O Sopro "Muderno" de Carlos Malta
"Chega uma hora em que a música passa a ser a minha fala"
Por Sérgio Fogaça
Carlos Malta é um exemplo de extraordinária determinação e abnegação pela música instrumental brasileira. Sua história é crivada de suor, emoção e técnica nos palcos de todo o mundo. Metade da sua carreira aconteceu ao lado de um fenômeno chamado Hermeto Paschoal. Mas ele tem história própria, muito própria e pessoal. Até porque, quem conheceu a banda que acompanhou Hermeto, no tempo em que Malta fazia parte dela, sabe que cada um era um fenômeno ao lado do grande nome. Ele faz muito, e tudo ao mesmo tempo. Domina vários instrumentos de sopro e acende grupos e formações sem parar. Um trabalhador do vento! Veja a seguir entrevista que o instrumentista concedeu à Página da Música.
Você tem quantos anos de carreira?
Estou com 41 anos de idade e sou profissional desde os 17, portanto, cerca de 24 anos de carreira.
Você começou a carreira como instrumentista?
Exato. E foi como autodidata. Comecei com a flauta doce e o pífano.
O pífano foi desde o começo?
Na verdade, eu não suportava tocar flauta doce. Comecei com ela só para ver se era isso o que eu queria. É assim como o camarada querer andar de navio e se contentar com um barquinho de papel.
Como surgiu, logo de cara, o pífano? Afinal, não é muito comum para um jovem carioca iniciar a carreira com esse instrumento.
Foi quando ouvi um disco de um irmão que tem o gosto musical parecido com o meu. Foi o "Expresso 2222", de Gilberto Gil. Esse disco começava com a música Pipoca moderna, com a Banda de Pífanos de Caruaru*. E eu achei aquilo incrível, muito lindo. E ainda o que eu considerei mais legal foi o lance de ser uma coisa muito brasileira e não aqueles flautins americanos que a gente via nos desenhos animados. Fiquei encantado mesmo.
Parece que foi uma espécie de start para o interesse nos sopros, não?
Na verdade, foi. Aí eu procurei uns pífanos, umas flautas de bambu muito boas, que até me iniciaram e me deram uma direção em relação à flauta transversal. Mas, depois, meu pai me deu uma flauta francesa, que tenho até hoje, uma flauta transversal "aberta". Para quem não sabe, existe a flauta fechada e a flauta aberta, na qual as chaves são vazadas em cima, como se fosse um pífano mesmo. Uma flauta com sistemas modernos, mas que tem um buraco.
O que identifica um pífano?
O pífano é normalmente uma flauta de bambu, mas pode ser de cano de metal, de plástico e, geralmente no Brasil, tem um furo para soprar e seis furos para tocar. Eu tenho viajado bastante e vejo esse instrumento por toda a parte. Agora mesmo voltei do Marrocos, onde vi uma bandinha de pífanos com embocadura diferente, mas também com seis furos. É um instrumento muito curioso, tem no mundo inteiro. Onde cresce bambu tem gente tocando flauta, tem gente fazendo pífano. A gente mesmo usa flautas japonesas, chinesas, indianas e brasileiras, claro.
Vamos continuar traçando sua carreira. Depois desse começo como autodidata e com os pífanos em mãos...
Bom, também flauta transversal e métodos etc. Fundamental também para mim foi o lance de eu assistir a tudo que era possível. Onde tinha um flautista tocando, eu ia ver. Minha aula foi a "janela" mesmo. Assistia a recital de música barroca, música contemporânea, de choro, de jazz, de MPB. Eu fazia isso para observar tudo, da estética ao posicionamento do instrumento, enfim, como aquele músico se colocava musicalmente. Minha paixão pela música foi uma coisa fulminante.
A experiência de começar a tocar com Hermeto Paschoal, considerando que foram 12 anos juntos, foi muito cedo, certo?
