Por isso, toco qualquer tipo de instrumento. Com certeza, devo ter a energia de muitos que já passaram na Terra, só que eu sou o Hermeto. Eu, aqui na Terra, a minha referência é Hermeto e o meu espírito veio para conduzir esse corpo que é o Hermeto. Através disso, eu respeito todos os meus irmãos espirituais e meus irmãos da Terra.

Milton Kanashiro - Viajei a trabalho e perdi o seu show no Teatro da Paz, em Belém, juntamente com Sivuca, Sebastião Tapajós e outros grandes músicos. Me disseram: perdeste uma noite inesquecível, foram várias horas de show... Uma amiga me disse que era de arrepiar de emoção o tempo todo pela beleza e sonoridade de vocês. Ao fazer tantos shows, é possível recordar de momentos específicos para vocês, músicos, ao longo de uma temporada, ou de diferentes platéias?

HP - A minha mente é como uma nascente, ela não guarda. É por isso que eu crio muito. Eu ia buscar água na fonte, minha terra, isso para responder a pergunta dele: às vezes era uma fila, 10, 20 pessoas... eu não queria ser o primeiro porque não era egoísta. Então, já criancinha, não queria ser o primeiro porque tinha pessoas com mais idade, mas eu precisava chegar mais cedo em casa. Era uma criança que vivia no mato. Pegava um pote, uma jarra e levava. Minha mãe não queria que eu fizesse nada disso, mas eu queria fazer. Era uma criança que tinha oito anos e já tinha a cabeça de hoje, a áurea de hoje. Ficava lá depois que saía todo mundo. Olha só que maravilha! Eu ia olhar, porque eu não enxergo bem, eu botava a cabeça dentro do poço da nascente e a água estava barrenta, era limpa... Todo mundo já tinha tirado a água.... Sabe o que eu fazia? Todo mundo ficava ali olhando e vendo como é bonita a natureza, vendo que a natureza ia limpando a própria água e depois começava a jorrar porque todo mundo já tinha tirado muita água. Então, na minha cabeça, a água é música. Quando eu faço uma composição, quando eu faço show, qualquer coisa que acontece comigo, não que eu me esqueça. Ela tem o lugar dela. Como qualquer coisa que a gente faz aqui na Terra, a gente não vê, mas sabemos que não perdemos. Se quiser fazer coisa ruim achando que vai para o esquecimento, não vai, não. Está tudo guardadinho. É muito difícil eu me lembrar dos shows porque são tão lindos... Eu não admiro.  Nunca fiz um show de que não gostasse. Se estiver acontecendo alguma coisa errada no meio do show, eu mudo a estratégia, eu mudo na hora e o show fica melhor. Na Sexta-feira Santa eu fui fazer no Bar do Tom, no Rio de Janeiro. Estava lá o piano, o pior piano que existe no mundo estava lá para eu tocar. Sabe o que eu fiz? Em respeito ao público, eu entrei no piano, fiquei dentro do piano, deitei dentro dele, coloquei os pés para fora no teclado e toquei com os pés em protesto, mas um protesto que não deixou o show cair. O público levantou para aplaudir. Aí, eu fiz um show tocando com os pés no piano, batendo no piano, fazendo do piano uma bateria. Fazendo do piano aquele ritmo lindo que eles tocam na rua. Pode acreditar: o seu amigo Hermeto é uma nascente, a mente dele está sempre pedindo espaço para outra música. Quero te dar uma notícia, você que não assistiu ao show em Belém, estou no dia 22 aí de novo com Sebastião Tapajós e Gilson Peranzzetta, porque foi sucesso tão grande que eu fui novamente convidado. Está marcado o concerto para o dia 22. Você que perdeu o show, não perca. E apareça lá no camarim para tomar um cafezinho comigo, Sebastião e Gilson Peranzzetta.

Nelson Marino - Você acha que o forró eletrônico, do Nordeste, faz parte de um movimento de contra-cultura?

HP - Eu acho que as gravadoras, principalmente as grandes, sempre querem modismo e os jovens embarcam. Meu irmão, é mais onda deles esse negócio de forró eletrônico. Eles criam um negócio que tem qualquer coisa de eletrônico, que tem alguma coisa que fale em rock, de pagode para poder dizer que está na moda. E as gravadoras fazem assim. O cara toca o forró de um jeito e o outro vai tocar igual. Por exemplo, eu toco forró, Dominguinhos, Sivuca, Toninho Ferragutti, Camarão, Oswaldinho, Renato Borghetti, que é gaúcho, todos nós tocamos forró diferente um dos outros, mas sem perder a essência porque quando se fala em forró pé-de-serra eles querem falar como se o forró pé-de-serra fosse uma coisa antiga. "Pé-de-serra é música de pobre, antiga". O forró pé-de-serra é o verdadeiro. Agora, cada um toca o forró pé-de-serra como sabe tocar. Eu mesmo toco forró em todos os meus discos, sempre toquei. Agora, a gente tem que evoluir. A alma não evolui? Por que não a música? Isso é mais tentar deturpar para as pessoas que querem escutar uma boa música... é o próprio cara do nordeste que está entrando num barco furado que é isso aí. Mas não ligue pra isso, não. Peça Dominguinhos. Dominguinhos é, no momento, o pai do forró. É moderno e não perde a essência.

 

Hermeto Pascoal

Até 21/7 (sextas, sábados e domingos), às 22h

Supremo Musical - Rua Oscar Freire, 1.000

Tel (11) 3062-0950

R$ 50,00