"A verdade, a essência, o respeito têm que prevalecer"
"Selo de Artista" é uma série de entrevistas que estréia este mês na Página da Música. Nela, vamos abordar a experiência de cantores, compositores e instrumentistas que montaram suas próprias gravadoras. Aqui, eles falarão sobre as dificuldades e alegrias desta experiência, lançamentos previstos, projetos, além de novidades que interessam ao público, aos músicos e aos empresários do ramo. Começamos com uma das maiores cantoras brasileiras, Jane Duboc.
Por Evanize Sydow
Há poucos dias, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Caetano Veloso citou Jane Duboc ao falar das maiores cantoras brasileiras. São muitos os artistas que engrossam esse coro, além de um público grande que se emociona ao ouvir sua voz doce que já entoou canções em lugares distintos. Há cerca de um mês, por exemplo, Jane e Edu Lobo foram solistas em obras de Tom Jobim, Milton Nascimento e trechos do "Circo Místico" de uma das principais orquestras do mundo, a Filarmônica de Israel, em Tel Aviv, sob a batuta do maestro Nelson Ayres.
Jane Duboc, aliás, é um modelo de docilidade. Junto com a experiência de mais de 30 anos como artista, Jane leva sua leveza à administração da gravadora Jam Music, criada há um ano e cinco meses pela cantora e seu marido, o cirurgião e empresário Paulo Amorim. O selo tem por objetivo dar espaço a novos talentos e artistas experientes que muitas vezes encontram portas fechadas em grandes gravadoras. A Jam já tem 20 CDs produzidos. Em seu cast estão nomes como Celso Viáfora, Angela Ro Ro, Ana de Holanda, Bena Lobo, Alaíde Cota, Carol Saboya, Jay Vaquer, Bukassa, Flávia Virgínia, Tunai, Célia e Zé Luiz Mazziotti, grupo Curupira e Cristina Buarque.
Nesta entrevista que concedeu à Página da Música durante uma viagem a São Luis do Maranhão, Jane conta, em primeira mão, que uma das principais novidades da Jam Music é o CD que Beth Carvalho gravará com músicas de Nelson Cavaquinho. Fala também sobre o projeto "Blues Afins", shows que Jane e Tunai começam a fazer pelo Brasil (veja programação de julho abaixo), interpretando em duo ou individualmente belas composições como Certas canções, Besame, Olhos no coração, Doce mistério, Eu sei que vou te amar, Um cara ciumento e Indigo blues. Serão acompanhados por um trio de primeira: Kadu Lambach (violão e guitarra), Robertinho Silva (percussão) e Keko Brandão (piano).
Por quê você decidiu montar o seu próprio selo?
Esta é uma idéia antiga minha e do Paulo Amorim (marido de Jane e proprietário da casa de espetáculos Tom Brasil, em São Paulo). O objetivo é abrir espaço para artistas que vão bater de porta em porta e não conseguem espaço. Sempre trabalhei com estúdio e gravação e sei que é importante essa abertura. Já estamos com 20 CDs.
Há quanto tempo a Jam Music está no mercado?
Há um ano e cinco meses.
Qual é a maior dificuldade nessa empreitada?
É conciliar a nossa agenda. O estúdio é no Rio e a gente mora em São Paulo. Para formar a equipe também levamos tempo. Mas não temos dificuldades tão grandes. Nós encontramos espaço nas rádios que sabemos que têm o perfil do que produzimos. E só de produzir os shows desses artistas já é muito legal.
E a maior alegria?
É ser estimulada com o entusiasmo dessa juventude que tem talento. É gente que estudou muito música. E música é coisa séria. Você tem que respeitar e sentir o que é verdadeiro.
Quais são os próximos lançamentos da Jam Music?
Flávia Virginia, Ana de Holanda, Alaíde Costa e Celso Viáfora.
Qual é a vantagem em ser artista na hora de abrir um selo?
Já fui de várias gravadoras. São 17 discos individuais e participação em mais de 200. Tenho uma grande experiência em gravação e isso facilita. Essa experiência do artista é importante, inclusive para procurar não cometer erros que você já viu em outras gravadoras. Isso é fundamental, principalmente quando você precisa de resultado.
Quem você gostaria que gravasse pela Jam?
Estamos em São Luis (Maranhão) pesquisando alguns artistas. Mas estou muito feliz porque – estou falando isso em primeira mão – agora teremos a Beth Carvalho cantando Nelson Cavaquinho. A Beth tem colaborado muito com a gravadora. Aliás, quero aproveitar e agradecer a Chico Buarque, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Beth Carvalho e a todos esses grandes artistas que estão acreditando nos talentos que a gente tem, participando dos CDs. Isso enriquece muito o trabalho. E eles participam porque realmente acreditam nesses talentos.
Existe aquela história de que o artista não tem muito jeito para negócios. Como você lida com a vida de empresária?
Na verdade, o Paulo (Amorim) é um cirurgião, um empresário bem sucedido. É um empresário de mão cheia e uma pessoa maravilhosa. Quando ele abriu o Tom Brasil, as pessoas diziam que era loucura. A Rua das Olimpíadas (no bairro de Vila Olímpia), onde fica o Tom Brasil, não tinha nada na época. Hoje, a Vila Olímpia tem várias opções de casas de espetáculo, é um ponto importante na cidade. O Paulo tem essa visão empresarial e ele adora música. É ele quem gerencia a Jam. Eu fico mais com o lado artístico.
Muita gente manda fita para vocês?
Nossa! Temos três malas de demo. Fico com muita culpa porque o tempo é curto para ouvir tudo. O tempo é pouco até para dormir. Às vezes, às 5 horas da manhã, estamos ouvindo fitas. E eu quero até me desculpar porque não conseguimos ouvir tudo, mas fazendo isso com o passar do tempo. Estamos garimpando. Se pudesse, eu gravaria todas essas pessoas. Porque é uma porcentagem alta de gente com muito talento. Esse ano ainda temos cinco CDs para lançar. Mas para o ano que vem vamos ouvir com muito carinho tudo o que tem chegado para nós.
Vocês costumam procurar por artistas também?
Até agora, não. Em geral, foi de comum acordo. Só com a Beth (Carvalho) é que procuramos. Os cantores com os quais conversamos são pessoas que admiramos. A verdade, a essência, o respeito têm que prevalecer.
E quais são seus projetos como cantora atualmente?
Estou sem muito tempo. O mais recente foi o CD com o Sebastião Tapajós (lançado pela Jam Music). Agora estou fazendo o projeto "Blues Afins" com o Tunai. Vamos fazer shows pelo Rio e rodar outras cidades. Já gravei em discos dele. Em 1982 eu defendi uma música do Tunai no MPB Shell (que conquistou o terceiro lugar). Há pouco tempo ele fez show no Teatro Rival e eu participei. Temos bons momentos e vamos agora fazer esses shows.
Jane Duboc e Tunai – "Blues Afins"
14/7, às 21h – Sesc Teresópolis
Av. Delfim Moreira, 749 – Tel (21) 742-0660. R$ 3,00 e R$ 5,00
20/7, às 21h – Sesc Friburgo
Av. Costa e Silva, 231 – Tel (24) 522-4052. R$ 3,00 e R$ 5,00
21/7, às 21h – Sesc Ramos
Rua Teixeira Franco, 38 – Tel (21) 573-8822. R$ 3,00 e R$ 5,00
26/7, às 21h – Ses Rio Arte
Av. Nossa Senhora de Copacabana, 360 – Tel (21) 255-9273
27/7, às 21h – Ses Tijuca
Rua Barão Mesquita, 539 – Tel (21) 238-4566