Eu era bem novo, tinha 20 anos. Mas já estava com uma experiência muito boa nos instrumentos, porque até saxofone eu já tocava. E como eu disse: só na base da "janela". Eu gostava muito de assistir a Vitor Assis Brasil, Nivaldo Ornelas, Paulo Moura. Ia mesmo em tudo quanto era show para ver os caras tocarem. Eu ia tentando formar um senso na minha cabeça de que tinha de ser dali para cima. Enfim, estava tocando meus instrumentos e fui parar lá na casa do Hermeto. Ele gostou muito do meu approach no instrumento, eu já tinha uma certa experiência. Isso vale um parênteses aqui. Antes do Hermeto, eu me profissionalizei tocando com a Maria Creusa, com o marido dela, Antônio Carlos, daquela dupla Antônio Carlos & Jocafi, e também com o Johnny Alf. Nessa época fizemos um disco legal, que foi para o Japão. Nesse momento também tive contato com o Rildo Hora, que era o produtor dela. Era engraçado que ele me olhava assim meio ressabiado, eu imaginava ele pensando assim: "Quem é esse moleque?" Não é pra menos, eu tinha uns 17 anos nessa época. Eu falo isso pra ele hoje e ele acha graça.
Quando você conheceu o Hermeto foi direto para a banda dele? Como foi essa experiência?
Eu entrei com eles no começo de 1981. E nesse momento também eu tinha decretado para mim um fim na música comercial. Na verdade, eu reparei que ser músico de apoio para cantores deixa você dependendo da carreira do cantor e não se dedicando à sua carreira própria. Então percebi que tinha de tomar cuidado com isso. Aí me tranquei em casa e fiquei uns seis meses estudando feito um maluco, como se estivesse me preparando, isso em 1980. Então, fui parar uma tarde lá na casa do Hermeto, levado por uma amiga minha chamada Virgínia. Eu passei a tarde inteira tocando, parecia um batismo. No final da tarde acabou a luz e tocamos uma música à luz de velas. Muito bonito, parecia uma cerimônia de iniciação. E depois disso ele me chamou para tocar com ele e fiquei muito feliz em poder contribuir com aquele conjunto. Era um grupo muito feliz, iluminado mesmo.
E depois veio a carreira-solo, por volta de 1993?
Foi. Durante os 12 anos com o Hermeto fiz vários discos, viajei muito. Aí em 1992 resolvi que o disco "Festa dos Deuses" seria o último com eles e que eu iria tocar minha carreira-solo. Nessa época, já no início dessa carreira, em 1993, fiz um trabalho muito bonito em dueto com o violoncelista Daniel Pezzotti, um disco chamado "Rainbow". Esse disco tem de ser reeditado em breve, porque muita gente me exige. São pessoas apaixonadas por esse trabalho, assim como eu.
Não se encontra mais?
Não. A gente só produziu 1.000 cópias dele. Foi o primeiro disco que eu fiz, um trabalho muito artesanal. A parte de fora chega a ser até meio infantil. Só que a parte de dentro é maravilhosa. Tem gente que acha que esse é o meu melhor disco. Eu acho que realmente esse é um dos meus melhores discos. É um tremendo desafio a duas vozes (dois instrumentos). Depois iniciei com outras atividades. Montei a Pife Muderno, uma banda de pífano mesmo, até para relembrar daquele começo do meu interesse musical, quando eu escutava Pipoca Moderna.
Isso foi quando? Quem são os músicos do grupo?
Isso foi em 1994. A banda é formada por Marcos Suzano, no pandeiro, Andréa Ernest Dias tocando flautas e pífanos, Oscar Bolão tocando caixa e pratos, e o Durval Pereira, tocando zabumba.
Vocês estão com a mesma formação até hoje?
Estamos. Embora todos tenham trabalhos paralelos, conseguimos conciliar o trabalho em grupo. Fizemos um disco muito elogiado e saboreado por todo tipo de gosto, de pessoas que gostam de ouvir ou mesmo de dançar. Chama-se "Carlos Malta e Pife Muderno". Ele foi finalista de um Grammy. Esse é um trabalho que vai me levar a dar a volta pelo mundo. Com ele já fomos para alguns países da América do Norte, para Japão, Europa, África e, agora, para o Marrocos, além de países da América do Sul.
Como foi essa viagem, agora em junho, para o Marrocos?
