Kléber Albuquerque: revolução e ternura
"Procuro um aspecto mais encantado da palavra. Quero que a minha música seja revolucionária porque estou falando de amor"
Por Sérgio Fogaça
Essas frases já dão uma vaga idéia do que podemos esperar de Kléber Albuquerque. Compositor, cantor e poeta, faz da música um instrumento para revolucionar sentimentos. Ele tem dois CDs lançados pela gravadora Dabliú. O primeiro, "17.777.700", número de seu RG, teve a música Barriga de fora como a 16ª mais pedida do ano de 1997 na rádio Musical FM, de São Paulo. O segundo, que consolida o título de revelação como um dos melhores poetas da nova geração de compositores contemporâneos, chama-se "Para a Inveja dos Tristes" (veja resenha na seção de CDs). No ano passado, Kléber foi um dos finalistas do Festival da Música Brasileira, promovido pela Rede Globo, com a música Xi, de Pirituba a Santo André, dele em parceria com Rafael Altério. Mas um Festival como esse é pouco para um artista que esbanja talento e consistência em sua obra. Mais do que qualquer evento efêmero, as músicas deste compositor estão fadadas a ter seu lugar na história da boa música brasileira. A seguir, conheça melhor Kébler Albuquerque.
Onde você nasceu?
Eu nasci em Santo André, em 7 de março de 1969. Uma época morei em São Paulo e depois voltei para Santo André.
Como é a sua família e como foi sua infância?
Eu sou filho de proletários, de família operária típica do ABC. Meu pai é aposentado hoje, mas era metalúrgico, e minha mãe dona de casa, evangélica, ou seja, o perfil típico de classe operária mesmo.
Você tem alguma religião ou crença?
Eu tenho várias crenças e freqüento a igreja do Santo Daime.
Como você começou na música? Quando começou a despertar o interesse?
Acho que razões geográficas e sociais influenciaram bastante. Na minha adolescência, nos anos 80, viver numa cidade de perfil industrial, como Santo André, e ainda não tendo muita grana, você não tinha muito o que fazer. Acho que desembocar para a música era quase um caminho natural como lazer. O que predominava era o rock’n roll, muito escutado aqui no ABC. Sempre foi muito forte. O movimento punk também teve bastante força aqui. Então, minha relação com música, de começar a fazer e produzir música, vem muito daí, de turma de escola.
Você teve alguma influência dentro de casa?
De certa forma, sim. Eu tenho um tio que tocava violão, mas não profissionalmente.
E fora de casa, na rua ou na escola?
Aí era matando aula no colégio para tomar vinho ruim e tocar violão com os amigos. Aí começou a pegar forte essa coisa de vivenciar música cotidianamente.
Com que idade foi isso?
Com 13 anos. Mas comecei a aprender violão um pouco antes. Durou só um mês de aula. Foi difícil porque eu sou canhoto e o professor começou a ensinar do lado direito. Deu uma "travação". Eu comprei o violão com 11 anos e fiquei dois anos com ele parado. Depois é que comecei a tirar sozinho de uma forma autodidata, além de comprar aquelas revistinhas. Isso lá pelos 13, aí já estava com turminha de rua.
Predominava o rock ou era mais abrangente?
Era abrangente, mas a maioria era roqueiro. Tinha muito punk na roda também, que participava do movimento. E no entanto a gente tocava de tudo, era até engraçado. Tocava todo dia.
Quando você começou a compor, você lembra da primeira música?
De escrever música, desde que eu comecei a me alfabetizar. Eu lembro de estar no primeiro ou segundo ano primário e já fazendo musiquinha. Não sabia tocar nada, mas eram músicas para a gente ficar cantarolando. Já no chuveiro, nessa mesma época, ficava cantando e imaginando que era cantor americano.
Você tem alguma formação acadêmica musical ou sempre foi aprendizado intuitivo?
