Ant nio N brega estr ia "Lun rio Perp tuo" em SP

Por Evanize Sydow  

    A se o "Outras Palavras" traz esta semana o multiartista pernambucano Ant nio N brega, que fica, at o dia 21 de julho, em temporada com seu novo espet culo "Lun rio Perp tuo" no Sesc Pomp ia, em S o Paulo. Surgida como mais uma forma de intergrar leitores e artistas, a nova se o feita de perguntas enviadas pelos assinantes da P gina da M sica

    Comemorando 30 anos de carreira, o cantor-brincante, que iniciou seu trabalho como violinista e rabequeiro do Quinteto Armorial, estar acompanhado por sua banda, formada por Antonio Bombarda (acorde o), Daniel Allain (sopros), Eug nia N brega (sopros), Mario Gaiotto (percuss o),Gabriel Almeida (percuss o), Zezinho Pitoco (sopros e percuss o) e Edmilson Capeluppi (cordas). Depois da capital paulista, Ant nio N brega e seu "Lun rio Perp tuo" seguem para o Rio de Janeiro, onde se apresenta dias 9, 10 e 11, no Teatro da UERJ. Acompanhe a entrevista (ao lado de cada pergunta est o nome do leitor que a enviou).

 

P gina da M sica - Voc est estreando o espet culo "Lun rio Perp tuo". Conta um pouquinho os detalhes sobre essa produ o e a temporada no Sesc Pomp ia.

Ant nio N brega - Bem, o Lun rio Perp tuo um nome que tem um certo temperamento po tico, n o sei se as pessoas sabem, mas o Lun rio Perp tuo o nome dado a um livrinho e durante muito tempo esteve em voga no sert o nordestino. Ele uma esp cie de almanaque, um almanaque um pouco mais gordo e nele h informa es gerais sobre procedimentos de como o povo deve fazer em rela o, por exemplo, a agricultura, a fase da lua e a melhor poca para o plantio. Em outro momento h receitas medicinais contra determinados males e tipos de envenenamento. um livro feito na Espanha, trazido para o portugu s no s culo XVIII e durante muito tempo permaneceu no Brasil. O meu espet culo n o retrata este livro; ele retrata poeticamente. No meu espet culo eu canto, toco m sica instrumental para rabeca, choros, frevos. Canto can es referenciadas numa po tica popular e como esses elementos fazem parte de diversos coletivos populares, a esse universo coletivo popular, eu nomeei tamb m de "Lun rio Perp tuo". o meu "Lun rio Perp tuo" particular. um espet culo em que, diferente do anterior, "O Marco do Meio-Dia", estou s no palco na parte da representa o, mas com a banda que sempre me acompanha. Enfim, o car ter espetacular... na verdade um show e eu, al m de tocar e cantar, tamb m dan o, represento, brinco. Estou completando 30 anos de carreira, limitados a partir do come o da minha vida profissional, que se deu com o Quinteto Armonial.

Aur lio Prieto e Guga Barros - Qual a import ncia de Ariano Suassuna em sua carreira art stica? Como a figura e a obra dele influenciaram o seu trabalho?

Ant nio N brega - Tem uma import ncia muito grande porque, primeiro, ele me convidou para integrar o Quinteto Armonial e a partir desse encontro minha carreira teve um redirecionamento absolutamente radical. Depois, ele uma pessoa, um intelectual, um escritor, um homem por quem eu tenho um respeito muito grande, por aquilo que ele diz e faz. uma pessoa que pensa em nosso pa s de uma maneira que mais me toca e, por conseguinte, tamb m eu procuro at , minha maneira, colocar em pr tica muitas coisas que ele diz. Em certos momentos, Ariano tem sido um parceiro meu; quando musico poemas, ele comp e e os ensino nos espet culos que fa o.

L lia Rosa - A sua orquestra sinf nica brasileira de percuss o caracteriza-se por instrumentos e ritmos provenientes da nossa cultura popular e folclore ditos "nacionais" ou "brasileiros"?

Ant nio N brega - Na verdade, n o uma orquestra sinf nica. uma orquestra jovem de percuss o, formada principalmente por instrumentos dessa natureza, mas n o s . S o instrumentos realmente que fazem parte do instrument rio brasileiro, v rios instrumentos de origem ind gena, ib rica e africana. A esses instrumentos a gente liga tamb m a dan a e o canto. N o sei se voc teve a oportunidade de assistir ao Zabumbau. Se n o, poder v -lo daqui a duas semanas no Teatro Brincante. Eles voltam para mais dois finais de semana de apresenta es.