Na verdade, fui convidado inicialmente para fazer um concerto com o Maâlem, um mestre da música gnaoua, que é uma música de ritual, vamos dizer assim, um vudu, o equivalente a um candomblé da música do norte da África, que teve a influência dos negros de Gana, que passaram por ali e foram comercializados para as Américas e para a Europa. Eles deixaram essa música como legado, na cidade de Essaouira, onde é realizado o festival. Já é o quarto ano que acontece o encontro dos maâlens, que é como se chamam os mestres, em árabe. É uma música em que os caras tocam umas castanholas de metal com o nome de carcabú, e também um instrumento chamado guembree, que é como se fosse um baixo com três cordas. E eles vão cantando a música de ritual, batendo palmas e dançando.
Bem legal. Como se fosse um transe.
Exatamente. É uma música de transe. Fui chamado para tocar com esse cara. Mas o diretor do festival queria uma atração brasileira. E ele tinha visto o "Pife Muderno" com o Lenine, no ano passado, e queria levar esse show. O Lenine não pôde ir, mas fomos nós, o cara adorou nosso grupo.
É um festival de world music?
É isso. Vão muitos grupos de lá, do Marrocos, da Argélia, além de músicos de outras partes do mundo, geralmente ligados a world music, como americanos, por exemplo. Fica uma mistura interessantíssima. Essa foi a primeira experiência que eles tiveram com a música brasileira e ficaram muito felizes. Deu o maior pé.
Vocês tocaram para bastante gente lá?
Eram 15 mil pessoas. O lugar onde a gente tocou é um forte antigo, do século XV, à beira do Oceano Atlântico. Um negócio muito doido. Um super evento que reúne muita gente. Não tem briga nenhuma, todo mundo movido a chá de hortelã. Então acho mesmo que o "Pife Muderno" é meu passaporte carimbado para tudo quanto é canto.
Você tem outros projetos?
Tem outro muito legal que é uma banda chamada "Coreto Urbano", montada na mesma época do "Pife Muderno". Eu escrevia os arranjos para uma formação de dez pessoas, que pertencem ao grupo. Tocam comigo Carlos Vega, na tuba, Lulu Pereira, trombone e baixo, Sérgio De Jesus, trombone tenor, Eliezer Rodrigues, bombardino, Nelson de Oliveira, trompetes, Dirceu Leitte, clarinete, saxofone e flautas, eu, que também toco saxofones e flautas, e ainda um trio de percussão, formado por Bolão, Rodolfo Cardoso e André Buxexa. Essa banda já rodou bastante pelo Brasil também. Ela tem uma formação de bandinha de coreto, com uma escrita bem arrojada e bem brasileira. Tem muito influência do que nos trouxe o Pixinguinha, por exemplo. E ali também eu posso exercitar minha caneta de arranjador. É um trabalho que agora vai sair em CD, pelo selo MEC, aqui do Rio. Estamos nesse momento de lançamento, mas é uma formação difícil de trabalhar, porque tem bastante gente. Mas a gente tem um apoio legal e faz alguns projetos por aqui.
Seus últimos CDs foram o "Pimenta", lembrando músicas que a Elis Regina interpretava, e "Pixinguinha, Alma e Corpo", lançados no ano passado?
Exatamente. Esses foram os CDs mais recentes que eu fiz e parece que ainda estão dando o que falar. Agora há pouco mesmo eu soube, pelo produtor do disco, que eles foram indicados para o Grammy latino. O "Pixinguinha" está na categoria clássicos e o "Pimenta", na MPB. Ambos estão entre os 50 finalistas. Depois ficam cinco, antes de ser escolhido o vencedor. Eu estou superfeliz com isso, porque é uma distinção aos trabalhos.
Carlos, explica uma coisa: você faz algum curso sobre administração do tempo ou coisa parecida?
Isso é bacana. Quer ver? Só nessa semana fiz durante dois dias o "Pimenta", pelas lonas culturais aqui do Rio, num projeto do sindicato dos músicos. Depois vou fazer um concerto, tocando o Pixinguinha, lá no IBEU. Acho isso superlegal. Essa diversidade na vida musical faz muito bem para mim e ajuda a me manter em forma tocando.
Isso é da sua natureza mesmo.
Você vê. A minha natureza musical exige outros vôos. Se eu tocasse um instrumento só, talvez tivesse um grupo só. Não é fácil, não. Mas sabe qual é o meu sonho? É poder fazer durante uma semana, um concerto com cada trabalho. Tá quase acontecendo isso.