No início, de uma forma bastante intuitiva mesmo, e depois, comecei a estudar música. Estudei na Fundação das Artes, em São Caetano, uma escola de música bem séria. Isso depois que eu terminei o colégio. Depois fiz a Universidade Livre de Música, em São Paulo. Mas sempre fazendo um ano e parando, nunca completei. Eu fazia canto na ULM, nunca estudei violão. Estudei canto popular e canto erudito.
Você teve outras experiências artísticas, com teatro, por exemplo?
Tive algumas experiências amadoras no teatro, também na adolescência, mas foram traumáticas. Eu não tinha muito a manha de subir no palco e atuar. Mas gostava e convivia com pessoas que estavam no meio.
Quando você começou a pensar profissionalmente em música?
Logo nessa época, aos 13, 14 anos, junto com os amigos. Começamos a formar bandas de rock e comecei a compor para elas. Algumas músicas até podiam despertar algum interesse hoje, mas a maioria era horrorosa.
Quantos CDs você já lançou?
Estou com dois. O primeiro chama-se "17.777.700", que é o número da minha carteira de identidade, e o segundo é "Para Inveja dos Tristes".
Você tem muitos parceiros?
Eu tenho alguns parceiros, uns com mais constância do que outros. Mas de qualquer forma, o trabalho em parceria é minoritário na minha carreira. Eu tenho composto muito sozinho. Aliás, eu sempre compus mais sozinho, então já que as parcerias são mais recentes, são poucas as músicas e nem tantos os parceiros. Os mais próximos são o Rafael Altério e o Hélio Camalle. Mas estou com promessas de várias pessoas. Estou devendo letra para algumas pessoas e outras pessoas estão devendo música para mim.
Você está com uma formação fixa de banda que toca com você?
Não, embora algumas pessoas participem com mais constância. Mas não existe uma formação fixa de banda. Até porque eu mudo, inclusive, a sonoridade de show para show. Por exemplo, fiz uns shows com violino e trombone que resultava numa sonoridade estranha e interessante. Depois estava fazendo com gaita e agora só com violão e percussões. No final, acaba tendo um sabor um pouco, ou até certo ponto, mambembe.
Qual o seu objetivo com a música, como você pensa ela?
Eu faço canções. Eu quero que as músicas sejam assobiadas pelas pessoas, que as pessoas guardem a melodia. Eu acredito que essas melodias tenham função de memória. Elas ajudam a memorizar as palavras. Eu procuro dizer coisas que não sejam convencionais para expressar aquele tipo de sentimento, e isso acaba contaminando a embalagem também. Enfim, eu quero que as coisas sejam revolucionárias. Eu quero que seja revolucionário porque eu estou falando de amor. Tentando falar de amor de uma forma que saia do lugar comum, ou que, pelo menos, desmascare esse lugar comum. Muitas vezes isso acaba contaminando a forma de dizer diferente, contaminando a casca, a embalagem em que a gente move isso. Acabo colocando muito nos arranjos essa estranheza, uma sensação de que falta alguma coisa que ainda está sendo estruturada. Isso me interessa muito. Me incomoda um pouco quando o show é perfeito demais.
Por isso essa inspiração no movimento zapatista? Você tem feito shows usando a expressão "canções místico-zapatistas", não é?
Acho que é uma safra de canções que tem esse apelo. Muito influenciadas pelas músicas da igreja do Santo Daime, que são mantras. Tem uma coisa de repetição de células rítmicas e melódicas e um uso diferente da palavra, procurando um aspecto mais encantado de cada palavra. Isso, na minha concepção pelo menos, eu organizo sobre esse toldo meio místico, meio zapatista. Porque essas músicas, ao meu ver, tocam nesses dois aspectos. Um aspecto que tem uma ligação com o mistério, em razão dessas palavras mais encantadas, e também a ligação com a vida mais "chã" da gente, com o sofrimento que todas as injustiças causam. Eu acho que o zapatismo, o movimento de Chiapas tem um aspecto ilustrativo disso. Eu falo muito da figura do sub-comandante Marcos, mas essa figura é apenas um símbolo para dizer tudo o que eu quero dizer. Ou eu poderia estar falando do MST, que na minha cabeça resolve da mesma forma. Eu não consigo ser panfletário, mas tento tangenciar essas questões. Acho que, de alguma forma, para as pessoas que conseguem sintonizar isso, elas percebem essas questões nas minhas músicas.