Jo o Sobania - O selo Brincante exclusivo para a produ o de Ant niio N brega ou h outros artistas? Como est a distribui o do selo ap s o fechamento da Eldorado Distribuidora?

Ant nio N brega - O selo Brincante nasceu pela necessidade que eu tinha de veicular meus trabalhos musicais. Ele atualmente tem sido exclusivamente dedicado a editar os meus trabalhos. Pode ser que um dia tenha outros artistas para criar uma fam lia. Quem sabe? Atualmente, o disco (a partir deste pr ximo) estar sendo distribu do pela Trama. Os outros tamb m passar o a ser distribu dos pela Trama. Eu mudei para Trama, embora guarde da Eldorado um per odo de bom relacionamento. Foi com a Eldorado que os meus discos come aram a ser veiculados pelo Brasil, de maneira que eu tenho uma boa lembran a pelo respeito com que eles tiveram com o meu trabalho. Estou esperan oso que a Trama agora continue a fazer aquilo que a Eldorado fazia.

Ver nica Cec lia Mart nez - Sou mexicana e escuto muita m sica brasileira. interessante fazer uma rela o entre sua m sica nordestina e a m sica do norte do meu pa s. Voc conhece m sica mexicana do norte? Acha que sua m sica tem uma aproxima o com a m sica mexicana?

Ant nio N brega - Eu acho que deve ter porque a m sica latino-americana tem pontos de encontro. Tem uma influ ncia negra que permeia toda a nossa nacionalidade cultural, bem como uma certa identidade ib rica a nos juntar. Infelizmente, n o conhe o a m sica do norte do M xico. Estive uma vez por l , mas eram tantas apresenta es que uma das coisas que eu mais lamento n o ter tido tempo para conhecer melhor a cultura mexicana, pela qual tenho tanta admira o e um respeito muito grande. Mas est o nos meus planos um dia voltar ainda para o M xico para conhecer melhor aquela cultura que eu tenho um respeito muito grande, n o s a cultura da m sica, mas dos seus literatos. Eu, por exemplo, tenho uma admira o muito grande por um de seus escritores mais renomados, Carlos Fuentes. Enfim, o M xico um pa s que eu respeito muito.

Nelson Marino - Voc , com certeza, teve fortes influ ncias do forr p -de-serra de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, entre outros. Qual a sua opini o sobre o movimento que aqui em S o Paulo virou moda, o forr universit rio, e por que o forr p -de-serra n o t o divulgado quanto o forr eletr nico em Pernambuco e no resto do Nordeste? O que voc acha do forr eletr nico?

Ant nio N brega - Eu sou mais chegado ao forr que voc chama p -de-serra. A verdade que a gente tem de distinguir forr p -de-serra e forr eletr nico. Existe a boa e a m m sica e existe forr p -de-serra de m qualidade tamb m. Pensando em forr eletr nico, quase que integralmente ruim porque n o traz aquelas caracter sticas, aquele vigor, aquela vitalidade que normalmente esse g nero de m sica tem. O nosso forr , que a gente chama de forr p -de-serra, tem aqueles tocadores de acordeon, tem rabequeiro, uma m sica bastante bem constru da, s vezes dif cil de ser tocada, instrumentalmente falando, enquanto que a m sica do forr universit rio tornou-se pobre, m sica com letras bobas, melodicamente, harmonicamente tamb m, s vezes artificiais at e seguindo um pouco um certo modelismo que a ind stria cria para vender mais f cil. Ent o, nesse sentido, acho que a m sica que guarda aquelas caracter sticas mais fortes da sua forma o tem um vigor muito maior. Pena a gente n o poder usufruir disso no nosso dia-a-dia.

M vinha Queiroga - Voc acredita que um dia o maracatu ser divulgado e conhecido nacionalmente, fazendo o povo dan ar em cada esquina como outros ritmos?

Ant nio N brega - Se ele vai ser, eu n o tenho essa capacidade para dizer, mas ele tem condi es de s -lo. um ritmo muito importante e bonito e j temos contribui es bastante significativas neste sentido, que s o algumas m sicas de Alceu Valen a, outras minhas mesmo, o Capiba comp s n o sei quantos maracatus; infelizmente, a m sica dele n o chega a S o Paulo. Mas se o maracatu tem o passaporte para ser um g nero musical, uma forma musical visada pelos compositores nacionais de forma mais constante, tem, tem, sim.

