CD's Julho 2001
Ana Cristina - "A Ponte"
Este é o segundo CD de Ana Cristina. Perdoem o trocadilho, mas que possa ser uma ponte para um reconhecimento maior. Voz afinada, bem colocada e boa escolha de repertório e músicos. O CD é generoso, com 14 faixas. Abre com uma vinheta, seguido de Canção pra tocar no rádio, de Maurício Tizumba, que também participa cantando em outra faixa, Pelo menos uma vez, da própria Ana Cristina. É dela também a terceira música, Intruso, uma visão feminina, sem frescuras, um tremendo batuque com acompanhamento de vozes femininas para reforçar a idéia. A ponte, de Lenine e Lula Queiroga, traz mais batucada, e da boa. Mas as guitarras comparecem trazendo um clima de Jimi Hendrix para o som. A música passeia por mais de um ambiente, mostrando muita criatividade nos arranjos, tanto dessa, como de outras canções do disco. A próxima faixa reforça ainda mais o que acabo de dizer, O que me completa, também de Ana Cristina, que tem arranjos bem criativos. Depois de outra faixa já citada, com a participação do Tizumba, vêm O último dia, de Paulinho Moska e Billy Brandão. Ana dá um show, e o violino de Elizeu Barros ficou bem bonito. Saindo do último dia direto para o alto astral, escuta-se um samba-choro, A sogra, de Haroldo Raimundo. Vale a pena prestar atenção na letra de Vander Lee para Seção 32, a próxima faixa. Depois de Neguinho, vem Verdade não dói, ambas de Ana Cristina. Esta segunda, uma música com um clima bluesy que casou muito bem com a idéia. Um coro masculino bem denso também contribuiu bastante para a concepção da canção. Ana ainda interpreta Circuladô de fulô, de Caetano Veloso e Haroldo de Campos, e fecha o CD com Depois do prazer, de Fernando Muzzi e Murilo Antunes, voltando ao tal clima bluesy, já comentado. Distribuição direta pelo e-mail anacoutinho@uol.com.br ou pelo telefone (31) 3221-0123 (Por Sérgio Fogaça)
Kléber Albuquerque - "Para a Inveja dos Tristes"
Está escrito em todas as letras deste CD que Kléber Albuquerque é um dos compositores contemporâneos mais criativos e consistentes. Melhor ainda quando se tem a oportunidade de vê-lo interpretar as suas canções ao vivo. Não percam! O disco abre com uma vinheta de espírito sertanejo, Galope de olho seco, uma espécie de trilogia que aparece em outros dois momentos do CD. O cantar sertanejo tem explicação: é uma das influências na vida do compositor, embora a linguagem que predomina na sua carreira seja a pop, com todas as suas variantes e liberdades. Tanto é que a segunda faixa, A chave certa, segue com um reggae bem suingado. Espera, a terceira, revela uma certa agonia de alguém que espera por seu amor. A própria música tem compasso de espera. Depois o CD traz Isopor, em parceria com Élio Camalle. Uma dessas canções que colam no ouvido. É tudo de bom que se pode desejar a alguém. Sucesso certo se o mercadão deixasse. Lã de vidro é outra composição que, com ou sem mercado, está marcada para ficar. Lamartine Babo aprovaria com distinção Carnaval, a sexta faixa. Além de ser uma tremenda marcha de carnaval, o autor ainda conseguiu imprimir elementos modernos sem ferir o espírito da coisa. Depois vem Olho seco - parte II, outra bela construção poética. Eu não sei falar de amor é um belo lamento com grande interpretação de Kléber. Uns dez amantes é uma linda canção com fina ironia. Amador, de Élio Camalle e Rafael Altério, traz a participação de Élio dividindo os vocais com Kléber. Vigília é uma dessas composições que, quem vai conhecendo a obra do autor, já identifica como dele. Ou seja, o cara tem estilo próprio. Casinha branca é sucesso de canção popular indiscutível. A música é de Gilson e Joran. Em seguida vem A ópera do rinoceronte, título do mais recente CD do compositor Madan, que divide a parceria da canção de Kléber. O trabalho fecha com Olho Seco, agora revista e atualizada, como explica o encarte. Bem-vindo, Kléber! Lançamento Dabliú, Tels (11) 3079-1843/0372 ou pelo site da Eldorado www.eldoradodiscos.com.br (Por Sérgio Fogaça)
Clóvis Aguiar – "Cumplicidade"