Como você faz? A partitura ajuda ou é tudo de memória?
Eu consigo decorar quase tudo. Realmente tenho uma capacidade de memorização muito boa. É só você imaginar que eu tocava aquele monte de "encrenca" do Hermeto, quase tudo de cor. Eu memorizo muito rápido. Tem uma coisa de comunicar, chega uma hora em que a música passa a ser a sua fala. Então você desenvolve essa naturalidade de lembrar e se expressar através daquela música.
Você tem algum projeto novo? Existe algo em curso?
Tem um que começou no ano passado, mas por enquanto está em banho-maria. É uma formação comigo, com o Márcio Montarroyos, o Itamar Assiére, o Jurim Moreira e o Augusto Mattoso, que é um quinteto feito como um tributo a Charlie Parker. Isso é um dos maiores desafios da minha carreira. Eu me propus a tocar a música e os improvisos dele. Então eu me meti numa "encrenca" séria. Aí me vi fazendo um trabalho de laboratório, desses de ator, de ver como é que é, ouvir como é que é, ler como é que é, para poder tocar respeitando aquilo que é a essência e a estética dele. Fizemos uma série de shows no Centro Cultural Banco do Brasil, aqui no Rio, que foram muito bons. Mas estamos reunindo alguns elementos para reativar esse projeto do Charlie Parker, para que vire disco também. Enfim, tem esse projeto do Coreto Urbano para ser lançado. Tem um segundo disco do Pife Muderno, para o qual eu já fiz a metade das músicas. É um disco que pretende ser mais autoral, mas eu não vou deixar de fora coisas que a gente já conhece, como uma música que se chama Sebastiana, por exemplo, que é maravilhosa. Talvez com o Lenine cantando, um eterno convidado do Pife Muderno.
Você é bem corajoso por encarar vários projetos tão diversificados como esses.
Eu gosto de encarar dessa forma. E eu queria registrar uma coisa importante. Isso tudo "andando" e sem o apoio de uma multi-nacional ajudando. Acho que o trabalho de músico aqui no Brasil é de pegar na enxada e cultivar a coisa do começo ao fim. A atividade do músico depende muito mais da atitude de ele mesmo ir em frente. Eu, por exemplo, tinha possibilidades diferentes. Agora mesmo eu podia estar tocando com o Gilberto Gil. Gravei com ele o "Eu, Tu, Eles", que foi o maior sucesso. Fizemos vários shows, e agora eles estão lá no Nordeste. Mas eu não vou jamais abrir mão do meu trabalho para brilhar no trabalho de outra pessoa. Eu acho que tenho de dar um polimento e um trato sempre na minha bola. Isso não é fácil, porque financeiramente tem coisas que são mais constantes e compensadoras. Mas, pensando de outra forma, é a estrutura da minha vida que está sendo montada. Não dá para abrir mão. Eu fico feliz por poder ter essa postura e poder bancar essa atitude. Eu sei que muitos músicos não têm condições de fazer isso, por vários motivos. Mas também acredito que se o cara quer levar uma carreira mais independente à frente, tem de dizer não algumas vezes. Eu realmente tenho muitos desafios em minha vida, mas o negócio é encará-los com paixão e alegria.
* A música Pipoca moderna, de Caetano Veloso e Sebastião Biano, foi lançada no disco Expresso 2222, de Gilberto Gil, em 1972. No CD "Carlos Malta e Pife Muderno", de 1999, Malta gravou Pipoca moderna, na segunda faixa do disco.
Site de Carlos Malta: www.carlos.malta.nom.br
Carlos Malta
Dia 14 - Campos (RJ)
Apresenta o show "Pimenta, um tributo a Elis Regina"
Dia 15, às 17h30 - Parque do Penhasco, Leblon, Rio de Janeiro
Abertura com Pife Muderno; na seqüência, Hermeto Paschoal.
Dia 16, às 18h30 - Sesc Paulista, São Paulo
Carlos Malta toca com Victor Biglione
Grátis (retirar ingressso com 1h de antecedência)
Av. Paulista, 119 - Paraíso. Tel. (11) 3179-3400 - 240 lugares.
Não tem estacionamento