Annelise Godoy - Gostaria de propor quatro quest es que se complementam e que acredito serem importantes para a compreens o de grande parte do setor art stico-cultural dos processos passados por "entidades" renomadas como a sua: 1. Como tem sido a sua trajet ria junto aos investidores culturais do pa s, inclusive Sescs, ICIs etc? 2. Como sua estrutura tem sido mantida diretamente e/ou atrav s de apoios e patroc nios? 3. Sua avalia o quanto aos pontos positivos e negativos destes relacionamentos? 4. Sees contatos s o feitos pessoalmente por voc ou se tem uma equipe especializada trabalhando para o grupo?

Ant nio N brega - Eu tenho tido a sorte de ter ao meu lado, desde 1996, a Philips do Brasil. N o posso dizer que ela mantenedora oficial do meu trabalho, mas ela divide patroc nio com outros artistas, de maneira que, de qualquer forma, ela assume para com meu trabalho um papel muito importante. Desde o espet culo "Segundas Hist rias" a Philips vem quase que regularmente produzindo os espet culos e at ajudando nas apresenta es de lan amento. Uma outra entidade tamb m o Sesc, porque tanto no "Lun rio" como no "O Marco do Meio-Dia" eles colaboraram no lan amento, nos dando uma de suas sedes, o Sesc Pomp ia, colaborando com o projeto. E, vez por outra, tamb m recebo apoio de outros patrocinadores, mas esses dois t m sido ass duos.

    Eu s tenho que reconhecer que, no meu caso, eles t m colaborado bastante. Espero que essa colabora o ainda continue porque sem ela tais espet culos que eu tenho feito seriam imposs veis de rodar no Brasil, mesmo porque eu n o sou um m sico, um artista que tenha uma apari o muito intensa na m dia e faz com que eu tenha de estar viajando, me apresentando para me fazer conhecer.

    No caso da Philips, foi o seu presidente, Marcos Magalh es, que uma vez esteve no Brincante, se encantou, quis conversar comigo e a surgiu essa colabora o. Nos eventuais patroc nios que estamos tendo eu sempre tenho produtores associados, al m do produtor regular, que tamb m procuram algumas entidades, institui es para buscar apoio. Em alguns casos tamb m a gente recebe solicita o. Fizemos uma excurs o por dez cidades promovida pela Ultrag s e fomos por ela consultados para ver se o nosso trabalho coincidia com os objetivos deles.

Renato Cardoso - Como multiartista nordestino, como voc v a rela o de seu trabalho, de fundo regional, dentro da linguagem universal que a m sica e o que pensa da forma como Raulzito Rock Seixas pensava e agia dentro desse tema?

Ant nio N brega - Olha, o que diz respeito a minha m sica, todo compositor, todo artista quer que sua obra seja conhecida o mais amplamente poss vel. Se a dan a que eu realizo aqui trouxer interesse para um chin s, chileno ou europeu, vou me dar por muito satisfeito, muito bem pago. claro que a gente quer ser o mais amplo poss vel. N o posso medir o que eu fa o porque se eu for medir, ser sempre com os olhos trai oeiros da boa vontade. Agora, quanto ao que ele associa a Raul Seixas, eu, infelizmente, conheci pouco da obra de Raul Seixas, para n o dizer que n o conheci quase nada. N o tenho condi es de opinar para n o ser leviano.

Dery Nascimento - Cantar folias, loa, frevos e ciranda um grande marco para a cultura nacional. O que voc pensa em fazer com crian as e jovens que pouco contato t m com esse tipo de m sica? 

Ant nio N brega - Olha, o que eu fa o isso, da maneira como venho habitualmente procedendo. Sou um artista de compor, escrever m sica, de me apresentar e tentar divulgar o que fa o. O que eu tenho dentro de mim fazer isso da melhor maneira poss vel. N o tenho muito tempo para fazer um trabalho extensivo. Por exemplo, no campo did tico, aquilo que eu posso fazer para melhorar culturalmente as pessoas atrav s da minha arte. Nisso eu tenho procurado ser o mais fiel poss vel. por onde eu posso caminhar.

 

Ant nio N brega - "Lun rio Perp tuo"

de 11 a 21 de julho (quinta a s bado, s 21h; domingo, s 18h)

Sesc Pomp ia - Rua Cl lia, 93 - Tel (11) 3871-7700

R$ 10,00 a R$ 20,00