Chega ao mercado o CD ‘Cumplicidade’, do pianista Clóvis Aguiar. Quem transita pelo circuito musical mineiro, certamente já ouviu falar do artista, presença atuante neste cenário. Sua história musical transcendeu fronteiras – Clóvis, que já executou trabalhos com incontáveis artistas mineiros, viveu oito anos na Europa, na década de 80, transitando em 17 países do continente, além de levar sua música ao Oriente Médio. Fundou o Grupo Jazz Mineiro, tocou com Elza Soares, Rosinha de Valença, Maurício Tapajós e outros brilhos. Em seu retorno ao Brasil, um registro: ‘Cumplicidade’ – o primeiro disco de Clóvis Aguiar, gravado e mixado no respeitável Nas Montanhas Studio (MG), por Hemir de França e Caxi Rajão. O artista reuniu seus ‘cúmplices’, a nata da música instrumental mineira em belíssima produção. Cheias de fôlego, as 12 composições de Clóvis totalizam o CD, revelando a criatividade aguçada do pianista, em variações rítmicas que passeiam pela bossa, jazz ou românticas melodias em bom estilo. A produção já semeia pérolas: exímia participação especial de Hélio Delmiro, violão em duas faixas, e, ainda, Juarez Moreira, guitarra ilustre da música das Gerais. Vale observar o projeto gráfico de Otávio Bretas que traz inusitada e simpática apresentação. Os músicos aparecem em versão mirim, junto a Clóvis Aguiar (fotos de infância). (Por Márcia Francisco, contatos mfrancis@uai.com.br. Mais informações sobre o disco: clovisaguiar@uol.com.br
Sagrado – "Sacred Hearth of Earth"
Este é o sexto álbum do grupo Sagrado (ex-Sagrado Coração da Terra). Trata-se de uma antologia que comemora os 20 anos da banda – ícone do rock progressivo nos anos 70 – e o seu retorno ao disco e aos palcos. Em resposta à grande aceitação do Sagrado no exterior, este CD vem com todos os textos e letras na língua inglesa e faz uma síntese musical da banda, remixando e fundindo faixas de períodos diversos, com alterações nos arranjos e nas estruturas harmônicas, rítmicas e melódica. Entre as novidades de "Sacred Hearth of Earth" estão músicas instrumentais de discos anteriores transformados em canções, com letras de Marcus Viana e adaptações de pormas de Emily Dickinson, um dos grandes nomes da literatura americana do século XIX. Este belo trabalho do Sagrado também traz peças inéditas, compostas e produzidas este ano com a nova formação do grupo, tendo a cantora Malu Aires à frente dos vocais. Os projetos gráficos originais foram modificados com nova tecnologia, fazendo uma celebração pictórica do grupo. O CD ainda tem um acervo com as fotos de todos os integrantes da banda desde a sua formação até hoje. Lançamento gravadora Sonhos e Sons – Tel (31) 3281-3356, www.sonhosesons.com.br ou sonhos@race.prime.com.br
Cláudio Jorge - "Coisa de Chefe"
Vamo lá minha gente, conhecer o samba de verdade! "Se todo mundo sambasse, seria tão fácil viver...", como diria Chico Buarque. E neste CD tem mais samba... "Coisa de Chefe" apresenta interpretações do violonista, compositor e cantor Cláudio Jorge de Barros, parceiro de Martinho da Vila, Cartola, João Nogueira, Nei Lopes, Wilson das Neves, Luis Carlos da Vila, Ivan Lins e Aldir Blanc, só para se ter uma idéia. Todas as 14 músicas dos CD foram compostas por Cláudio Jorge individualmente ou com alguns desses parceiros. No CD, "O samba pede passagem", com O Samba melhor do Brasil, na primeira faixa do CD, composta por Cláudio. Em seguida começam as parcerias. Amor de fato, feita com João Nogueira, tem a participação especial de Humberto Araújo, no sax tenor. O clima de Novos tempos, a terceira, começa com uma ventania de cordas na introdução preparando o chão para música entrelaçar metáforas falando de elementos da natureza e o amor, uma beleza composta por Cláudio Jorge. Luiz Carlos da Vinha participa em parceria e na própria canção Princípio do infinito, quarta faixa. Coisa de chefe, a faixa título, revela bastante criatividade no arranjo, com a colocação do refrão para começar a música. Em E o vento levou, Cláudio Jorge dá um show no violão (mais um), enquanto Wilson das Neves participa nos vocais e na própria parceria da composição. Mais uma parceria dos dois. O que é carnaval é um verdadeiro tratado dos bons tempos do Carnaval respeitoso e fiel a uma agremiação, com paixão mesmo. Panela na pia, de Jamil Joanes e Cládio Jorge, é pagode do bom, com o frescor de uma letra atualíssima e bem humorada, como deve ser um pagode. Mais um show nos arranjos é o que encontramos em Solidariedade humana. Um belíssimo arranjo de cordas, com o trumpete de Nilton Rodrigues e o arranjo vocal de Cláudio Telles. Depois de Só você, em parceria com Luiz Alfredo, vem Quando toco na viola, em parceria com Ivan Lins, um passeio pela história do samba e do Brasil. Com a participação de Nei Lopes, na composição e na música, deixo qualquer definição para o título porque não tem outra: é um Coco sacudido. Um tema instrumental encerra este belo CD de modo bem sofisticado. Samba pro Luizão, de quebra, tem um vocalise feito por Leny Andrade. Lançamento Caravelas. Distribuição Sony Music - Tel. 0800-234425 (Por Sérgio Fogaça)