Quais são suas influências na música?
Acho que a minha cabeça de músico, a minha forma de pensar música, tem a sua história. Quando eu era criança, eu ouvia muita música caipira, muita música sertaneja. Meu pai sendo trabalhador e tendo que acordar cedo, para entrar antes do apito da fábrica, era acordado com Zé Bétio, esses caras de rádio AM, que tocavam música sertaneja, música caipira e acho que isso foi responsável pela minha formação musical. Meu tio, que tocava violão, tinha muito LP de música sertaneja. De Milionário e José Rico a Pedro Bento e Zé da Estrada. Então, na minha infância eu escutava isso e um disco do Raul Seixas, que um outro tio tinha e eu adorava. Mas na adolescência conheci o rock’n roll. Ouvia punk rock também, tipo Sex Pistols, Ramones, Dead Kennedys, ou seja, nada muito sutil musicalmente, não é mesmo!?!
E música brasileira?
Fiquei conhecendo muita coisa bacana da música brasileira. Eu trabalhei no ECAD (Escritório Central de Arrecadação de Direitos), eu era escuta de lá. Daí comecei a ouvir uma série de coisas interessantes. Uma figura que eu acho fantástica é o Chico Buarque. Principalmente pela questão do texto. E o próprio Raul Seixas, que é muito bacana. Já fui bem próximo daquela coisa mais tradicional de MPB, de Caetano, etc, mas acho que hoje em dia não ando tanto por essas searas.
Além dos CDs, de que forma você trabalhou com música?
Já fiz trilha para teatro. Eu gosto muito de trabalhar em estúdio fazendo direção musical. Fiz, por exemplo, a direção musical do disco do Hélio Camalle, "Cria", que é bem recente. Fiz também a direção de uma banda de forró chamada "Versão Brasileira", que é uma banda bastante interessante daqui. E ainda a direção musical de uma cantora de São Paulo, chamada Roseli Martins, que é muito bacana. Também já fiz algumas coisas em publicidade.
Você poderia destacar algum momento da sua carreira?
Vários. Tem um momento importante para mim, que foi num festival. Não o da Globo, que eu participei e também foi super importante. Foi outro. Foi um festival de Igarapava, interior de São Paulo, um dos primeiros festivais que eu participei quando terminei minha última banda. Um momento até em que eu estava refletindo: será que eu continuo com a música ou vou fazer outra coisa na vida? O fato é que eu tirei segundo lugar nesse festival e entre os jurados estavam o J.C. Costa Netto, dono da gravadora Dabliú, e o Paulo Amorim, do Tom Brasil. Eles me ouviram e me deram a oportunidade de gravar meu primeiro CD. Esse festival foi um momento muito importante para mim. Isso foi em 1996. No ano seguinte eu gravei. Esse momento foi quando eu vi a possibilidade efetiva de saber que eu poderia falar alguma coisa e teriam pessoas interessadas em ouvir. Foi quando caiu realmente a ficha. Outro momento superlegal foi quando ouvi pela primeira vez minha música no rádio. Foi legal quando o cara falou assim: "Tocou Caetano Veloso, Maria Bethânia e Kléber Albuquerque". Foi um momento muito feliz. Isso foi em 97, na musical FM, e a música era Barriga de fora, do primeiro disco. Essa música foi a 16ª mais pedida naquele ano. E, o principal, de uma forma completamente de guerrilha mesmo. Foi uma espontaneidade muito grande das pessoas.