Nilson Chaves – "Tempodestino, 25 Anos – Ao Vivo"
Indicado ao 1º Grammy Latino de Música na categoria de Melhor Álbum de Música Regional Brasileira, "Tempodestino, 25 Anos – Ao Vivo" contempla os 25 anos de carreira do cantor e compositor paraense Nilson Chaves. Gravado no Teatro Margarida Schiwazzappa, em Belém do Pará, o disco tem as participações da Orquestra Jovem da Fundação Carlos Gomes e do Coral Carlos Gomes. A voz suave de Nilson, um dos mais expressivos artistas da Amazônia, está em 17 belas canções neste trabalho. Entre elas, destacam-se Tempodestino, Coração sonhador, Não vou sair, de Celso Viáfora, Lua cheia, composição de Capilé e Nino, Olhoo menino, parceria de Nilson com Cristovan Araújo, e Flor do destino, composta com Vital Lima. Neste CD, o também violeiro amazônico ainda tem como parceiros João Gomes, Jamil Damous e Saint Clair du Baixo. Para ouvir de olhos fechados. Gravadora Outros Brasis – Tel (21) 526-2441, www.outrosbrasis.com.br ou obr@iis.com.br
Lupa Santiago & Carlos Ezequiel – "Images"
Rodolfo Stroeter já disse: "Lupa Santiago e Carlos Ezequiel são um exemplo claro de horizontes abertos pela música instrumental criada no Brasil. Donos de idéias inovadoras e de uma sólida formação, a musicalidade e a concepção de Lupa e Carlos podem ser ouvidas pela primeira vez em CD." A idéia de Lupa Santiago e Carlos Ezequiel em fazer um trabalho a duas mãos surgiu por compartilharem um mesmo conceito como compositores: o de uma música com fortes raízes no Brasil, sob a influência do jazz norte-americano e europeu, da música erudita contemporânea e de movimentos artísticos pós-modernos. Este CD "Images" contempla composições de Egberto Gismonti (Maracatu), Lupa (Music to go, Café do Pié, Casa Nova) e Carlos Ezequiel (Da vida eu escolheria saber amar, Botequim e Caminho de Maceió). Voltemos a Rodolfo Stroeter: "Que muitos outros títulos advindos de sua música venham a nutrir o Brasil de sonoridades várias." Informações pelos Tels (11) 3887-1343/3441-7285 e www.lupasantiagocarlosezequiel.0catch.com
Paulo Freire - "Lambe-Lambe"
Um livro e CD agarrado em beleza! Paulo Freire largou a faculdade de jornalismo, em 1977, depois de ler o livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, e foi descobrir o som do sertão, em Urucuia, interior de Minas Gerais. Morou durante dois anos lá. A cerca de três quilômetros desse lugar, na Taboca, conheceu Manoel de Oliveira, o Manelim, grande violeiro, que passou a ser seu mestre. Até hoje Paulo Freire volta para Urucuia e é convidado a participar das Folias de Reis. As histórias, inspirações musicais e "causos" vividos pelo autor nessa região podem ser saboreados no livro e CD "Lambe-Lambe", lançado no ano passado, pela editora Casa Amarela, que também edita bravamente a revista Caros Amigos. Ao som da excelente viola de Paulo, o leitor pode ir percorrendo os "causos" no livro, como a receita para fazer pacto com o diabo, do sertanejo que vai virar santo ou da peleja de São Gonçalo com as prostitutas, entre outros. No CD, o ouvinte ainda tem a chance de conhecer e diferenciar o som de várias violas, como a viola de cocho e a violaúde. Na segunda faixa, tem o próprio Paulo contando o "causo" da Lagoa Encantada, uma viagem! Para situar ainda melhor o Paulo Freire da música, ele compôs, junto com Swami Júnior, a música Bom dia, gravada por Zizi Possi no CD "Valsa Brasileira". É também integrante da Orquestra Popular de Câmara e do grupo Anima. Mais informações no site - www.paulofreire.com.br. O livro pode ser adquirido em www.vaiouvindo.com.br , pelo telefone da editora Casa Amarela: (11) 3819-0130 ou www.discolada.com.br (Por Sérgio Fogaça)